segunda-feira, 25 de abril de 2011

AFORISMO SEMIÓTICO-PSICANALÍTICO ESCRIBA: UMA BREVE COCHILADA DO MESTRE DA PSICANÁLISE SIGMUND FREUD

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog.
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COMENTÁRIO
Sigmundo Freud, como todos nós sabemos, foi um médico neurologista austríaco que ficou conhecido por ser o 'pai' da psicanálise. E foi também ele o primeiro a pensar aspectos mais profundos e até inconcientes do ser humano de maneira realmente inauguradora. Sua obra reflete um amplo conhecimento desse ser em metamorfose que, sem dúvida, possui recantos e recontidos psíquicos desconhecidos dele mesmo. 
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Todavia, minha crítica a esse mestre fundador da própria disciplina psicanálise torna-se por um lado terrível e até covarde, já que o mesmo não pode refutá-la pessoalmente com sua capacidade intelectiva exacerbada porque infelizmente não se encontra mais entre nós. Ainda assim e por outro lado ela (a crítica) segue adiante, e vai ao mundo mais num sentido de humor fino talvez, dirigido ao próprio meio psicanalítico com a intensão de provocar uma reflexão acerca de um dos conceitos principais desse genial pensador. 
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Assim, acrescento - antes de apresentar o aforismo propriamente dito - apenas mais uma breve consideração: talvez a cochilada do mestre tenha sido confundir dois elementos muito semelhantes, porém determinantemente diferentes em suas próprias manifestações e simbolismos inerentes mais estruturais, a saber: pênis e falo.
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AFORISMO
Só o falo emite. O pênis urina. 
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CONCLUSÃO
A inveja - então - não seria do pênis propriamente dito, e sim do falo. O pênis, em seu estado original de repouso constante, indica apenas o sexo de seu portador, e pouco tem a ver com a libido ou mesmo com a hereditariedade humana, já que assim, funciona somente como excretor dos dejetos líquidos do organismo humano. Já o falo ereto sim, significa poder, e é temido e invejado por seus semelhantes humanos, sejam eles homens ou mulheres, por ser emissor de valores sígnicos, semióticos e filogenéticos, que podem determinar o presente e até mesmo o futuro do gozar e do por-gozar. Fica aqui, registrada, essa reflexão aforística erétil, fálica e peniana, para internauta escriba ler, pensar e se deleitar.
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Da redação.
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PS: Post dedicado à minha preceptora Christina Garcia.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ESCRIBA: UMA IMPROCEDENTE TENTATIVA DE DESQUALIFICAÇÃO DO HUMANO



QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor deste blog.
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CRÍTICA
Os pós-humanistas que insistem em desqualificar o corpo humano ignoram, entre outras coisas, o fato de dependerem completamente desse mesmo ser biológico magnífico e extremamente complexo, até mesmo para chegarem às suas conclusões equivocadas e estapafúrdias, certo, subutilizando-o.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

CRÍTICA BIOÉTICA ESCRIBA: O QUE NINGUÉM DIZ SOBRE A CRISE DE FUKUSHIMA EM QUATRO BREVES PARÁGRAFOS

QUEM? Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog. **************************************************************************** CRÍTICA Existem algumas reflexões que não estão sendo desenvolvidas satisfatoriamente - especialmente nas mídias jornalísticas - acerca do esclarecimento da população sobre a utilização da energia nuclear - e isso, mesmo depois desse terrível acidente atômico cujos desdobramentos totais ignoramos e estão ainda por se consolidar. Assim, brevemente, tentarei elencar algumas considerações importantes que corroboram e vêm a se somar à massa crítica de pessoas das mais diversas atividades e áreas do saber humano que é radicalmente contra o uso da energia nuclear como alternativa aceitável, viável e sustentável de geração de energia. Sendo assim, sem embargos, vamos à crítica. **************************************************************************** 1.Vazamento de radiação no Japão significa vazamento de radiação no mundo, ou seja, no planeta como um todo. Em sua global e indivisível totalidade. É mais radiação além da natural solta por aí, em altas concentrações, pois a radioatividade, uma vez liberada na atmosfera terrestre, apenas se fragmenta e se dissipa lentamente para concentrações menores e mais baixas, mas não se dissolve totalmente nunca. É Gaia intoxicando-se irreversivelmente com material radioativo. O que vale dizer - de passagem - que meia dúzia de acidentes como esse (ao mesmo tempo no mundo) poderia comprometer a saúde e a própria vida no planeta Terra. "A nuvem radioativa está indo para o Pacífico..." - diziam os especialistas ecoanalfabetos em tom tranquilizador através da mídia robótica e acrítica - como se o Oceano Pacífico fosse um lugar indigno, irrelevante, totalmente desimportante para a organização da vida no planeta Terra em termos ecológicos, e como se lá não vivessem e transitassem milhares de espécies vivas de todas as naturezas possíveis e imaginárias, da maior importância, que inclusive estão inclusas em nossos cardápios alimentares de predadores onívoros, constituindo parte de nossa fonte de alimentação; enfim pura ecoignorância. Isso tudo, sem falar no plancton e na complexa cadeia alimentar marinha que absorve e transporta essas substâncias tóxicas entre as espécies, podendo chegar - inclusive - à nossa mesa. É preciso ter claro: acidentes e imprevistos acontecem - as provas estão aí - e por isso não podemos ignorar essas sombrias possibilidades de catástrofes e acidentes como factíveis. Como todo material radioativo - urânio, plutônio, césio etc. matéria prima da tecnologia nuclear - é extremamente tóxico, volátil, poluente, perigoso e especialmente instável, investir em projetos assim passa a ser um risco muito grande para uma contrapartida de geração de energia muito parca e incipiente. Até porque, quando há acidentes, localidades, edificações, objetos, ar, solo, água, animais e pessoas que se submeterem ao contato direto ou indireto com essas substâncias estão irreversivelmente contaminados, e os seres vivos sujeitos a degenerações fisiológicas horríveis e degradantes que podem atravessar as gerações, gerando trauma e deformações genéticas graves e irreversíveis. Uma vez que há vazamento - e Fukushima continua vazando - há liberação de material radioativo para a atmosfera terrestre de forma irreversível e global, e os desarranjos não tardam em surgir. Por consequência, torna-se bioeticamente inaceitável o uso de usinas atômicas nucleares como fonte de fornecimento de energia para a humanidade, haja vista seu alto custo humano e ambiental, e seus riscos imprevisíveis. ****************************************************************************** 2.Gerar energia elétrica através de material radioativo significa dizer que haverá quantidades cada vez maiores de lixo radioativo, os famigerados rejeitos atômicos radioativos, que por sua vez têm que ser blindados e enterrados, pois serão sempre contaminantes potenciais de altíssima toxicidade para o meio ambiente e para os seres vivos. Esse resíduo sujo, e por assim dizer eterno, é um outro problema que ninguém gosta de abordar, mas que também é determinante quando o assunto é matriz energética. A mesma lógica anterior vale também aqui: lixo radioativo na Rússia, no Japão ou no Brasil é a mesmíssima coisa. Os países que possuírem fontes alternanivas de energia devem buscá-las. Esse mundo, já combalido, explorado e degrado, não precisa de mais lixo atômico produzido em larga escala. **********************************************************************************3.O Brasil não precisa de Angra 1, 2, 3 nem muito menos de 4 ou 5. O Brasil não depende dessa terrível matriz energética para garantir um bom fornecimento de energia elétrica à sua população. Essa coisa toda de energia nuclear foi uma febre de imbecilidade que se espalhou pelo mundo, pois os poderosos da vez que tinham terminado de fazer uma pavorosa guerra mundial tinham nas mãos uma nefasta porém avançadíssima tecnologia, e não sabiam o que fazer com ela. Toda a pesquisa necessária à fissão nuclear para a bomba, agora seria reaproveitada de forma mais pacífica, por assim dizer, e o Brasil, como bom imitador acrítico de modelos internacionais ruins que é, imitou os demais países do mundo que à época implementavam seus projetos atômicos. Sem falar, é claro, que Angra 1, por exemplo, gera apenas a metade da energia necessária para abastecer a cidade do Rio de Janeiro, ou seja, um risco altíssimo e desnecessário, para a geração de uma determinada quantidae de energia que poderia certamente ser gerada e otimizada de outras maneiras, mais limpas e sustentáveis. Nós de fato não temos terremotos e tsunamis, mas estamos sujeitos - Deus nos livre - a sermos atingidos por qualquer fragmento sólido espacial como meteoritos e meteoros em pleno Atlântico e aí... babau Cidade Maravilhosa, ou seja, uma 'catátrofe' daquelas no ventilador, como se diz no popular. Existem milhares de alternativas a serem avaliadas antes de se investir mais dinheiro nesse temerário projeto. Por essas e por outras, eu digo não à energia nuclear! ********************************************************************************** 4. Se a energia nuclear fosse tão segura assim como os entusiastas gostam de afirmar, poderiam ser feitos seguros das usinas existentes, mas isso não é possível: as seguradoras internacionais querem distância de usinas nucleares! **********************************************************************************Da Redação.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A CRENÇA DO ARTISTA E O INOMINÁVEL PELO NOBEL DE LITERATURA ALEXANDER SOLZHENITSYN

