terça-feira, 31 de março de 2009

SONATA A KREUTZER DE LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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COMENTÁRIO
O Conde Leão Tolstói era o cara. Escrevia que nem gente grande que era. Imortal, sua prosa deixou marcas pelo mundo afora, dando luz e visibilidade à alma do povo russo, povo forte e honrado, submetido as durezas e privações que o destino sempre sabe impor, sem nunca perder por isso sua identidade, sua origem e sua ligação com a terra. O frio, a Estepe, a miséria... nada é capaz de dobrar esta gente corajosa e sensível, rústica e nobre, imortalizada pela pena do mestre Leão.
A citação escolhida advem da bela obra Sonata a Kreutzer considerada por muitos uma novela perfeita, onde o autor usa a técnica do contraste para enaltecer sua mensagem existencialista. Uma bela história, com a marca do gênio russo da pena.
Da redação Escriba.
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CITAÇÃO
"- Eles tocaram Sonata a Kreutzer de Betethoven. O Senhor conhece o primeiro presto? Conhece?! - exclamou ele. - Uh! Como é terrível esta sonata! Precisamente essa parte. E a música em geral é uma coisa terrível. O que é ela? Não compreendo. O que é a música? O que ela faz? E por que ela faz aquilo que faz? Dizem que a música atua de maneira a elevar a alma: é absurdo, é mentira! Ela atua e terrivelmente, digo-o por experiência própria, mas não de maneira a elevar a alma. Ela não eleva nem rebaixa a alma, ela a excita." (pag72)
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ONDE E QUANTO?
Nas Livrarias:$$$$
Nos Sebos: $
Na internet: $$$
Nas bancas: $
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LIVRO: Clássicos de Bolso/Toltói // Título: Sonata a Kreutzer/A Felicidade Conjugal // EDITORA: Ediouro // Rio de Janeiro // Sem data

A VENDEA E O VENDEANO DA FRANÇA DE VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da revolução francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÀRIO
Rápido como um raio, claro como a noite enluarada, vão aqui quatro citações de Noventa e Três, novela de mestre Hugo, que trata de dar vistas a revolução francesa e memória a um povo muito peculiar daquela conturbada e momorável época da frança revolta: O Vendeano.
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CITAÇÕES
"Terra, Pátria, nestas palavras está resumida toda a guerra da Vendea; contenda da idéia local contra a idéia universal. Camponeses contra patriotas." (pag24)

"A verdadeira Vendea é a Vendea local; essa é mais que invulnerável, é impalpável. O Vendeano na sua terra é contabandista, lavrador, soldado, pastor, caçador, franco-atirador, cabreiro, sineiro, aldeeão, espião, assassino, sacristão, animal do monte." (pag22)

"Regra do Vendeano: ser sempre inesperado. Andavam quinze léguas em silêncio, sem curvarem uma erva ao passarem. Vinda a noite, depois de terem combinado, entre os chefes e em concelho de guerra, o lugar em que no dia seguinte surpreenderiam os postos republicanos, carregavam as espingardas, engrolavam a sua oração, tiravam os tamancos e sumiam-se em compridas colunas, através dos bosques, descalços por cima dos fetos e musgos, sem ruído, sem uma palavra, sem um sôpro. Mrcha de gatos nas trevas." (pag21)

"Em suma, demonstrando a necessidade de espancar em todos os sentidos a velha sombra bretã e de atravessar essa floresta por todas as flechas da luz ao mesmo tempo, a Vendea serviu o progresso. As catástrofes têm uma sombria maneira de arranjar as cousas." (pag26)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

segunda-feira, 30 de março de 2009

O ZADIG DE VOLTAIRE

QUEM?
François-Marie Arouet (1694-1778), pseudônimo Voltaire, escritor ensaísta e filósofo francês.
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COMENTÁRIO
Voltaire era um monstro. Com sua pena ágil, intuiu a necessidade de transformação social, a falácia religiosa, a decadência do estado monárquico, pressentiu a Revolução Francesa que se deu depois, e escreveu profícua e plascidamente sobre tudo isso, antevendo-a e até mesmo preparando-a conceitualmente. Era o Iluminismo nascendo pungente na prosa deste mestre da literatura universal de todos os tempos. Zadig é cínico e inocente, cândido e heróico, aventureiro e alegórico, e representa o questionamento sagaz do autor contra tudo de iníquo que estava estabelicido até então. Um tempo novo e inaugurador se insinuava, como nuvens pesadas que anunciam chuva. Um novo sentimento humanista se amalgamava ao homem. Eram as luzes que se impunham às trevas.
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CITAÇÃO:
"Ao ouvir aquelas palavras, aquela voz, a dama soergueu o véu com uma mão trêmula, olhou Zadig, soltou um grito de enternecimento, de surpresa, de alegria, e, sucumbiu, agitada por todos os movimentos diferentes que ao mesmo tempo lhe haviam assaltado a alma, desfaleceu nos seus braços." (pág73)
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LIVRO: Gigantes da Literatura Clássica // TÍTULO: Zadig // AUTOR: Voltaire // EDITORA: Verbo // Lisboa // Portugal //1972

domingo, 29 de março de 2009

A CONVENÇÃO POR VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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CITAÇÃO
"A Convenção é o primeiro avatar do povo. Foi pela Convenção que se abriu a grande página nova e que o futuro de hoje começou." (pag175)
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COMENTÁRIO
Noventa e Três é uma belíssima obra que trata de um momento insquecível da história da humanidade. Pedra basilar sobre a qual foi construído o mundo que conhecemos hoje.
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: I // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

NO TEMPO DOS BANDEIRANTES DE BELMONTE

QUEM?
Benedito Bastos Barreto, conhecido como Belmonte (1896/1947). Célebre cartunista, desenhista e escritor brasileiro, Belmonte foi autor de inúmeros livros, entre eles a obra No Tempo dos Bandeirantes, que teve sua quarta e última edição publicada logo após a sua morte.
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COMENTÁRIO
No Tempo dos Bandeirantes é uma jóia rara da literatura brasileira. Esta é uma obra histórica, belíssima, diga-se de passagem, que nos mostra um pouco da vida destes homens legendários que desbravaram os Sertões brasileiros na aurora da colonização portuguesa. Mas, não nos enganemos: estes bravos e épicos personagens tinham também seu nefasto lado de horror, barbárie e destruição. Foram verdaderiros monstros que mataram e dizimaram civilizações inteiras, tragando com sua fúria conquistadora, sua culturas. Mas, a pesar disso, cumpriram uma missão importante na consolidação de nosso território, levando as fronteiras da pátria bem além dos limites e dos tratados. Ler Belmonte, é conhecer um pouco mais dos hábitos destas criaturas, que escreveram com seu próprio sangue, e com o de suas vítimas, os primeiros capítulos da história do Brasil.
Numa só palavra: Magnífico!
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CITAÇÃO
"Com efeito. O Brasil, como todas as outras colonias do Novo Mundo, é administrado de acordo com as exigências da metrópole e não das suas próprias necessidades. A pirataria que, por algum motivo, se revestira de aspectos aventureiros e românticos, acaba de se organizando comercialmente para a exploração sitematizada do tráfico e da rapinagem." (pag115)
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LIVRO: No Tempo dos Bandeirantes // AUTOR: Belmonte // EDITORA: Melhoramentos // São Paulo // 1940

