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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O OLHAR PRECISO DE GUY DE MAUPASSANT

QUEM?
Henry René Albert Guy de Maupassant (1850/1893). Notabilíssimo escritor e poeta francês inclinado em suas histórias a criar ambientes psicológicos e também de crítica social lançando mão da interessante técnica de construção literária chamada naturalista. Foi amigo pessoal e discípulo de Gustave Flaubert. Além de romances e peças de teatro, Maupassant deixou 300 contos, todos obras de grande valor.
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COMENTÁRIO
Certos escritores talentosos, como é o caso de Guy de Maupassant, são capazes de traçar um raio X perfeito de sua época, de seus costumes, de sua vida social, e ainda criticá-los com grande sabedoria e eloquência, e tudo isso num só parágrafo; tarefa digna dos gênios. E ele o era. Não é por certo sem razão que seu nome está estreitamente associado a este gênero de literatura tão adorado e cultuado através do tempos: o Conto. Nesta citação proveniente do conto O Abandonado, vemos Maupassant, em grande estilo, numa dura e mordaz crítica aos casamentos arranjados e às inevitáveis consequências que esta retrógrada prática provocava, ao enredar mulheres e homens cujas vidas eram arranjadas, combinadas, misturadas quase sempre sem afeição, única e exclusivamente de acordo com as necessidades da soberba conveniência. O resultado? O adultério. Velado, discreto, conveniente e, especialmente, sutil para não afrontar a sensível sociedade francesa daqueles tempos outrora.
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CITAÇÃO
"Haviam-na casado, como em geral casam as moças. Mal conhecia o noivo, um diplomata, em companhia do qual viveu, mais tarde, a mesma vida vivida por todas as mulheres da sociedade." (pág180)
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LIVRO: Histórias Eternas // AUTOR: Guy de Maupassant // CONTO: O Abandonado // EDITORA: Cultrix // São Paulo // 1959

sábado, 25 de julho de 2009

O DRAMA HUMILDE DE GUY DE MAUPASSANT

QUEM?
Henry René Albert Guy de Maupassant (1850/1893). Notabilíssimo escritor e poeta francês inclinado em suas histórias a criar ambientes psicológicos e também de crítica social lançando mão da interessante técnica de construção literária chamada naturalista. Foi amigo pessoal e discípulo de Gustave Flaubert. Além de romances e peças de teatro, Maupassant deixou 300 contos, todos obras de grande valor.
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COMENTÁRIO
Guy de Maupassant viveu pouco mas produziu muito. O próprio estilo literário conto está intimamente ligado a seu nome. Aos quarenta anos, dez apenas depois de ingressar na carreira literária estimulado pelo grande e notório Flaubert, é acometido de uma doença mental que em pouco tempo se agrava, e ele vem assim a falecer em 1893, aos 43 anos, em La Maison Blanche, famoso sanatório de Passy, depois de uma carreira brilhante e meteórica. Natural da Normandia, belíssima região da França, ele foi mais um notório escritor que - assim como Michel de Montaigne - nasceu e viveu em castelos, ou seja, nasceu em meio à privilegiada burguesia de sua época, o que nem sempre é grande vantagem para um escritor ou aspirante que abraça a profissão das letras. A vida fácil, sem muitas dificuldades para serem superadas, nem sempre é boa amiga da criação artística com as letras. Parece faltar-lhe o suor do pão por ganhar - como diz sabiamente Romain Rolland em Jean-Christophe - algo que enfraquece indubitavelmente a intensidade da arte que quer se exprimir através do artista. Mas, definitivamente, não era este o caso dele. Fato é que, este autor francês, Maupassant, teve grande êxito e ficou conhecido especialmente por seu estilo econômico e simples, que dispensa grandes acontecimentos ou pessoas, e que ainda assim vai ao âmago da vida humana e rouba-lhe o significado mais puro para escrever sua histórias; sempre numa prosa leve e marcada pela suavidade pouco atribulada.
Na passagem escolhida aqui, pinçada a dedo no belo conto Drama Humilde vemos o vulto horripilante e avassalador da morte arrasar com uma família, numa descrição curta e precisa do autor, que fala através da boca de uma velha desconhecida coadjuvante que o narrador encontra por acaso em uma de suas viagens, dentro do belíssimo conto Drama Humilde. Vale lembrar que, ao contrário de muitos autores famosos e reconhecidos, Maupassant prefere ser um proseador das pessoas e acontecimentos simples, singelos, humanos, sem artifícios e sem rebuscamento. Um grande autor que produziu em dez anos a obra inteira de uma vida. Muito bom!
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CITAÇÃO
"- Meu marido morreu. Depois foi a vez de meu pai, em seguida perdi minhas duas irmãs. Quando a morte entra numa casa, é como se quisesse ceifar o máximo para não precisar voltar tão cedo. Só deixa vivas uma ou duas pessoas para que chorem as outras." (pág59)
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LIVRO: Histórias Eternas // AUTOR: Guy de Maupassant // CONTO: Drama Humilde // EDITORA: Cultrix // São Paulo // 1959

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A MORTE ATRAVÉS DAS LETRAS SICILIANAS DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro Novelas para um Ano - O Velho Deus e do romance O Falecido Mattia Pascal. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
A morte fascina e sempre fascinará escritores de todas as gerações. Sim, porque sua eminência inexorável impõe temor mesmo nos menos apegados à vida. Além de que sua irreversibilidade e sua infalibilidade, há milênios comprovadas, provocam no sujeito que reflete sobre ela uma mística fascinação que, sem sombra de dúvida, estimula e dá asas à imaginação. Segundo Sigmund Freud, que se debruçou sobre o assunto como poucos, não podemos sequer conceber o mundo sem considerar a nossa própria existência; ou seja, não conseguimos nem pensar direito nela - na morte - devido ao nosso desmedido e inveterado antropocentrismo umbiguístico. Por estas e por muitas outras razões, a morte exerce atração magnética sobre a alma humana que, diante dela, sempre extremece. Na impossibilidade de compreendê-la plenamente - por razôes óbvias, pois estamos vivos - tratamos logo de dar-lhe cara e contornos quase sempre segundo nosso pobre e mortal imaginário, e fatalmente segundo nossa própria imagem e semelhança.
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Para muitos a morte é poder re-integrar à força plena e natural que um dia nos gerou. Eu concordo e acho também que, além disso, deve ser como um descanso longo, profundo e reconfortante, depois de uma vida atribulada e cheia de incertezas e apurrinhações. Aliás, dizem os entendidos que por lá não existe mais dor, nem paixão, nem remorso, nem nenhuma destas lamentáveis penas que nós comumente arrastamos de lá para cá e daqui para lá nesta vidinha besta e mortal. Todavia, como não há escolhas com relação à esta Nobre Dama que um dia virá nos buscar, tratemos antes de tudo de sermos felizes gozando os dias como se estes nos fossem caríssimos, e também os últimos antes de tão fatídico e mórbido encontro; e, por que não, escrevamos com sabedoria sobre ela! Missão imputável apenas às mentes mais privilegiadas capazes de abstrair suas próprias insignificâncias diante do infinito cósmico do universo.
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Na citaçãos escolhidas, vemos o admirável escritor e dramaturgo Luigi Pirandello numa belíssima reflexão sobre um defunto, passagem esta oriunda do conto Os pensionistas da memória, texto filosófico e meio fantástico, onde este autor nos leva a dar voltas com a idéia irrefutável da morte, e o embaraço que é para os vivos lidar com um cadáver; muito bom!
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Da Redação.
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CITAÇÕES
"Que sorte, a vossa! Acompanhar os mortos ao cemitério e depois voltar para casa, eventualmente com uma grande tristeza na alma e um grande vazio no coração, se o morto vos era querido; e se não, com a satisfação de ter cumprido um dever penoso e querendo dissipar, ao tornar às ocupações e ao corre-corre da vida, a consternação e o abatimento que a idéia e o espetáculo da morte sempre incutem. Todos, de qualquer forma, com uma sensação de alívio, pois mesmo para os parentes mais íntimos, o defunto - sejamos honestos - com aquela gélida e imóvel rigidez impassivelmente oposta a todos os cuidados que lhe prestamos, a todo pranto vertido ao seu redor, é um tremendo estorvo, de que a própria dor - por mais que dê sinais e ainda tente desesperadamente fazer-se pesar - gostaria, no fundo, de se liberar." (pág167)
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"Vamos, vamos! Sabeis, na verdade, por que chorais? Vós chorais por outra razão, meus caros, por uma razão de que não suspeitais nem de longe. Chorais porque o defunto, ele, não pode mais vos dar uma realidade. Dão-vos medo os seus olhos fechados, pois não podem mais ver-vos; aquelas suas mãos duras e gélidas, que não podem mais tocar-vos. Não encontrais paz por causa daquela sua absoluta insensibilidade. Portanto, exatamente poque ele, o defunto, não vos sente mais. O que significa que para vossa ilusão caiu, junto com ele, um apoio, um conforto: a reciprocidade da ilusão." (pág172)
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LIVRO: Dona Mimma - Novelas para um ano // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Berlendis & Vertecchia Editores // São Paulo // 2002

PUSHKIN NUMA SENTENÇA

QUEM?
Alexandre Pushkin (1799/1837). Notável romancista e poeta russo. Considerado por muitos o maior dos poetas russos e o fundador da literatura moderna deste país. Foi pioneiro no uso da língua coloquial em seus poemas e peças, criando um estilo narrativo que mistura drama, romance e sátira. Como poeta, fazia uso de expressões e lendas populares, marcando os seus versos com a riqueza e diversidade do idioma russo. Influenciou autores como Gogol, Liermontov e Turgeniev.
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COMENTÁRIO
Nesta fantástica sentença filosófica, vemos a genialidade deste mestre russo da pena usando, com equilíbrio, elementos de humor e sagacidade. A citação escolhida veio do conto A Dama de Espadas onde ele, Pushkin, faz referência aos desmiolados e cabeças duras que existem no mundo de uma maneira geral. Sensacional!
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CITAÇÃO
"Duas idéias fixas não podem coexistir no mundo moral, assim como, no mundo físico, dois corpos não podem ocupar simultâneamente o mesmo lugar." (pág213)
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LIVRO: A Dama de Espadas // AUTOR: Pushkin // EDITORA: Livraria Martins // São Paulo // Sem data

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A HISTÓRIA DE UM CAVALO SENSÍVEL ATRAVÉS DA PENA COMPETENTE DE LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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COMENTÁRIO
Kholstomér é um cavalo interessantíssimo mais humano que muito ser humano. Sensível, conta sua própria história de forma admirável, sob o bailar suave da pena competente deste mestre da literatura russa: Leão Tolstói. O conto em questão é de extrema delicadeza e acaba por nos mostrar de maneira inequívoca a alma dos animais e o quão inteligente e notáveis são estes seres. Infelizmente, estes são - de maneira geral - sacrificados, subjugados e mortos por nossas infindáveis crueldades humanas. Nós, seres ditos racionais, elevados e superiores. Uma lástima brutal. Envoltos em nossa razão pseudo avantajada, vamos explorando as demais espécies, como se só a nós fosse dado o direito de sobreviver em paz neste mundo. Maltratando e destruindo as demais criaturas vivas, interferimos numa delicada e singela harmonia natural, e deste modo, sem conhecimento e consciência, vamos cavando nossa própria sepultura ao extingui-los. Já é mais do que hora de acordarmos para estas barbaridades, e assim tratarmos com - no mínimo - mais respeito, estes inocentes e belos seres vivos - que, mesmo que não saibamos - são nossos irmãos naturais dentro desta infinidade de manifestações diferentes que a vida achou para se aparelhar nesta singular dimensão. Assim, sejamos mais justos e menos prepotentes com nossos companheiros animais. É imperativo. A própria razão o dita!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras "meu", "meu potro", palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe do estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consitia este vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não hove jeito de entender o que significava me chamarem de propriedadede um homem. As palavras "meu cavalo", referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras 'minha terra', 'meu ar', 'minha água'." (pág74)
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LIVRO: O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS // AUTOR: LEÃO TOLSTÓI // EDITORA: COSACNAIFY // SÃO PAULO // 2000/2005.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A LOUCURA CONCEITUAL DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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CITAÇÃO
"Eu passo por louco por que quero viver ali, naquilo que para os senhores foi um momento, um lampejo, um fresco e breve fiapo de sonho vivo e luminoso, fora de todos os caminhos habituais, de todos os costumes, livre de todas as velhas aparências, respirando sempre novos e abertos horizontes, entre coisas sempre novas e vivas." (pág199)
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COMENTÀRIO
Mestre Pirandello fala com eloquência pela boca de seus personagens. Aqui, nesta citação, trata-se de um mendigo enfermo que, vira e mexe, acorda no hospital, e que ainda assim, mesmo combalido e fustigado pela vida, e pela idade, continua a exalar um ar pleno e orgulhoso de sua liberdade, diante até dos que o tratam a saúde. Tocante e lúdico, existencialista e anárquico, o belíssimo conto A Mão do Doente Pobre é uma jóia dentre muitas outras jóias, que são, sem exagero alegórico, os escritos deste hábil proseador Siciliano. Simplesmente Magnífico!
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LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

segunda-feira, 16 de março de 2009

A LUZ DA OUTRA CASA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
Quem nunca se sentiu meio esquisito, indisposto, com a alma inquieta, como se fosse mesmo um estranho dentro de sua própria vida? Um sentimento de despertencimento profundo e isso, com tudo estando aparentemente bem? Pois é, este sentimento absorvente de vazio pode chegar de repente e nos pregar uma peça, desamparando-nos psiquicamente, desorganizando-nos. Do nada, tudo à nossa volta se apresenta assim meio que sem sentido, em aparente desordem, pelo menos aos nossos olhos, e aí: vai-se a bendita tranquilidade e paz de espírito que tanto prezamos. Por vezes, tal força pode transcender em poder o sujeito que sofre a sua ação, a sua influência, sobrepujando-o, devorando sua existência vorazmente, sem que ele mesmo sequer perceba sua manifestação. O contrário oposto também pode acontecer: estarmos em meio a uma vida sem nenhum sentido cognocível, vagando pelos dias e, do nada, tudo se reverte drasticamente em paz, harmonia e pertencimento - pleno e profundo. Geralmente, os gatilhos de tais situações, que disparam o dispositivo interno desta mudança radical de estado de espírito, apresentam-se a nós sob a forma de um acontecimento ou pessoa marcante, que vem, se impõe e nos transforma. É disso que Pirandello trata com maestria em seu belíssimo conto A Luz da Outra Casa. O personagem principal da estória é uma figura solitária, que teve uma infância difícil, que perdeu a mãe em situação trágica pelas mãos do pai bêbado, e que passa os dias da vida assim, como se esta não lhe pertencesse de fato, até que um acontecimento mágico e inusitado muda o seu destino de maneira dramática e radical.
Leitura sensível, finíssima, que reflete os mais profundos meandros da alma humana em sua inexorável amplidão, e que nos faz pensar sobre o que nos move a vida, e o que confere a esta sentido ou não. Numa só palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Daquele dia em diante, todas as tardes, ao sair da repartição, em lugar de dar seus habituais passeios solitários, voltava para casa; esperava todas as noites que a escuridão do seu quartinho se aclarasse suavemente com a luz da outra casa, e ali ficava, por detrás dos vidros, como um mendigo, saboreando com infinita angústia a doce e feliz intimidade, o conforto familiar de que os outros gozavam, e de que ele, em criança também gozara em alguma rara noite de paz quando a mãe... a sua mãe... como aquela...
E chorava." (pág116)
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LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sábado, 7 de março de 2009

DUAS ESPOSAS DE NINO MO POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel no ano de 1934.

CITAÇÃO
"O barco de pesca, ao qual o capitão Nino Mo dera o nome de "Filippa" em memória de sua primeira mulher, entrava no ancouradouro de Porto Empedocle no resplandecer de um magnífico por do Sol do Mediterrâneo, quando as águas, na sua infinita extensão, tremeluzem e palpitam num delírio colorido de luzes. cintilam os vidros das casas multicolores, brilham as margas do planalto onde se encosta a aldeia, esplende como ouro o enxôfre amontoado na extensa praia; único contraste é a sombra do antigo castelo à beira-mar, quadrado e fosco, no alto do dique."

COMENTÁRIO
Ao retornnar da pesca, o velho marinheiro Nino Mo, sábio e tranqüiulo, se depara com uma situação, no mínimo, inesperada: sua molher - que ecreditava estar morta - reaparece, para sua perplexidade total, criando uma bela de uma confusão, que acaba por envolver também os pacatos concidadãos da aldeia onde reside. Conto interessantíssimo, de questionamento filosófico e social claro, do que é lícito e do que não é, com final surpeendente; tudo elegantíssimo, à moda de Luigi Pirandello. (pag07)

LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Morta e a Viva // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sexta-feira, 6 de março de 2009

O VENTO MISTRAL POR ALPHONSE DAUDET

QUEM?
Alphonse Daudet (1840-1897), na foto - por conhecidência premeditada - com seu amigo e também escritor, o francês Frédéric Mistral (1830/1914), em Provance.
Daudet era escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia. Em alguns contos, lança mão até do Realismo Fantástico, como estrutura de redação para expressar sua fina elegante prosa provencal. Escreveu, entre outras obras, os contos da coletânea Cartas de meu Moinho, e Cartas de Segunda-feira, contendo estórias belíssimas de leveza e profundidade sem igual.

CITAÇÃO
"Esta noite não consegui dormir. O mistral encolerizara-se e o estrépito de sua voz poderosa conservara-me acordado até pela manhã. Balançando penosamente as asas mutiladas, que oscilavam à brisa como as velas e o cordame de um navio, o moinho inteiro estalava. Telhas voavam do telhado fustigado pelo vento. Ao longe, o denso pinheiral que recobre a colina, agitava-se e rumorejavam na sombra. Podíamos imaginar-nos em pleno mar..." (pág124)

COMENTÁRIO
O mar pode assustar até quem está em terra firme, que dirá a bordo de um casca de noz, singrando por mares revoltos, em meio às ondas. Um vento mais forte, uma tempestade, podem mudar o destino de pessoas, e até de lugares, haja vista tufões, tornados, ciclones e toda a família de vendavais e furacões, que assolam os mares do Mundo desde de sempre. Quando começamos a navegar por aí, em tempos imemoriais, estivemos sempre sujeitos aos caprichos desta força imperativa e fantástica da natureza, que quando quer, se impõe, à revelia das vontades de nós, pobres humanos e mortais, em sua míseras naus. Ainda mais agora, em tempos de aquecimento global , degêlo de calotas polares, e mudanças drásticas no clima; pelo visto, a coisa tende a degringolar de vez, agitando ainda mais os ventos e os mares. Uma boa tempestade, mesmo em terra, nos faz lembrar à força e com bastante austeridade, quem é que 'manda no pedaço', ou melhor, no Planeta.
Afora a digressão, o Mistral - não o da foto, mas o fenômeno - é um vento catabático (da palavra grega katabatikos que significa "descendo colinas"), que transporta ar de alta densidade de uma elevação descendo a encosta devido à ação da gravidade. Estes ventos são por vezes chamados "ventos de Outono". O Mistral se caracteriza por ser um vento seco e frio dos quadrantes do norte que sopra no Sul da França, terra de nosso autor Alphonse Daudet.
Da redação Escriba.

LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo // Sem data

quinta-feira, 5 de março de 2009

A CRUELDADE HUMANA CONTRA OS ANIMAIS PELA PENA DE ALPHONSE DAUDET

QUEM?
Alphonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia. Escreveu, entre outras obras, os contos da coletânea Cartas de meu Moinho, e Cartas de Segunda-feira, contendo estórias belíssimas.

COMENTÁRIO
A espécie humana é como uma praga que espalha seu rastro de destruição por toda parte, esgotando o ambiente do qual depende, subjugando, explorando e dizimando todos os outros seres vivos cruelmente, considerando erroneamente que os animais, vegetais e demais seres viventes sejam destituidos de espiríto, ou alma - tanto faz o termo que queiramos aplicar aqui - e vai extinguindo assim a vida no Planeta. Não é a toa que o Mundo está a balbúrdia que está, e tenhamos resolvido despejar nossos esgotos nos mares e rios de nossas próprias cidades, nestes mananciais da vida; e que tenhamos envenenado o ar que respiramos, despejando todo tipo de toxínas nele, tornando-o pesado e insalubre de se respirar; e que por fim tenhamos virado uma espécie de praga antropocêntrica extremamente bem adaptada, insustentável e voraz, que como um câncer, vai matando seu hospedeiro - o Planeta - a despeito de morrer junto com ele, em um colapso Global.
Nesta triste e muito bem escrita passagem do francês Alphonse Daudet somos capazes de ver a sua angústia de escritor humanista e sensível diante das barbáries contra os animais - já naquela época - das quais nós humanos somos capazes, desde de que o mundo é mundo. Mesmo hoje, quase duzentos anos depois, mais conscientes e sábios, ainda permitimos que existam hábitos atrozes e selvagens de caçadas e mortandades contra os animais da fauna planetária, a despeito de comprometermos o equilíbrio ecológico de forma tão dramatica, a ponto de por em risco nossa própria sobrevivência; enquanto os pobres animais, nossos meio-irmãos, nossos companheirinhos de viagem - inocentes co-tripulantes a bordo desta imensa nave a singrar o Cosmo - vão sendo perseguimos e sacrificamos ao sabor de nossas brutais crueldades. Criaturas que, de tão puras, são imcapazes de se defender de nós, humanos, seres ditos racionais, evoluídos e superiores. Maldita superioridade!
Nesta citação escolhida a dedo, vemos uma jovem e simpática perdiz contando sua estória na primeira pessoa, vivendo perplexa os pavores de uma abertura da temporada de caça na província francesa do século dezenove; as famigeradas caçadas de Provance. Trecho triste mas, infelizmente, real, especialmente se considerarmos o contexto em que vivemos, e nossos persistentes hábitos egocêntricos, marcados por carnificínas imemoriais através da história do homem na Terra. Uma verdadeira lástima! Leitura nobre e atualíssima do Mestre Daudet.
Da Redação.

CITAÇÃO
" O dia declinava. As detonações distanciavam-se, tornavam-se mais raras. Depois tudo silenciou. Terminara a caçada. Então voltamos lentamente para a planície, a fim de termos notícias do nosso bando. Ao passar diante da casinha de madeira um pavoroso quadro me reteve os olhos. Lebres de pelo ruço, coelinhos cinzentos de cauda branca jaziam lado a lado no rebordo de um fosso. As pequenas patas que a morte juntara, pareciam implorar misericórdia, os olhos velados pareciam chorar. Também vi perdízes encarnadas, perdizes cinzentas com ferradura como minha companheira, e perdizes novas, nascidas nesse ano e que, tal comoeu, ainda conservavam penugem sob as penas. Haverá algo mais triste do que um pássaro morto? As asas Têm tanta vida! Vê-las dobradas e frias dá-nos calafrios... Um grande cabrito-montês, na sua calma soberba, parecia dormir, com a língua cor-de-rosa pendendo um pouco sobre os beiços como se quisesse lambê-los.
E os caçadores lá estavam, curvados sobre essa carnificina, contando suas patas sangrentas, as asas dilaceradas e atirando-as dentro de suas bolsas, sem o mínimo de respeito pelas feridas ainda sangrentas. Os cães, atrelados para o regresso, framziam os beiços imobilizados, como se novamente quisessem precipitar-se na mata." (pág122)

LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo // Sem data

O DIABO DE LEONIDAS ANDREIEV

QUEM?
Leoníd Nikoláievich Andréyev, conhecido por Leonidas Andreiev (1871/1919). Esritor e dramaturgo russo que liderou o movimento do Expressionismo na literatura de seu país.

COMENTÁRIO
O brilhante conto A Conversão do Diabo de Leonidas Andreiev é algo assim, como direi, sensacional. Uma obra prima de cunho filosófico fortíssimo, que fará, com toda a certeza, o leitor refletir e dar boas gargalhadas. Muito bem elaborada, a trama gira em torno de um diabo sensível e inteligente, que arrependido e cançado de fazer o mal, faz de tudo para se converter em anjo, para poder finalmemente praticar o bem. O tal demônio vai morar na igreja de um pobre padre, que acaba se envolvendo completamente no projeto do primeiro, que por sua vez, vai dando um verdadeiro nó em sua cabeça eclesiástica e religiosa, devido ao debates e embates metafísicos travados entre ambos. Conto bem humorado e profundo, escrito com graça e malícia, por um talentoso escritor russo; receita de absoluto sucesso para o leitor se divertir e refletir em grande estilo. Em uma palavra: Bárbaro!
Da redação Escriba.

CITAÇÃO
" - Diga-me antes: será que você ficou bem quietinho de maneira estrita ou se permitiu algumas escapadelas? O diabo soltou um suspiro lúgubre.
- Fiquei bem quietinho. Só matei uma mosca ontem porque ela estava rastejando em meu rosto, e não sei se isso é permitido ou proibído.
- Uma mosca? - disse o padre rindo.
- Uma mosca é permitido! Espere... Aí está, você recomeça a me pôr em dúvida, infeliz! Se é permitido ou não, eu mesmo já não sei mais! Desculpe-me, irmão, mas você me faz perder o meu latim! Antes de você me fazer essa pergunta sobre a mosca, eu sabia muito bem que a gente tinha o direito de matá-las, eu mesmo fiz isso mais de uma vez, mas agora...
- Elas são seres vivos - disse o diabo num tom sombrio.
- É verdade, elas são seres vivos! - repetiu o padre, pesaroso.
- Então eu também matei moscas vivas? Que pecado! Ai, ai, ai! Que pecado! " (pag235)

LIVRO: Contos Russos Eternos // AUTOR: Leonidas Andreiev// EDITORA: Bom Texto // Rio de Janeiro // 2004.

quarta-feira, 4 de março de 2009

SENHORES E SERVOS DE TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.

COMENTÁRIO
Definitivamente, o Conde Leão Toilstói foi um sujeito notável. Sua literatura brilhante e humanista encantou gerações a fio. Seus conteúdos intensos e belos o imortalizaram como um dos grandes - se não o maior - expoente da cultura russa e de seu rústico, resistente e nobre povo. Senhores e Servos (ou Homens e Escravos) é uma jóia da literatura universal de todos os tempos, e conta a emocionante estória de um senhor, um servo e um cavalo, perdidos em meio à tempestade de neve. Drama contundente e gritante, que retrata um ambiente milenar da desigualdade humana, em um enredo instigante com final mais que surpreendente. Obra de primeira grandeza que agradará o leitor com inclinações filosóficas e humanistas. Brilhante, harmônico, emotivo, envolvente, humano, cativante, sensível; numa palavra: Mestre Leão Tolstói.
Da Redação.

CITAÇÃO
"E depois disso, Vassili Andréitch deixou de ver, deixou de ouvir e nada mais sentiu deste mundo. A tempestade continuava sempre, não parava nunca. A neve rolava em turbilhões enormes e cobria cada vez mais, tapando por completo, o corpo de Vassili Andréitch; o pobre baio, cujo corpo gelado tremia todo; já sepultara o trenó até quase o meio." (pag87)

LIVRO: Homens e Escravos // AUTOR: Leão Tolstói // EDITORA: Irmãos pongetti // Rio de Janeiro // 1943

DOIS NAUFRÁGIOS POR ALFHONSE DAUDET

QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
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CITAÇÃO
"Veja só o senhor o pior da história... Três semanas antes do sinistro, uma pequena corveta que seguia para a Criméia, tal como Sémillante, havia naufragado nas mesmas circunstâncias, quase no mesmo lugar; apenas, daquela vez, tinhamos conseguido salvar a tripulação e vinte soldados em trânsito que se encontravam que se encontravam a bordo... Êsses pobres rapazes não se sentiam à vontade, bem imaginam! Nós os levamos para Bonifácil, onde passaram dois dias conosco... Depois de secos e refeitos, adeus! boa sorte! regressaram a Toulon, e alguns dias depois novamente embarcaram para a Criméia... Adivinhem em que navio?... No Sémillante... Tornamos a encontrar todos os vinte estendidos entre os mortos, no lugar onde achamos... Eu próprio ergui um bonito brigadeiro de bigodes bem tratados, um parisiense louro que eu hospedara em minha casa, e que nos fizera rir o tempo todo com seus casos... Ao deparar como ele, tive o coração dilacerado... Ah! Santa Madre!..." (pág37)
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COMENTÁRIO
O mar por vezes tem fome... E é voraz em sua fúria inconsciente. Em seu afã, come gente. Devora almas. Muitas de uma vez, quando assim querem os seus humores altivos e instáveis. Algo como uma força incomensuravelmente avassaladora e prepotente que não faz predileções: devora e extingue o que estiver em seu caminho. Trata-se aqui do talento de um notório contista francês, mas representa por si, como fenômeno repetido, um exemplo ilustrativo das milhares de almas que já foram devoradas em sua ânsia através dos tempos imemoriais. Este nobre senhor Mar, profundo, belo e sereno, também sabe se revoltatar. E quando o faz, é, literalmente, um Deus nos acuda. Aqui perto, na praia onde estou mesmo, existe também um naufrágil, de um cargueiro japones que se perdeu de sua rota ao contornar a costa. A catástrofe se deu a mais de cinqüenta anos atrás, e na ocasião a praia ficou - como contam os mais velhos cidadãos que presenciaram o acontecido - 'qualhada de corpos' . E, os relatos se seguem: - Ouviu-se na naquela sinistra noite do Cabo Frio, no meio da tempestade, o mugido do imensso animal metálico pedindo socorro como num lamento; mas seu destino já estava selado pelo próprio mau tempo: seria devorado pela incrível borrasca. Arraial do Cabo era apenas uma aldeia na época, uma minúscula vila de pescadores, um arraial como o próprio nome evoca, e, assim, nada poderia ser feito. Cabo Frio... também... Não tinha recursos à época para socorrer ninguém. Naquela noite tempestuosa, quem teria? Chovia e ventava muito. Mais de cem vidas ceifadas, cujos corpos foram enterrados num semitério improvisado numa encosta de Monte Alto, cidade vizinha, numa colina diante daquele mesmo mar que os devorara. Do ocorrido, como testemunha perene da tragédia, em meio a enorme e esparramada paria de Maçambaba, ergue-se misteriosamente junto a suas areias, amplas e sem pedras, um enorme escolho de metal submerso, que ao sabor das ondas da arrebentação, encravado na areia, como um esqueleto, deixa à mostra sua imponente crista negra, recoberta por mariscos no meio daquela imenssidão.
Meros e pobres... Humanos... minúsculas criaturas neste enorme Planeta... pequenas e agitadas vidinhas cheias de si... Almas mortais singrando águas sem fim. Volta e meia, esta força, misteriosa e alheia a tudo, cobra seu tributo... muitas vezes em vidas.
Da redação Escriba.
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LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo

terça-feira, 3 de março de 2009

A MALANOTTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.

CITAÇÃO
"Voltou dali a pouco com a Malanotte, que era uma velha bruxa, famosa por tirar maus-olhados: negra como piche, com uns olhos de loba e uma boca enorme, de onde saía uma rouca voz masculina.
Ela mandou trazer um prato fundo cheio d'água e uma ampolinha de azeite. Oredenou que fechassem a porta e que o enfermo fosse posto sentado na cama. Depois acendeu uma vela, apoiou o prato na cabeça do velho e deixou cair bem devagar uma gota de azeite, ali na água, bem no meio. À volta, as vizinhas olhavam, segurando a respiração. Com os olhos fixos naquela gota de azeite boiando, a Malanotte pôs-se a resmungar umas rezas incompreensíveis, e a gota começou pouco a pouco a expandir-se e dilatar-se.
Estão vendo? Estão vendo?
No prato, na luz incerta da vela, tremia um disco reluzente, como uma lua. As vizinhas se ergueram nas pontas dos pés, pálidas; algumas batiam no peito com os punhos, pelo estupor." (pag146)

COMENTÁRIO
Ler o siciliano Luigi Pirandello é um conforto. O homem escrevia com graça, com leveza e, especialmente, com talento. Algo fundamental para quem se mete a escrever. Mestre notório do verbo, era dramaturgo e renovou o teatro de sua época, além de escrever obras memoráveis como os contos O Velho Deus e A Pensão Vitalícia. Neste último, de onde foi retirada a citação acima, o personagem principal da estória - um velinho simples e simpático - vive às voltas com uma morte que nunca chega, o que acaba por gerar uma série de embaraços, dilemas, onde acontece de tudo, até o surgimento de uma tradicional curandeira italiana. Mágico, lúdico, classico, reflexo de sua cultura, de seu tempo e de seu País; eis Luigi Pirandello, este agrigento da Sicília que escrevia com um estilo único e peculiar sobre a cultura de seu povo. Estória boa, enredo excelente, narrativa precisa e elegante, ágil; enfim, prosa de primeiríssima linha. É só conferir e se deleitar. Fantástico!

LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

A ESTÉTICA ELEGANTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
COMENTÁRIO
Certos escritores figuram na galeria dos maiores escritores de todos os tempos. Tais homens não podem ser medidos por parâmetros exatos. O número de publicações, por exemplo, não quer dizer muita coisa. Temos autores de uma só obra, como Montaigne, que só escreveu os seus famosos Ensaios, e nem precisaria mais, haja vista a preciosidade do referido livro; ao passo que outros como Camus, por exemplo, escreveu um número médio e comedido de livros, cujo conteúdo impactante e imortal continua a nos assombrar, como o próprio conceito de absurdo que o autor gostava tanto de abordar. Outros ainda, tiveram produção profícua e escreveram um bocado e com alma como o russo Dostoiévski, autor de pérolas como Lembrança da Casa dos Mortos, escrito inspirado em sua temporada recluso numa prisão da Sibéria. Mas, o que importa de fato, é que estes homens predestinados e talentosíssimos, souberam transpor com habilidade e arte aquilo que seus olhos lúdicos e humanistas viram em suas próprias vidas diárias; perplexos. Bom para nós. Luigi Pirandello, com toda certeza e merecimento, é destes escritores que iluminam os tempos com suas obras e seu talento inegável. Esta citação foi extraída do inteligente conto Quando eu era Louco do incrível livro Novelas para um Ano - O Velho Deus. Satisfação garantida para o leitor atento que ama os livros e as letras imortais.
CITAÇÃO
"Eu penetrava até na vida das plantas e, pouco a pouco, eu me elevava da pedrinha, do fio de grama, acolhendo e sentindo em mim a vida de todas as coisas, até pareceer que eu me transformava quase no mundo inteiro, que as árvores fossem os meus membros, a terra fosse meu corpo, os rios as minhas veias, e o ar a minha alma; e eu andava um pouco assim, extático e comprenetrado nessa visão. Quando ela desaparecia, eu ficava ofegante, como se realmente no frágil peito eu tivesse acolhido a vida do mundo."(pag71)
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

segunda-feira, 2 de março de 2009

O VENTO SIROCO DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Importante dramaturgo, poeta e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
CITAÇÃO
"Ainda lembro como fiquei impressionado, naquela noite, com o repentino espetáculo da natureza quase toda em fuga, na urrante vemência do vento. As nuvens fugiam fendidas pelo céu, em fúria desesperada, numa fileira infinita, e parecia que arrastavam consigo a lua pálida pelo pavor; as árvores se contorciam gemendo, rangendo, sofrendo espasmos sem descanso, como se quisessem arrancar suas raízes e fugir também para lá, para lá, aonde o vento levava as nuvens, a uma tempestuosa reunião." (pag74)
COMENTÁRIO
O Siroco (em italiano scirocco e em árabe ghibli) é um vento quente, muito seco, que sopra do deserto do Saara em direção ao litoral Norte da África, comumente na região da Líbia. Este fenômeno causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterâneo. Freqüentemente o ciroco, sem umidade devido ao efeito Föhn, cruza o Mediterrâneo atingindo com violência o sul da Itália - terra de Mestre Pirandello - e, em certas ocasiões, chega até à Cosata Azul e à Riviera.
O estilo de elegante de Luigi Pirandello é impecável ao transportar o leitor suavemente para onde ele quer: para dentro de sua estória; e o faz com maestria, evocando muitas vezes sua cultura e sua origem. Este agrigento da Sicília era um monstro com a pena na mão. Escrevia inspirado e com talento, duas qualidades que um bom escritor tem que ter; e ele tinha. Esta citação escolhida é belíssima e fala por si, dispensando maiores comentário. Luigi Pirandello: é para ler e se deleitar.
Literatura Escriba classificação cinco peninhas de ouro!
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis& Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

OS MARES LATINOS DE DAUDET


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.

COMENTÁRIO
Afhonse Daudet escrevia com leveza. Tratava das coisas com singularidade. No campanário das letras imortais agrupadas e impressas em páginas, soavam os elegantes sinos das idéias e criações deste autor francês que adorava o ócio, fosse ele criativo ou não. Nesta citação escolhida, ao falar de seu personagem no magnífico conto Turco da Comuna, ele nos dá uma descrição interessantíssima da composição do verbo e das línguas faladas nos confins do Mundo.
Bárbaro!

CITAÇÃO
"Triste e paciente, como um cão enfermo, o turco olhava em torno de si com um grande olhar doce. Quando lhe falavam, sorria e mostrava os dentes. Era tudo que podia fazer; pois nossa língua lhe era desconhecida, e ele mal falava o Sabir, esse patoá argelino, composto de provençal, de italiano, de árabe, feito de palavras amalgamadas, reunidas como montões de conchas, ao longo dos mares latinos." (pág165)

LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

DAUDET PARA THALES


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
COMENTÁRIO
Escrever pode ser um martírio. Não para Alfhonse Daudet. Mesmo quando escrevia sobre escrever, era preciso e claro; escrevia com alma. A citação escolhida retrata o drama de quem escreve, a paixão pelas letras, e mostra que o caminho do escritor muitas vezes acontece na prática do escrever e, especialmente, do publicar. Um abraço do Escriba!
CITAÇÃO
"Mesmo em plena vida, há, com efeito, para o escritor uma felicidade da qual ele nunca se cansa. Abrir o primeiro exemplar de sua obra, vê-la fixada, como que em relêvo, e não mais nessa grande ebolição do cérebro onde ela está sempre um pouco confusa." (pág188)
LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

A PARIS DE DAUDET


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
COMENTÁRIO
Escrever, em última análise, é juntar letras, formar sentenças, compor um raciocínio, transmitir uma idéia ou conceito, criticar algo etc. Simples? Sim, mas ainda assim, lê-se muita porcaria por aí. Especialmente na era da televisão digital, das mídias eletrônicas, da internet; com suas inesgotáveis superficialidades banais. Lê-se frases, anúncios, notícias, placas; quando muito. Muitos nem ler sabem. É o retrato do Brasil desigual. Neste contexto, veloz e pouco profundo, ler Alfhonse Daudet, é um descanço para a mente intelectual que vive os dias pelos caminhos do Mundo e suas infinitas contingências. O homem era sensível e escrevia como um animal selvagem e pleno bote, pronto para capturar a realidade à sua volta, e transpô-la fluidamente para o papél com sua ágil e talentosa pena de escritor. Isso tudo, sem perder a candura e a simplicidade.
Nesta citação, vemos Daudet atingido literalmente pelo mundo que o cerca da Paris de sua época, já agitada demais aos olhos deste. É a pura genialidade deste autor francês, selecionada e transcrita tim-tim por tim-tim por este humilde editor Escriba. Puro deleite! Da redação.
CITAÇÃO
"É que nessa grande Paris, onde a multidão se sente inobservada e livre, não se pode dar um passo, sem se tocar rudemente em alguma aflição avassaladora, que vos salpica e vos deixa a marca ao passar. Não falo somente dos infortúnios que se conhecem, pelos quais nos interessamos, desses desgostos de amigo, que são um pouco os nossos e cujo encontro súbito vos aperta o coração como um remorso; nem mesmo desses desgostos de indiferentes, que não se ouvem senão por alto e que não obstante vos comovem. Falo dessas dores completamente estranhas, entrevistas de passagem, num minuto, na atividade da pressa e na confusão da rua.
São farrapos de diálogos sacudidos ao movimento das viaturas, preocupações surdas e cegas que falam sozinhas e muito alto, espáduas lassas, gestos loucos, olhos de febre, rostos intumecidos pelas lágrimas, lutos recentes mal enxutos nos véus negros. Depois pormenores furtivos, tão ligeiros! Uma gola de jaqueta amarrotada, puída pelo uso, que procura a sombra, um realejo sem voz girando em vão, sob um pórtico, uma fita de veludo no pescoço de um corcunda, cruelmente amarrada bem direito entre os ombros disformes... Todas essas visões de desgraças desconhecidas passam depressa e vós as esqueceis caminhando, mas sentiste o leve roçar de sua tristeza, vossas vestes ficavam empregnadas de desgosto que elas arrasatam após si, e, no fim do dia, sentis agitar-se tudo o que em vós ficou de terno e doloroso, porque, sem que vos apercebais, agarrastes na esquina de uma rua, na soleira de uma porta, esse fio invisível que liga todos os infortúnios e os agita, na mesma sacudidela." (pág178)
LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

OS CRUÉIS CONTOS DE L'ISLE-ADAM

QUEM?
Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, comte de Villiers de l'Isle-Adam (1838-1889). Talentoso e competente escritor simbolista francês.
COMENTÁRIO
Escrever lançando mão do simbolismo existente em tudo - como faria um Shaman - eis o que fazia brilhantemente Villiers de l'Isle-Adam. Em seus Contos Cruéis, no espetacular conto Lembranças Ocultas, ele esbanja seu talento usando e abusando deste interessante tipo de linguagem literária: os sígnos. Ferramenta esta, interessantíssima, que confere a seus escritos um 'que' quase que interpretativo, para o leitor completar suas estórias com a sua própria imaginação. Leitura fina Escriba, categoria cinco peninhas.
CITAÇÃO
"O silêncio é rompido apenas pelo deslizar dos crótalos que ondulam pelos fustes derrubados das colunas e enroscam-se, sibilando, sob os musgos ruivos. Às vezes, em crepúsculos tempestuosos, o grito longínquo do homíono, alternando tristemente com o barulho do trovão, inquieta a solidão. Sob as ruínas, prolongam-se galerias subterrâneas cujos acessos estão perdidos. Ali, há muitos séculos, dormem os primeiros reis dessas estranhas regiões, dessas nações mais tarde sem donos, dos quais nem mesmo o nome existe mais." (pag62)
LIVRO: Contos Crúeis // AUTOR: Villiers de l'Isle-Adam // EDITORA: Iluminuras // São Paulo // 1987