QUEM?******************************************************************** Alexander Solzhenitsyn (1918/2008). Romancista, dramaturgo e historiador russo. Autor do clássico antológico russo Arquipelago Gulag. **************************************************************************** COMENTÁRIO****************************************************** Alexander Solznenitsyn tinha plena consciência de sua responsabilidade de escritor quando tomava a pena para eternizar suas ideias e reflexões. Sabia que escrever era testemunhar e questionar a própria realidade a sua volta, seu tempo, sua época, e era isso mesmo que ele fazia quando compunha seus textos. Suas obras, entre outras coisas, conscientizaram o mundo quanto aos gulags, sistema de campos de trabalhos forçados existente na antiga União Soviética. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1970 pelo conjunto de sua obra. As citações escolhidas para este post foram retiradas do texto que ele escreveu para o discurso da cerimonia de entrega do referido Prêmio, discurso esse que nunca foi proferido, pois se sentiu impossibilitado de comparecer pessoalmente à cerimonia por motivos políticos.

CITAÇÕES********************************************************** "Um artista acredita ser o criador de um mundo espiritual independente; carrega em seus próprios ombros a tarefa de criar esse mundo, de povoá-lo e assumir total responsabilidade por ele; mas desmorona sob a carga, porque nenhum gênio mortal é capaz de sustentar tanto peso. É como um homem comum que, após ter declarado ser o centro da existência, não consegue criar um sistema espiritual equilibrado. E se ele fracassar, acusará a antiga falta de harmonia no mundo, ou a complexidade da desconjuntada alma moderna, ou então a burrice do público." (pág27) **************************************************************************** "Nem tudo pode receber um nome. O significado de algumas coisas transcende as palavras. A arte pode inflamar até uma alma entrevada e regelada e levá-la a uma alta experiência espiritual. A arte nos proporciona às vezes - de maneira rápida e vaga - revelações que não podem ser fruto do pensamento racional" (pág30)

LIVRO: Uma Palavra de Verdade... // AUTOR: Alexander Solzhenitsyn // EDITORA: Hemus // Riode Janeiro: 1972 3a. edição

quinta-feira, 31 de março de 2011

REFLEXÃO PRAGMÁTICA ACERCA DA MORTE

QUEM? Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog. ******************************************************************** REFLEXÃO "O quanto antes nos dermos conta de nossa condição inexorável de viventes e morrentes, melhor será para que a nossa breve passagem por aqui possa ser aprazível e proveitosa do ponto de vista do sujeito que nasce e tem que morrer. Conclusão: a perspectiva da morte aviva a vida."

terça-feira, 29 de março de 2011

ROMANCE BAUDOLINO DE UMBERTO ECO: A CONCEPÇÃO DE DEUS SEGUNDO A PERSONAGEM IPÁSIA


QUEM?

Umberto Eco (1932). Escritor e semioticista.
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COMENTÁRIO

Deus enquanto concepção e significação simbólica suprema de fé e/ou descrença sempre foi um assunto controverso e escorregadio que se encontra longe de achar repouso enquanto conclusão definitiva, até porque, seu pleno compreendimento enquanto dinâmica complexa de interação sígnica passa - inevitavelmente - pela questão basilar da subjetividade singular de cada um. Ou seja, não há como esperar devoção, por exemplo, dos que não crêem na hipótese de sua existência. Daí, dessa contingência, é que surgem as intermináveis pinimbas e desentendimentos oriundos sempre dos que desejam impor sua fé aos demais que não comungam das mesmas convicções. E, desse nó Górdio, por assim dizer, se originam todos os desentendimentos que alimentam as maiores e mais dramáticas formas de intolerância, que, por sua vez, levam aos horrores das principais guerras da história e da civilização. Na citação retirada do romance Baudolino, vemos a personagem Ipásia descrever sua concepção de Deus.
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CITAÇÃO

"[Ipásia] Disse: 'Deus é Único, e totalmente perfeito que não se parece com nenhuma das coisas que existem e com nenhuma das coisas que não existem; não o podes descrever usando a sua inteligência humana, como se fosse alguém que se deixa levar pela ira, se és mau, ou que se ocupa de ti por bondade, alguém que tenha boca, orelhas, rosto, asas, ou que seja espírito, pai ou filho, nem mesmo de si próprio. Do Único não podes dizer que existe ou que não existe, tudo abrange mas nada é; podes nomeá-lo apenas através da dessemelhança, porque é inútil chamá-lo Bondade, Beleza, Sabedoria, Amabilidade, Potência, Justiça, seria o mesmo que chamá-lo de Urso, Pantera, Serpente, Dragão ou Grifo, pois, não importa o que disseres, nunca poderás exprimi-lo. Deus não é corpo, figura, ou forma, não tem quantidade, qualidade, peso ou leveza, não vê, não ouve, não conhece desordem e perturbação, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, pensamento, palavra, número, ordem, grandeza, não é igualdade nem desigualdade, não é tempo nem eternidade, é uma vontade sem objetivo; procura entender, Baudolino, Deus é uma lâmpada sem chama, uma chama sem fogo, um fogo sem calor, uma luz escura, um rumor silencioso, um relâmpago sem rumo, uma escuridão luminosíssima, um raio da própria treva, um círculo que se espande contraido-se no próprio centro, uma multiplicidade solitária, é... é...'" (pág376) [...] "Vês que ainda podes tornar-te sábio, Baudolino? Disseste em certa medida. Apesar do erro, uma parte do Único permaneceu em cada um de nós, criaturas pensantes, e também em cada uma das outras criaturas, dos animais aos corpos mortos. Tudo o que nos circunda é habitado por deuses, as plantas, as sementes, as flores, as raízes, as fontes, cada um deles, embora sofrendo por ser uma péssima imitação do pensamento de Deus, não quereria mais do que reunir-se com ele. Devemos encontrar a harmonia entre os opostos, devemos ajudar aos deuses, devemos reavivar estas centelhas, estas lembranças do Único, que jazem ainda sepultadas em nossa alma e nas próprias coisas." (pág380)
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LIVRO: Baudolino // AUTOR: Umberto Eco // EDITORA: Record, Rio de Janeiro, 2001

sexta-feira, 4 de março de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A INVENÇÃO DA ESCRITA E A PROFISSÃO DO ESCRIBA POR VERE GORDON CHILDE