CIMOURDAIN DE HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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COMENTÁRIO
A Revolução Francesa foi, sem sombra de dúvida, um divisor de águas na história contemporânea. Foi dali que, através de muito sangue, suor e lágrimas, e a custa de muitas e muitas mortes, começaram a nascer os primeiros direitos humanos universais que nos regalam até hoje. Época ímpar, memorável, onde a humanidade dava um verdadeiro salto cultural: das trevas a luz, da barabárie e da ignorância, às luzes brilhantes do humanismo e da filosofia, que iluminariam os séculos através dos tempos, sem nunca esmaecerem-se.
Nesta passagem, vemos o autor trazer o nome do romance a sua prosa, com um de seus personagens inesquecíveis - Cimourdain - imortalizando para sempre esta data tão importante, que sempre há de constar na história da civilização como tempo de revolta, mudança e revolução: 1793. Noventa e Três é uma obra épica, escrita com extrema habilidade, com uma trama muito bem construída e elaborada, intrincada, como a realidade o é e sabe ser todo dia, nascida de um acontecimento histórico célebre e trazida a imortalidade através dos escritos deste talentosíssimo autor francês. Simplesmente sensacional!
Recomendação especial deste humilde Escriba.
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CITAÇÃO
"93 é a guerra da Europa à França, e da França à Paris. E que mais é a revolução? É a vitória da França sobre a Europa, e de Paris sobre a França. Daí a imensidão desse minuto espantoso, 93, maior que todo o resto do século. Nada mais trágico, a Europa atacando a França, e a França atacando Paris. Drama que tem a estatura da epopéia. 93 é um ano intenso. Ruge a tempestade com toda a sua cólera e com toda a sua grandeza. Cimourdain sentia-se nela à vontade." (pag131)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: I // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

CHOMSKY: O DESEMPODERAMENTO DO INDIVÍDUO

QUEM?
Avram Noam Chomsky (1928), norte-americano, é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seu trabalho revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. Chomsky é também muito conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos da América.
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COMENTÁRIO
Mestre Noam é um cara espetacular. Sem papas-na-língua, diz o que quer, do assunto que for: geralmente, política. Especialmente, a internacional. Para ser mais exato: critica com veemência e austeridade seu próprio país natal por reconhecer que sua política externa nefasta gera conflitos e aniquilações por onde quer que se meta Mundo afora. Humanista que é todo, sabe que por trás da guerra, há outra guerra, a de interesses, milhonários interesses, e que por trás das atitudes das pessoas também. Sem articulação, sem horizontes, enfim, sem cultura, o indivíduo passa a não ser considerado. Até porque, pouco é de fato na sociedade, além de massa teleguiada de consumo, volátil e coercível.
Na citação escolhida do excelente livro Para Entender o Poder, vemos Chomsky e sua língua ferína atendo-se ao que ouso chamar conceitualmente de 'desempoderamento' do indivíduo.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Vejam, parte de toda a técnica de privar as pessoas de poder é providenciar para que os reais agentes de mudança sumam da História e nunca sejam reconhecidos, na cultura, pelo que são. Então, é necessário distorcer a História e fazer parecer que foram os Grandes Homens que fizeram tudo - isso é parte de como se ensina às pessoas que elas não podem fazer nada, que são indefesas, que têm só de esperar que apareçam alguns Grandes Homens que façam as coisas para elas." (pag256)
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LIVRO:Para Entender o Poder // AUTOR: Noam Chonsky // EDITORA: Bertrand Brasil // Rio de Janeiro // 2005

sexta-feira, 27 de março de 2009

A IMENSSIDÃO DO MAR DE VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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CITAÇÃO
"Estava no mar alto, concha imperceptível, sem coberta, sem vela, sem mastro, sem bússula, sem outro recurso além dos remos, em presença do oceano e do tufão átomo à mercê dos colossos." (pag66)
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COMENTÁRIO
Noventa e Três é uma novela épica. Escrita com grande sabedoria e habilidade, esta dramatica passagem fala por si. Uma maravilha!
Da Redação.
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

DA VAIDADE POR MICHEL DE MONTAIGNE

QUEM?
Michel de Montaigne (1533-1592). Brilhantíssimo escritor e filósofo francês, que imortalizou o formato literário Ensaio.
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CITAÇÃO
"Não haverá talvez maior vaidade do que escrever sobre esta e tão inultilmente." (pag431)
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COMENTÁRIO
Da Vaidade, Capítulo IX, Ensaios III de Michel de Montaigne, primeira sentença. Vaidade seria comentar.
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LIVRO: Coleção: OS PENSADORES // Volume: Michel de Montaigne // Livro: ENSAIOS I // Editora: Abril Cultural // São Paulo: 1972, 1a. edição

O TELLMARCH DE VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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COMENTÁRIO
Dentro de Noventa e Três acontece de tudo, no bom sentido, é lógico. Entre outras coisas, há neste belo romance um rico e conturbado período histórico, a queda da Bastilha, naufrágios, guerras, insurreições, traições, revoltas e até amor. Tudo emaranhado com a delicadeza própria dos gênios da pena e da composição literária. Ao descrever seus personagens, neste caso, dando voz ao próprio, um verdadeiro artista: Tellmarch era uma espécie de Merlin normando daqueles conturbados e lendários dias de revolta. Sensacional!
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" - Sou algum tanto curandeiro, um tanto médico, conheço as ervas, tiro partido das plantas, os aldeões vêem-me atento diante de um nada, e isso faz-me passar por feiticeiro. Porque vivo a sonhar, imaginam que sei." (pág101)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

O UNIVERSO VIVO E INTERCONECTADO DE FRED ALAN WOLF

QUEM?
Fred Alan Wolf (1934). Físico teórico e escritor norte-americano. Seu trabalho envolve o mundo da física quântica em relação a nossa consciência. Autor do celebre livro Espaço-Tempo e Além.
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CITAÇÃO
"Todo o universo está vivo. Todo o universo está interconectado. A microestrutura do espaço tridimensional assemelha-se a um queijo suíço que apresenta flutuações incessantes. As informações transmitem-se através dos buracos de minhoca a velocidades ordinárias que aparentam ser maiores que a da luz aos observadores situados fora dos buracos de minhoca, conectando todos os pontos do espaço com todos os outros pontos, em um número indefinido de padrões possíveis, mudando incessantemente, e executando seu liga-desliga em frequências incríveis acima de 10000000000000000000000000000000000000000 vezes por segundo!" (pág38)
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COMENTÁRIO
"Espaço-Tempo e Além é uma preciosidade. Fala, de forma simples e divertida, de coisas que nós, seres humanos, estamos começando agora a entender. Não é fácil imaginar, por exemplo, um mundo em nanoescala. Mas isto já é uma realidade. Hoje existem vários produtos com nanotecnologia disponíveis no mercado, o que, diga-se de passagem, é uma temeridade, especialmente pela carência de pesquisas de impacto e de risco destas minúsculas e imprevisíveis substâncias na saúde humana e no meio ambiente. O mundo visto e manipulado através de um microscópio de força atômica, que permite que atuemos numa dimensão hiper diminuta: um bilhonésimo de metro. Nesta dimensão, é possível reproduzir a própria vida, átomo a átomo. Uma loucura total. E real, para complicar a novela. Estaríamos preparados para tamanho poder? Espero que sim.
Na citação escolhida, desta belíssima obra de fácil entendimento - haja vista que é escrita e ilustrada em forma de desenhos semelhantes aos das histórias em quadrinhos - o autor nos leva a compreender um pouco mais sobre este novo e instigante campo da ciência: a física quântica.
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LIVRO: Espaço-Tempo e Além //AUTOR: Bob Toben/Fred Alan Wolf // EDITORA: Cultrix // São Paulo // 1982

quinta-feira, 26 de março de 2009

NOVENTA E TRÊS: UM CANHÃO DESGOVERNADO POR VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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CITAÇÃO
"Acabava de soltar-se uma das caronadas da bateria, uma peça de vinte e quatro. É talvez esta a mais perigosa de todas as eventualidades marítimas. Nada mais terrível pode acontecer a um navio no mar largo e em plena marcha. Um canhão que despedaça a amarra torna-se bruscamente como que um animal extraordinário. É uma máquina que se transforma em monstro" (pág37)

