sábado, 27 de dezembro de 2008

O CAMINHO DAS MINAS GERAIS

RELATO DE VIAGEM DE AZPICUELTA NAVARRO EM 1555

COMENTÁRIO

Independentemente do que se seguiu, e dos 500 anos seguintes de dominação e barbárie, incontestavemente o tempo das grandes navegações e descobrimentos ultramarinos foi uma época incrível de aventuras e desbravamentos épicos indescritíveis.

Eduardo Bueno, em seu quarto livro da belíssima coleção Terra Brasilis, intitulado A COROA, A CRUZ E A ESPADA, traz-nos pérolas de nossa história e origem como povo e país, como este empolgante relato de Azpicuelta Navarro, redigido em Porto Seguro em 1555 e enviado para os padres irmãos da Companhia de Jesus, em Coimbra, Portugal.

A Vila de Piratininga é renomeada e passa a se chamar São Paulo, singelo povoado que ignorava seu destino de ser a maior cidade da América Latina. Sua posição geográfica privilegiada torna-a ponto obrigatório de passagem para as trilhas indígenas pré-existentes, como também ponto de partida para a busca do tão sonhado Monte Dourado e suas riquezas. Rumores da existência de metais preciosos que vinham das bandas do sertão trazidos por escravos recém chegados provocou, à época, o reacendimento da antiga chama da cobiça por ouro e prata. Azpicuelta Navarro padre catequisador comenta em seu relato a viagem que fez para o interior das novas terras em direção a tal sonho, que mais tarde viria a se confirmar. Tratava-se das Minas Gerais.

CITAÇÃO

(pág. 195) "Dar-se conta do caminho em particular seria nunca acabar; mas como sei que com isso lhes dará consolação, direi alguma coisa do que passamos e vimos. Saberão, irmãos caríssimos, que entramos pela terra a dentro bem 350 léguas (cerca de 2 mil quilômetros), sempre por caminho pouco descobertos, por serras mui fragosas que não têm conta, e tantos rios que em certas partes no espaço de 4 ou 5 léguas passamos 50 vezes contadas por água, e muitas vezes se não me socorressem me houvera afogado. Mas de 3 meses fomos por terras mui úmidas e frias por causa dos muitos arvoredos e das árvores grossas e altas, de folha que está sempre verde. Chovia muitas vezes, e muitas noites dormíamos molhados, especialmente em lugares despovoados, e assim todos, em cuja companhia eu ia, estiveram quase à morte de enfermidades, uns nas aldeias, outros em despovoados, e sem outra que sangrar-se de pé, forçando a necessidade a caminhar, e sem ter outro mantimento às mais das vezes que farinha e água não perigou nenhum porque nos socorreu Nosso Senhor com a sua misericórdia, livrando-nos também de muitos perigos de índios contrários que algumas vezes determinaram de matar-nos. Passamos muitas zonas despovoadas, especialmente uma de 23 jornadas, por entre índios que chamam tapuias e que é uma geração de gente bestial e feroz, porque andam pelos bosques, como manadas de veados, nus, com cabelos compridos como mulheres; e sua fala é muito bárbara e eles mui carniceiros: trazem flechas ervadas (envenenadas) e dão cabo de um homem em um instante."

LIVRO: A COROA, A CRUZ E A ESPADA - Lei, ordem e corrupção no Brasil Colônia // AUTOR: Eduardo Bueno // EDITORA: Objetiva, Rio de Janeiro (2006)

* Imagens: Encontradas em... http://www.expomar-rio.com.br/2ApresentacaodeFestival13.html // http://br.geocities.com/segredosdemacaco/etno.htm // http://www.rnsites.com.br/arlindo007.htm // http://www.portalitabirito.com.br/turismo/historia.htm // http://raphaelcloux.blogspot.com/2008_05_11_archive.html

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