QUEM?
Vere Gordon Childe (1892/1957). Filólogo australiano que se especializou em arqueologia.
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COMENTÁRIO
Os escribas, como atividade profissional, floresceram junto com as civilizações que os geravam, pois eram eles que compilavam, escreviam, contabilizavam, copiavam e imortalizavam os conhecimentos que surgiam através dos tempos e das épocas, permitindo assim que pudessem ser reproduzidos e repassados para um maior número de pessoas, e que pudessem ser levados adiante bem além da limitação de uma geração. Trata-se de um momento histórico único e divisor de águas no que concerne a cultura humana. Eles eram figuras centrais também na manutenção da contabilidade das primeiras instituições humanas, mantendo um controle tal que poderia ser acessado por qualquer outra pessoa e/ou integrante do grupo a que pertecia, e que dominasse igualmente o código matemático e o da escrita. Esses homens foram importantíssimos no desenvolvimento da cultura humana através dos tempos, e é disso que Gordon Childe nos fala em seu excelente livro O homem se faz a si mesmo, traduzido no Brasil como A Evolução Cultural do Homem.
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Nas citações, vemos o autor descrever essa importante relação cultural com uma riqueza de detalhes surpreendente, mostrando o inequívoco papel de destaque que esses profissionais da escrita tiveram na evolução humana através da história.
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CITAÇÕES
"A circunstância feliz de terem os sumerianos adotado a argila como seu material de escrita, e tornado imperecíveis seus documentos cozendo-a, permite-nos seguir a história da escrita, desde seu início na Mesopotâmia. Mostra o desenvolvimento da escrita e da vida urbana avançando passo a passo. Não é por acaso que os mais antigos documentos escritos do mundo são contas e dicionários. Eles revelam as várias necessidades práticas que levaram à invenção da escrita sumeriana. Em parte alguma pode a origem econômica prática da escrita ser demonstrada tão claramente, porque em parte alguma pode essa arte ser acompanhada desde seu ponto de partida. Outros povos provavelmente começaram a escrever em materiais perecíveis, e só aplicaram sua escrita a inscrições em substâncias mais duráveis quando ela já estava bem adiantada. Os mais antigos documentos egípcios que sobreviveram são nomes e títulos em selos e vasos, notas de contas ou inventários, e breves registros de acontecimentos em pedaços de madeira encontrados nos túmulos reais da Primeira e Segunda Dinastias, em Abidos. Nessa época (3200 ou 3000 a. C., quando muito) o sistema já era muito mais maduro que o dos mais antigos documentos sumerianos." (pág180)
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"A invenção da escrita foi assim, provavelmente, em toda parte como na Suméria, inspirada pelas necessidades práticas da economia urbana. Admite-se que a escrita sumeriana foi inventada, e a princípio usada exclusivamente, pelos sacerdotes. Mas estes não a inventaram em sua condição de ministros da superstição, mas de administradores de propriedades terrenas. Como os ecribas egípicios e minóicos, eles usaram a invenção inicialmente não para finalidades mágicas e litúrgicas, mas para objetivos práticos e para a administração. A invenção da escrita (como a definimos) realmente marca época no progresso humano. Para nós, modernos, ela parece significativa principalmente porque oferece uma oportunidade de penetrar no pensamento mesmo de nossos ancestrais culturais, ao invés de tentarmos deduzi-lo através de suas manifestações imperfeitas nos fatos. Mas a verdadeira significação da escrita é que está destinada a revolucionar a transmissão do conhecimento humano. Através dela, o homem pôde imortalizar sua experiência e transmiti-la diretamente a contemporâneos que vivem distantes e a gerações que ainda não nasceram. É o primeiro passo para a elevação da ciência acima dos limites do espaço e do tempo. A utilidade das primeiras escritas, para essa alta missão, não deve ser exagerada. Elas não foram inventadas como meio de publicação, mas para as necessidades práticas das corporações administrativas. As primeiras escritas sumerianas e egípcias eram instrumentos bastante imperfeitos para a expressão de ideias. Mesmo depois de um processo de simplificação, que durou mais de 2.000 anos, a escrita cuneiforme empregava entre 600 e 1.000 caracteres distintos. Antes que pudesse ler ou escrever, o aluno tinha que decorar esse volume formidável de sinais e aprender as regras complexas de sua combinação. Os hieroglifos egípcios e as escritas hieráticas, apesar de seus elementos alfabéticos, continuavam sobrecarregados com uma surpreendente quantidade de ideogramas e determinativos, de modo que o número de caracteres exigido equivalia a cerca de 500. Nessas condições, a escrita era inevitavelmente uma arte de fato difícil e especializada, que tinha de ser aprendida através de longo estudo. A leitura continuava sendo uma iniciação misteriosa, só conseguida pelo ensino demorado. Poucos possuíam o tempo ou o talento para penetrar nos segredos da literatura. Os escribas eram uma classe relativamente limitada na antiguidade oriental, como na Idade Média. Esta classe, é certo, jamais se transformou em casta. A admissão às escolas não dependia de nascimento, embora não se saiba exatamente como todos os alunos eram selecionados. Mas o 'público ledor' deve ter sido uma minoria bem reduzida, em meio a uma grande população de analfabetos. A escrita era, na verdade, uma profissão, como a metalurgia, a tecelagem ou a guerra. Mas era uma profissão que desfrutava posição privilegiada e oferecia perspectivas de progresso a postos, poder e riqueza. A alfabetização era, assim, valorizada não como uma chave para o conhecimento, mas como uma possibilidade de prosperidade e avanço na escala social. (págs.181-182-183)
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"Na prática, reis, sacerdotes, nobres e generais se opõem a camponeses, pescadores, artesãos e trabalhadores. E nessa divisão de classes o escriba se coloca entre os primeiros: a escrita é uma profissão 'respeitável'." (pág184)
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"A imortalização de uma palavra na escrita deve ter parecido um processo sobrenatural; foi, sem dúvida, uma mágica o fato de que um homem há muito desaparecido da terra dos vivos ainda pudesse falar numa tabuinha de argila, ou num rolo de papiro. As palavras assim ditas deviam possuir uma espécie de mana. Dessa forma, os homens cultos no Oriente, como os eruditos na Idade Média, podiam voltar-se para os livros, de preferência à natureza." (pág184-185)
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"Mas as escolas para escribas funcionaram como o que hoje chamaríamos de institutos de pesquisas. Mesmo para as finalidades de ensino, era necessário organizar e sistematizar o conhecimento a ser transmitido. O posto de instrutor dava oportunidades e ocasião para acréscimos ao conhecimento, por uma espécie de pesquisa teórica." (pág185)
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LIVRO: A Evolução Cultural do Homem // AUTOR: Gordon Childe // EDITORA: Zahar // Rio de Janeiro: 1968.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SABEDORIA 'FRANCISCANA' SOBRE O ÂNIMO

QUEM?
Dr. Francisco Rodrigues de Miranda (1918/1994). Alagoano, marido de Dona Ziláh, advogado, promotor da Justiça, filósofo amador sarcástico e avô desse Editor que aqui escreve.
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COMENTÁRIO
Caros Leitores, meu avô era - sem exagero - um homem fabuloso. Um exemplo para a família e para os amigos. Pessoa séria e simples, de hábitos sóbrios e bondade flagrante. No campo profissional lutou ferrenhamente contra a ditadura militar e, por isso, foi cassado e distituído de seu cargo de promotor. Ficou sem receber salários condignos com sua posição conquistada através de concurso público por muito tempo, até ser anistiado e poder reaver seus proventos através de ações legais. Devido a isso, praticamente não gozou dos benefícios e poucas benesses que essa profissão oferecia, como a estabilidade financeira; mas isso não alterou em nada sua dignidade e seu caráter, pois realizava-se com o pouco-muito que é ter a família e os amigos por perto e bem de saúde. Boa praça, era amante da literatura e praticamente 'descobriu' o nosso cultuado poeta Manoel de Barros, de quem era amigo pessoal. Das alegrias dele, que me lembro, viajar era a maior. E, sempre parando - claro - em todas aquelas barraquinhas de beira de estrada que vendem frutas e outras iguarias e alegrias de quintal que ele adorava trazer para a cidade, talvez como forma de 'reapresentificar' a vida simples do interior, da qual tanto gostava e tinha saudades.
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Bem, fato é que - independentemente desse brevíssimo histórico relatado, pura digreção, diga-se - esse respeitável Senhor patriarca máximo de nossa família, vira e mexe, soltava uma pérola do pensamento crítico e bem humorado que ostentava por trás daquela velha calma alagoana. Assim, ofereço ao deguste dos meus prezadíssimos Leitores essa verdadeira jóia do cinismo e da sabedoria universal de todos os tempos sobre o ânimo.
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Da Redação.
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AFORISMO
"Não desanimeis! Animais, como eu!"
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

