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terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS DEUSES TÊM SEDE DE ANATOLE FRANCE: OS MUITOS LADOS DE UMA MESMA HISTÓRIA

QUEM?
Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844/1924) Talentoso escritor francês. Autor de Os Deuses Têm Sede. Outras obras são: Thais, 0 Lírio Vermelho, O poço de Santa Clara, A rebelião dos anjos entre outras.
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COMENTÁRIO
Não é de hoje que, vira e mexe, uma meia dúzia de três ou quatro malucos vêm, tomam o poder, e fazem dele um verdadeiro cavalo de batalhas, gerando calamidades das mais diversas espécies, e derramando o sangue de pessoas, muitas vezes, inocentes. Mesmos que estes malucos estejam lutando por mais liberdade, igualdade e fraternidade para a coletividade. O poder corrompe as intenções. Aleija a boa vontade e despedaça as ilusões. Sublima o indivíduo, destrói o ser. Turva o saber e cega a razão. Interesses, inveja, despeito, fundamentalismo, hipocrisia, tentação, cobiça, prevaricação, imprudência, corrupção, inveja, dinheiro, comodismo são apenas alguns dos sedutores atalhos que podem fazer o homem bom se desvirtuar. Difícil é estar imune trafegando nas proximidades do poder, onde a promiscuidade é regra e não a exceção, onde o virtuoso facilmente destoa do grupo que deveria integrar, presa de seu fisiologismo e de seus vícios mais sórdidos. Política: maldita profissão inferior que não requer referência de nenhuma espécie para restringir o ingresso da turba em suas fileiras. Afora, é claro, o sufrágio das urnas; ou seja, a voz do Povo que, diga-se, só a tem de fato de quatro em quatro anos, e olhe lá! Acontece, caro Leitor, que a voz do Povo é burra, pois o Povo é, em sua maioria esmagadora, analfabeto, quase sempre manipulável e volúvel - volátil mesmo, diria eu - e capaz das maiores atrocidades quando reunido em massa e irritado em seus brios mais íntimos de sua cidadania. Pois - como já escreveu sabiamente meu prezado amigo Roberto Raup da belíssima e histórica Rio Pardo/RS - quando aglomerados, passamos a reagir instintivamente às situações do ambiente que nos contém numa espécie de Síndrome de Manada, onde retornamo-nos animais brutos e de novo irracionais, a ponto de esmagar tudo em nosso caminho, incluído nossos semelhantes. Foi assim nas Cruzadas, na Santíssima Inquisição, no nazismo, na Ditadura Militar brasileira, na África do Sul, no Vietnã, no Mundo inteiro e, como não poderia deixar de ser, também na Revolução Francesa. As tais liberdade, igualdade e fraternidade foram conquistadas - 'em parte', na ampla aplicabilidade e compreensão do termo aqui empregado - com suor, lágrimas e sangue, muito sangue! Quando a realeza privilegiada da França do Século XVIII caiu, não perdeu apenas o direito às suas posses terrenas e materiais, suas riquezas e luxos, mas também às próprias cabeças que ficavam, até então, firmes com empáfia em cima de seus pescoços, antes de serem guilhotinadas pelos representantes do povo na Convenção e no Tribunal Revolucionário. Não é brincadeira não! Montanhas de cabeças decepadas, oriundas de julgamentos sumários e viciados; um banho de sangue; paranóia, medo, perseguição, filhos denunciando pais com objetivos sórdidos e pecuniários, vizinhos traindo vizinhos, irmãos, pais, padres, soldados, companheiros; perseguidos, presos e mortos; enfim, uma lástima. E, vale notar, isso tudo se dava ao mesmo tempo em que nasciam os primeiros raios da luz que, radiante, iluminaria as mentes humanas mais elevadas, no sentido da aplicação prática dos lemas altruístas já mencionados aqui que, posteriormente, viriam a servir de estrutura sólida e base, para espelhar a constituição moral do Velho Mundo e das demais nações do mundo ocidental, na hora de forjar suas Cartas Magnas, Constituições e seus tratados democráticos de civismo. Lições importantes, apreendidas através dos tempos a ferro e a fogo! Verdades que nos ensinam muito até hoje, mesmo que salvaguardadas nos tempos idos de outrora, lacradas com o selo do passado.
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Para vivermos em grupo, tivemos que criar uma série de dispositivos complexos e complicados de poder e de controle, sem os quais a vida social se torna impossível e inviável. Olhar para trás, através das lentes - mesmo que distorcidas - da história - pois sempre há a ótica parcial do punho que detém a pena que registra os fatos - e isto nos permite uma constatação plena da nossa incapacidade e insuficiência tácita em compreender a nós mesmos, especialmente, quando nos juntamos, nos revoltamos e resolvemos juntos e à força mudar o Mundo. Força estranha e poderosa que assusta e subjuga qualquer oposição, que soergue o panteão da sabedoria, mas que, de igual modo, assinala no anais da história nossa fragilidade indelével diante das seduções do poder, jogando na lama imunda da infâmia e da indignidade toda uma espécie. Ser humano, sem dúvida, é ação e reação; revolução e ilusão; contradição; ser humano é conflito.