"As quatro rodas passavam e tornavam a passar sobre os homens mortos, cortavam-nos e despedaçavam-nos, retalhavam-nos, e dos cinco cadáveres tinham feito vinte pedaços que rolavam pela bateria; as cabeças mortas pareciam gritar; serpeavam no pavimento regatos de sangue que acompanhavam os movimentos do balanço. O casco, avariado em muitos pontos, começava a entreabrir-se." (pág41)
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COMENTÁRIO
Eis aqui o brilhante escritor e poeta francês Victor Hugo com seu realismo extremo e aterrador. Noventa e Três é uma novela belíssima de terra e mar, que se passa numa época conturbada da Europa, onde França e Grã Bretanha se debatiam até a morte e se confundiam, na incessante busca pela supremacía e pela estabilidade política e religiosa. A bordo da corveta Claymore, barco de guerra disfarçado de cargueiro, com uma tripulação formada por homens de ambos as nações, um canhão enorme se solta - por descuido de um marinheiro - e o caos está formado. A tragédia sela de maneira definitiva o destino da embarcação e de sua tripulação. Esta emocionante passagem, é apenas uma, dentre muitas outras que esta notável estória nos pode oferecer. Leitura fina, com narrativa instigante, de um autor genial. Sucesso absoluto! Da Redação.
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

segunda-feira, 23 de março de 2009

A LOUCURA CONCEITUAL DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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CITAÇÃO
"Eu passo por louco por que quero viver ali, naquilo que para os senhores foi um momento, um lampejo, um fresco e breve fiapo de sonho vivo e luminoso, fora de todos os caminhos habituais, de todos os costumes, livre de todas as velhas aparências, respirando sempre novos e abertos horizontes, entre coisas sempre novas e vivas." (pág199)
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COMENTÀRIO
Mestre Pirandello fala com eloquência pela boca de seus personagens. Aqui, nesta citação, trata-se de um mendigo enfermo que, vira e mexe, acorda no hospital, e que ainda assim, mesmo combalido e fustigado pela vida, e pela idade, continua a exalar um ar pleno e orgulhoso de sua liberdade, diante até dos que o tratam a saúde. Tocante e lúdico, existencialista e anárquico, o belíssimo conto A Mão do Doente Pobre é uma jóia dentre muitas outras jóias, que são, sem exagero alegórico, os escritos deste hábil proseador Siciliano. Simplesmente Magnífico!
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LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sexta-feira, 20 de março de 2009

UMA CONVERGÊNCIA TECNOLÓGICA SOCIAL SUSTENTÁVEL POR RICARDO NEDER

QUEM?
Ricardo Neder é sociólogo, pesquisador e professor-doutor no Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS-UnB), na pós-graduação de Desenvolvimento Sustentável. Atualmente tem se dedicado ao Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na America Latina para questões envolvidas em políticas públicas e conflitos socioambientais, políticas de inovação & tecnologia social no quadro dos Estudos Sociais de Ciência, Tecnologia e Inovação, no Brasil e América Latina.
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CITAÇÃO
"Outras formas de conhecimento e experiência também se fazem necessárias nas decisões que estão além de decidir sobre tecnologias. Exemplos concretos disso são as inovações sociais demandadas na moradia rural e urbana, transportes de massa, recursos hídricos, saúde pública, biossistemas e melhores técnicas no complexo social da produção agro-familiar, ou na agricultura urbana, além da coordenação econômica e financeira viáveis para a democratização do crédito (finanças e economia solidárias). Há, portanto, nessas áreas, demandas sociais reprimidas pela política de ciência, tecnologia e inovação convencionais. Poderiam estar sendo enfrentadas se existissem esses canais de representação e de deliberação no cotidiano para as demandas sociais e soluções adequadas em tecnologia."
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COMENTÁRIO
Para mim, um humilde Escriba, é uma enorme honra travar relações pessoais com uma figura tão notável e importante - isso do ponto de vista epistemológico, cultural e também como ser humano que é - haja vista que tal figura ímpar dedica-se, no dia-a-dia em seu ofício, às questões mais importantes dentro do momento histórico que vivemos, debruçando-se copiosamente sobre as desigualdades sociais, e sempre com um olhar novo, questionador, articulante e inteligente, buscando sempre que possível os caminhos mais razoáveis para o desenvolvimento científico e tecnológico, sem nunca perder de vista o conturbado e complexo contexto de crise socio-ambiental que vivemos em nossos dias, e o ser humano individual por trás das estatísticas. Neste ambiente crítico e reflexivo, Neder - este brilhante sociólogo e pensador, radicado atualmente em Brasília - como um bandeirante high tech a desbravar caminhos nunca dantes percorridos - instiga-nos a refletir sobre nossos hábitos, nossa cultura e, especialmente, sobre os caminhos que a humanidade deve seguir para ser sustentável, prescrutando, com seus estudos e pesquisas, os possíveis rumos para a vida no Planeta, neste veloz e enigmático cenário de avanço tecnológico, em contraste com as desigualdades sociais, tendo como alicerce do discurso, os direitos humanos universais.
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ARTIGO: Tecnologia e Democracia Diante da Quarta Geração
dos Direitos Humanos // AUTOR: Ricardo Neder // PUBLICAÇÃO: Com Ciência - Revista Eletrônica de Jornalismo Científico // 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

O LORD JIM DE CONRAD

QUEM?
Józef Teodor Nałęcz Korzeniowski, conhecido como Joseph Conrad (1857/1924). Marinheiro e eminente escritor britânico cuja obra foi centrata e inspirada no mar.
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CITAÇÃO
"Eu jamais vira Jim com tal ar de gravidade, de autodmínio, de impressionante impassibilidade. No meio daqueles indivíduos de pele escura, seu vulto vigoroso, todo de branco, e o brilhante velo de seus cabelos loiros pareciam atrair toda a luz que se filtrava através das fendas, naquela sombria casa, de paredes de taquára e teto de palha. Não aparecia unicamente como um ser de outra raça, mas de uma outra essência. Se o não tivessem visto chegar no seu bote, teriam acreditado que descera das nuvens." (pág156)
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COMENTÁRIO
O mar tem seus infinitos mistérios. A alma humana também. Eis a mistura base perfeita para se criar belas estória. Era exatamente isso que Joseph Conrad, este talentoso escritor norte-americano e eis marinheiro, fazia quando escrevia: misturava estes dois elementos com grande sabedoria, compondo sua obra com estas estórias instigantes, de bravos e destemidos homens do mar e suas embarcações, a singrar corajosamente os mares do mundo. Lord Jim não foge a esta regra. Trata-se de uma estória emocionante, de um marujo muito especial, que resolve abandonar sua cultura para viver em terras selvagens nos confins do mundo. Romance interessantíssimo de aventura que, com toda a certeza, vai cativar o leitor. Da Redação.
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LIVRO: Lord Jim // AUTOR: Joseph Conred // EDITORA: Nova Cultura // São Paulo // 2003

segunda-feira, 16 de março de 2009

A LUZ DA OUTRA CASA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
Quem nunca se sentiu meio esquisito, indisposto, com a alma inquieta, como se fosse mesmo um estranho dentro de sua própria vida? Um sentimento de despertencimento profundo e isso, com tudo estando aparentemente bem? Pois é, este sentimento absorvente de vazio pode chegar de repente e nos pregar uma peça, desamparando-nos psiquicamente, desorganizando-nos. Do nada, tudo à nossa volta se apresenta assim meio que sem sentido, em aparente desordem, pelo menos aos nossos olhos, e aí: vai-se a bendita tranquilidade e paz de espírito que tanto prezamos. Por vezes, tal força pode transcender em poder o sujeito que sofre a sua ação, a sua influência, sobrepujando-o, devorando sua existência vorazmente, sem que ele mesmo sequer perceba sua manifestação. O contrário oposto também pode acontecer: estarmos em meio a uma vida sem nenhum sentido cognocível, vagando pelos dias e, do nada, tudo se reverte drasticamente em paz, harmonia e pertencimento - pleno e profundo. Geralmente, os gatilhos de tais situações, que disparam o dispositivo interno desta mudança radical de estado de espírito, apresentam-se a nós sob a forma de um acontecimento ou pessoa marcante, que vem, se impõe e nos transforma. É disso que Pirandello trata com maestria em seu belíssimo conto A Luz da Outra Casa. O personagem principal da estória é uma figura solitária, que teve uma infância difícil, que perdeu a mãe em situação trágica pelas mãos do pai bêbado, e que passa os dias da vida assim, como se esta não lhe pertencesse de fato, até que um acontecimento mágico e inusitado muda o seu destino de maneira dramática e radical.
Leitura sensível, finíssima, que reflete os mais profundos meandros da alma humana em sua inexorável amplidão, e que nos faz pensar sobre o que nos move a vida, e o que confere a esta sentido ou não. Numa só palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Daquele dia em diante, todas as tardes, ao sair da repartição, em lugar de dar seus habituais passeios solitários, voltava para casa; esperava todas as noites que a escuridão do seu quartinho se aclarasse suavemente com a luz da outra casa, e ali ficava, por detrás dos vidros, como um mendigo, saboreando com infinita angústia a doce e feliz intimidade, o conforto familiar de que os outros gozavam, e de que ele, em criança também gozara em alguma rara noite de paz quando a mãe... a sua mãe... como aquela...
E chorava." (pág116)
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LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sexta-feira, 13 de março de 2009

ENTENDENDO O PODER COM NOAM CHOMSKY

QUEM?
Avram Noam Chomsky (1928), norte-americano, é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seu trabalho revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. Chomsky é também muito conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos da América.