RUBEM ALVES: METODOLOGIA CIENTÍFICA, O CALDEIRÃO BORBULHANTE DE FATORES QUE GERAM AS REALIDADES

QUEM?
Rubem Alves (1933). Psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro.
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CITAÇÃO
"Não há motivos para espanto. Isto, que acabamos de sugerir, é que aquilo a que os especialistas dão o nome de contexto da descoberta: o caldeirão borbulhante de fatores biográficos, sociais, emoções, intuições de onde surgem não só as teorias como também os poemas, as sinfonias, as utopias." (pág.169)
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COMENTÁRIO
Quando uma obra literária de divulgação científica alcaça a decíma sétima edição é porque já passou pelo crivo mais importante em termos editoriais: o leitor. Nessa situação, qualquer comentário ou crítica mais elaborado deixa de ter sentido, pois são, no mínimo, uns 17 mil livros editados 'seguindo' pela vida por si sós e sendo lidos a torto e a direito por aí, ilustrando e encantando. No caso desta, que destacamos hoje, não há a menor sombra de dúvida quanto à sua qualidade: Filosfia da Ciência, introdução ao jogo e suas regras, por Rubem Alves. Na obra o autor revela a verdadeira natureza do cientista que, despido de sua roupagem mítica, imaculada, utópica e quase celestial, é percebido e contextualizado como deve ser: como um ser humano falível e mortal, suceptível às mesmas mazelas e tentações como os demais seres contíguos e coetâneos que gozam de tal condição frágil e carnal de viventes nesse mundinho.
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Na citação vêmo-lo fazer referência à metodologia científica que, em tese, por deduções e experimentações protocolares, seria capaz de nos capacitar a inferir um julgamento de valor procedente e fundamentado diante de um problema dado qualquer.
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LIVRO: Filosofia da Ciência, introdução ao jogo e suas regras // AOTOR: Rubem Alves // EDITORA: Brasiliense // São Paulo: 1993.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

FERREIROS E MÁGICOS: OS PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS MAIS ANTIGOS DA HISTÓRIA HUMANA POR GORDON CHILDE

QUEM?
Vere Gordon Childe (1892/1957). Filólogo australiano que se especializou em arqueologia. Autor de diversas obras importantes dessa segunda disciplina como A Evolução Cultural do Homem (1965).
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COMENTÁRIO
Vere Gordon Childe foi um homem estudioso, arqueólogo renomado de erudição notória. Suas pesquisas e descobertas fundaram a maioria das nossas convicções acerca dos misteriosos hábitos dos homens Pré-Históricos. Através de fragmentos e muita dedicação, ele, junto com seus colegas de profissão, foi literalmente desenterrando a história desse tempo. É impressionante o que ele constatou em suas escavações. São jarros, cestos, cerãmicas, metais, tumbas, ornamentos, ferramentas, armas, amuletos, enfim, uma riqueza sem limites para os amantes da arqueologia e que, com muitíssima dedicação, transformaram-se em dados e informações que compõem um mosaico relativamente confiável dessa impressionate aurora humana no planeta Terra. E, convenhamos, foi uma evolução brutal: do molde do barro à fundição de metais, do chumbo ao bronze e depois o ferro. Moldar as matérias da Natureza pareceu ao homem ato de criação, e era. Do domínio do fogo passando pela Pedra Lascada, as primeiras ferramentas e armas, a roda, a vela, a escrita e a matemática, enfim, o ser humano nunca mais pararia de inventar suas novas maneiras de se adaptar, controlar e explorar o ambiente que o contém. É a aventura humana na Terra seguindo sempre adiante. É o ser humano moldando o seu próprio futuro com a argila nodosa desse amanhã difuso e improvável que culmina hoje conosco, os modernos e pós-modernos.
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Tudo isso, como veremos, muitíssimo ligado à sobrevivência, à permanência dos grupos humanos das primeiras sociedades agrícolas, intimamente ligado à economia, à produção de alimentos e aos excedentes desses que poderiam assim alimentar esses novos profissionais especializados que nasciam em meio à cultura.
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CITAÇÕES
"A tarefa do ferreiro era mais complicada e exigente que a do ceramista, o conhecimento necessário era mais especializado. É duvidoso que a metalurgia pudesse ser praticada como uma indústria doméstica, nos intervalos do trabalho agrícola. Entre os bárbaros de hoje, os ferreiros são especialistas, e o trabalho do metal provavelmente sempre foi uma ocupação absorvente demandando todo o tempo do trabalhador. O ferreiro pode portanto, ser o trabalho especializado mais antigo, com exceção do mágico. Mas uma comunidade só pode ter um ferreiro se dispuser de um excedente de alimentos: o ferreiro, estando afastado da produção de alimento, deve ser alimentado com o excedente não consumido pelos agricultores. O uso industrial do metal pode, assim, ser considerado como indício da especialização do trabalho, e de que o abastecimento de alimentos da comunidade excede suas necessidades normais." (pág123)
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"O mágico pode ter sido o primeiro artesão independente, o primeiro membro de qualquer comunidade a ter direito ao produto excedente da busca coletiva de alimento, sem contribuir para ela com sua atividade física. Mas a vara do mágico é o embrião de um cetro, e os reis históricos ainda conservam muitos ornamentos de seu posto mágico." (pág138)
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LIVRO: A Evolução Cultural do Homem // AUTOR: Gordon Childe // EDITORA: Zahar // Rio de Janeiro: 1968

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A ARTE DO ARQUEÓLOGO E DO HISTORIADOR POR GORDON CHILDE

QUEM?
Vere Gordon Childe (1892/1957). Filólogo australiano que se especializou em arqueologia. Autor de diversas obras importantes dessa segunda disciplina.
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COMENTÁRIO
Aqui, nessas breves citações, veremos a definição do autor para o trabalho do arqueólogo e para a missão do historiador. Duas disciplinas que estudam a natureza do humano de todos os tempos e que ajudam a responder à mais primordial de todas as perguntas que nos assombram: quem somos nós?
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Numa só palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Os pensamentos e crenças dos homens pré-históricos pereceram irrecuperavelmente, exceto na medida em que foram expressos em ações de consequências duráveis e podem ser recuperados pela pá do arqueólogo." (pág60)
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"A tarefa do historiador seria ressaltar o que é essencial e significativo na longa e complexa série de acontecimentos que examina." (pág21)
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LIVRO: A Evolução Cultural do Homem // AUTOR: Gordon Childe // EDITORA: Zahar // Rio de Janeiro: 1968