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Nas citações escolhidas a dedo dentro da interessantíssima obra que é Os Deuses Tem Sede de Anatole France vemos patente a marca certeira do gênio que sabe, com poucas palavras, passar toda uma miríade de nuances e sensações que, o tolo escrevinhador comum, gastaria páginas e páginas para descrever, sem sucesso e sem a menor graça. Os Deuses Tem Sede é um livro muito bem escrito que serve - entre muitas outras coisas - para nos reconhecermos a nós mesmos como falíveis e humanos, principalmente, quando expostos às feridas pútridas da política e do poder, pústulas repugnantes e contagiosas estas que, pululam na sociedade contemporânea, mas que, todavia, vez por outra, desempenham papéis fundamentais nas conquista de avanços inestimáveis para a humanidade, mesmo que a um altíssimo preço.
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Um abraço livre, igual e fraterno para os meus poucos e fiéis Leitores.
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Da Redação.
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CITAÇÕES
Sobre a autêntica filantropia num diálogo entre o personagem humanista e ex-financeiro Brotteaux, e um padre que este acolheu na rua condenado á prisão e provavelmente à morte, sob pena de ser ele mesmo Brotteaux, incriminado:
"Deu o colchão ao seu hóspede e guardou a palha para si, mas o religioso reclamou-a por humildade, com tal convicção que teve de o satisfazer. Depois de terminar as arrumações, Brotteaux soprou na vela, por economia e por prudência.
- Senhor - Disse-lhe o religioso - reconheço o que faz por mim; mas, tem pouco interesse para o senhor que eu o considere bom. Possa Deus recompensá-lo! Isso sim, teria interesse para o senhor. Mas Deus só leva em conta o que é feito para Sua glória e o que provém de uma virtude puramente natural. É por isso que lhe suplico, senhor, que faça por Ele o que foi levado a fazer por mim.
- Meu pai - respondeu Brotteaux - não tenha a menor preocupação e não pense dever-me algum reconhecimento. O que faço neste momento, e de que exagera o mérito, não o faço por amor ao senhor: porque, afinal, embora o senhor seja amável, conheço-o há pouco tempo para o amar. Também não o faço por amor à humanidade: pois não sou como Don Juan paracrer, como ele, que a humanidade tem direitos; e estepreconceito num espírito tão livre como o seu, aflige-me. Faço-o por aquele egoísmo que inspira ao homem todos os atos de generosidade e dedicação, fazendo-o reconhecer-se em todos so miseráveis, dispondo-o a lamentar o bseu próprio infortúnio no infortúnio alheio e levando-o a auxiliar um mortal semelhante a ele pela natureza e pelo destino, até acreditar que socorre a si mesmo socorrendo-o. Faço-o também por passatempo: porque a vida é agora tão insípida que é preciso arranjar distração a todo custo, e a benfeitoria é um divertimento bastante enfadonho a que nos damos na falta de outreos mais saborosos; faço-o, enfim, por espírito de sistema e para lhe mostrar do que é capaz um ateu." (pág159)
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Mais adiante, no mesmo debate filosófico entre os dois - o padre e Brotteaux - numa citação de Epicuro feita pelo segundo sobre o poder de Deus:
"Epicuro disse: Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, é perverso; se não pode nem quer, é impotente e perverso; se pode e quer, por que não o faz, meu pai?" (pág181)
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Sobre uma passagem dramática quando Evaristo Gamelin, jurado do tribunal revolucionário, um dos personagens principais da história com amplos poderes, e sua amante, Elodie, numa cena, literalmente, de amor e ódio, se digladiam e se amam:
"-Estás vingada - disse. - Jacques Maubel já não existe. A carruagem que o conduzia à morte passou de baixo da tua janela, rodeadea de archotes.
Ela compreendeu:
- Miserável! Foste tu que o mataste, e não era o meu amante. Não o conhecia... nunca o vi... Que homem era esse? Era um jovem, amável... inocente. Mataste-o, miserável! Miserável!
Caiu desvanecida. Mas, nas sombras desta morte, sentia-se ao mesmo tempo inundada de horror e de voluptuosidade. Reanimou-se; as suas pesadas pálpebras descobriam o branco dos olhos, a garganta arquejava, as mãos procuravam o seu amante. Apertou-o nos braços, enterrou-lhe as unhas na carne e deu-lhe, com os seus lábios atormentados, o mais mudo, o mais surdo, o mais longo, o maisn doloroso e o mais delicioso dos beijos.
Ela amava-o de todo o coração e, quanto mais ele lhe aparecia terrível, cruel, atroz, quanto o mais o via coberto do sangue das suas vítimas, mais tinha fome e sede dele." (pág206)
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LIVRO: Os Deuses Têm Sede // AUTOR: Anatole France // EDITORA: Otto Pierre Editores // Lisboa // Sem data
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1984 DE GEORGE ORWELL: UM CLÁSSICO DA CACOTOPIA FICCIONAL