COMENTÁRIO
Poucos teóricos falam tão abertamente contra sua própria pátria como o norte-americano Noam Chonsky. Sim, porque ser norte-americano não significa necessariamente ter que ser um imbecil, e não reconhecer que seu país fez uma série de barbáries através da história, pelos diversos cantos do Planeta. Olhemos para trás: em tudo que é confusão e conflito que se tenha notícia no Mundo contemporâneo, lá estão os Estados Unidos da América e sua prepotência belicosa habitual, em uma atitude de ganância paranóica e astuta. Sejamos francos: os caras estão simplesmente em todas! E pior, se orgulham disso. Anunciam, aos quatro ventos, um modo vazio e antropocêntrico de viver; para completar, insustentável. Alimentam o terror com mais terror, tratam o fogo com mais fogo e morte com mais morte. Fazem esta força estranha circular. Mas, todavia, o que não se diz, até por uma questão de elegância - pois pega muito mal ficar falando verdades por aí, a torto e a direito - é que a guerra dá grana! Gera lucro. Enriquece gente, cria a ganância por manter a demanda... E as guerras se seguem. Todos estes intermináveis conflitos, mortes e genocídios geram receita, não há como escapar desta verdade. Trata-se de um faturamento gigantesco, de cifras astronômicas, que impulcionam a indústria e a prosperidade deles - note-se bem - enquanto sacrificam vidas inocentes como se não valessem nada; e dizimam países inteiros, massacrando os direitos humanos universais, conquistados há muito, a custa de tantas vidas. Isso, sem falar - é obvio - das infindáveis manipulações sórdidas de governos alheios, através do poder econômico ou da violência; dos subsídios aos conflitos internos de outras nações por interesses financeiros ou estratégicos; além de outras práticas desumanas, que lhes fornecem benefícios antes, durante e depois dos tais famigerados conflitos armados nos quais se envolvem. Milhares de mortos... Legiões de mutilados... Gravíssimo dano ambiental... Desestruturação de culturas... Eis o verdadeiro legado da guerra. E a 'coisa' vai longe, pois não. Basta imaginar, só para se ter uma idéia - um só porta-aviões deles, norte-americanos, com seus infinitos equipamentos embarcados, infraestrutura, bens de consumo, víveres, uniformes, bombas, armas, equipamentos, tecnologia, enfim - tudo isto tem que ser fabricado, e no final das contas: dá lucro sim, e muito. Que outra força seria capaz de mover homens e mulheres à ruína e à desgraça, de destruir países inteiros, se não o interesse sórdido de alguns, em detrimento dos demais; da maioria?
É disso, e de muito mais, que Chonsky fala em seus escritos políticos. Sim, porque além de linguista reconhecidamente importante, é também um ativista político de primeira grandeza, especialmente quando o assunto é: direitos humanos. Com a abertura dos arquivos do Pentágono e da CIA, depois de mais de cinquenta anos de sigilo, surge uma infinidade de dados e informações contundentes que, infelizmente, confirmam esta dura e lamentável realidade política Global.
Para Entender o Poder é uma obra interessantíssima, que nos ajuda a compreender porque o Mundo é assim como é: agônico, contraditório e desigual.
Da redação Escriba.

CITAÇÃO
"Houve uma discussão muito consciente sobre a necessidade de criar carências - e, de fato, foram realizados extensos esforços para fazerem exatamente o que se faz na TV hoje em dia: criar carências, fazer você querer o mais novo par de tênis de que você na verdade não precisa, para que as pessoas então sejam impulsionadas a uma sociedade de trabalho assalariado. E esse padrão foi se repetindo sempre ao longo de toda a história do capitalismo. De fato, o que toda a história do capitalismo mostra é que as pessoas tiveram que ser levadas a situações que então se alega serem da sua natureza. Mas se há algo que a história do capitalismo mostra é que isso não é da natureza delas, elas tiveram que ser forçadas a isso, e que esse esforço teve que ser mantido até os dias de hoje." (pág276)

LIVRO: Para Entender o Poder // AUTOR: Noam Chonsky // EDITORA: Bertrand Brasil // Rio de Janeiro // 2005

quinta-feira, 12 de março de 2009

A QUEDA DE ALBERT CAMUS

QUEM?
Albert Camus (1913-1960), escritor e filósofo argelino-francês. Seus escritos tratavam do absurdo da condição humana através de um existencialismo inteligente e crítico. Sol, miséria, fome, guerra; estes são os signos deste grande autor, que se refletem em sua obra. Prêmio Nobel de literatura de 1957.
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COMENTÁRIO
O mestre do absurdo e sua pena ágil e competente, na sua melhor forma, despencando numa queda livre para o interior da mente de seu personagem: um juiz de si mesmo que, pelas ruas, pelos bares e pela noite ensimesmada, vai tentando encontrar o sentido de sua singular existência, enquanto faz uma dura crítica à condição humana. Sombrio e inteligente, crítico e repleto de reflexões profundas, lascivo e boêmio; este é o universo de Albert Camus e sua admirável A Queda.
Ler este escritor francês natural da Argélia com alma irriquieta e perplexa é um prazer que, o amante das boa letras, não pode se privar, especialmente, se quiser ler os grandes imortais. Sim, porque toda sua obra é genial, e também uniforme, num sentido de qualidade. Absolutamente tudo que Camus escreveu, seus livros, sem excessão, são obras de altíssima qualidade, seja do ponto de vista do conteúdo filosófico, seja do ponto de vista da harmonia e da pura concepção artística da criação literária. Difícil seria dizer: qual livro deste grande autor poderia ser considerado o seu melhor? Assim, as obras completas de Albert Camus são recomendação especial deste Escriba.
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CITAÇÃO
"Todas as noites, eu desfilava diante do balcão, à luz vermelha e na poeira deste lugar de delícias, mentindo descaradamente e bebendo sem parar. Esperava o romper da alvorada e, enfim, me deixava cair na cama sempre desfeita da minha princesa, que se entregava mecanicamente ao prazer e logo adormecia. O dia vinha docemente iluminar este desastre e eu me sentia elevado, imóvel, numa manhã de glória."
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LIVRO: A Queda // AUTOR: Albert Camus // EDITORA: Record // RJ-SP // 2002