domingo, 16 de janeiro de 2011

GORDON CHILDE: APEGO À VELHAS TRADIÇÕES COMO MODO DE NÃO TER QUE PENSAR AUTENTICAMENTE

QUEM?
Vere Gordon Childe (1892/1957). Filólogo australiano que se especializou em arqueologia. Autor de diversas obras importantes dessa segunda disciplina.
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COMENTÁRIO
Certos autores possuem o dom da oratória perfeita - digo - da redação perfeita, de tal forma que parecem nos falar aos ouvidos enquanto os lemos em seus magníficos livros de pesquisa e histórias. É, certamente, o caso desse perito em épocas pré-históricas como as Idades Neolíticas e do Bronze na Europa e Oriente Próximo, respeitado e renomado por seus conhecimentos e erudição. Ler A Evolução Cultural do Homem de Gordon Childe é mergulhar fundo nesse vasto e fascinante prospectar de raízes da nossa própria humanidade enquanto conformação filogênica. A despeito de ser um arqueólogo renomado e extremamente técnico (um especialista), o autor consegue ser - nessa obra - coloquial e acertivo em nos transmitir seu intrincado e inteligente panorama da formação biológica e cultural desse ser vulgarmente conhecido como Homo Sapiens.
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Na citação, vemos o autor com seu estilo cortante e elegante de transmitir suas ideias. Um clássico antroposóciocultural extremamente relevante acerca da história do ser humano, recomendação Escriba com classificação 5 peninhas.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Os homens se apegam apaixonadamente às velhas tradições e revelam uma relutância intensa em modificar modos habituais de comportamento, como os inovadores de todas as épocas verificam à sua própria custa. O peso do conservantismo, em grande parte uma aversão preguiçosa e covarde pela cansativa e penosa atividade de pensar autenticamente, sem dúvida retardou o progresso humano, no passado mais do que hoje." (´pág.45)
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LIVRO: A Evolução Cultural do Homem // AUTOR: Gordon Childe // EDITORA: Zahar // Rio de Janeiro: 1968

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

GREGOS DE ESPARTA: À CAÇA DE HUMANOS POR ROBERT FLACELIÉRE

QUEM?
Robert Flaceliére (1904). Estudioso do grego clássico nascido em Paris, França.
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COMENTÁRIO
O grego, e especialmente o espartano, vivia em função da guerra. A caçada fazia parte do treinamento militar desses povos antigos. Como não havia boa e farta caça na Ática do século de Péricles (450 a 350 aC.), os gregos de Esparta - na falta de coisa melhor para praticar a destreza e a astúcia - caçavam hilotas. Sim, soldados escravos, estrangeiros capturados em batalha, povos e populações vencidos, enfim, todos os bárbaros e gentios não gregos considerados inferiores e indignos de respeito e/ou consideração, e que eram encorporados a seus exércitos como uma espécie soldados de infantaria. Era a brutal caçada a humanos. Vejamos o que nos conta sobre isso Robert Flaceliére, perito no assunto Grécia Antiga.
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CITAÇÃO
"A caça e a pesca eram, como hoje, para uns, um verdadeiro ofício; para outros, uma simples distracção. Na sua Cinegética Xenofonte considera a caça como uma parte necessária e importante da educação do adolescente, porque exercita o corpo, habitua o homem ao perigo e prepara-o assim para a guerra, mas semelhantes ideias achavam maior favor na Lacónia do que na Ática, sendo inspiradas a Xenofonte pela sua admiração por Esparta, onde até se pratica a caça aos hilotas, ou seja, ao homem." (pág.205)
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LIVRO: A Vida Quotidiana dos Gregos no Século de Péricles // AUTOR: Robert Flaceliére // EDITORA: Livros do Brasil // Lisboa: 1937.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A VIDA QUOTIDIANA DOS GREGOS POR ROBERT FLACELIÉRE

QUEM?
Robert Flaceliére (1904). Estudioso do grego clássico, nascido em Paris, França.
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COMENTÁRIO
O livro A Vida Quotidiana dos Gregos de Robert Flaceliére é uma verdadeira maravilha. Lê-lo faz com que embarquemos numa extraordinária viagem de conhecimentos e cultura através do passado, retornando ao fascinante Século de Péricles nos tempos clássicos da Grécia Antiga. Como profundo conhecedor do assunto que é, o autor nos revela os pormenores da vida desses homens e mulheres que, com sua cultura inauguradora e singular, fundaram muitos dos parâmetros e alicerces civilizatórios com os quais convivemos intimamente até os dias atuais, e a importância deles na nossa própria maneira de conceber o mundo à nossa volta. Deixando de lado - extraordinariamente - essa visão deformada de uma Grécia idealizada e 'perfeita' que a maioria dos autores gosta de retratar e, ainda, abstendo-se igualmente de mergulhar muito a fundo nas obras dos grandes mestres da época - seja da filosofia, seja da proza e da lírica - esse autor se debruça com extrema habilidade e competência nos pormenores do dia a dia do grego antigo, criando assim uma imagem vívida desse povo que influenciou a humanidade desde seu longínquo tempo pregresso: 450 a 350 aC.
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Na primeira citação, vale notar que algumas semelhanças - como as nossas feiras-livres e o Ágora grego no bairro do Cerâmico, lugar onde se fabricavam os recipientes para os dois principais produtos de exportação gregos, o azeite e o vinho - fazem-se tão gritantes, que fica difícil acreditar que quase 2.500 anos se passaram de lá para cá. Sobre os valores, vemos que, acima de tudo, como valor supremo, vigora o culto cultura à liberdade. Veremos também neste post a fundação da primeira escola de filosofia, e também a origem da pederastia na Grécia provando que o referido assunto se encontra emaranhado histórica e culturalmente com infindáveis outros aspectos da vida quotidiana grega antiga. Sem dúvida, curiosidades fabulosas dessa enorme e belíssima confusão antroposociocultural a qual chamamos 'civilização'.
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Nas citações, escolhidas a dedo nesta belíssima obra, vemos várias passagens que compoêm um riquíssimo mosaico desta surpreendente cultura antiga que tanto marcou a história e os tempos da civilização humana na Terra, e que são o reflexo claro dessa excelente obra histórica e literária do estudioso francês Robert Flaceliére.
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Leitura fina constituída na erudição e no esclarecimento, numa prosa elegante e objetiva de um verdadeiro conhecedor do tema, na qual o atento Leitor - caso queira - poderá se deliciar, enquanto se torna, de quebra, mais informado e ilustrado acerca do que os gregos significaram para nós, pós-modernos.
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Da Redação.
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CITAÇÕES
Sobre o Ágora e sua diversidade sígnica e cultural:
"Todos os que dispõem de qualquer coisa para vender, escravos munidos de tecidos que acabam de fabricar, artífices do Cerâmico, de Mélite ou do Escabonidai, camponeses vindos das suas aldeias, antes do alvorecer, gentes de Mégara, tocando na sua frente os porcos, pescadores do lago Cópias, cruzam-se em todos os sentidos. Através das alamedas arborizadas, vão até os bairros que se dedicam às diversas mercadorias e que são separados por vedações móveis.Uns após os outros, de acordo com as hóras fixadas pelo regulamento, vão abrindo o mercado dos legumes, das frutas, do queijo, do peixe, da carne e dos enchidos, da criação e da caça, do vinho, da lenha, das loiças, dos objetos em segunda mão e das ferragens. Há até um canto para os livros. Cada mercador tem o seu lugar, assegurado por pagamento legal, à sombra de um toldo grande, ou de um guarda-sol, debaixo do qual expõe a sua mercadoria em cima de cavaletes perto do seu carro e dos animais em repouso. Os fregueses circulam, sãointerpelados: moços de recados e carregadores oferecem os seus serviços. Gritos, pragas e questões: os agorânomos não sabem a quem hão-de escutar. Quando os mercados ao ar livre se encontram fechados, a clientela dirige-se ao mercado coberto, um verdadeiro bazar à oriental, cujo fundo é ocupado pelos balcões." (pág.151)
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Sobre valores:
"Para os Gregos, enamorados da liberdade, depender de outrem para granjear o pão de cada dia, significava escravidão intolerável." (pág.131)
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Sobre a fundação da primeira escola de filosofia na Academia:
"Foi cerca de vinte anos depois de ele (Sócrates) ter bebido cicuta em 387 (aC.), o ano em que 'a paz do Rei' trouxe às cidades gregas uma certa tranquilidade, que Platão fundou a sua escola no ginásio da Academia. O professor e os seus discípulos procuravam em conjunto a verdade em longas discussões 'dialéticas', das quais os diálogos platônicos nos oferecem uma transposição literária. Mas não nos enganemos: essa espécie de universidade, a primeira que se abriu na Grécia, não era unicamente um local de ensino intelectual; era, ao mesmo tempo, uma espécie de comunidade religiosa, como a escola pitagórica, onde os filósofos e aprendizes de filósofo, unidos no culto das Musas, mas também pela memória do prestigioso Sócrates, se esforçavam por levar uma vida de grande pureza, a vida que prepara a alma, desembaraçada das impurezas do corpo, a subir após a morte à contemplação de Deus. A 'vida filosófica', com efeito, é uma preparação para a morte: absorve completamente o ser. É certo que Platão se não desinteressa da cidade terrestre, da qual traça o plano ideal (e utópico) na República e nas Leis, mas visa igualmente mais alto e mais longe - ao destino celeste do homem." (pág.129-130)
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Sobre a pederastia e o amor homosexual masculino como parte importante da cultura grega:
"Por muito desagradável que seja este assunto, é impossível passá-lo em claro: o amor dos rapazes desempenhou um papel demasiado importante na educação grega. Verifica-se, até, que a palavra 'amor' (eros) raramente se vê empregada nos textos da época clássica quando se trata da atração normal dos sexos e que a reservam quase exclusivamente ao amor homosexual. Um poeta como Ésquilo, que nunca representa no teatro o assunto dos Mirmidões o amor carnal de Aquiles e Pátroclo (quando a Ilíada apenas imaginou entre os dois heróis uma amizade calorosa mas pura). A tradição era tão forte na Grécia, nesse ponto, e tão persistente que, ainda na época romana, Plutarco, embora fosse ele próprio excelente marido e chefe de família numerosa, há-de crer-se obrigado a consagrar muitas páginas do seu Diálogo Sobre o Amor à demonstração de que as jovens, no fim de contas, também como os rapazes, eram capazes de inspirar um sentimento apaixonado! Argumentar-se-á que este estado de coisas provinha, em Atenas, do facto de as raparigas viverem reclusas e serem iletradas. Mas, em Esparta, onde elas se mostravam em público seminuas e onde os rapazes pouco cultivavam a inteligência, a pederastia abundava (ou calsava estragos) mais profunda e abertamente do que em Atenas. Em compensação, é inegável que a nudez dos jovens em casa do pedótriba favoreceu a pederastia. As numerosas pinturas de vasos, que representavam crianças e efebos praticando a ginástica, possuem inscrições do tipo de calos, que são outras tantas dedicatórias à 'formosos rapazes'. Mas é preciso ir mais longe. H.-I. Marrou teve razão - creio - em insistir sobre a origem militar da homosexualidade na Grécia. Limitou-se, de princípio, esta, em sua opinião, a ser uma forma de 'camaradagem guerreira' que viria a sobreviver à Idade Média helênica, mas se conservaria melhor nos estados dórios, que conheceram uma 'ossificação' arcaizante das suas instituições. Tudo se passa, de resto, aparentemente como si os próprios dórios tivessem levado esses custumes para Élade. A cidade grega, mesmo evoluída como a Atenas do século de Péricles, continua a ser um 'clube de homens', 'um meio masculino' interdito ao outro sexo, no qual a dedicação apaixonada de um homem (o erasta) e de um adolecente de doze a dezoito anos (o erómena) pode ser fomentadora de nobres sentimentos de honra e de coragem. O famoso 'batalhão sagrado' de Tebas, no século IV, é um exemplo típico da bravura colectiva sustentada e simentada por 'amizades especiais'. (pág.123-124).
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LIVRO: A Vida Quotidiana dos Gregos no Século de Péricles // AUTOR: Robert Flaceliére // EDITORA: Livros do Brasil // Lisboa: 1937.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

GUERRA: O TRIBUNAL FINAL DOS ASSUNTOS HUMANOS POR GERHARD LENSKI

QUEM?
Gerhard Emmanuel Lenski (1924). Sociólogo norte-americano.
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COMENTÁRIO
Poder e Privilegio - Teoria de la estratificación social de Gerhard Lenski é um livro muito interessante. A obra trata da distribuição de bens e renda entre as camadas sociais e tem como pano de fundo a evolução humana, desde as sociedades de catadores e coletores nômades nos longíncuos tempos ancestrais até as atuais sociedades de produção e consumo, passando pelas sociedades horticultoras primárias, secundárias, agrícolas e industriais. Certo, um estudo profundo muito bem elaborado e didático da teoria da extratificação social que deixa claríssimo o modelo político-econômico que perpetuamos através dos tempos imemoriais de desigual distribuição de riquezas e poder dentro das sociedades humanas.
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CITAÇÃO
"...la supervivência es la meta principal de la mayoría de los hombres. Si es así, se deduce que la capacidad para quitar la vida es la forma más eficaz de poder. En otras palabras, mayor número de hombres respoderán con más prontitud a la amenaza del empleo de la fuerza que a cualquier otra. En realidad, consttuye el tribunal final de apelación en los asuntos humanos; el único recurso ante la fuerza en una situación determinada es el ejercicio de una fuerza superior" (pág.62)
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LIVRO: Poder e Privilégio // AUTOR: Gerhard Lenski // EDITORA: Paidos // Lisboa: 1966

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

EDITORA ESCRIBA LANÇA LIVRO DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: NANOTECNOLOGIAS: ZÊNITE OU NADIR? POR ALEXANDRE QUARESMA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor deste blog.
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COMENTÁRIO
É com enorme prazer que apresentamos a última e mais recente publicação desta Editora Escriba. Trata-se do livro de Alexandre Quaresma intitulado Nanotecnologias: zênite ou nadir? Que já está disponível para aquisição na Livraria Cultura, mesmo antes do lançamento oficial que se dará no VII SEMINANOSOMA - Seminário Internacional de Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente (dias 10, 11 e 12.11.2010 no Hotel Softel, Copacabana, Rio de Janeiro, RJ). Este livro é o resultado de intensas pesquisas sobre o tema 'nanotecnologias' realizadas por ALEXANDRE nos últimos cinco anos junto à RENANOSOMA [1], e mais especialmente depois do VI SEMINANOSOMA (2009, Manaus, AM), donde foram extraídas as conclusões.
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[1] RENANOSOMA - Rede de Pesquisa em Nanotecnologias, Sociedade e Meio Ambiente, coordenada pelo Prof. Dr. Paulo Roberto Martins.
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LIVRO: Nanotecnologias: zênite ou nadir? // AUTOR: Alexandre Quaresma // CAPA: Juliano Thuran // EDITORA: Escriba // Rio de Janeiro: 2010

LINKS
* versão impressa na Livraria Cultura
* versão e-book no Clube de Autores
* entrevista no programa "Nanotecnologia do Avesso" na AllTV
* artigo "Livro discute impactos das nanotecnologias" no site Inovação Tecnológica

sábado, 18 de setembro de 2010

A ILUSÃO DE LIBERDADE DOS SUJEITOS ECONÔMICOS NA SOCIEDADE BURGUESA

QUEM?
Max Horkheimer (1895/1973). Filósofo e sociólogo alemão.
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COMENTÁRIO
Teorizar sobre a teoria é tarefa hercúlea. Própria às cabeças privilegiadas e aos espíritos não resignados quanto às incertezas do mundo factual a seu redor, e que se lançam à inprovável aventura de conhecer o mundo na tentativa de representá-lo metafisicamente através de aproximações o mais exatas possíveis. Trata-se de captar, catalogar e ordenar os fatos de modo que estes possam ser acessados por qualquer um que domine os signos empregados nas abstrações com o máximo de objetividade. Teoria Tradicional e Teoria Crítica é um texto de Horkheimer dedicado a isso: a elucidar a complexa dinâmica dessas representações.
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CITAÇÃO
"Nem a estrutura da produção industrial e agrária nem a separação entre funções diretoras e funções executivas, entre serviços e trabalhos, entre atividade intelectual e atividade manual, constituem relações eternas ou naturais, pelo contrário, estas relações emergem do modo de produção em formas determinadas de sociedade. A aparente autonomia nos processos de trabalho, cujo decorrer se pensa provir de uma essência interior a seu objeto, corresponde à ilusão de liberdade dos sujeitos econômicos na sociedade burguesa. Mesmo nos cálculos mais complicados, eles sãoexpoentes do mecanismo social invisível, embora creiam agir segundo suas decisões individuais." (pág.131)
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LIVRO: Textos Escolhidos // AUTORES: Max Horkheimer // Título: Teoria Tradicional e Teoria Crítica // EDITORA: Abril Cultural // COLEÇÃO: Os Pensadores // São Paulo: 1975 // 1a edição

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

PETER SLOTERDIJK: CARTAS A CAMINHO DE AMIGOS DESCONHECIDOS

QUEM?
Peter Sloterdijk (1947). Filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Regras para o parque humano é um livro contundente. Logo de cara, quando apresentado num evento na Baviera (1999), gerou uma polêmica fortíssima que se arrasta até os dias atuais, pois o assunto é muito novo e deveras instigante: a criação, manipulação e controle de seres humanos por seres humanos. Seara profunda e escorregadia que se faz importante devido ao exponencial avanço das bionanotecnociências. Certo, um dos pontos nevrálgicos da temática pós-humanismo, já tratada anteriormente aqui neste blog.
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Nessas brilhantes passagens de clareza flagrante vemos o autor descrever com grande maestria as nuances do trabalho literário dos escritores filósofos que, de um modo ou de outro, fazem suas apostas cegas num possível leitor não-identificado do amanhã, e no próprio futuro como possibilidade imanifesta que repousa serenamente no por-vir - digo - no vir-a-ser.
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CITAÇÕES
"Faz parte das regras do jogo da cultura escrita que os remetentes não possam antever seus reais destinatários; não obstante, os autores lançam-se à aventura de pôr suas cartas a caminho de amigos não-identificados." (pág.8)
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"... o remetente desse gênero de cartas de amizade envia seus escritos ao mundo sem conhecer os destinatários - ou, caso os conheça, está consciente de que o envio das cartas os ultrapassa e consegue criar uma multiplicidade indeterminada de oportunidade de estreitar amizades com leitores anônimos muitas vezes ainda nem nascidos." (pág.9)
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"A escrita não só estabelece uma ponte telecomunicativa entre amigos manifestos vivendo espacialmente distantes um do outro no momento do envio da correspondência, mas também põe em marcha uma operação rumo ao que não está manifesto: ela lança uma sedução ao longe, um actio in distans, no idioma da magia da antiga Europa, com o objetivo de revelar o amigo desconhecido enquanto tal e levá-lo a ingressar no círculo de amigos." (pág.10)
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LIVRO: Regras para o parque humano // AUTOR: Peter Sloterdijk // EDITORA: Estação Liberdade // São Paulo: 2000

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

HORKHEIMER E ADORNO: A DOMINAÇÃO SOCIAL PELA DIVISÃO DO TRABALHO

QUEM?
Max Horkheimer (1895/1973). Filósofo e sociólogo alemão.
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Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903/1969). Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt.
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COMENTÁRIO
O Conceito de Iluminismo de Max Horkheimer e Theodor Adorno é um texto antológico. Nele, os autores mostram toda sua competência ao dissertar sobre as dinâmicas deste momento histórico tão importante da humanidade (Iluminismo), e como ele influenciou o mundo que nos cerca e a forma como o compreendemos.
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Nessa citação escolhida a dedo teremos uma descrição perfeita da estrutura de dominação social que se perpetua na civilização desde que o mundo é mundo, infiltrando-se também no pensamento.
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Da redação.
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CITAÇÃO
"A dominação confere maior força e consistência ao todo social no qual se estabelece. A divisão do trabalho, na qual a dominação se desenvolve socialmente, serve á autoconservação do todo dominado. Mas com isso, o todo como tal, a atividade da razão a ele imanente, torna-se execução do particular. A dominação faz frente ao indivíduo a título de geral, de razão na esfera da realidade. O poder de todos os membros da sociedade, que enquanto tais não dispõem de outra saída aberta, soma-se, sempre de novo, pormeio da divisão de trabalho que lheséimposta, para a realiozação justamente do todo, cuja racionalidade assim é por sua vez multiplicada. O que éfeito a todos por poucos, perfaz-se sempre pela subjugação de alguns por muitos: a opressão da sociedade exibe sempre, ao mesmo tempo, os traços da opressão exercida por um coletivo. É essa unidade de coletividade e dominação, e não a imediata generalidade social, a solidariedade, que se sedimenta nas formas dopensamento." (pág.110)
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LIVRO: Textos Escolhidos // AUTORES: Max Horkheimer e Theodor Adorno // Título: Conceito de Iluminismo // EDITORA: Abril Cultural // COLEÇÃO: Os Pensadores // São Paulo: 1975 // 1a edição

terça-feira, 14 de setembro de 2010

MAX HORKHEIMER E THEODOR ADORNO: O MITO EXPIANDO-SE A SI

QUEM?
Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903/1969). Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt, juntamente com Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e outros.
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Max Horkheimer (1895/1973). Filósofo e sociólogo alemão.
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AFORISMO
"Nos mitos, todo acontecer tem que expiar seu ter acontecido." (pág.103)
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COMENTÁRIO
Nós, da Editora Escriba, também nos ocuparemos em refletir longamente sobre isso.
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LIVRO: Textos Escolhidos // AUTORES: Max Horkheimer e Theodor Adorno // Título: Conceito de Iluminismo // EDITORA: Abril Cultural // COLEÇÃO: Os Pensadores // São Paulo: 1975 // 1a edição

PÓS-HUMANO: SERIA ESSE O NOSSO FUTURO?

CITAÇÕES
“A diferença entre o artificial e o natural desapareceu, o natural foi tragado pela esfera do artificial...” (HANS JONAS 2006:44)
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“Nenhum objeto, nenhum espaço, nenhum corpo é, em si, sagrado; qualquer componente pode entrar em uma relação de interface com qualquer outro desde que se possa construir o padrão e o código apropriados, que sejam capazes de processar sinais por meio de uma linguagem comum.” (DONNA HARAWAY 2009:62)

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“Uma das características mais notáveis desta nossa era (chamem-na pelo nome que quiserem: a mim, ‘pós-moderna’ não me desagrada) é precisamente a indecente interpenetração, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina. Em um nível mais abstrato, em um nível ‘mais alto’, essa promiscuidade generalizada traduz-se em uma inextrincável confusão entre ciência e política, entre tecnologia e sociedade, entre natureza e cultura.” (TOMAZ TADEU 2009:11)

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“...há muitos entusiastas que estão convencidos de que com computadores mais poderosos e novas abordagens à computação, como as redes neurais, estamos no limiar de uma revolução em que computadores mecânicos alcançarão a consciência. Tem havido conferências e discussões sérias na tentativa de definir se seria moral desligar uma máquina como essa se e quando esse avanço ocorrer, e se precisaríamos atribuir direitos a máquinas conscientes.” (FRANCIS FUKUYAMA 2003:174)

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“Pode uma inteligência criar outra inteligência mais inteligente do que ela própria?” (RAY KURZWEIL 2007:67)

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“Este fenômeno que Turing
havia previsto: o de que a inteligência das máquinas se tornasse tão penetrante, tão confortável e tão bem integrada à nossa economia baseada em informação que as pessoas sequer conseguiriam se dar conta disso.” (RAY KURZWEIL 2007:108)
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“A maioria dos aplicativos de rede neural com base em computadores, hoje, simulam seus modelos de neurônios em software.” (RAY KURZWEIL 2007:118)

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“As ciências da comunicação e a biologia caracterizam-se como construções de objetos tecnonaturais de conhecimento, nas quais a diferença entre máquina e organismo torna-se totalmente borrada; a mente, o corpo e o instrumento mantêm, entre si, uma relação de grande intimidade.” (DONNA HARAWAY 2009:67)


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

AFORISMO FREUDIANO

QUEM?
Conceito: Sigmund Freud (1856/1939). Médico neurologista austríaco
judeu pai da psicanálise.