QUEM?
Eric Arthur Blair (1903/1950). Talentoso jornalista, ensaísta e romancista britânico, que escreveu sob o pseudônimo George Orwell. Autor do clássico espetacular 1984.
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COMENTÁRIO
Quem leu sabe: 1984 é uma porrada! Pois fala com extrema precisão de um mundo - e, vejamos que o autor escreveu a referida obra em 1949, ou seja, longe de nossos dias, lá nos meados do século XX - onde, com uma lucidez impressionante, transporta-nos para a dramática e instigante trama de terror social, de desumanidades e de regime de controle absoluto e exacerbado até mesmo do pensamento dos indivíduos, dando origem - mesmo que a maioria das pessoas, que não leu o livro e usa a expressão, não saiba - ao termo Grande Irmão, muito em voga hoje em dia, neste Mundo atual e vulgar do terceiro Milênio, que é com efeito assolado pela nanotecnologia, pela bionanotecnologia e bioengenharia, pela clonagem, pela genômica e pelas demais formas que a humanidade - digo - o homem (homosuicidasapiens) descobriu e inventou para dominar e controlar, e, acima de tudo, tentar subjugar a Natureza que o gerou, além de corromper sua própria essência; se é que temos uma. Neste complexo contexto onde o Ser Humano brinca impunemente de Deus, as repercuções práticas de tal bobardeio tecnológico são desastrosas além de imprevisíveis, especialmente se for mais uma vez exercido - como sempre de fato é - tendo única e exclusivamente o lucro máximo a nortear as ações que dizem respeito e afetam à sociedade como um todo e de forma ampla, marcante e singular.
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Trata-se sem dúvida de uma obra fantástica, muito bem escrita, de extrema habilidade crítica, de uma veracidade contundente e desconcertante, que nos faz refletir, digamos assim, 'à força' sobre este mesmo Mundinho besta que vivemos hoje, isso tudo há mais de meio Século atrás na ocasião inspirada de sua redação, quando este visionário e brilhante escritor britânico previu - e que nós mesmos, através de nossas existências e de nossas escolhas sóciopolíticas e de consumo, ajudamos a construir e dar forma - toda esta loucura que está à nossa volta - digo - a cultura na qual estamos inseridos. No livro vemos pessoas manipuladas e indiscriminadamente controladas, sem tempo para si mesmas, servindo submissamente, vazias de consciência mas repletas de agonia voraz de uma imcompletude descomunal, a ponto de permitirem a terceirização de suas próprias vidas, de suas existências e, especialmente, manobradas segundo interesses escusos e egoístas que sempre privilegiam uma mesma minoria; enfim, isso nos lembra alguma coisa? É duro compreender que nós, a humanidade, coletivamente falando, possamos ser apenas uma gigantesca e formidável massa global de consumo inconsciente de si mesma, que se digladia e se mata trabalhando e doando a própria vida para mover a inominável e cruel máquina capitalista que está em toda parte; ou seja, o famigerado, o dito, o repetido e cultuado Grande Irmão. É exatamente disso que fala 1984 e não se engane: o autor, mesmo que privado de uma visão real do futuro que estaria por vir diante de si, soube trazer à tona notáveis fantasmas que, com toda certeza, de fato assombram os nossos dias atuais.
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1984: Dica da pesadíssima para quem não quer errar na escolha de um bom livro. Obra para ler e pirar - digo - refletir e agir. Assim, sem medo de me equivocar, indico honrosamente 1984, obra esta muito interessnate, e que me foi indicada por uma pessoa especial e querida, amada e admirada, a quem dedico estas humildes linhas virtuais jogadas ao léu na grande rede neste momento lúdico, perfilando-a junto a grandes obras do gênero cacotópico futurista de ficção, como o incrível Admirável Mundo Novo, de Huxley, e o THX 1138 (filme), de Copolla.
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Deste modo, segue aqui, apenas a título de petisco literário, um trecho bombástico escolhido especialmente a dedo por este velho Escriba pós-tudo da veloz Era digital.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal e de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruídos, a grande massa de seres humanos normalmente estupidificada pela miséria aprenderia a ler e aprenderia a pensar por si; e uma vez que isso acotecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De uma maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância" (pág178)
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LIVRO: 1984 // AUTOR: George Orwell // EDITORA: Companhia Editora Nacional // 1949