terça-feira, 10 de março de 2009

OS VAGABUNDOS DE GORKY

QUEM?
Máximo Gorki (Максим Горький), pseudônimo de Aleksei Maksimovich Peshkov (em russo, Алексей Максимович Пешков) (1868/1936). Famoso escritor, romancista, dramaturgo, contista e ativista político russo. Gorki foi escritor de escola naturalista que formou uma espécie de ponte entre as gerações de Tchekhov e Tolstói, e a nova geração de escritores soviéticos.
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COMENTÁRIO
O que nos move à vida? O que faz com que nos movamos em direção a algo ou algum lugar? Desejos de todos os tipos e gêneros. Alguns são viciados em trabalho, outros em comida, pornografia, drogas, compras; muitas são as compulsões e vícios, sabe-se lá! Poucos são ricos e abastados. Estes não se preocupam com quase nada que não seja ganhar mais dinheiro - o que não é fácil, convenhamos - e estão sempre bem; entra ano, sai ano. Outros tipos, geralmente engravatados, revestidos de empáfia e muito solícitos, vivem como sangue-sugas, rondando o poder, e recolhendo sorrateiramente suas migalhas, que lhe garantem a subsistência e a subserviência; mas não importa, são os parasitas políticos que nós elegemos - talvez por mera incompetência em cuidarmos de nossos próprios destinos sozinhos - e a quem re-confiamos nosso futuro, há cada quatro anos. Outros sujeitos ainda vivem à margem do próprio Contrato Social, militando solenemente na marginalidade, e acabam, mais dia menos dia, sendo engolidos pelo sistema que não admite ser contrariado, e deste modo vivem pouco, ou são presos, onde ficam reclusos e separados dos demais. E, finalmente, a ampla maioria da população comum, que se resigna com sua miséria plena e monumental e são engolfados pela força descomunal do desprezo, de modo que, pouco a pouco, são inundados por um sentimento de não valerem nada - nem para si, nem para os outros - tornando-os assim como uma espécie de lixo vivo - o que os projeta para dentro de um lastimável mundo obscuro de exclusão, iniquidade e pouquissima auto-estima. Mundo pobre e desigual, sem charme e em um contexto real de drama existencial, drama este que ninguém gosta de ver e, nem muito menos, de lembrar. São os esquecidos. Pessoas que, por não poderem consumir nada além do básico para se alimentar, passam a ser desconsideradas, especialmente, nesta era de consumismo capitalista, onde o ser humano desprovido de posses não vale absolutamente nada.
Neste ambiente agônico e crítico, surgem Os Vagabundos de Máximo Gorky. Grande e renomado autor, que soube como ninguém, decifrar a alma desta gente forte simples da mãe Russia que, com toda certeza, também tinha suas misérias e desigualdades gritantes. Este brilhante escritor nos mostra que muitas vezes estes vagabundos, que encaram a existência assim mais despreocupadamente, na flauta, acabam levando uma vida bem mais tranquila e menos sofrida do que os ricos e bem abastados senhores, cheios de bens a zelar e compromissos e responsabilidades a cumprir. Ou seja, viver é um mistério danado!
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CITAÇÃO
"Konovalov tirou aparas não sei de onde, amontou lenha e dali a instantes, por entre o fumo tênue e azulado, surgiram fagulhas crepitantes que pouco a pouco incendiaram a lenha numa grande flor roxo amarelado...
Konovalov pôs uma cafeteira no fogo e pôs-se a contemplar as chamas com expressão sonhadora.
- Os homens fizeram as cidades, edificaram casas onde se amontoam, fustigam a terra, afogam-se e inutilizam-se atoamente... Será isto viver? Não, a verdadeira vida é a nossa..." (pag155)
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LIVRO: Os Vagabundos // AUTOR: Máximo Gorgy // EDITORA: Irmãos Pongetti // Rio de Janeiro // 1944

domingo, 8 de março de 2009

A IDADE DA RAZÃO DE SARTRE

QUEM?
Jean-Paul Charles Aymard Sartre (1905/1980). Renomado filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do Existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Artista militante, apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra. Repelia distinções e funções oficiais e, por estes motivos, se recusou a receber o Premio Nobel de Literatura de 1964. Sua filosofia dizia que no caso humano (e só no caso humano) a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência.
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COMENTÁRIO
O Mundo gostava mais de Sartre que a própria França, sua terra natal. Figura controversa, Sartre sempre foi marcante no meio intelectual francês burguês, mesmo que este o repudiasse, e destacou-se mundialmente através de seu existencialismo politizado e inteligente expressado através de seus pensamentos e escritos. A Idade da Razão, é um romance muito interessante, que trata da chegada da maturidade, que vem - para Mathieu, o personagem principal - através de uma armadilha do destino, um aborto, e que vai nos envolvendo aos poucos, com o passar das páginas. Lá pelas tantas, o leitor estará vidrado na trama narrativa, sempre carregada de tons sombrios e humanistas, num ambiente reflexivo, boêmio e culto. Os protagonistas vivem seus dramas individuais, enquanto suas vidas vão se mesclando no intrincado drama cotidiano com suas inequivocas contingências e situações inesperadas. Leitura densa e profunda, emotiva e cativante, sobre tema mais que controverso; numa só palavra: Genial.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Contemplou-a pensativo e sorridente durante um instante, depois afastou-se. A jovem senhora lançou um olhar hostil a Mathieu e pôs-se a brincar com o fecho da bolça . Mathieu não estava à vontade; introduzira-se entre pobres de verdade e era o dinheiro deles que ia buscar, um dinheiro cinzento e triste, recendia a repolho. Baixou a cabeça e olhou o chão entree os pés. Viu as notas sedosas e perfumadas na maleta de Lola. Não era o mesmo dinheiro." (pag293)
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LIVRO: Idade da Razão // AUTOR: Lean Paul Sartre // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

O ADMIRÁVEL MUNDO DE ALDOUS HUXLEY

QUEM?
Aldous Leonard Huxley (1894/1963). Talentoso escritor inglês.

CITAÇÃO
"A enorme sala do andar térreo dava para o norte. Apesar do verão que reinava para além das vidraças, apesar do calor tropical da própria sala, era fria e crua a luz tênue que entrava pelas janelas, procurando, faminta, algum manequim coberto de roupagem, algum vulto acadêmico pálido e arrepiado, mas só encontrando o vidro, o níquel e a porcelana de brilho glacial de um laboratório. À algidez hibernal respondia a algidez hibernal. As blusas dos trabalhadores eram brancas, suas mãos estavam revestidas de luvas de borracha pálida, de tonalidade cadavérica. A luz era gelada, morta, espectral. Somente dos cilindros amarelos dos microscópios lhe vinha um pouco de substância rica e viva, que se esparramava como manteiga ao longo dos tubos reluzentes." (pag09)
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COMENTÁRIO
Aldous Huxley, como grande visionário que era, já imaginava o que viria por aí em termos de ciência e tecnologia. No seu genial livro Admirável Mundo Novo, este brilhante romancista nos trás o seu incrível Mundo idealizado, maquínico, controlado, estéril, cinza, robotizado; fazendo-nos lembrar de um futuro não muito distante - ao mesmo tempo muito parecido com nosso presente - onde vemos perplexos e abismados este Mundo de engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, viagens espaciais, clonagem de ovelhas, transgênicos, vaca-louca e outras modernidades angustiantes e temerárias. É o ser humano agônico e insustentável brincando de Deus. Estilizado e inteligente, futurista e assustador; este é o Admirável Mundo de Aldous Huxley. O Mundo que vivemos... O Mundo que estamos construindo... O Mundo que nos espera...
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LIVRO: Admirável Mundo Novo // AUTOR: Audous Huxley // EDITORA: Globo // São Paulo // 2006

O MEDO DO SONO DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel no ano de 1934.

CITAÇÃO
"Quando moço, Càrzara foi um pouco impetuoso, tanto que ainda usava as calças boca de sino; do tempo dos valentões; e talvez ainda gostaria de pentear-se com costeletas, mas os cabelos lhe haviam caido precocemente; gostaria também de falar com a ênfase de tempos atrás, mas sua voz agora tinha tão imprevistas e ridículas mudanças de tom, que dom Savério preferia ficar quieto e só falava quando não podia evitar; fazia-o sempre apressadamente e ruborizando-se." (pag58)
COMENTÁRIO
Luigi Pirandello era feliz ao escrever, pois escrevia bem, com desenvoltura, era profícuo e tinha estilo próprio, o que são virtudes impreteríveis para um escritor que quer ter êxito. Suas descrições não remontam só situações, remontam épocas, culturas, regiões; tempos pregressos de uma Sicília tradicional e provinciana. Leitura fina para o leitor que gosta se deleitar à sombra dos imortais da literatura. A citação é oriunda do interessante conto O Medo do Sono, onde uma mulher desmedidamente sonolenta, vai criando os acontecimentos e fatos da estória de modo divertido e surpreendente.
LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Morta e a Viva // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sábado, 7 de março de 2009

O MARINHEIRO BILLY BUDD DE MELVILLE

QUEM?
Herman Melville (1819-1891). Notório escritor norte-americano que, entre outras coisas, marinheiro que era, escreveu sobre as aventuras dos mares do mundo com grande talento. Autor da imortal Moby Dick, a lendária baleia branca, dentre outras belíssimas estórias do mar.