Aforismo: Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog.
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COMENTÁRIO
Para Sigmund Freud nós - irremediavelmente - internalizamos sempre uma série de valores e conceituações da realidade à nossa volta através das experiências sensórias na construção de nossa personalidade e sua acomodação dentro da cultura, valores esses que vão se sobrepondo uns aos outros com o desenvolvimento do indivíduo rumo à maturidade física e psíquica. Segundo ele, tais fenômenos - que impulsionam a vida - operam em cada pessoa através da interação de figuras alegóricas criadas por ele para explicar seu funcionamento, que representariam as forças primordiais e primevas que se contrapõem e se complementam na dinâmica interior da manifestação da psiquê humana. Dentro do universo freudiano o Superego (parte da mente que se ocupa com as questões éticas e morais) cumpre o importante papel de não deixar o Ego (que age a partir do Id e controla sua manifestação) fugir de controle, bem como o de administrar as invenções e aprontações treslocadas do Id (fonte da energia psíquica humana, ou seja, a libido).
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Neste contexto, então, surge a analogia metafórica e aforística em tela.
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Da redação.
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AFORISMO
"A epistemologia bioética é o super-ego da tecnociência pós-moderna."
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sábado, 11 de setembro de 2010

FRIEDRICH NIETZSCHE: SOBRE AS CONVICÇÕES

QUEM?
Nietzsche perto da morte.
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COMENTÁRIO
Na imagem acima vemos o filósofo em seus últimos dias sobre a face da Terra sob a forma carnal. Pois seus escritos e pensamentos sobreviveriam a ele... Iriam adiante... Ele sabia.
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AFORISMO
"Convicções são prisões." (pág.365)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição

NIETZSCHE: CRÍTICA AOS FUNDAMENTOS DA LIBERDADE CIVILIZADA

QUEM?
Friedrich Nietzsche (1844/1900). Filósofo niilista alemão.
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COMENTÁRIO
O que significa liberdade? O termo, o verbo, mas também sua essência e significado mais pleno que reside aí, nele, e que, de certa forma, implica-nos irreversivelmente a todos num enredamento invisível e extremamente absorvente. Tudo para que os homens e mulheres desse pobre e miserável mundo pudessem se amontoar e se digladiar na infame vida em sociedade. As cidades, os rebanhos, as multidões bovinas, as guerras, as crenças, as farsas, enfim, a hipocrisia humana.
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CITAÇÃO
"Pois o que é liberdade? Ter a vontade de responsabilidade própria. Manter firme a distância que nos separa. Tornar-se indiferente a cansaço, dureza, privações, e mesmo à vida. Estar pronto a sacrificar à sua causa seres humanos, sem excluir a si próprio. Liberdade significa que os instintos viris, que se alegram com a guerra e a vitória, têm domínio sobre outros instintos, por exemplo, sobre o da 'felicidade'. O homem que se tornou livre, e ainda mais o espírito que se tornou livre, calca sob seus pés a desprezível espécie de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas." (pág.349)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A RECURSIVIDADE OUROBÓRICA NIETZSCHEANA

QUEM?
Friedrich Nietzsche (1844/1900). Filósofo niilista alemão.
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COMENTÁRIO
Ler o filósofo alemão Friedrich Nietzsche é para quem não sofre de vertigem. Sim, pois ele nos leva às alturas - e não devemos refugar em sua companhia ou de seus pensamentos - e de lá, do alto de suas ideias niilistas se respira, como ele mesmo nos diz, e podemos experimentar em seus pensamentos, ares mais puros de paragens mais amplas e abertas. E, de lá, dos picos enregelados da solidão do ser desamparado de um Deus, não há mais embustes nem mentiras que possam desviar nosso olhar ou nossa atenção mortal. Não há mais crença, não há mais verdades, que dirá absolutas ou permanentes, sobrando apenas - com sorte - nossa vontade mais vital e essencial diante da razão e da experiência individual: que nada mais é que - usando as palavras do próprio Nietzsche - vontade de potência.
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CITAÇÃO
"Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre escoará outra vez, - um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reúnam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez." (1974:397-398)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição

FRIEDRICH NIETZSCHE: A DEPENDÊNCIA VISCERAL DO CRENTE


QUEM?
Friedrich Nietzsche (1844/1900). Filósofo niilista alemão.
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COMENTÁRIO
Nietzsche detestava os carolas, os otários, os crentes. Acreditava que eram seres menores embrulhados por seus próprios pares, por impostores espúrios igualmente inferiores e, o que é pior, ludibriados por vontade própria e pura inclinação voluntária: como cordeiros, como rebanho, como imbecis enganados e manipulados. Culpados, punidos e castigados previamente por uma moral fantasiosa de mundos improváveis pós-mundo, de compensações e castigos intermináveis que - de fato - transformam o mundo real num verdadeiro inferno invivível; pura balela. Para Nietzsche, isso era anti-vida, puro desperdício, perda de tempo. Vidas em vão... Consumidas... Para nada, para uma mentira.
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Nessa passagem, retirada de seu livro O Anticristo, vemos transpirar em seus poros essa agonia que sentia ao divisar ou pensar sobre os cordeirinhos pastando docilmente em torno de seus pastores impostores e suas doutrinas infames. Rascante, profundo, definitivo: Nietzsche.
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CITAÇÃO
"O homem da crença, o 'crente' de toda espécie, é necessariamente um homem dependente - um homem que não é capaz de se propor como fim, que em geral não é capaz de propor fins a partir de si. O 'crente' não se pertence, só pode ser meio, tem de ser consumido, necessita de quem o consuma." (1974:366)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

NIETZSCHE: O MÍNIMO POSSÍVEL DE ESTADO!

QUEM?
Friedrich Nietzsche (1844/1900). Notável filósofo alemão.
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AFORISMO
"O mínimo possível de Estado!" (pág.184)

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COMENTÁRIO
Nietzsche: "Todas as relações políticas e econômicas não merecem que precisamente os espíritos mais dotados possam e devam ocupar-se com elas: um tal consumo do espírito, no fundo, é pior do que um estado de indigência. São e permanecem domínios de trabalho para cabeças pequenas, e outras cabeças que não as pequenas não deveriam estar em serviço nessas oficinas..." (pág.184)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição

O CRENTE E O ESPÍRITO LIVRE SEGUNDO FRIEDRICH NIETZSCHE

QUEM?
Friedrich Nietzsche (1844/1900). Notável filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Nietzsche era inclemente com os imbecis. O tolos, ingênuos e cândidos (mesmo os volterianos) não tinham melhor sorte com ele. Na passagem extraída do livro Gaia Ciência vemos esse brilhante filósofo alemão niilista esbanjar seu talento e tino filosófico desalojando toda certeza crédula de falsos dogmas, transportando-as para um universo de ceticismo ateu desesperado, amparado sempre e apenas pela velha razão e experiência: grandes mestras e companheiras de jornada de todo filósofo, seja ele amador ou profissional.
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CITAÇÃO
"Onde um homem chega à convicção fundamental de que é preciso que mandem nele, ele se torna 'crente'; inversamente, seria pensável um prazer e força da autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda crença, de todo desejo de certeza, exercitado, como ele está, em poder manter-se sobre leves cordas e possibilidades, e mesmo diante de abismos dançar ainda. Um tal espírito seria o espírito livre par execellence."(pág.223)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição