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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

GUERRA: O TRIBUNAL FINAL DOS ASSUNTOS HUMANOS POR GERHARD LENSKI

QUEM?
Gerhard Emmanuel Lenski (1924). Sociólogo norte-americano.
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COMENTÁRIO
Poder e Privilegio - Teoria de la estratificación social de Gerhard Lenski é um livro muito interessante. A obra trata da distribuição de bens e renda entre as camadas sociais e tem como pano de fundo a evolução humana, desde as sociedades de catadores e coletores nômades nos longíncuos tempos ancestrais até as atuais sociedades de produção e consumo, passando pelas sociedades horticultoras primárias, secundárias, agrícolas e industriais. Certo, um estudo profundo muito bem elaborado e didático da teoria da extratificação social que deixa claríssimo o modelo político-econômico que perpetuamos através dos tempos imemoriais de desigual distribuição de riquezas e poder dentro das sociedades humanas.
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CITAÇÃO
"...la supervivência es la meta principal de la mayoría de los hombres. Si es así, se deduce que la capacidad para quitar la vida es la forma más eficaz de poder. En otras palabras, mayor número de hombres respoderán con más prontitud a la amenaza del empleo de la fuerza que a cualquier otra. En realidad, consttuye el tribunal final de apelación en los asuntos humanos; el único recurso ante la fuerza en una situación determinada es el ejercicio de una fuerza superior" (pág.62)
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LIVRO: Poder e Privilégio // AUTOR: Gerhard Lenski // EDITORA: Paidos // Lisboa: 1966

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

HORKHEIMER E ADORNO: A DOMINAÇÃO SOCIAL PELA DIVISÃO DO TRABALHO

QUEM?
Max Horkheimer (1895/1973). Filósofo e sociólogo alemão.
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Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903/1969). Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão. É um dos expoentes da chamada Escola de Frankfurt.
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COMENTÁRIO
O Conceito de Iluminismo de Max Horkheimer e Theodor Adorno é um texto antológico. Nele, os autores mostram toda sua competência ao dissertar sobre as dinâmicas deste momento histórico tão importante da humanidade (Iluminismo), e como ele influenciou o mundo que nos cerca e a forma como o compreendemos.
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Nessa citação escolhida a dedo teremos uma descrição perfeita da estrutura de dominação social que se perpetua na civilização desde que o mundo é mundo, infiltrando-se também no pensamento.
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Da redação.
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CITAÇÃO
"A dominação confere maior força e consistência ao todo social no qual se estabelece. A divisão do trabalho, na qual a dominação se desenvolve socialmente, serve á autoconservação do todo dominado. Mas com isso, o todo como tal, a atividade da razão a ele imanente, torna-se execução do particular. A dominação faz frente ao indivíduo a título de geral, de razão na esfera da realidade. O poder de todos os membros da sociedade, que enquanto tais não dispõem de outra saída aberta, soma-se, sempre de novo, pormeio da divisão de trabalho que lheséimposta, para a realiozação justamente do todo, cuja racionalidade assim é por sua vez multiplicada. O que éfeito a todos por poucos, perfaz-se sempre pela subjugação de alguns por muitos: a opressão da sociedade exibe sempre, ao mesmo tempo, os traços da opressão exercida por um coletivo. É essa unidade de coletividade e dominação, e não a imediata generalidade social, a solidariedade, que se sedimenta nas formas dopensamento." (pág.110)
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LIVRO: Textos Escolhidos // AUTORES: Max Horkheimer e Theodor Adorno // Título: Conceito de Iluminismo // EDITORA: Abril Cultural // COLEÇÃO: Os Pensadores // São Paulo: 1975 // 1a edição

terça-feira, 14 de setembro de 2010

PÓS-HUMANO: SERIA ESSE O NOSSO FUTURO?

CITAÇÕES
“A diferença entre o artificial e o natural desapareceu, o natural foi tragado pela esfera do artificial...” (HANS JONAS 2006:44)
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“Nenhum objeto, nenhum espaço, nenhum corpo é, em si, sagrado; qualquer componente pode entrar em uma relação de interface com qualquer outro desde que se possa construir o padrão e o código apropriados, que sejam capazes de processar sinais por meio de uma linguagem comum.” (DONNA HARAWAY 2009:62)

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“Uma das características mais notáveis desta nossa era (chamem-na pelo nome que quiserem: a mim, ‘pós-moderna’ não me desagrada) é precisamente a indecente interpenetração, o promíscuo acoplamento, a desavergonhada conjunção entre o humano e a máquina. Em um nível mais abstrato, em um nível ‘mais alto’, essa promiscuidade generalizada traduz-se em uma inextrincável confusão entre ciência e política, entre tecnologia e sociedade, entre natureza e cultura.” (TOMAZ TADEU 2009:11)

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“...há muitos entusiastas que estão convencidos de que com computadores mais poderosos e novas abordagens à computação, como as redes neurais, estamos no limiar de uma revolução em que computadores mecânicos alcançarão a consciência. Tem havido conferências e discussões sérias na tentativa de definir se seria moral desligar uma máquina como essa se e quando esse avanço ocorrer, e se precisaríamos atribuir direitos a máquinas conscientes.” (FRANCIS FUKUYAMA 2003:174)

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“Pode uma inteligência criar outra inteligência mais inteligente do que ela própria?” (RAY KURZWEIL 2007:67)

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“Este fenômeno que Turing
havia previsto: o de que a inteligência das máquinas se tornasse tão penetrante, tão confortável e tão bem integrada à nossa economia baseada em informação que as pessoas sequer conseguiriam se dar conta disso.” (RAY KURZWEIL 2007:108)
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“A maioria dos aplicativos de rede neural com base em computadores, hoje, simulam seus modelos de neurônios em software.” (RAY KURZWEIL 2007:118)

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“As ciências da comunicação e a biologia caracterizam-se como construções de objetos tecnonaturais de conhecimento, nas quais a diferença entre máquina e organismo torna-se totalmente borrada; a mente, o corpo e o instrumento mantêm, entre si, uma relação de grande intimidade.” (DONNA HARAWAY 2009:67)


terça-feira, 6 de julho de 2010

A MENOPAUSA SOBRENATURAL DA MULHER COMANCHE PELA PENA DE RALPH LINTON

QUEM?
Ralph Linton (1893/1953). Antropólogo norte-americano. Autor de Cultura e Personalidade e O Homem: Uma introdução à antropologia.
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COMENTÁRIO
A vida é constituída e configurada segundo uma série complexa de crenças e valores. Os Comanches acreditavam que as mulheres só deviam ter contato com o mundo do além depois de chegarem a uma certa idade. E assim o era. Por quê? Peculiaridade cultural da sociedade em questão.
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CITAÇÃO
"Assim, as mulheres Comanche ficavam liberadas, depois da menopausa, da proibição de lidar com o sobrenatural. Tinham permissão para manejar os objetos sagrados, adiquirir poder por meio de sonhos e entregar-se às práticas dos xamãs, coisas que eram proibidas às mulheres que ainda estavam em idade de procriar." (pág122)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS DEUSES TÊM SEDE DE ANATOLE FRANCE: OS MUITOS LADOS DE UMA MESMA HISTÓRIA

QUEM?
Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844/1924) Talentoso escritor francês. Autor de Os Deuses Têm Sede. Outras obras são: Thais, 0 Lírio Vermelho, O poço de Santa Clara, A rebelião dos anjos entre outras.
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COMENTÁRIO
Não é de hoje que, vira e mexe, uma meia dúzia de três ou quatro malucos vêm, tomam o poder, e fazem dele um verdadeiro cavalo de batalhas, gerando calamidades das mais diversas espécies, e derramando o sangue de pessoas, muitas vezes, inocentes. Mesmos que estes malucos estejam lutando por mais liberdade, igualdade e fraternidade para a coletividade. O poder corrompe as intenções. Aleija a boa vontade e despedaça as ilusões. Sublima o indivíduo, destrói o ser. Turva o saber e cega a razão. Interesses, inveja, despeito, fundamentalismo, hipocrisia, tentação, cobiça, prevaricação, imprudência, corrupção, inveja, dinheiro, comodismo são apenas alguns dos sedutores atalhos que podem fazer o homem bom se desvirtuar. Difícil é estar imune trafegando nas proximidades do poder, onde a promiscuidade é regra e não a exceção, onde o virtuoso facilmente destoa do grupo que deveria integrar, presa de seu fisiologismo e de seus vícios mais sórdidos. Política: maldita profissão inferior que não requer referência de nenhuma espécie para restringir o ingresso da turba em suas fileiras. Afora, é claro, o sufrágio das urnas; ou seja, a voz do Povo que, diga-se, só a tem de fato de quatro em quatro anos, e olhe lá! Acontece, caro Leitor, que a voz do Povo é burra, pois o Povo é, em sua maioria esmagadora, analfabeto, quase sempre manipulável e volúvel - volátil mesmo, diria eu - e capaz das maiores atrocidades quando reunido em massa e irritado em seus brios mais íntimos de sua cidadania. Pois - como já escreveu sabiamente meu prezado amigo Roberto Raup da belíssima e histórica Rio Pardo/RS - quando aglomerados, passamos a reagir instintivamente às situações do ambiente que nos contém numa espécie de Síndrome de Manada, onde retornamo-nos animais brutos e de novo irracionais, a ponto de esmagar tudo em nosso caminho, incluído nossos semelhantes. Foi assim nas Cruzadas, na Santíssima Inquisição, no nazismo, na Ditadura Militar brasileira, na África do Sul, no Vietnã, no Mundo inteiro e, como não poderia deixar de ser, também na Revolução Francesa. As tais liberdade, igualdade e fraternidade foram conquistadas - 'em parte', na ampla aplicabilidade e compreensão do termo aqui empregado - com suor, lágrimas e sangue, muito sangue! Quando a realeza privilegiada da França do Século XVIII caiu, não perdeu apenas o direito às suas posses terrenas e materiais, suas riquezas e luxos, mas também às próprias cabeças que ficavam, até então, firmes com empáfia em cima de seus pescoços, antes de serem guilhotinadas pelos representantes do povo na Convenção e no Tribunal Revolucionário. Não é brincadeira não! Montanhas de cabeças decepadas, oriundas de julgamentos sumários e viciados; um banho de sangue; paranóia, medo, perseguição, filhos denunciando pais com objetivos sórdidos e pecuniários, vizinhos traindo vizinhos, irmãos, pais, padres, soldados, companheiros; perseguidos, presos e mortos; enfim, uma lástima. E, vale notar, isso tudo se dava ao mesmo tempo em que nasciam os primeiros raios da luz que, radiante, iluminaria as mentes humanas mais elevadas, no sentido da aplicação prática dos lemas altruístas já mencionados aqui que, posteriormente, viriam a servir de estrutura sólida e base, para espelhar a constituição moral do Velho Mundo e das demais nações do mundo ocidental, na hora de forjar suas Cartas Magnas, Constituições e seus tratados democráticos de civismo. Lições importantes, apreendidas através dos tempos a ferro e a fogo! Verdades que nos ensinam muito até hoje, mesmo que salvaguardadas nos tempos idos de outrora, lacradas com o selo do passado.
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Para vivermos em grupo, tivemos que criar uma série de dispositivos complexos e complicados de poder e de controle, sem os quais a vida social se torna impossível e inviável. Olhar para trás, através das lentes - mesmo que distorcidas - da história - pois sempre há a ótica parcial do punho que detém a pena que registra os fatos - e isto nos permite uma constatação plena da nossa incapacidade e insuficiência tácita em compreender a nós mesmos, especialmente, quando nos juntamos, nos revoltamos e resolvemos juntos e à força mudar o Mundo. Força estranha e poderosa que assusta e subjuga qualquer oposição, que soergue o panteão da sabedoria, mas que, de igual modo, assinala no anais da história nossa fragilidade indelével diante das seduções do poder, jogando na lama imunda da infâmia e da indignidade toda uma espécie. Ser humano, sem dúvida, é ação e reação; revolução e ilusão; contradição; ser humano é conflito.
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Nas citações escolhidas a dedo dentro da interessantíssima obra que é Os Deuses Tem Sede de Anatole France vemos patente a marca certeira do gênio que sabe, com poucas palavras, passar toda uma miríade de nuances e sensações que, o tolo escrevinhador comum, gastaria páginas e páginas para descrever, sem sucesso e sem a menor graça. Os Deuses Tem Sede é um livro muito bem escrito que serve - entre muitas outras coisas - para nos reconhecermos a nós mesmos como falíveis e humanos, principalmente, quando expostos às feridas pútridas da política e do poder, pústulas repugnantes e contagiosas estas que, pululam na sociedade contemporânea, mas que, todavia, vez por outra, desempenham papéis fundamentais nas conquista de avanços inestimáveis para a humanidade, mesmo que a um altíssimo preço.
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Um abraço livre, igual e fraterno para os meus poucos e fiéis Leitores.
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Da Redação.
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CITAÇÕES
Sobre a autêntica filantropia num diálogo entre o personagem humanista e ex-financeiro Brotteaux, e um padre que este acolheu na rua condenado á prisão e provavelmente à morte, sob pena de ser ele mesmo Brotteaux, incriminado:
"Deu o colchão ao seu hóspede e guardou a palha para si, mas o religioso reclamou-a por humildade, com tal convicção que teve de o satisfazer. Depois de terminar as arrumações, Brotteaux soprou na vela, por economia e por prudência.
- Senhor - Disse-lhe o religioso - reconheço o que faz por mim; mas, tem pouco interesse para o senhor que eu o considere bom. Possa Deus recompensá-lo! Isso sim, teria interesse para o senhor. Mas Deus só leva em conta o que é feito para Sua glória e o que provém de uma virtude puramente natural. É por isso que lhe suplico, senhor, que faça por Ele o que foi levado a fazer por mim.
- Meu pai - respondeu Brotteaux - não tenha a menor preocupação e não pense dever-me algum reconhecimento. O que faço neste momento, e de que exagera o mérito, não o faço por amor ao senhor: porque, afinal, embora o senhor seja amável, conheço-o há pouco tempo para o amar. Também não o faço por amor à humanidade: pois não sou como Don Juan paracrer, como ele, que a humanidade tem direitos; e estepreconceito num espírito tão livre como o seu, aflige-me. Faço-o por aquele egoísmo que inspira ao homem todos os atos de generosidade e dedicação, fazendo-o reconhecer-se em todos so miseráveis, dispondo-o a lamentar o bseu próprio infortúnio no infortúnio alheio e levando-o a auxiliar um mortal semelhante a ele pela natureza e pelo destino, até acreditar que socorre a si mesmo socorrendo-o. Faço-o também por passatempo: porque a vida é agora tão insípida que é preciso arranjar distração a todo custo, e a benfeitoria é um divertimento bastante enfadonho a que nos damos na falta de outreos mais saborosos; faço-o, enfim, por espírito de sistema e para lhe mostrar do que é capaz um ateu." (pág159)
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Mais adiante, no mesmo debate filosófico entre os dois - o padre e Brotteaux - numa citação de Epicuro feita pelo segundo sobre o poder de Deus:
"Epicuro disse: Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, é perverso; se não pode nem quer, é impotente e perverso; se pode e quer, por que não o faz, meu pai?" (pág181)
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Sobre uma passagem dramática quando Evaristo Gamelin, jurado do tribunal revolucionário, um dos personagens principais da história com amplos poderes, e sua amante, Elodie, numa cena, literalmente, de amor e ódio, se digladiam e se amam:
"-Estás vingada - disse. - Jacques Maubel já não existe. A carruagem que o conduzia à morte passou de baixo da tua janela, rodeadea de archotes.
Ela compreendeu:
- Miserável! Foste tu que o mataste, e não era o meu amante. Não o conhecia... nunca o vi... Que homem era esse? Era um jovem, amável... inocente. Mataste-o, miserável! Miserável!
Caiu desvanecida. Mas, nas sombras desta morte, sentia-se ao mesmo tempo inundada de horror e de voluptuosidade. Reanimou-se; as suas pesadas pálpebras descobriam o branco dos olhos, a garganta arquejava, as mãos procuravam o seu amante. Apertou-o nos braços, enterrou-lhe as unhas na carne e deu-lhe, com os seus lábios atormentados, o mais mudo, o mais surdo, o mais longo, o maisn doloroso e o mais delicioso dos beijos.
Ela amava-o de todo o coração e, quanto mais ele lhe aparecia terrível, cruel, atroz, quanto o mais o via coberto do sangue das suas vítimas, mais tinha fome e sede dele." (pág206)
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LIVRO: Os Deuses Têm Sede // AUTOR: Anatole France // EDITORA: Otto Pierre Editores // Lisboa // Sem data
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1984 DE GEORGE ORWELL: UM CLÁSSICO DA CACOTOPIA FICCIONAL

QUEM?
Eric Arthur Blair (1903/1950). Talentoso jornalista, ensaísta e romancista britânico, que escreveu sob o pseudônimo George Orwell. Autor do clássico espetacular 1984.
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COMENTÁRIO
Quem leu sabe: 1984 é uma porrada! Pois fala com extrema precisão de um mundo - e, vejamos que o autor escreveu a referida obra em 1949, ou seja, longe de nossos dias, lá nos meados do século XX - onde, com uma lucidez impressionante, transporta-nos para a dramática e instigante trama de terror social, de desumanidades e de regime de controle absoluto e exacerbado até mesmo do pensamento dos indivíduos, dando origem - mesmo que a maioria das pessoas, que não leu o livro e usa a expressão, não saiba - ao termo Grande Irmão, muito em voga hoje em dia, neste Mundo atual e vulgar do terceiro Milênio, que é com efeito assolado pela nanotecnologia, pela bionanotecnologia e bioengenharia, pela clonagem, pela genômica e pelas demais formas que a humanidade - digo - o homem (homosuicidasapiens) descobriu e inventou para dominar e controlar, e, acima de tudo, tentar subjugar a Natureza que o gerou, além de corromper sua própria essência; se é que temos uma. Neste complexo contexto onde o Ser Humano brinca impunemente de Deus, as repercuções práticas de tal bobardeio tecnológico são desastrosas além de imprevisíveis, especialmente se for mais uma vez exercido - como sempre de fato é - tendo única e exclusivamente o lucro máximo a nortear as ações que dizem respeito e afetam à sociedade como um todo e de forma ampla, marcante e singular.
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Trata-se sem dúvida de uma obra fantástica, muito bem escrita, de extrema habilidade crítica, de uma veracidade contundente e desconcertante, que nos faz refletir, digamos assim, 'à força' sobre este mesmo Mundinho besta que vivemos hoje, isso tudo há mais de meio Século atrás na ocasião inspirada de sua redação, quando este visionário e brilhante escritor britânico previu - e que nós mesmos, através de nossas existências e de nossas escolhas sóciopolíticas e de consumo, ajudamos a construir e dar forma - toda esta loucura que está à nossa volta - digo - a cultura na qual estamos inseridos. No livro vemos pessoas manipuladas e indiscriminadamente controladas, sem tempo para si mesmas, servindo submissamente, vazias de consciência mas repletas de agonia voraz de uma imcompletude descomunal, a ponto de permitirem a terceirização de suas próprias vidas, de suas existências e, especialmente, manobradas segundo interesses escusos e egoístas que sempre privilegiam uma mesma minoria; enfim, isso nos lembra alguma coisa? É duro compreender que nós, a humanidade, coletivamente falando, possamos ser apenas uma gigantesca e formidável massa global de consumo inconsciente de si mesma, que se digladia e se mata trabalhando e doando a própria vida para mover a inominável e cruel máquina capitalista que está em toda parte; ou seja, o famigerado, o dito, o repetido e cultuado Grande Irmão. É exatamente disso que fala 1984 e não se engane: o autor, mesmo que privado de uma visão real do futuro que estaria por vir diante de si, soube trazer à tona notáveis fantasmas que, com toda certeza, de fato assombram os nossos dias atuais.
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1984: Dica da pesadíssima para quem não quer errar na escolha de um bom livro. Obra para ler e pirar - digo - refletir e agir. Assim, sem medo de me equivocar, indico honrosamente 1984, obra esta muito interessnate, e que me foi indicada por uma pessoa especial e querida, amada e admirada, a quem dedico estas humildes linhas virtuais jogadas ao léu na grande rede neste momento lúdico, perfilando-a junto a grandes obras do gênero cacotópico futurista de ficção, como o incrível Admirável Mundo Novo, de Huxley, e o THX 1138 (filme), de Copolla.
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Deste modo, segue aqui, apenas a título de petisco literário, um trecho bombástico escolhido especialmente a dedo por este velho Escriba pós-tudo da veloz Era digital.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal e de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruídos, a grande massa de seres humanos normalmente estupidificada pela miséria aprenderia a ler e aprenderia a pensar por si; e uma vez que isso acotecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De uma maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância" (pág178)
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LIVRO: 1984 // AUTOR: George Orwell // EDITORA: Companhia Editora Nacional // 1949

quinta-feira, 23 de julho de 2009

COLOMBA DE MÉRIMÉE: UM ROMANCE FRANCÊS À MODA ANTIGA

QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), brilhante dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês. Autor de Colomba e da imortal Carmen.
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COMENTÁRIO
Colomba de Prosper Mérimée é um romance à moda antiga com belas donzelas, homens nobre e corajosos, terras estranhas com costumes e hábitos exóticos, intrigas, vinganças, tiroteios, sangue, coincidências extravagantes; enfim, uma bela história nos moldes clássicos de se escrever romance de aventura. Este talentoso autor francês nos leva com habilidade para dentro deste mundo 'selvagem', por assim dizer, e acabamos irremediavelmente envolvidos na trama que ele nos propõe com sua prosa suave e elegante. Interessantíssimo, não só pela especificidade da cultura abordada, como também por sua narrativa ágil e instigante, típica destes romances de viagens e expedições; Colomba é para ler, entreter e relaxar o leitor que aprecia este tipo de texto menos profundo, ainda assim, criativo, estiloso e agradável. Nas citações escolhidas, vemos um pouco da alma desta gente brava e arredia da Córsega que levava seus códigos de honra a limites extremos, e que praticavam crimes e vinganças sangrentas como parte de seus cotidianos rudes e aguerridos.
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CITAÇÕES
Um pai deserperado lamenta a morte de dois filhos:
"Mas essa dor ruidosa causava menor impressão do que o silencioso desespero de um personagem que atraía todos os olhares: o desventurado pai que, indo de um cadáver a outro, levantava as cabeças sujas de terra, beijava os lábios violácios, soerguia os membros já hirtos, como para lhes evitar os solavancos da estrada. Às vezes, viam-no abrir a boca para falar; mas não soltava um grito, nem uma palavra." (pág146)
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Colomba, a personagem principal do romance, em ato de extrema bravura:
"Atiraram pedras às janelas da sala em que se achavam Colomba e seus hóspedes. Dois tiros foram disparados e, atravessando o paravento, as balas fizeram voar pedaços de madeira sobre a mesa, perto da qual estavam sentadas as duas mulheres. Miss Lídia gritou aterrorizada, o coronel agarrou sua carabina e Colomba, antes que a pudessem deter, atirou-se à porta da casa e escancarou-a de golpe. Aí, de pé sobre o limiar, as duas mãos estendidas na direção dos inimigos, esplendidamente resoluta, clamou:
- Covardes! Atiram sobre mulheres e estrangeiros! São corsos? São homens? Miseráveis que apenas sabem assassinar pela retaguarda! Avancem! Eu os desafio! Estou sozinha! Meu irmão está longe! Matem-me! Matem a meus hóspedes! Será digno de quem são!... Não ousam, covardes?! Sabem que nos vingaremos!... Vão, vão chorar como mulheres e agradeçam por não exigirmos mais sangue!" (pág147)
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LIVRO: Colomba // AUTOR: Prosper Márimée // EDITORA: Livraria Martins // São Paulo // Sem data

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O BRILHANTE ANARQUISTA INDIVIDUALISTA LYSANDER SPOONER

QUEM?
Lysander Spooner (1808/1887). Notável anarquista, filósofo político norte-americano cujo trabalho era dedicado à luta contra as incontáveis contradições humanas, como a escravidão e o capitalismo. Humanista todo, lutou por atenuar as misérias humanas e as desigualdades de seu tempo. Autor do sensacional Vícios não são Crime.
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COMENTÁRIO
Lysander Spooner: eis que seu revolucionário clamor de cunho ético e questionador sobre os valores sociais e da indignidade humana nos chega até os dias de hoje, como um alento oriundo de um grande pensador dedicado às causas públicas e aos menos privilegiados. Ativista combativo do Pensamento Livre e anarquista individualista do início do Século XIX, foi extremamente aguerrido em sua luta contra os poderosos e opressores da vez. Muito de seu perspicaz discurso político se baseava na argumentação de ausência de constitucionalidade nas medidas do Estado relativas ao povo. Um humanista. Uma alma sensível buscando mais dignidade social. Um homem, com certeza, necessário à humanidade, e que deixa um legado escrito importante. Nessa passagem escolhida a dedo no belíssimo livro de Ensaios, nesta jóia da literatura rebelde, underground e maldita de todos os tempos, obra prima da contracultura norte-americana - Vícios não são Crime - vemos o mestre do pensamento e da pena esbanjar inteligência e estilo num texto épico, contundente e de extrema relevância para a coletividade; simplesmente sensacional!
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CITAÇÃO
"Todos chegamos ao mundo ignorando a nós próprios e a tudo o que nos rodeia. Por uma lei fundamental das nossas naturezas, todos nós somos constantemente impulsionados pelo desejo da felicidade e pelo medo da dor. Mas temos necessidade de aprender tudo acerca daquilo que nos pode dar felicidade e preservar da dor. Não há dois entre nós que sejam inteiramente idênticos, quer do ponto de vista físico, quer do mental ou emocional; nem, consequentemente, em nossas necessidades físicas, mentais ou emocionais, de obter felicidade e evitar seu oposto. Então, não há ninguém entre nós que possa aprender esta lição indispensável da felicidade e da infelicidade, virtude e do vício em lugar dos outros." (capítulo VI/pág14)
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LIVRO: Vícios não são Crime // AUTOR: Lysander Spooner // EDITORA: Aquariana // Coleção B // São Paulo // 2003

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A HISTÓRIA DE UM CAVALO SENSÍVEL ATRAVÉS DA PENA COMPETENTE DE LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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COMENTÁRIO
Kholstomér é um cavalo interessantíssimo mais humano que muito ser humano. Sensível, conta sua própria história de forma admirável, sob o bailar suave da pena competente deste mestre da literatura russa: Leão Tolstói. O conto em questão é de extrema delicadeza e acaba por nos mostrar de maneira inequívoca a alma dos animais e o quão inteligente e notáveis são estes seres. Infelizmente, estes são - de maneira geral - sacrificados, subjugados e mortos por nossas infindáveis crueldades humanas. Nós, seres ditos racionais, elevados e superiores. Uma lástima brutal. Envoltos em nossa razão pseudo avantajada, vamos explorando as demais espécies, como se só a nós fosse dado o direito de sobreviver em paz neste mundo. Maltratando e destruindo as demais criaturas vivas, interferimos numa delicada e singela harmonia natural, e deste modo, sem conhecimento e consciência, vamos cavando nossa própria sepultura ao extingui-los. Já é mais do que hora de acordarmos para estas barbaridades, e assim tratarmos com - no mínimo - mais respeito, estes inocentes e belos seres vivos - que, mesmo que não saibamos - são nossos irmãos naturais dentro desta infinidade de manifestações diferentes que a vida achou para se aparelhar nesta singular dimensão. Assim, sejamos mais justos e menos prepotentes com nossos companheiros animais. É imperativo. A própria razão o dita!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras "meu", "meu potro", palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe do estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consitia este vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não hove jeito de entender o que significava me chamarem de propriedadede um homem. As palavras "meu cavalo", referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras 'minha terra', 'meu ar', 'minha água'." (pág74)
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LIVRO: O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS // AUTOR: LEÃO TOLSTÓI // EDITORA: COSACNAIFY // SÃO PAULO // 2000/2005.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

DOIS MOMENTOS DE MUDANÇA E RENOVAÇÃO NO JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Rápido, como quem furta, duas citações da juventude de Jean-Christophe onde vemos o autor esbanjar sua refinada técnica literária na descrição precisa dos conturbados dias que o personagem vive em busca da maturidade e de sua própria personalidade. Obra indubitavelmente bela, bem construída, narrada com expantoso vigor cativante, a despeito de sua extensa compleição física: 414 páginas, apenas do primeiro volume de um total de 5.
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CITAÇÃO
"Christophe mudava de pele. Christophe mudava de alma. E vendo cair a alma gasta e murcha da infância, não suspeitava que se lhe estava formando uma nova, mais moça e mais poderosa. Da mesma forma por que se muda de corpo no decurso da vida, também se muda de alma; e a metamorfose não se opera sempre lentamente no correr dos dias; existem horas de crise em que tudo se renova num abrir e fechar de olhos. A antiga pele cai. Nessas horas de angústia, o ser julga tudo acabado. E tudo vai começar. Morre uma vida. Uma outra acaba de nascer." (pág293)
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"A mudança era por demais brusca; depois de haver por toda a parte encontrado o vácuo, quando apenas se preocupava com a própria existência e a sentia dissolver-se qual uma chuva, eis que surge por toda parte o Ser sem fim e sem limites, agora que aspirava a fundir-se no universo. Tinha a impressção de que saia de um túmulo. A vida corria transbordante; nadava nela com volúpia e, arrastado por ela, julgava-se plenamente livre. Não sabia que era menos do que nunca, que nenhum ser é livre, que a própria lei que rege o universo não é livre, e que somente a morte - talvez - liberte." (pág298)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

terça-feira, 12 de maio de 2009

UMA QUALIDADE PRECIOSA PARA VIDA POR ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Escrever, sem dúvida, é um dom. E Romain Rolland tinha este dom. Escrevia com grande habilidade, num texto leve, direto e flúido, e dava seu recado com grande êxito além, é claro, de ser um artista do verbo escrito, ou seja, um mestre da pena. Vejamos esta belíssima passagem de Jean-Christophe, onde o autor, com muita precisão, descreve um padrão interessante na formação do caráter dos homens de sua época. Além disso, sem dúvida, um momento notável da literatura universal de todos os tempos.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Possuía a qualidade mais preciosa da vida: uma curiosidade juvenil, que os anos não alteravam, e que renascia todas as manhãs. Não tinha talento bastante para utilizar êsse dom, mas quanta gente de talento o teria invejado! A maioria dos homens morre dos vinte aos trinta anos; decorrido êsse período, nada mais são do que um reflexo de si mesmos; passam o resto da vida a macaquearem a si mesmos; e repetirem de modo cada vez mais mecânico e caricatural, o que disseram, fizeram, pensaram, amaram, no tempo em que eram." (pág266)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

domingo, 10 de maio de 2009

JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreenção sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Eis aqui um grande humanista Ás da pena: Romain Rolland. Hábil que era, não poupava talento e espírito na descrição de seus personagens no belo romance Jean-Christophe sempre, é claro, sendo direto, categórico, espirituoso e bem sucedido na arte do verbo escrito, fluído, vemos o autor acabar com um destes personagens, um sujeito sem caráter da estória, fazendo menção a sua insignificância de maneira surpreendente, reduzindo-o a algo inerte e inanimado que, movido pela gravidade, arrasta consigo tudo e todos a seu redor, em sua inevitável queda. É a marca do gênio impressa em sua obra. Trata-se de um parágrafo de uma importância e beleza notáveis, simples, todavia amplo, abrangente, complexo além de, diga-se de passagem e, acima de tudo, ser adaptável às frágeis almas humanas, e suas múltiplas facetas e susceptibilidades. Numa palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Não era um mau homem, mas, sim, um homem bom pela metade, o que talvez seja pior; fraco, sem energia, sem força moral, embora julgando-se bom pai, bom filho, bom marido, bom homem, e sendo-o talvez, se para isso bastasse uma bondade fácil, que se enternece facilmente, e essa afeição animal que faz querer aos seus como a uma parte de si mesmo. Nem mesmo se podia dizer que era egoísta: não possuioa bastante personalidade para sê-lo. Não era nada. Coisa terrível na vida, essas pessoas que não são nada! Como um peso inerte, que se solta no ar, elas tendem a cair e é preciso absolutamente que caiam; e, na queda, arrasatam tudo o que está com elas." (pág36)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

segunda-feira, 4 de maio de 2009

NANOTECNOLOGIA - O FUTURO É AGORA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais, videomaker com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Nanotecnologia: O Futuro é Agora. Nano é uma escala de tamanho referente a proporções muito pequenas. Um nanômetro equivale a um bilionésimo de metro. A nanoescala faz menção a essa diminuta magnitude. Logo, nanotecnologia (NT) é basicamente tudo que pode ser construído, forjado, manipulado e controlado nesta escala de tamanho.

Quando se considera um avanço cientifico e tecnológico, acredita-se erroneamente que este pertença a toda a humanidade, quando apenas uma minoria goza de seus reais benefícios. Fomos ao espaço, mas aqui na Terra populações ainda morrem de fome diante destas mesmas tecnologias. Avanços científicos nem sempre mitigam desigualdades sociais. Ao contrário, na maioria das vezes criam novas exclusões e acabam por ampliar as desigualdades já existentes. A população global não sabe quase nada sobre NT. E, quando sabe, é através de mensagens pré-fabricadas apresentadas pela mídia para criar um imaginário cor-de-rosa; tipo a cura para todos os males, o que não é uma verdade. O discurso sobre a NT é sempre 'nano-otimista', e todo o P&D (pesquisa e desenvolvimento) é financiado pela iniciativa privada e governos dos países ricos. As NT's ainda não são reguladas por nenhum órgão e vão se consolidando na sociedade à revelia dela própria, o que é muito perigoso. As NT's suscitam várias questões de cunho ético e de segurança. Não há pesquisas de impacto ambiental, nem para saúde humana. Fala-se de nano-robôs capazes de realizar tarefas inimagináveis. Porém, nem os próprios cientistas sabem o que pode acontecer em caso de acidentes. Os produtos com NT em suas fórmulas já estão sendo vendidos livremente, sem menção nos rótulos, transformando a população mundial em cobaias. Fala-se também de 'humanos melhorados' com as NT's, mas quem terá acesso a tais benefícios? E os 'não-melhorados'? E quem controlará as NT's? As mega-corporações transnacionais? Faz-se urgente o debate ético e público sobre as NT's. Ignorar nestes tempos velozes pode ser perigoso demais.

Nanotecnologia: o futuro é agora.

NANOTECNOLOGIA NA GRINGOLÂNDIA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais, videomaker com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Os avanços das nanotecnologias (NT's) na Gringolândia, ou seja, nos países mais ricos Mundo afora, anda de vento em popa, ou melhor, com dinheiro e caixa, fazendo progressos fantásticos e ao mesmo tempo assustadores. Sim, porque as NT's já são uma realidade e estão sendo desenvolvidas e aplicadas meio que na 'encolha', e à revelia da própria sociedade que não é informada de que já a está consumindo e, lamentavelmente, sempre sob a proteção de leis capitalistas de sigilo industrial. Isto é um tanto óbvio se não fosse assustador e preocupante. Declaro isto pois ouvi, de fonte segura, da boca de quem trabalha nas tais corporações transnacionais justamente nestes ambientes de desenvolvimento tecnológico de produtos contendo NT's, que ninguém sabe o que se está fazendo e avançando em P&D's de NT's sequer na sala ao lado. Ou seja, no outro laboratório, às vezes, da mesma empresa, existe um outro técnico especialista, um outro cientista trabalhando, que também não pode, sob pena de ser punido judicialmente, mencionar os seus projetos a absolutamente ninguém. Isto é uma regra geral, é claro que há exceções. Todavia, com efeito, isso tudo nos indica que, provavelmente, sabemos bem menos do que o que se dá de fato em termos concretos no que diz respeito aos níveis de avanços em nanotecnologia no momento presente.
Isso tudo, é claro, sem falar do grande engano que é considerarmos estes avanços como pertencentes a toda a humanidade. Na verdade, no mundo real, no universo das patentes, por exemplo, no mundo dos homens, as nanotecnologias significam negócios, nada mais. É um equívoco acreditarmos num mundo em que os grandes capitalistas desenvolvem dentro de si sentimentos e princípios humanistas, pois isto nunca irá acontecer. Prova disto é que muito em nanotecnologia - como não poderia deixar de ser, especialmente considerando os países envolvidos - já está sendo aplicado em armamentos e produtos bélicos. São muitas as suas possíveis utilizações em diversas áreas, não só na militar. A miniaturização, por exemplo, é a mais óbvia, mas os potenciais vão bem além disso, e tratam de manipulação da informação de uma maneira geral: a otimização e potencialização de propriedades, como as explosivas, por exemplo; mas tratam também de rastrear, controlar pessoas e materiais com nanochips; e, finalmente, de alterar gens, clonar e fabricar novos organismos vivos, organismos estes, órfãos da cadeia evolutiva natural, o que pode ser um enorme perigo de incomensuráveis impactos.
Poderíamos dizer, sem medo de engano, que as nanotecnologias servem para quase tudo. Com a diminuição para a escala nano, um bilionésimo de um metro, embalagens, por exemplo, podem continuar a levar informações ao fabricante, mesmo depois de serem adquiridas. É possível que estes produtos continuem a trabalhar mesmo em nossas casas, enviando sinais do momento da abertura do próprio produto, sua localização física no espaço, se foi consumido inteira ou parcialmente, ou seja, tais avanços e aplicações comerciais e estratégicas, no mínimo, levantam quetões amplíssimas de cunho ético, filosófico e social.
Há que se atentar para as nanotecnologias sob pena de sermos engolidos por elas.
Toda vez que uma nova tecnologia chega, infalivelmente, destrói ou reduz drasticamente suas predecessoras. Assim, o Brasil precisa estar atento às questões relativas às nanotecnologias. Estamos numa verdadeira encruzilhada histórica: por um lado, um imenso potencial de desenvolvimento e aplicações destas técnicas, para que possamos, além de sanar nossas mazelas sociais, competir de igual para igual com os outros países; e, por outro, imensos riscos, e a necessidade premente de mais pesquisas de impacto na saúde humana e no meio ambiente, além da carência monumental de regulação do setor. Como se costuma dizer no popular, deixar para as próprias corporações a responsabilidade de se auto-regular, é um ato tão insano quanto tentar amarrar cachorro com linguiça. Estes grupos pensam em números, e não em pessoas.
Vale lembrar também que outras tecnologias já surgiram na história da humanidade, e que as desigualdades gritantes continuaram e até pioraram depois delas. As tecnologias, em si, não alteram a realidade sozinhas. Não mudam nada por si mesmas. São apenas ferramentas em mãos humanas.
Em um mundo consumista, capitalista e massificado, as NT's chegam para aguçar a ganância de alguns, e a preocupação de outros que pesquisam, como eu, por exemplo. Deste modo, direto da Redação, segue aqui a dica deste humilde editor Escriba: Populações do Planeta, olho vivo com as NT's!

terça-feira, 14 de abril de 2009

A DEMOCRACIA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
A epopéia de O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello é algo assim sui generis. Trata-se do personagem principal da trama em busca de sua própria identidade, depois de uma fatalidade que ocorre em um momento mais que apropriado, para ele, projetando-o para um mundo de busca dos significados da vida e da existência. Enquanto somos embalados pela cativante e inteligente narrativa, vamos nos dando conta da reflexão profunda que este brilhante autor siciliano nos propõe. Na citação selecionada, vemos um dos personagens coadjuvantes refletindo sobre a democracia em contraste com a monarquia. Inesperado, autêntico, brilhante, este é Luigi Pirandello. Uma maravilha!
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CITAÇÃO
"Mas a verdadeira causa de todos os nossos males, desta nossa tristeza, você sabe qual é? A democracia, meu caro, a democracia, ou seja, o governo da maioria. Porque, quando o poder está nas mãos de um só, este sabe que é um só e que deve contentar muitos; mas quando muitos governam, pensam somente em se contentarem a si mesmos e temos, então, a tirania mais estapafúrdia e mais odiosa: a tirania mascarada de liberdade." (pag162)
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LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

domingo, 29 de março de 2009

A CONVENÇÃO POR VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802/1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis.
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CITAÇÃO
"A Convenção é o primeiro avatar do povo. Foi pela Convenção que se abriu a grande página nova e que o futuro de hoje começou." (pag175)
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COMENTÁRIO
Noventa e Três é uma belíssima obra que trata de um momento insquecível da história da humanidade. Pedra basilar sobre a qual foi construído o mundo que conhecemos hoje.
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: I // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

NO TEMPO DOS BANDEIRANTES DE BELMONTE

QUEM?
Benedito Bastos Barreto, conhecido como Belmonte (1896/1947). Célebre cartunista, desenhista e escritor brasileiro, Belmonte foi autor de inúmeros livros, entre eles a obra No Tempo dos Bandeirantes, que teve sua quarta e última edição publicada logo após a sua morte.
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COMENTÁRIO
No Tempo dos Bandeirantes é uma jóia rara da literatura brasileira. Esta é uma obra histórica, belíssima, diga-se de passagem, que nos mostra um pouco da vida destes homens legendários que desbravaram os Sertões brasileiros na aurora da colonização portuguesa. Mas, não nos enganemos: estes bravos e épicos personagens tinham também seu nefasto lado de horror, barbárie e destruição. Foram verdaderiros monstros que mataram e dizimaram civilizações inteiras, tragando com sua fúria conquistadora, sua culturas. Mas, a pesar disso, cumpriram uma missão importante na consolidação de nosso território, levando as fronteiras da pátria bem além dos limites e dos tratados. Ler Belmonte, é conhecer um pouco mais dos hábitos destas criaturas, que escreveram com seu próprio sangue, e com o de suas vítimas, os primeiros capítulos da história do Brasil.
Numa só palavra: Magnífico!
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CITAÇÃO
"Com efeito. O Brasil, como todas as outras colonias do Novo Mundo, é administrado de acordo com as exigências da metrópole e não das suas próprias necessidades. A pirataria que, por algum motivo, se revestira de aspectos aventureiros e românticos, acaba de se organizando comercialmente para a exploração sitematizada do tráfico e da rapinagem." (pag115)
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LIVRO: No Tempo dos Bandeirantes // AUTOR: Belmonte // EDITORA: Melhoramentos // São Paulo // 1940

CHOMSKY: O DESEMPODERAMENTO DO INDIVÍDUO

QUEM?
Avram Noam Chomsky (1928), norte-americano, é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seu trabalho revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. Chomsky é também muito conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos da América.
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COMENTÁRIO
Mestre Noam é um cara espetacular. Sem papas-na-língua, diz o que quer, do assunto que for: geralmente, política. Especialmente, a internacional. Para ser mais exato: critica com veemência e austeridade seu próprio país natal por reconhecer que sua política externa nefasta gera conflitos e aniquilações por onde quer que se meta Mundo afora. Humanista que é todo, sabe que por trás da guerra, há outra guerra, a de interesses, milhonários interesses, e que por trás das atitudes das pessoas também. Sem articulação, sem horizontes, enfim, sem cultura, o indivíduo passa a não ser considerado. Até porque, pouco é de fato na sociedade, além de massa teleguiada de consumo, volátil e coercível.
Na citação escolhida do excelente livro Para Entender o Poder, vemos Chomsky e sua língua ferína atendo-se ao que ouso chamar conceitualmente de 'desempoderamento' do indivíduo.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Vejam, parte de toda a técnica de privar as pessoas de poder é providenciar para que os reais agentes de mudança sumam da História e nunca sejam reconhecidos, na cultura, pelo que são. Então, é necessário distorcer a História e fazer parecer que foram os Grandes Homens que fizeram tudo - isso é parte de como se ensina às pessoas que elas não podem fazer nada, que são indefesas, que têm só de esperar que apareçam alguns Grandes Homens que façam as coisas para elas." (pag256)
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LIVRO:Para Entender o Poder // AUTOR: Noam Chonsky // EDITORA: Bertrand Brasil // Rio de Janeiro // 2005

sexta-feira, 13 de março de 2009

ENTENDENDO O PODER COM NOAM CHOMSKY

QUEM?
Avram Noam Chomsky (1928), norte-americano, é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Seu trabalho revolucionou os estudos no domínio da linguística teórica. Chomsky é também muito conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica à política externa dos Estados Unidos da América.

COMENTÁRIO
Poucos teóricos falam tão abertamente contra sua própria pátria como o norte-americano Noam Chonsky. Sim, porque ser norte-americano não significa necessariamente ter que ser um imbecil, e não reconhecer que seu país fez uma série de barbáries através da história, pelos diversos cantos do Planeta. Olhemos para trás: em tudo que é confusão e conflito que se tenha notícia no Mundo contemporâneo, lá estão os Estados Unidos da América e sua prepotência belicosa habitual, em uma atitude de ganância paranóica e astuta. Sejamos francos: os caras estão simplesmente em todas! E pior, se orgulham disso. Anunciam, aos quatro ventos, um modo vazio e antropocêntrico de viver; para completar, insustentável. Alimentam o terror com mais terror, tratam o fogo com mais fogo e morte com mais morte. Fazem esta força estranha circular. Mas, todavia, o que não se diz, até por uma questão de elegância - pois pega muito mal ficar falando verdades por aí, a torto e a direito - é que a guerra dá grana! Gera lucro. Enriquece gente, cria a ganância por manter a demanda... E as guerras se seguem. Todos estes intermináveis conflitos, mortes e genocídios geram receita, não há como escapar desta verdade. Trata-se de um faturamento gigantesco, de cifras astronômicas, que impulcionam a indústria e a prosperidade deles - note-se bem - enquanto sacrificam vidas inocentes como se não valessem nada; e dizimam países inteiros, massacrando os direitos humanos universais, conquistados há muito, a custa de tantas vidas. Isso, sem falar - é obvio - das infindáveis manipulações sórdidas de governos alheios, através do poder econômico ou da violência; dos subsídios aos conflitos internos de outras nações por interesses financeiros ou estratégicos; além de outras práticas desumanas, que lhes fornecem benefícios antes, durante e depois dos tais famigerados conflitos armados nos quais se envolvem. Milhares de mortos... Legiões de mutilados... Gravíssimo dano ambiental... Desestruturação de culturas... Eis o verdadeiro legado da guerra. E a 'coisa' vai longe, pois não. Basta imaginar, só para se ter uma idéia - um só porta-aviões deles, norte-americanos, com seus infinitos equipamentos embarcados, infraestrutura, bens de consumo, víveres, uniformes, bombas, armas, equipamentos, tecnologia, enfim - tudo isto tem que ser fabricado, e no final das contas: dá lucro sim, e muito. Que outra força seria capaz de mover homens e mulheres à ruína e à desgraça, de destruir países inteiros, se não o interesse sórdido de alguns, em detrimento dos demais; da maioria?
É disso, e de muito mais, que Chonsky fala em seus escritos políticos. Sim, porque além de linguista reconhecidamente importante, é também um ativista político de primeira grandeza, especialmente quando o assunto é: direitos humanos. Com a abertura dos arquivos do Pentágono e da CIA, depois de mais de cinquenta anos de sigilo, surge uma infinidade de dados e informações contundentes que, infelizmente, confirmam esta dura e lamentável realidade política Global.
Para Entender o Poder é uma obra interessantíssima, que nos ajuda a compreender porque o Mundo é assim como é: agônico, contraditório e desigual.
Da redação Escriba.

CITAÇÃO
"Houve uma discussão muito consciente sobre a necessidade de criar carências - e, de fato, foram realizados extensos esforços para fazerem exatamente o que se faz na TV hoje em dia: criar carências, fazer você querer o mais novo par de tênis de que você na verdade não precisa, para que as pessoas então sejam impulsionadas a uma sociedade de trabalho assalariado. E esse padrão foi se repetindo sempre ao longo de toda a história do capitalismo. De fato, o que toda a história do capitalismo mostra é que as pessoas tiveram que ser levadas a situações que então se alega serem da sua natureza. Mas se há algo que a história do capitalismo mostra é que isso não é da natureza delas, elas tiveram que ser forçadas a isso, e que esse esforço teve que ser mantido até os dias de hoje." (pág276)

LIVRO: Para Entender o Poder // AUTOR: Noam Chonsky // EDITORA: Bertrand Brasil // Rio de Janeiro // 2005