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

EM QUE CRÊEM OS QUE NÃO CRÊEM? POR ECO, MARTINI E COMPANHIA LIMITADA

QUEM?
Dom Carlos Maria Martini (1927). É cardeal italiano, arcebispo emérito de Milão e escritor.
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COMENTÁRIO
A fala mansa de Martini - antagonizando premeditadamente com o Eco provocador, além de outros entendidos participantes - deu origem a uma obra muito agradável do ponto de vista ético e existencialista do significa sermos humanos, que é o livro Em que crêem os que não crêem?, pois trata de coisas que com certeza atormentam todos nós, independentemente de nossa crença religiosa. Estes conhecedores discutem copiosa e animadamente a existência ou não de um Deus único e pessoal, e o dúbio discernimento do fator que nos definiria irrefutavelmente como seres humanos. Entre muitos outros assuntos igualmente polêmicos, tudo isso se dá - vejamos nós - num universo de calma e reflexão plena, em um ambiente democrático e filosófico, e, felizmente, salvaguardando as integridades físicas, morais e intelectuais de seus protagonistas; ou seja, um avanço e tanto - digo - para a humanidade. Não há como esquecer as tragédias do passado praticados pela igreja católica em nome Dele, o Criador; mas, reconheçamos, os tempos são outros e com eles mudaram também as conjunturas. Hoje, falam de igual para igual expoentes totalmente antagônicos e diversos, num clima cordato de sensibilidade e tolerância para com o diferente, o que seria simplesmente inimaginável em outras épocas não muito distantes da nossa.
Na citação escolhida, vemos Eco em um bom momento do livro, quando trata inflamado da questão do reconhecimento do outro - segundo ele, e eu concordo - como premissa fundamental à nossa sobrevivência.
Em que crêem os que não crêem? Para ler e pensar.
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CITAÇÃO
"Nós (assim como não conseguimos viver sem comer ou sem dormir) não conseguimos compreender quem somos sem o olhar e sem a resposta do outro. Mesmo quem mata, estupra, rouba, espanca o faz em momentos excepcionais, e pelo resto da vida lá estará a mendigar aprovação, amor, respeito, elogios de seus semelhantes. E mesmo àqueles a quem humilha ele pede o reconhecimento do medo e da submissão. Na falta desse reconhecimento, o recém-nascido abandonado na floresta não se humaniza (ou, como Tarzan, busca o outro a qualquer custo no rosto de uma macaca), e poderíamos morrer ou enlouquecer se vivêssemos em uma comunidade na qual, sistematicamente, todos tivessem decidido não nos olhar jamais ou comportar-se como se não existíssimos." (pág83)
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LIVRO: Em que crêem os que não crêem? // AUTORES: Umberto Eco e Carlo Maria Martini // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2001

terça-feira, 4 de agosto de 2009

VÍCIOS NÃO SÃO CRIME DE LYZANDER SPOONER

QUEM?
Lysander Spooner (1808/1887). Notável anarquista, filósofo político norte-americano cujo trabalho era dedicado à luta contra as incontáveis contradições humanas, como a escravidão e o capitalismo. Humanista todo, lutou por atenuar as misérias humanas e as desigualdades de seu tempo. Autor do sensacional Vícios não são Crime.
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COMENTÁRIO
Não é de hoje que o Estado se mete em demasia na vida dos cidadãos comuns. No tempo de Spooner era o álcool o grande vilão, mas seu discurso se aplica bem a várias outras questões bastante atuais que assolam os nossos conturbados dias deste início de terceiro milênio. Na citação escolhida, vemos o brilhante autor fazer uma referência direta à corrupção, que assola, assolou e sempre assolará os governos de todos os tempos, até porque, onde há grande concentração de poder, haverá, sem dúvida, excessos e desvios de conduta.
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CITAÇÃO
"Se, em resumo, esses homens, tão ansiosos pela supressão do crime, interrompessem, por algum tempo, os seus apelos à intervenção do governo em vista da supressão dos crimes dos indivíduos, e incitassem o povo a ajudá-los a suprimir os crimes do governo, demonstrariam o seu bom senso e a sua sinceridade de maneira muito mais convincente. Quando as leis forem, no seu conjunto, tão justas e equitativas, que se torne possível a todos os homens e mulheres viver honestamente, haverá muito menos ocasiões do que hoje que possam ser invocadas para os acusar de uma forma de vida desonesta e desregrada." (pág47)
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LIVRO: Vícios não são Crime // AUTOR: Lysander Spooner // EDITORA: Aquariana // Coleção B // São Paulo // 2003

quinta-feira, 23 de julho de 2009

COLOMBA DE MÉRIMÉE: UM ROMANCE FRANCÊS À MODA ANTIGA

QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), brilhante dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês. Autor de Colomba e da imortal Carmen.
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COMENTÁRIO
Colomba de Prosper Mérimée é um romance à moda antiga com belas donzelas, homens nobre e corajosos, terras estranhas com costumes e hábitos exóticos, intrigas, vinganças, tiroteios, sangue, coincidências extravagantes; enfim, uma bela história nos moldes clássicos de se escrever romance de aventura. Este talentoso autor francês nos leva com habilidade para dentro deste mundo 'selvagem', por assim dizer, e acabamos irremediavelmente envolvidos na trama que ele nos propõe com sua prosa suave e elegante. Interessantíssimo, não só pela especificidade da cultura abordada, como também por sua narrativa ágil e instigante, típica destes romances de viagens e expedições; Colomba é para ler, entreter e relaxar o leitor que aprecia este tipo de texto menos profundo, ainda assim, criativo, estiloso e agradável. Nas citações escolhidas, vemos um pouco da alma desta gente brava e arredia da Córsega que levava seus códigos de honra a limites extremos, e que praticavam crimes e vinganças sangrentas como parte de seus cotidianos rudes e aguerridos.
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CITAÇÕES
Um pai deserperado lamenta a morte de dois filhos:
"Mas essa dor ruidosa causava menor impressão do que o silencioso desespero de um personagem que atraía todos os olhares: o desventurado pai que, indo de um cadáver a outro, levantava as cabeças sujas de terra, beijava os lábios violácios, soerguia os membros já hirtos, como para lhes evitar os solavancos da estrada. Às vezes, viam-no abrir a boca para falar; mas não soltava um grito, nem uma palavra." (pág146)
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Colomba, a personagem principal do romance, em ato de extrema bravura:
"Atiraram pedras às janelas da sala em que se achavam Colomba e seus hóspedes. Dois tiros foram disparados e, atravessando o paravento, as balas fizeram voar pedaços de madeira sobre a mesa, perto da qual estavam sentadas as duas mulheres. Miss Lídia gritou aterrorizada, o coronel agarrou sua carabina e Colomba, antes que a pudessem deter, atirou-se à porta da casa e escancarou-a de golpe. Aí, de pé sobre o limiar, as duas mãos estendidas na direção dos inimigos, esplendidamente resoluta, clamou:
- Covardes! Atiram sobre mulheres e estrangeiros! São corsos? São homens? Miseráveis que apenas sabem assassinar pela retaguarda! Avancem! Eu os desafio! Estou sozinha! Meu irmão está longe! Matem-me! Matem a meus hóspedes! Será digno de quem são!... Não ousam, covardes?! Sabem que nos vingaremos!... Vão, vão chorar como mulheres e agradeçam por não exigirmos mais sangue!" (pág147)
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LIVRO: Colomba // AUTOR: Prosper Márimée // EDITORA: Livraria Martins // São Paulo // Sem data

terça-feira, 9 de junho de 2009

A COLOMBA DE PROSPER MERIMÉE

QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870). Notável dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês. Foi o primeiro a traduzir obras literárias russas para o francês. Sua prosa elegante se imortalizou com Carmen (1845). Esta foi sua primeira novela de sucesso.
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COMENTÁRIO
Colomba (1840), conta a história de uma jovem moça corsa que obriga seu irmão a cometer um assassinato para se vingar. Seria só isso, se não se tratasse de um mestre da pena, como é o caso de Merimée. Este competentíssimo autor francês nos traz uma época distante, repleta de aventuras e exotismos culturais, onde entrevemos mundos longínquos, de tradições fortes e marcantes, sempre com seu estilo clássico e elegante.
Sem maiores delongas, duas citações de Colomba, romance de Merimée, onde podemos ver um pouco da cultura corsa, referente à Córsega, esta ilha a Oeste da Itália, que é a quarta ilha do Mar Mediterrâneo por extensão territorial depois da Sicília, Sardenha e Chipre, universalmente conhecida como o berço e terra natal de Napoleão Bonaparte.
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CITAÇÃO
"Afinal, chegou a hora de partir. Orso apertou, ainda uma vez, a mão de miss Lídia. Colomba abraçou-a, depois ofereceu os lábios ao coronel, que então se maravilhou com a delicadeza corsa. Da janela do slão, miss Lídia viu os dois montarem a cavalo. Brilhavam os olhos de Colomba, numa alegria maligna. Esta grande e forte mulher, fanática pelas suas idéias de honra bárbara, o orgulho estampado na fisionomia, os lábios curvados num sorriso sardônico, fez lembrar a miss Lídia os temores de Orso; e a jovem inglesa julgou ver um mau gênio conduzindo-o a um abismo." (pág61)

"A cerca de um quilômetro do povoado, depois de muitos rodeios, Colomba estacou de repente, numa curva brusca do caminho erguia-se, aí, uma pequena pirâmide de ramos - uns verdes, outros secos - todos formando uma pilia de quase três pés de altura, da qual apontava a extremidade superior de uma cruz de madeira pintada de preto. Em várias regiões da Córsega, principalmente nas montanhas, um velho costume, que talvez se prenda às supertições do paganismo, obriga os passantes a atirar uma pedra ou um galho de árvore sobre a sepultura daqueles que morreram de morte violenta. Durante muitos anos, enquanto a recordação da tragédia permanecer na memória dos homens, tais oferendas se acumulam dia a dia. Chamam a isto o montão, o mucchio de alguém." (pág80)
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LIVRO: Colomba // AUTOR: Prosper Merimée // EDITORA: Martins // São Paulo // 1945

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

BECCARIA E OS MIRANDA CONTRA A TORTURA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.
CAUSO
Meu avô, o Dr. Francisco Rodrigues de Miranda, era promotor da Justiça Militar. Nunca deu um parecer favorável aos poderosos fardados da vez, sem antes ler minuciosamente o processo e, especialmente, achar razões na lei vigente para tanto. Por éstas e outras, foi caçado pela famigerada ditadura militar. Uma vergonha! Logo um homem seríssimo como o meu avô... Humano e justo. Antes disso, saiu muitas vezes no meio da noite para ir à delegacias soltar presos injustamente que estavam sendo torturados. Naquele tempo, usavam-se técnicas sutís como choque no escroto, saquinho preto na cabeça e borduada, luz na cara, pau-de-arára e outras gentilezas típicas deste tipo de gente insana e desmiolada. Foi bem naquela época em que as pessoas costumavam desaparecer, muitos para nunca mais voltar. Com a anistia, ele, meu avô, voltou à ativa, mas já estava velho demais para a luta do magistério diário e das leis dos homens. Tinha, dentre outras coisas, problemas no coração. Seu irmão, o Dr. Theodolo Rodrigues de Miranda, juiz Militar, ficou famoso por ter dado corajosamente a primeira canetada da anistia, mandando soltar neste ato histórico - um dia antes de publicarem no Diário Oficial - o Arraes e mais uma turma que estava atrás das grades sabe-se lá por que. Aquela tragédia que foi o golpe militar. Forão estas pessoas, estes homens, os Miranda e muitas outros, que mesmo em meio ao caos, conseguiram lutar por justiça, liberdade e respeito aos direitos humanos universais, mantendo assim um mínimo de dignidade para nação brasileira assustada, consternada e assolada pela tirania.
Nesta citação escolhida especialmente, o brilhante jurista, filósofo e humanista italiano Cesare Baccaria, fala com precisão cirúrgica sobre as ignomínias cruéis, e, principalmente, ineficientes da tortura.
CITAÇÃO
"Faz-se o interrogatório de um réu para conhecer a verdade: porém, se esta verdade dificilmente se descobre no ar, no gesto, na fisionomia de um homem tranqüilo, muito menos se descobrirá num homem em quem as convulsões da dor alteram o sinais do rosto da maior parte dos homens, e, às vezes, a seu prazer, revelam a verdade. Toda ação violenta confunde a faz desaparecer as mínimas diferenças dos objetos, pelas quais, às vezes, se destingue o verdadeiro do falso". (pag48)
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A SABEDORIA SECULAR DE CESARE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Quem pode suspeitar em outro um delator, vê um inimigo nele. Então, os homens se acostumam a mascarar os próprios sentimentos, com o uso de ocultá-los a outros, chegam finalmente a escondê-lo de si mesmo". (pag39)

COMENTÁRIO
Quem é inocente? Quem é culpado? A quem compete julgar? Sob que parâmetros?
Era sobre isso que o italiano Cesare Beccaria se debruçava. Humanista inteiro, foi capaz de penetrar na alma e nos costumes de seu povo (Europa), e compor uma obra importante como o é Dos Delitos e das Penas, especialmente, em uma época complicada, marcada por tiranos, fogueioras, guilhotinas, decaptações, banhos de sangue e outras bárbaries cotidianas que, recaiam sobre a pele dos culpados ou não. Muitas vezes, antes de Beccaria, dos não. Inocentes... Muitos inocentes morreram sob a fúria da paixão, da ganância, e dos desejos sórdidos dos homens menores, sem nenhum direito à defesa. Justiça tirana e bárbara. Deuses de todas as cores, raças e idades foram evocados em nome da guerra, da peleja, das contendas e do massácre; do genocídeo por interesse, lucro e poder. Muitas mortes desnescessárias... Mortes injustas... Sumárias.
Beccaria, este douto senhor letrado, revolucionou o direito penal universal. Sua sabedoria secular compõe o alicerce do direito penal contemporâneo. Um grande autor imortal. Simplesmente: Um espetáculo! Da redação.
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A JUSTA REVOLUÇÃO PENAL DE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Não é somente de interesse comum que não se cometam crimes, mas que sejam mais raros na proporção do mal que fazem à sociedade. Assim, os obstáculos que separam os homens dos crimes, devem ser mais fortes quando os crimes se mostram mais prejudiciais para o bem público e na proporção dos estímulos que, para eles, impelem os homens. Deve existir, por isso, uma proporção entre os crimes e as penas. Se o prazer e a dor são as molas dos seres sensíveis, se entre os motivos que levam os homens até as mais sublimes realizações, foram destinados a recompensa e a pena pelo invisível Legislador, resultará de sua errônea distribuição aquela contradição, menos observada, embora mais comum, que as penas castigam os crimes que elas fizeram nascer. Se uma mesma pena se destina a dois crimes que ofendem desigualmente a sociedade, os homens não encontrarão um obstáculo mais sério para a prática do crime mais grave, se a esse procedimento, tiverem unido uma vantagem maior. Quem ver imposta a pena de morte, por exemplo, a quem mate um faisão e a um assassino de um homem ou a um falsificador de documento importante, não fará qualquer distinção entre estes crimes; destruir-se-ão, deste modo, os sentimentos morais, obra de muitos séculos e de muito sangue, morosos e difíceis de serem produzidos no espírito humano, para cujo aparecimento se acreditou necessário o auxílio dos mais sublimes motivos, e um tanto revestido de aparatosas formalidades graves." (pág. 87)

COMENTÁRIO
Cesare Beccaria foi um cara importantíssimo. Deste tipo de pessoa que tinha que ter nascido para poder fazer o que fez em vida, levando a cabo uma missão tão importante que mudou a face do Mundo na sua época. Era um brilhante jurista humanista. Sua genial e compacta obra Dos Delitos e das Penas, escrito em forma de Ensaio, sensibilizou o coração dos homens poderosos da vez que, através dela, foram capazes de perceber a brutalidade bárbara da aplicação das leis e dos costumes penais, revisando-os conceitualmente. Dentre outras vitórias épicas, Beccaria foi capaz de influenciar os espíritos esclarecidos de seus mais ilustres contemporâneos, extinguindo, por exemplo, práticas cruéis e abomináveis como a aplicação da pena de morte para delitos menores, torturas etc. Assim, seus escritos mereceram quase que imediata acolhida em muitos países, como França, Alemanha e Áustria, e na própria Itália, terra natal do autor, impactando beneficamente os direitos humanos. Indubitavelmente, Beccaria foi um revolucionário. Com este pequeno livro de importante conteúdo humanista, o autor mostra a sutileza que existe em julgar situações singulares, e guia o jurista, para que este cometa o menor número possível de injustiças em sua busca pela aplicação das leis. Simplesmente sensacional! Boa leitura até para quem não se interessa muito por Direito. Imperdível.
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LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O CAPOTE DE GOGOL


QUEM?
Nicolau Gogol (1809-1852), brilhante escritor ucraniano.
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COMENTÁRIO
Na Rússia de Gogol, vemos um povo de alma bela, forte e nobre, submetido às mais duras provações possíveis de se imaginar, onde muitas vezes o orgulho patriótico se mistura e se funde à submissão subserviente exacerbada e sem limites - algo parecido com a realeza britânica, com sua necessidade compulsiva por um herdeiro homem para o trono, um falo a que se cultuar - hábito antiquíssimo que remonta a própria história do homem na Terra - muito praticado em diversas culturas, originado da necessidade básica que afligiu os povos do Mundo em diferentes épocas - que é poder unir todo um povo, toda uma nação, sob uma única égide, um único soberano, especialmente, em territórios muito vastos e desunidos, em reinos muito extensos, como era o caso da Rússia do século XIX. A citação escolhida foi compilada do magnífico e imortal Conto de Nicolau Gogol "O Capote", e gira em torno da miserável situação social do povo russo à época, retratando com sabedoria e brilhantismo a burocracia vigente nas hierarquias governamentais, e o pseudo poder gozado pelos chefetes da vez, em contraste com a dura realidade das coisas simples e importantes da vida cotidiana, no caso aqui: um cidadão comum em meio a tantos outros, o frio extremo da mãe Rússia e um casaco, ou melhor, um capote, como se diz por lá em terras asiáticas. Literatura de altíssimo nível com recomendação especial deste humilde Editor. É só conferir e se deleitar!
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CITAÇÃO
"O espírito de imitação infectou fortemente nossa santa Rússia, cada um quer bancar o chefe e imitar alguém maior: certo conselheiro titular chamado a dirigir uma repartição sem importância apressou-se, dizem, a arrumar, com ajuda de uma divisória, uma espécie de quarto, pomposamente chamado de 'gabinete do diretor'; porteiros de colarinho vermelho e galões em todas as costuras abriam a quem chegasse a porta de seu antro, onde mal cabia uma modestíssima mesa. Nosso personagem importante afetava um ar nobre e maneiras altivas. Seu sistema, dos mais simples, baseava-se unicamente na severidade. - Severidade, mais severidade, sempre severidade! , repetia ele sem cessar fulminando seu interlocutor com um olhar significativo ainda que supérfluo; os dez ou doze empregados que tinha sob suas ordens estavam cheios de respeito e de temor salutar: assim que eles o viam chegar, abandonavam suas ocupações e esperavam, estáticos em posição de sentido, que ele se dignasse atravessar o escritório. Se ele dirigisse a palavra a um inferior seu, era sempre num tom áspero, e para o mais das vezes uma das três perguntas seguintes: - Onde adquiriu essa arrogância? Sabe com quem está falando? Sabe diante de quem você está?

Era, no entanto, um homem bom, muito prestativo, e ainda havia pouco de um trato agradável com seus amigos; mas o título de Excelência lhe havia virado a cabeça. Assim que obteve este título, seu espírito se perdeu, e ele perdeu todo controle sobre si mesmo. Com seus iguais, conduzia-se ainda como um homem bem educado, nada burro sob muitos aspectos; mas, se porventura se misturassem à sua companhia pessoas inferiores, ainda que apenas de um grau abaixo da categoria que ele ocupava na hierarquia, ele se tornava de imediato insuportável, esquecia toda polidez e não dizia palavra. Isso não o empedia de se dar conta de que poderia ter passado o tempo de uma maneira muito mais agradável." (pag33)
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LIVRO: CONTOS RUSSOS ETERNOS // AUTOR: NICOLAU GOGOL // EDITORA BOM TEXTO // RIO DE JANEIRO // 2004.