COMENTÁRIO
O mar sempre foi inspirador de estórias interessantes e belas. O ambiente, sua força indelével, inquestionável em sua onipresença, quase sempre, impulsiona personagens e acontecimentos, em sua majestosidade pungente, fúria e poder. Navegar por aí a bordo de embarcações marítimas de qualquer natureza ou espécie, é lançar-se numa aventura sempre emocionante com futuro, por assim dizer, incerto. Sim, porque sobre suas belas e generosas águas, surgem novas e diferentes contingências, cuja complexidade e esforço físico requerido, torna os homens gastos e calejados de sol e de sal. Um marinheiro sabe que, ao partir, pode não retornar, e isso, talvez isso, seja justamente o que exserce pressão sobre seus espíritos, curtindo-os, tornando-os destemidos e resistentes, rudes e ternos; plenos em suas insignificâncias fortes e tranqüilas.
Dentro deste contexto específico, em estando embarcado - que é o termo usado para definir quem faz parte de uma tripulação marítima - significa estar-se sujeito a um complexo código de conduta e de honra, que regi de maneira extremamente intensa a vida, a morte, o futuro e o destino, da tripulação e da própria embarcação.
Neste ambiente, surge Billy Budd, o belo marinheiro de Melville, que torna-se involuntariamente o pivo de um acontecimento seríssimo a bordo, um motim, cujo desenrolar instigante e tenso, precipita um final trágico e inesperado para a belissíma estória deste talentoso marinheiro e escritor norte-americano. Leitura fina e envolvente, em clima marítimo de aventura, escrito com perícia narrativa impressionante. Da Redação.

CITAÇÃO
"Quem é capaz de, no arco-íris, traçar a linha onde termina o violeta e começa o cor-de-laranja? Somos capazes de enxergar distintamente a diferença das cores, mas onde exatamente uma começa a se misturar a outra? O mesmo ocorre com a sanidade e a insanidade." (pág94)

LIVRO: Billy Budd, marinheiro // AUTOR: Heman Melville // EDITORA: L&PM // Rio Grande do Sul // 2005

OS FANTASMAS TELEVISUAIS DE JEAN BAUDRILLARD

QUEM?
Jean Baudrillard (1929/2007). Brilhante sociólogo e filósofo francês.
COMENTÁRIO
Certos pensadores tem como marca a abordagem inteligente, a irreverência e a criatividade na formulação de sua idéias e pensamentos. Uns são obscuros e enigmáticos, outros prolixos e retissentes, outros ainda, se perdem na forma enquanto vão tratando de falar sobre nada o máximo de possível, se comprometendo ao mínimo, é lógico; e por fim os autenticos e corajosos homens que dizem o que pensam sem rodeios, doa a quem doer... como se diz, ereto, com tesão pelo que faz. Este último tipo de pessoa, de personalidade e carater, se enquadra no estilo filosófico de Jean Baudrillard. Como bom francês que era, arrasava ao criticar os assuntos que lhe enteressava, sempre com sarcasmo e perspicácia, mostrando o quão ridículo podemos ser - nós, os seres humanos - com nossas fobias e invenções; irriquietos e perdidos neste mundão de contradições e banalidades; sedentos por entretenimento barato para distrairmo-nos de nossas insignificâncias mesquinhas e de nossas mediocridades. Coisas da era digital em sua vulgaridade obsolescente. Sem mais delongas e lesco-lescos, até porque o tempo voa, a citação escolhida mostra claramente o talento desta figuraça intelectual, ao criticar escarnadamente a televisão em seu brilhante livro Tela Total. Leitura de qualidade que ajudará o leitor antenado a compreender melhor estes dias midiáticos e superficiais que nos afligem atualmente.
CITAÇÃO
"A televisão chama bastante atenção nos tempos que correm. Faz falar dela. Em princípio, ela está aí para nos falar do mundo e para apagar-se diante do acontecimento como um médium que se respeite. Mas, depois de algum tempo, parece, ela não se respeita mais ou toma-se pelo acontecimento."
LIVRO: Tela Total // AUTOR: Jean Baudrllard // EDITORA: Sulina // Rio Grande do Sul // 2005

DUAS ESPOSAS DE NINO MO POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel no ano de 1934.

CITAÇÃO
"O barco de pesca, ao qual o capitão Nino Mo dera o nome de "Filippa" em memória de sua primeira mulher, entrava no ancouradouro de Porto Empedocle no resplandecer de um magnífico por do Sol do Mediterrâneo, quando as águas, na sua infinita extensão, tremeluzem e palpitam num delírio colorido de luzes. cintilam os vidros das casas multicolores, brilham as margas do planalto onde se encosta a aldeia, esplende como ouro o enxôfre amontoado na extensa praia; único contraste é a sombra do antigo castelo à beira-mar, quadrado e fosco, no alto do dique."

COMENTÁRIO
Ao retornnar da pesca, o velho marinheiro Nino Mo, sábio e tranqüiulo, se depara com uma situação, no mínimo, inesperada: sua molher - que ecreditava estar morta - reaparece, para sua perplexidade total, criando uma bela de uma confusão, que acaba por envolver também os pacatos concidadãos da aldeia onde reside. Conto interessantíssimo, de questionamento filosófico e social claro, do que é lícito e do que não é, com final surpeendente; tudo elegantíssimo, à moda de Luigi Pirandello. (pag07)

LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Morta e a Viva // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sexta-feira, 6 de março de 2009

O VENTO MISTRAL POR ALPHONSE DAUDET

QUEM?
Alphonse Daudet (1840-1897), na foto - por conhecidência premeditada - com seu amigo e também escritor, o francês Frédéric Mistral (1830/1914), em Provance.
Daudet era escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia. Em alguns contos, lança mão até do Realismo Fantástico, como estrutura de redação para expressar sua fina elegante prosa provencal. Escreveu, entre outras obras, os contos da coletânea Cartas de meu Moinho, e Cartas de Segunda-feira, contendo estórias belíssimas de leveza e profundidade sem igual.

CITAÇÃO
"Esta noite não consegui dormir. O mistral encolerizara-se e o estrépito de sua voz poderosa conservara-me acordado até pela manhã. Balançando penosamente as asas mutiladas, que oscilavam à brisa como as velas e o cordame de um navio, o moinho inteiro estalava. Telhas voavam do telhado fustigado pelo vento. Ao longe, o denso pinheiral que recobre a colina, agitava-se e rumorejavam na sombra. Podíamos imaginar-nos em pleno mar..." (pág124)

COMENTÁRIO
O mar pode assustar até quem está em terra firme, que dirá a bordo de um casca de noz, singrando por mares revoltos, em meio às ondas. Um vento mais forte, uma tempestade, podem mudar o destino de pessoas, e até de lugares, haja vista tufões, tornados, ciclones e toda a família de vendavais e furacões, que assolam os mares do Mundo desde de sempre. Quando começamos a navegar por aí, em tempos imemoriais, estivemos sempre sujeitos aos caprichos desta força imperativa e fantástica da natureza, que quando quer, se impõe, à revelia das vontades de nós, pobres humanos e mortais, em sua míseras naus. Ainda mais agora, em tempos de aquecimento global , degêlo de calotas polares, e mudanças drásticas no clima; pelo visto, a coisa tende a degringolar de vez, agitando ainda mais os ventos e os mares. Uma boa tempestade, mesmo em terra, nos faz lembrar à força e com bastante austeridade, quem é que 'manda no pedaço', ou melhor, no Planeta.
Afora a digressão, o Mistral - não o da foto, mas o fenômeno - é um vento catabático (da palavra grega katabatikos que significa "descendo colinas"), que transporta ar de alta densidade de uma elevação descendo a encosta devido à ação da gravidade. Estes ventos são por vezes chamados "ventos de Outono". O Mistral se caracteriza por ser um vento seco e frio dos quadrantes do norte que sopra no Sul da França, terra de nosso autor Alphonse Daudet.
Da redação Escriba.

LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo // Sem data

quinta-feira, 5 de março de 2009

A TELA TOTAL DE BAUDRILLARD

QUEM?
Jean Baudrillard (1929/2007). Brilhante sociólogo e filósofo francês.

COMENTÁRIO
Muitos acham que a televisão é uma maravilha. Não é a toa que toda casa, por mais humilde que seja, tem sempre um aparelho televisor. Anulando o telespectador, a vida vais sendo apresentada pela máquina, que nos rouba sorrateiramente a identidade e os momentos de convívio com nossos pares. Um bom papo, um belo romance, um passeio a pé, olhar o céu à noite... Nada disso pode atrapalhar sua programação diária e banal. Reflexo de uma sociedade rasa e deculturada, massificada e conssumista, a televisão trás para dentro dos lares do Mundo, referências e paradígmas equivocados; e a coclusão aí está: uma gigantesca massa ignorante de imbecíls, que só sabem repetir o que a máquina os ensinou. No país dos analfabetos, dos sem dente, sem teto, sem terra e sem vergonha, a televisão faz a festa. O filósofo Baudrillard sabia muito bem disto. Tela Total é um livro interessantíssimo, moderno, crítico, inteligente e atual. Recomendação Escriba para o leitor que quer entender nosso século veloz.

CITAÇÃO
"Trata-se do acontecimento mais importante da história moderna, e desse acontecimento cada um é ator pelo fato mesmo de estar diante de sua tela de televisão: perde-se de vista o real enquanto se é perdido de vista." (pag64)

LIVRO: Tela Total // AUTOR: Jean Baudrllard // EDITORA: Sulina // Rio Grande do Sul // 2005

A CRUELDADE HUMANA CONTRA OS ANIMAIS PELA PENA DE ALPHONSE DAUDET

QUEM?
Alphonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia. Escreveu, entre outras obras, os contos da coletânea Cartas de meu Moinho, e Cartas de Segunda-feira, contendo estórias belíssimas.

COMENTÁRIO
A espécie humana é como uma praga que espalha seu rastro de destruição por toda parte, esgotando o ambiente do qual depende, subjugando, explorando e dizimando todos os outros seres vivos cruelmente, considerando erroneamente que os animais, vegetais e demais seres viventes sejam destituidos de espiríto, ou alma - tanto faz o termo que queiramos aplicar aqui - e vai extinguindo assim a vida no Planeta. Não é a toa que o Mundo está a balbúrdia que está, e tenhamos resolvido despejar nossos esgotos nos mares e rios de nossas próprias cidades, nestes mananciais da vida; e que tenhamos envenenado o ar que respiramos, despejando todo tipo de toxínas nele, tornando-o pesado e insalubre de se respirar; e que por fim tenhamos virado uma espécie de praga antropocêntrica extremamente bem adaptada, insustentável e voraz, que como um câncer, vai matando seu hospedeiro - o Planeta - a despeito de morrer junto com ele, em um colapso Global.
Nesta triste e muito bem escrita passagem do francês Alphonse Daudet somos capazes de ver a sua angústia de escritor humanista e sensível diante das barbáries contra os animais - já naquela época - das quais nós humanos somos capazes, desde de que o mundo é mundo. Mesmo hoje, quase duzentos anos depois, mais conscientes e sábios, ainda permitimos que existam hábitos atrozes e selvagens de caçadas e mortandades contra os animais da fauna planetária, a despeito de comprometermos o equilíbrio ecológico de forma tão dramatica, a ponto de por em risco nossa própria sobrevivência; enquanto os pobres animais, nossos meio-irmãos, nossos companheirinhos de viagem - inocentes co-tripulantes a bordo desta imensa nave a singrar o Cosmo - vão sendo perseguimos e sacrificamos ao sabor de nossas brutais crueldades. Criaturas que, de tão puras, são imcapazes de se defender de nós, humanos, seres ditos racionais, evoluídos e superiores. Maldita superioridade!
Nesta citação escolhida a dedo, vemos uma jovem e simpática perdiz contando sua estória na primeira pessoa, vivendo perplexa os pavores de uma abertura da temporada de caça na província francesa do século dezenove; as famigeradas caçadas de Provance. Trecho triste mas, infelizmente, real, especialmente se considerarmos o contexto em que vivemos, e nossos persistentes hábitos egocêntricos, marcados por carnificínas imemoriais através da história do homem na Terra. Uma verdadeira lástima! Leitura nobre e atualíssima do Mestre Daudet.
Da Redação.

CITAÇÃO
" O dia declinava. As detonações distanciavam-se, tornavam-se mais raras. Depois tudo silenciou. Terminara a caçada. Então voltamos lentamente para a planície, a fim de termos notícias do nosso bando. Ao passar diante da casinha de madeira um pavoroso quadro me reteve os olhos. Lebres de pelo ruço, coelinhos cinzentos de cauda branca jaziam lado a lado no rebordo de um fosso. As pequenas patas que a morte juntara, pareciam implorar misericórdia, os olhos velados pareciam chorar. Também vi perdízes encarnadas, perdizes cinzentas com ferradura como minha companheira, e perdizes novas, nascidas nesse ano e que, tal comoeu, ainda conservavam penugem sob as penas. Haverá algo mais triste do que um pássaro morto? As asas Têm tanta vida! Vê-las dobradas e frias dá-nos calafrios... Um grande cabrito-montês, na sua calma soberba, parecia dormir, com a língua cor-de-rosa pendendo um pouco sobre os beiços como se quisesse lambê-los.
E os caçadores lá estavam, curvados sobre essa carnificina, contando suas patas sangrentas, as asas dilaceradas e atirando-as dentro de suas bolsas, sem o mínimo de respeito pelas feridas ainda sangrentas. Os cães, atrelados para o regresso, framziam os beiços imobilizados, como se novamente quisessem precipitar-se na mata." (pág122)

LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo // Sem data

O DIABO DE LEONIDAS ANDREIEV

QUEM?
Leoníd Nikoláievich Andréyev, conhecido por Leonidas Andreiev (1871/1919). Esritor e dramaturgo russo que liderou o movimento do Expressionismo na literatura de seu país.

COMENTÁRIO
O brilhante conto A Conversão do Diabo de Leonidas Andreiev é algo assim, como direi, sensacional. Uma obra prima de cunho filosófico fortíssimo, que fará, com toda a certeza, o leitor refletir e dar boas gargalhadas. Muito bem elaborada, a trama gira em torno de um diabo sensível e inteligente, que arrependido e cançado de fazer o mal, faz de tudo para se converter em anjo, para poder finalmemente praticar o bem. O tal demônio vai morar na igreja de um pobre padre, que acaba se envolvendo completamente no projeto do primeiro, que por sua vez, vai dando um verdadeiro nó em sua cabeça eclesiástica e religiosa, devido ao debates e embates metafísicos travados entre ambos. Conto bem humorado e profundo, escrito com graça e malícia, por um talentoso escritor russo; receita de absoluto sucesso para o leitor se divertir e refletir em grande estilo. Em uma palavra: Bárbaro!
Da redação Escriba.

CITAÇÃO
" - Diga-me antes: será que você ficou bem quietinho de maneira estrita ou se permitiu algumas escapadelas? O diabo soltou um suspiro lúgubre.
- Fiquei bem quietinho. Só matei uma mosca ontem porque ela estava rastejando em meu rosto, e não sei se isso é permitido ou proibído.
- Uma mosca? - disse o padre rindo.
- Uma mosca é permitido! Espere... Aí está, você recomeça a me pôr em dúvida, infeliz! Se é permitido ou não, eu mesmo já não sei mais! Desculpe-me, irmão, mas você me faz perder o meu latim! Antes de você me fazer essa pergunta sobre a mosca, eu sabia muito bem que a gente tinha o direito de matá-las, eu mesmo fiz isso mais de uma vez, mas agora...
- Elas são seres vivos - disse o diabo num tom sombrio.
- É verdade, elas são seres vivos! - repetiu o padre, pesaroso.
- Então eu também matei moscas vivas? Que pecado! Ai, ai, ai! Que pecado! " (pag235)

LIVRO: Contos Russos Eternos // AUTOR: Leonidas Andreiev// EDITORA: Bom Texto // Rio de Janeiro // 2004.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS POR J. J. ROUSSEAU

QUEM?
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Célebre filósofo suíço, escritor e teórico político. Foi uma das figuras marcantes do Iluminismo francês, e é considerado um precursor do romamantismo. Autor do clássico legendário o Contrato Social, e do conceito de Bom Selvagem, um homem idealizado e pré-intelectualizado, que viveria em pé de igualdade com os demais animais e seres da natureza.

COMENTÁRIO
Quando Jean-Jacques Rousseau escrevia a sociedade de sua época vinha abaixo. Sim, por que sua crítica inteligente e cínica arrasava com a burguesia hipócrita, e isto se dava por escrito e, em grande estilo. Sem falar do seu talento notório. Homem fino, membro integrante da mesma burguesia que criticava, sabia destruir seus oponentes intelectuais sem se alterar; elogiando-os, mesmo que só aparentemente. Mente luminosa, argumentação veemente, estilo clássico e irreverente; este era Rousseau escrevendo com sua pena hábil e mordaz. Na citação escolhida, nosso nobre autor iluminista disserta sobre a origem da desiguladade entre os homens numa passagem brilhante, escrita com precisão apurada, e raciocínio claro, que vão espantar e provacar reflexão. Vale notar que à época costumava-se propor aos intelectuais mais eminentes da corte, questões filosóficas e políticas, para que estes respondesse numa espécie de concorência pública, com premiação em dinheiro e tudo. No caso em questão, Rosseau indicou o próprio saber e conhecimento acadêmico, ou seja, a própria academia que propunha a questão e, adivinhem... Ele ganhou o prêmio e ficou mais célebre ainda!
CITAÇÃO
"O primeiro que, tendo cercado um terreno, atreveu-se a dizer: Isto é meu, e encontrou pessoas simples o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, hovesse gritado aos seus semelhantes: Evitai ouvir este impostor. estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não é de ninguém!" (pag203)

LIVRO: Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens // AUTOR: J. J. Rousseau // Editora: Martins Fontes // São Paulo // 2005

SENHORES E SERVOS DE TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.

COMENTÁRIO
Definitivamente, o Conde Leão Toilstói foi um sujeito notável. Sua literatura brilhante e humanista encantou gerações a fio. Seus conteúdos intensos e belos o imortalizaram como um dos grandes - se não o maior - expoente da cultura russa e de seu rústico, resistente e nobre povo. Senhores e Servos (ou Homens e Escravos) é uma jóia da literatura universal de todos os tempos, e conta a emocionante estória de um senhor, um servo e um cavalo, perdidos em meio à tempestade de neve. Drama contundente e gritante, que retrata um ambiente milenar da desigualdade humana, em um enredo instigante com final mais que surpreendente. Obra de primeira grandeza que agradará o leitor com inclinações filosóficas e humanistas. Brilhante, harmônico, emotivo, envolvente, humano, cativante, sensível; numa palavra: Mestre Leão Tolstói.
Da Redação.

CITAÇÃO
"E depois disso, Vassili Andréitch deixou de ver, deixou de ouvir e nada mais sentiu deste mundo. A tempestade continuava sempre, não parava nunca. A neve rolava em turbilhões enormes e cobria cada vez mais, tapando por completo, o corpo de Vassili Andréitch; o pobre baio, cujo corpo gelado tremia todo; já sepultara o trenó até quase o meio." (pag87)

LIVRO: Homens e Escravos // AUTOR: Leão Tolstói // EDITORA: Irmãos pongetti // Rio de Janeiro // 1943

DOIS NAUFRÁGIOS POR ALFHONSE DAUDET

QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
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CITAÇÃO
"Veja só o senhor o pior da história... Três semanas antes do sinistro, uma pequena corveta que seguia para a Criméia, tal como Sémillante, havia naufragado nas mesmas circunstâncias, quase no mesmo lugar; apenas, daquela vez, tinhamos conseguido salvar a tripulação e vinte soldados em trânsito que se encontravam que se encontravam a bordo... Êsses pobres rapazes não se sentiam à vontade, bem imaginam! Nós os levamos para Bonifácil, onde passaram dois dias conosco... Depois de secos e refeitos, adeus! boa sorte! regressaram a Toulon, e alguns dias depois novamente embarcaram para a Criméia... Adivinhem em que navio?... No Sémillante... Tornamos a encontrar todos os vinte estendidos entre os mortos, no lugar onde achamos... Eu próprio ergui um bonito brigadeiro de bigodes bem tratados, um parisiense louro que eu hospedara em minha casa, e que nos fizera rir o tempo todo com seus casos... Ao deparar como ele, tive o coração dilacerado... Ah! Santa Madre!..." (pág37)
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COMENTÁRIO
O mar por vezes tem fome... E é voraz em sua fúria inconsciente. Em seu afã, come gente. Devora almas. Muitas de uma vez, quando assim querem os seus humores altivos e instáveis. Algo como uma força incomensuravelmente avassaladora e prepotente que não faz predileções: devora e extingue o que estiver em seu caminho. Trata-se aqui do talento de um notório contista francês, mas representa por si, como fenômeno repetido, um exemplo ilustrativo das milhares de almas que já foram devoradas em sua ânsia através dos tempos imemoriais. Este nobre senhor Mar, profundo, belo e sereno, também sabe se revoltatar. E quando o faz, é, literalmente, um Deus nos acuda. Aqui perto, na praia onde estou mesmo, existe também um naufrágil, de um cargueiro japones que se perdeu de sua rota ao contornar a costa. A catástrofe se deu a mais de cinqüenta anos atrás, e na ocasião a praia ficou - como contam os mais velhos cidadãos que presenciaram o acontecido - 'qualhada de corpos' . E, os relatos se seguem: - Ouviu-se na naquela sinistra noite do Cabo Frio, no meio da tempestade, o mugido do imensso animal metálico pedindo socorro como num lamento; mas seu destino já estava selado pelo próprio mau tempo: seria devorado pela incrível borrasca. Arraial do Cabo era apenas uma aldeia na época, uma minúscula vila de pescadores, um arraial como o próprio nome evoca, e, assim, nada poderia ser feito. Cabo Frio... também... Não tinha recursos à época para socorrer ninguém. Naquela noite tempestuosa, quem teria? Chovia e ventava muito. Mais de cem vidas ceifadas, cujos corpos foram enterrados num semitério improvisado numa encosta de Monte Alto, cidade vizinha, numa colina diante daquele mesmo mar que os devorara. Do ocorrido, como testemunha perene da tragédia, em meio a enorme e esparramada paria de Maçambaba, ergue-se misteriosamente junto a suas areias, amplas e sem pedras, um enorme escolho de metal submerso, que ao sabor das ondas da arrebentação, encravado na areia, como um esqueleto, deixa à mostra sua imponente crista negra, recoberta por mariscos no meio daquela imenssidão.
Meros e pobres... Humanos... minúsculas criaturas neste enorme Planeta... pequenas e agitadas vidinhas cheias de si... Almas mortais singrando águas sem fim. Volta e meia, esta força, misteriosa e alheia a tudo, cobra seu tributo... muitas vezes em vidas.
Da redação Escriba.
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LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo