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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

PETER SLOTERDIJK: CARTAS A CAMINHO DE AMIGOS DESCONHECIDOS

QUEM?
Peter Sloterdijk (1947). Filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Regras para o parque humano é um livro contundente. Logo de cara, quando apresentado num evento na Baviera (1999), gerou uma polêmica fortíssima que se arrasta até os dias atuais, pois o assunto é muito novo e deveras instigante: a criação, manipulação e controle de seres humanos por seres humanos. Seara profunda e escorregadia que se faz importante devido ao exponencial avanço das bionanotecnociências. Certo, um dos pontos nevrálgicos da temática pós-humanismo, já tratada anteriormente aqui neste blog.
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Nessas brilhantes passagens de clareza flagrante vemos o autor descrever com grande maestria as nuances do trabalho literário dos escritores filósofos que, de um modo ou de outro, fazem suas apostas cegas num possível leitor não-identificado do amanhã, e no próprio futuro como possibilidade imanifesta que repousa serenamente no por-vir - digo - no vir-a-ser.
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CITAÇÕES
"Faz parte das regras do jogo da cultura escrita que os remetentes não possam antever seus reais destinatários; não obstante, os autores lançam-se à aventura de pôr suas cartas a caminho de amigos não-identificados." (pág.8)
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"... o remetente desse gênero de cartas de amizade envia seus escritos ao mundo sem conhecer os destinatários - ou, caso os conheça, está consciente de que o envio das cartas os ultrapassa e consegue criar uma multiplicidade indeterminada de oportunidade de estreitar amizades com leitores anônimos muitas vezes ainda nem nascidos." (pág.9)
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"A escrita não só estabelece uma ponte telecomunicativa entre amigos manifestos vivendo espacialmente distantes um do outro no momento do envio da correspondência, mas também põe em marcha uma operação rumo ao que não está manifesto: ela lança uma sedução ao longe, um actio in distans, no idioma da magia da antiga Europa, com o objetivo de revelar o amigo desconhecido enquanto tal e levá-lo a ingressar no círculo de amigos." (pág.10)
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LIVRO: Regras para o parque humano // AUTOR: Peter Sloterdijk // EDITORA: Estação Liberdade // São Paulo: 2000

domingo, 20 de junho de 2010

AS VISÕES DE FUTURO DE MICHIO KAKU

QUEM?
Michio Kaku (1947). Físico teórico norte-americano. É professor e co-criador da teoria de campos de corda, um ramo da teoria das cordas. Autor do livro Hiperespaço.
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COMENTÁRIO
Visões do Futuro é um livro onde o autor tenta fazer previsões sobre o que acontecerá nos próximos 20, 50 e 100 anos, com o advento das novas tecnologias, e com a interação destas com a sociedade. Como ele escreveu o referido livro em 1997, hoje em 2010, 13 anos depois, podemos conferir algumas de suas previsões na prática, constatando acertos e erros, peculiarmente, em igual medida, o que prova na prática que o campo das previsões, especialmente em se tratando de tecnociências, não é um campo fácil de se atuar. Na citação, vemos uma das muitas previsões interessantes que ele nos oferece em seu livro.
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CITAÇÃO
"No passado, os biólogos aprendiam sobre a vida analisando o interior de espécimes vivos (isto é, in vivo). No último século, eles aprenderam a estudar a vida no vidro (isto é, in vitro). No futuro, estudarão a vida através de computadores (isto é, in silico)." (pág.190)
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LIVRO: Visões de Futuro - Como a ciência revolucionará o século XXI // AUTOR: Michio Kaku // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro: 2001

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A MORTE ATRAVÉS DA PENA COMPETENTE DO SOCIÓLOGO FRANÊS EDGAR MORIN

QUEM?
Edgar Morin (1921). Antropólogo, sociólogo e filósofo francês.
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COMENTÁRIO
A morte é, sem dúvida e sem trocadilhos, mortificante. Evitando as meias palavras, traz consigo época de trevas e horror: desagregação, em todos os sentidos. Qualquer tentativa de comentário além disso adentraria, sem dúvida, um universo sombrio e nefasto, cujo entendimento e compreensão estão longe de nós: humanos. Deixemos então que fale sobre ela o mestre Edgar Morin.
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CITAÇÃO
“A morte é o buraco negro desvelado desde a pré-história pela consciência racional. Mas esse buraco negro engolirá as consequências racionais dessa consciência.” (pág.124)
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LIVRO: O Método 5 - a humanidade da humanidade - a identidade humana // AUTOR: Edgar Morin // EDITORA: Meridional/Sulina // Porto Alegre: 2007.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

1984 DE GEORGE ORWELL: UM CLÁSSICO DA CACOTOPIA FICCIONAL

QUEM?
Eric Arthur Blair (1903/1950). Talentoso jornalista, ensaísta e romancista britânico, que escreveu sob o pseudônimo George Orwell. Autor do clássico espetacular 1984.
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COMENTÁRIO
Quem leu sabe: 1984 é uma porrada! Pois fala com extrema precisão de um mundo - e, vejamos que o autor escreveu a referida obra em 1949, ou seja, longe de nossos dias, lá nos meados do século XX - onde, com uma lucidez impressionante, transporta-nos para a dramática e instigante trama de terror social, de desumanidades e de regime de controle absoluto e exacerbado até mesmo do pensamento dos indivíduos, dando origem - mesmo que a maioria das pessoas, que não leu o livro e usa a expressão, não saiba - ao termo Grande Irmão, muito em voga hoje em dia, neste Mundo atual e vulgar do terceiro Milênio, que é com efeito assolado pela nanotecnologia, pela bionanotecnologia e bioengenharia, pela clonagem, pela genômica e pelas demais formas que a humanidade - digo - o homem (homosuicidasapiens) descobriu e inventou para dominar e controlar, e, acima de tudo, tentar subjugar a Natureza que o gerou, além de corromper sua própria essência; se é que temos uma. Neste complexo contexto onde o Ser Humano brinca impunemente de Deus, as repercuções práticas de tal bobardeio tecnológico são desastrosas além de imprevisíveis, especialmente se for mais uma vez exercido - como sempre de fato é - tendo única e exclusivamente o lucro máximo a nortear as ações que dizem respeito e afetam à sociedade como um todo e de forma ampla, marcante e singular.
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Trata-se sem dúvida de uma obra fantástica, muito bem escrita, de extrema habilidade crítica, de uma veracidade contundente e desconcertante, que nos faz refletir, digamos assim, 'à força' sobre este mesmo Mundinho besta que vivemos hoje, isso tudo há mais de meio Século atrás na ocasião inspirada de sua redação, quando este visionário e brilhante escritor britânico previu - e que nós mesmos, através de nossas existências e de nossas escolhas sóciopolíticas e de consumo, ajudamos a construir e dar forma - toda esta loucura que está à nossa volta - digo - a cultura na qual estamos inseridos. No livro vemos pessoas manipuladas e indiscriminadamente controladas, sem tempo para si mesmas, servindo submissamente, vazias de consciência mas repletas de agonia voraz de uma imcompletude descomunal, a ponto de permitirem a terceirização de suas próprias vidas, de suas existências e, especialmente, manobradas segundo interesses escusos e egoístas que sempre privilegiam uma mesma minoria; enfim, isso nos lembra alguma coisa? É duro compreender que nós, a humanidade, coletivamente falando, possamos ser apenas uma gigantesca e formidável massa global de consumo inconsciente de si mesma, que se digladia e se mata trabalhando e doando a própria vida para mover a inominável e cruel máquina capitalista que está em toda parte; ou seja, o famigerado, o dito, o repetido e cultuado Grande Irmão. É exatamente disso que fala 1984 e não se engane: o autor, mesmo que privado de uma visão real do futuro que estaria por vir diante de si, soube trazer à tona notáveis fantasmas que, com toda certeza, de fato assombram os nossos dias atuais.
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1984: Dica da pesadíssima para quem não quer errar na escolha de um bom livro. Obra para ler e pirar - digo - refletir e agir. Assim, sem medo de me equivocar, indico honrosamente 1984, obra esta muito interessnate, e que me foi indicada por uma pessoa especial e querida, amada e admirada, a quem dedico estas humildes linhas virtuais jogadas ao léu na grande rede neste momento lúdico, perfilando-a junto a grandes obras do gênero cacotópico futurista de ficção, como o incrível Admirável Mundo Novo, de Huxley, e o THX 1138 (filme), de Copolla.
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Deste modo, segue aqui, apenas a título de petisco literário, um trecho bombástico escolhido especialmente a dedo por este velho Escriba pós-tudo da veloz Era digital.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Era possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade em que a riqueza, no sentido de posse pessoal e de bens e luxos, fosse igualmente distribuída, ficando o poder nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Mas na prática tal sociedade não poderia ser estável. Pois se o lazer e a segurança fossem por todos fruídos, a grande massa de seres humanos normalmente estupidificada pela miséria aprenderia a ler e aprenderia a pensar por si; e uma vez que isso acotecesse, mais cedo ou mais tarde veria que não tinha função a minoria privilegiada, e acabaria com ela. De uma maneira permanente, uma sociedade hierárquica só é possível na base da pobreza e da ignorância" (pág178)
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LIVRO: 1984 // AUTOR: George Orwell // EDITORA: Companhia Editora Nacional // 1949

sábado, 30 de maio de 2009

FRAGMENTOS PRECIOSOS DE JEAN-CHISTOPHE PELA PENA HÁBIL ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Fazer e compilar citações de Jean-Christophe de Romain Rolland pode ser tarefa para lá de espinhosa, pois a obra é repleta de espírito e pensamentos elevados, transformando a resenha e compilação de partes isoladas num verdadeiro dilema. Quase tudo ali é bom. Lá pelas tantas, no terceiro volume de cinco, o autor exagera na descrição de aspectos da cultura da época, mas, até isso, lhe é desculpável, pois seus escritos nos servem também como preciso e inestimável relato histórico, sob pena, é claro, de ser por vezes cansativo, desafiando a persistência do bom e nobre Leitor. Fora isto, trata-se de uma grande obra, belíssima, de extrema sensibilidade, que encanta amantes da literatura nos quatro cantos do Planeta. Grande, bela e memorável. Assim é Jean-Christophe de Romain Rolland. Na impossibilidade de citar tudo, vão aqui algumas citações, pequenas pérolas, das muitas que abundam na obra deste brilhante autor francês do tão recente século XX.
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CITAÇÕES
Sobre os alemães:
"Agora que a vitória lhes sorria, não havia desprezo suficiente para as utopias 'à francesa': paz universal, fraternidade, progresso pacífico, direitos do homem, igualdade natural; diziam que o povo mais forte tinha contra os outros um direito absoluto, e que aos outros, na condição de mais fracos, não assistia direito contra ele." (pág251/vol.II)

Sobre um obeso cantor:
" Olhava Pottpestschimidt e perguntava a si mesmo: - Será que ele sente isto, realmente? Não via, porém, nos seus olhos outra chama a não ser a da vaidade satisfeita. Uma força inconciente movia aquela massa pesada. Aquela força cega e passiva era assim como um exército em combate, e ela obedecia, jubilosa, porque necessitava agir e entregue a si mesma não saberia como fazê-lo." (pág228/vol.II)

Sobre a juventude do personagem:
"É muito bonito negar o mundo. Mas o mundo não se deixa negar tão facilmente pelas fanfarronadas de um rapaz. Christophe era sincero; mas iludia-se, não se conhecia bem. Não era um monge, não tinha temperamento para renunciar ao mundo; e, sobretudo, não estava em idade de renúncia." (pág154/vol.II)

Sobre a crítica musical:
"Era porém, tão difícil aos melhores conceber a música como uma linguagem natural da alma, que, quando não faziam dela uma sucursal da pintura, alojavam-na nos subúrbios da ciência e reduziam-na a problemas de construção harmônica. Pessoas assim tão sábias deviam forçosamente dar lições aos músicos do passado. Encontravam erros em Beethoven, aplicavam a férula em Wagner. Quanto a Berlioz e a Gluck, divertiam-se à custa deles. Naquela hora da moda, nada existia para eles a não ser João-Sebastião Bach e Claude Debussy." (pág50/volIII)

Sobre música:
" Sob a graça displicente e o dilentantismo aparente dessas pequenas peças para piano, dessas canções, dessa música francesa de câmara, sobre a qual a arte alemã não se dignava a lançar olhos, e da qual o próprio Christophe negligenciara a poética virtuosidade, ele começava a entrever a febre de renovação, a inquietude - ignorsada do outro lado do Reno - com a qual os francese procuravam, nos terrenos incultos de sua arte, os germes que podiam fecundar o futuro." (pág33/volIV)

Sobre República e Democracia:
"Pela primeira vez, entreviu o sentido da Liberdade belicosa que eles adoravam - o gládio ameaçador da Razão. Não para eles não era uma simples retórica, uma ideologia vaga, como pensara. Num povo para ao qual as necessidades da razão eram as primeiras de todas, a luta pela razão dominava as demais. Que importava que essa luta parecesse absurda aos povos que se diazia práticos? (pág36/volIV)

Sobre o mercado livreiro de Paris: "É relativamente fácil fazer aceitar uma obra em Paris: a dificuldade está em fazê-la publicar. É preciso esperar, esperar durante meses, e se preciso for, toda a vida, caso não se tenha aprendido a arte de cortejar as pessoas, ou de importuná-las, de comparecer de quando em quando à hora do despertar desses pequenos monarcas, de lembra-lhes que existimos e que estamos dispostos a incomodá-los tanto quanto seja preciso." (pág78/volIV)

Sobre o Mundo: "Cada um vê o mundo à sua imagem. Aquêles cujo coração é desprovido de vida, vêem o universo dessecado, e não imaginam os frêmitos da espera, da esperança e do sofrimento que enchem as almas jovens; ou, se os imaginam, julgam-nos friamente, com a pesada ironia de um corpo empanturrado." (pág79/volIV)

Sobre a amizade: "Pertencia àquela elite que, para achar a beleza, tem necessidade de buscá-la nos tempos que se foram, ou nos que ainda não chegaram. Como se o vinho da vida não fôsse tão inebriante hoje como outrora! Mas, as almas fatigadas repugnam o contato direto da vida; não podem suportá-la senão através de um véu de miragens, tecido pela distância do passado e pelas palavras mortas dos que outrora existiram. A amizade de Christophe, a pouco e pouco, arrancava Olivier àqueles Limbos da arte. O sol infiltrava-se nos escaninhos de sua alma." (pág118/volIV)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: II e III // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

terça-feira, 26 de maio de 2009

UMA NECESSÁRIA TROCA DE PARADIGMAS(Ou, simplesmente, a morte dos veículos de transporte e locomoção individuais!)

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais. É videomaker, com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Quero tratar aqui de um assunto complexo e, para tanto, peço licença ao nobre e paciente leitor para usar de toda franqueza que me for possível, além de, sem mais delongas, adentrar lúcida e objetivamente o tema em questão. Para isso, partirei de uma máxima simples, maturada e desenvolvida por mim, em minhas repetidas e gratas visitas à magnífica cidade de São Paulo, minha terra natal, e seus intermináveis congestionamentos.
A cultura dos automóveis individuais movidos a combustíveis não renováveis e poluentes está com seus dias contados.
Sim, e isso se dará por diversos motivos importantes e convergentes. E, é justamente por isso, que tentarei ser breve neste artigo, abordando apenas alguns dos tópicos mais notáveis e gritantes relativos a este contexto de desenvolvimento social e cultural, deixando de fora as outras infinitas possibilidades de recortes e abordagens.

A primeira, e talvez, mais importante observação a ser feita aqui é de natureza matemática, proveniente das ciências exatas mas, passando, sem nenhuma sombra de dúvida, pela área de humanas, pelo bom senso e pela ponderação, virtudes que nunca se mostraram desfavoráveis ao salutar e profícuo julgamento. Todos os dias novos veículos são produzidos, enquanto que as ruas e estradas, vistas de uma maneira prática e quantitativa, continuam do mesmo tamanho. Parece filosofia rasa de botequim, mas não é nada disso. Trata-se, de fato, de uma dura realidade, imponente, dramática e inevitável, que precisamos a todo custo assimilar, nos debruçando sobre a matéria e, se preciso for, lançando mão de toda nossa criatividade – traço marcante de nossa espécie - e dela podermos tirar bons proveitos e boas lições e, acima de tudo, práticas que sejam mais viáveis, como alternativa ao frágil modelo que aí esta.
Minha segunda humilde ponderação, é que não faz mais sentido algum andarmos pelas ruas e estradas do Brasil e do Mundo, à bordo de veículos de transporte e locomoção individuais caríssimos, poluentes e – diga-se de passagem, abastecidos a partir de fontes não renováveis – para, além de tudo, nos engarrafarmos nestas vias que inevitavelmente temos que percorrer, para que a vida cotidiana possa seguir seu curso naturalmente e, especialmente, que a vida em sociedade possa funcionar.

Esta reflexão, nos remete, quase que diretamente, a uma outra. As populações do Planeta vêm crescendo vertiginosamente em termos numéricos e, impactos que não eram sentidos outrora, ou que eram considerados improváveis e incertos até tempos recentes, agora nos assustam de verdade e se multiplicam, nos obrigando a repensar nossos hábitos e até mesmo nossa cultura de uma maneira mais drástica e radical.
Deste modo, e como calamidades e problemas parecem atrair mais problemas e fenômenos de similar espécie, ou seja, de um certo modo, problemas 'chamam' ou 'atraem' mais problemas, é impossível deixarmos de lançar um olhar cauteloso e prescrutativo, sobre nossos hábitos e nossa cultura.

Vivemos em um mundo capitalista. E, dentro deste mundo agônico, midiático e consumista, operam as famigeradas leis de mercado, as quais me furtarei de comentar aqui, para o bem da narrativa e da reflexão que proponho. Neste ambiente e contexto, e isso vale para todos – países ricos ou não, emergentes, decadentes, dentro de organizações como a familiar, municipal, estadual, federal, enfim planetária – ou seja, o que todos querem é desenvolvimento, fartura e prosperidade. E é exatamente aqui surge o conflito.

Somos jovens enquanto nação, com uma história pregressa relativamente recente, especialmente, se considerarmos o resto do Globo, as culturas milenares orientais e o Velho Mundo. Daí, esta coisa que nós brasileiros infelizmente temos, de sermos deculturados, de repetirmos modelos, e de pouco valorizarmos nossa cultura, história e tradição, em detrimento de, modelos alheios a nós, gerando, conseqüentemente, os mesmos estragos e impactos que estes modelos já causaram em suas culturas de origem. Sim, pois nossas metas nacionais de desenvolvimento, nossos objetivos estratégicos de produção de riqueza e consumo de bens, é totalmente equivocada, e já deram prova de sua indubitável ineficiência.

Grosso modo, repetimos o que já deu errado. Daí a nossa importância estratégica de subdesenvolvidos, como reserva manancial para mais exploração capitalista.
É duro admitir: Somos movidos a consumo, e vivemos em função desta orientação cultural, e isto nos foi ensinado repetitivamente à exaustão através dos diversos meios de comunicação, mais especialmente através da televisão que não exclui ninguém em sua onipresença, e agora, nos dias atuais, pela internet. E a mensagem que nos é transmitida geralmente, é que nossa vida só adquire significado, enquanto somos peças integrantes da máquina capitalista de produção e consumo e, especialmente, pelo que possuimos e compramos. E, de fato, se usarmos da razão, doamos nossa vida a este cruel e massacrante sistema e, meio que sem querer, acabamos acreditando nisto como única alternativa, e nos absorvemos enquanto perpetuamos nossa própria escravidão dentro de uma ardilosa armadilha. Uma não, várias.
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Prezadíssimo leitor(a), gostaria de propor agora outra interessante reflexão sobre a matéria. Se olharmos bem, com olhos atentos e críticos, veremos que, dentro do jogo capitalista que participamos e sustentamos com nossas forças individuais de trabalho, nunca ganhamos o suficiente para nós mesmos, ou quem sabe, quimericamente, para nos libertarmos do jugo que nos é imposto por esta política que aí está. Não ganhamos o dinheiro de fato, vejamos bem, apenas o transportamos, de um lado para o outro. Labutamos o mês todo para, no dia do pagamento, corrermos para devolver para Eles, os capitalistas, todos os nossos míseros trocados, sob as mais diversas formas de consumo supérfluos e, dentro deste contexto de extrema externalização do prazer e da realização pessoal, surge, como o ápice e símbolo de ostentação e reconhecimento, o automóvel. Ainda mais em tempos de pick-ups e off-roads, associados a vidas maçantes e rotinas entediantes e sem sentido.

Para concluir esta breve argumentação crítica sobre nossos paradigmas e práticas culturais de locomoção, não poderíamos deixar de notar e comentar o absurdo que é as montadoras de automóveis, estas poderosas corporações multimilionárias transnacionais, ameaçarem os governos com suas lamentações, que nada mais são do que quedas de faturamento, em meio a crise que aí está, assustando as populações, amedrontando as nações mundo a fora com suas incompetências e falências – sendo que, na verdade, trata-se apenas de queda dos lucros. Absurdo maior ainda é, o que se pratica agora, que é os governos saírem a socorrer estes grupos já tão poderosos e privilegiados. Conduta praticada nos Estados Unidos da América, na Europa e, repetido, lamentavelmente por nós brasileiros, aqui em terras tupiniquins e terceiromundistas. Seria indesejável e inoportuno perguntar, por exemplo, porque o Governo Federal, em sua presteza bombeirística patriótica, ao invés de socorrer as riquíssimas montadoras, não socorre os pequenos e médios empresários que passam por dificuldades neste momento turbulento de incertezas, mandando ao diabo estes cretinos. Ou, quem sabe, investir pesado no setor de preservação ambiental e ecológico que, indubtavelmente, necessita de normatização, legislação, fiscalização, plano de manjo ecológico e sustentável, além, é claro, de punição exemplar para os malfeitores que insistirem em infringir as leis vigentes, devastando a natureza, já tão combalida? Não é possível que os interesses de um pequeno grupo ganancioso vá se sobrepor e prevalecer sobre a integridade e o bem estar da maioria da coletividade.

Vivemos o alvorecer de uma nova era, de um novo tempo de mudanças, onde antigos e nefastos modelos, precisam ser substituídos, o quanto antes, por alternativas menos danosas à natureza. A própria palavra Sustentabilidade, tão em voga ultimamente, e tão utilizada indiscriminadamente por estes mesmos grupos capitalistas, no intuito de agregar valor de marketing às suas imagens, que significa, antes de mais nada, gerar desenvolvimento, progresso e riqueza, sem comprometer as futuras gerações, não tem, de modo algum, sido observada e respeitada.

E, para finalizar, aparentemente, a única maneira possível de se corrigir toda esta loucura, seja proibir os automóveis particulares nas grandes cidades e estradas, ou sobretaxá-los de tal maneira, que seja inviável sair-se de carro sozinho por ai. Paralelamente a isso, é claro, e até com os recursos provenientes desta nova política educativa ambiental de arrecadação, fomentar-se novas matrizes energéticas e, especialmente, construir-se uma malha de transportes coletivos eficientes, baratos, seguros, confortáveis e menos poluentes.
Não se trata aqui de uma opinião particular, mas de bom senso e medidas que devem ser empreendidas o quanto antes, sob pena de fomentarmos um colapso em nível Global.
Não é possível que pessoas fúteis e vazias andem por aí em caminhonetes diesel, cujos motores, poderiam, por exemplo, estar levando toda uma classe de alunos carentes à escola, ou cumprindo uma outra missão igualmente digna.
Falo de medidas extremas e radicais. Basta agora, sabermos quem terá a coragem necessária para implementá-las.
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O tempo urge.
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Da Redação.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A MORTE PELA PENA VAGA-LUME DO SICILIANO LUIGI PIRANDELLO


QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
A morte sempre foi, e sempre será, um fascínio para o homem impotente, diante de sua absoluta inexorabilidade. Uma boa morte, ou seja, uma boa pitada de tal ingrediente numa estória escrita, é algo que aviva, por assim dizer, a trama narrada, conferindo-lhe brilho e beleza, por uma questão, eu diria, de mera comparação. Este contraste de existir, e ter que depois, nescessária e infalivelmente, extinguir-se, é um tema instigante e profícuo, fértil para boas redações. Muitos já se debruçaram sobre o tema, escrevendo sobre ela, a morte, e muitos outros ainda hão de fazê-lo, pois trata-se, sem dúvida, de matéria fascinante que, com certeza, interessa a todos nós que ainda estamos por aqui, como direi, vivos.
Na citação escolhida, mestre Pirandello, em O Falecido Mattia Pascal, novela aprazível e competente - através da voz de um de seus personagens - interessantíssimos, diga-se de passagem - questiona este dilema que é viver, e ter que, inevitavelmente, morrer. Um drama existencial lúdico, atualíssimo, bem humorado, numa trama genialmente bem elaborada que, com toda a certeza, trará ao leitor, uma série de reflexões interessantes, enquanto este se deleitará com a bela e romanesca estória deste clássico autor italiano. Bravíssimo!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Mas eu agora pergunto, Senhor Meis: e se toda essa escuridão, esse enorme mistério, a cujo respeito debalde especularam, inicialmente, os filósofos e a ciência, agora, se bem que renunciando a investigá-lo, não exclui; se esse mistério não passasse, no fundo, de um engano como outro qualquer, um engano da nossa mente, uma fantasia que não se colore? Se nós, finalmente, nos convencêssemos de que este mistério todo não existe fora de nós, mas somente em nós e, ali, de forma necessária graças ao famoso privilégio do sentimento que temos da vida, isto é, a lanterninha de que te falei até aqui? Se a morte, em suma, que nos mete tanto medo, não existisse? Se fosse tão-só não a extinção da vida, mas o sopro que apaga em nós a lanterninha, ou seja, o infeliz sentimento que dela temos? É um sentimento penoso, assustador, porque limitado, definido por esse círculo de sombra fictícia que se acha para lá do pequeno âmbito da escassa luz, que nós, pobres vaga-lumes perdidos, projetando em torno a nós e em que a nossa vida fica como que aprisionada, como se fosse excluída, por algum tempo, da vida universal, eterna, na qual parece-nos que, algum dia, deveremos reentrar, Mas a verdade é que nela já estamos e nela sempre permaneceremos, mas, aí, sem mais esse sentimento de exílio que nos atromenta. O limite é ilusório, é relativo ao nosso pouco lume, o da nossa individualidade: na realidade da natureza não existe. Nós (não sei se isso pode dar-lhe prazer), nós sempre vivemos e sempre viveremos no universo; também agora, em nossa fórmula atual, participamos de todas as manifestações do universo; só que não o sabemos, não o vemos, porque, infelizmente, a maldita lanterninha bruxuleante nos faz ver somente o pouco até onde seu lume alcança. E se, ao menos, nos permitissimos vê-lo tal como é na realidde! Não, senhor: apresenta-o a nossos olhos com a cor que ela lhe dá e nos faz certas coisas, que devemos realmente lamentar, com a breca! mas das quais, noutra forma de existência, não teríamos, talvez, boca bastante para rir às gargalhadas. Gargalhadas, Senhor Meis, por todas as vãs, estúpidas atribulações que ela nos proporcionou, por todas as sombras, por todos os estranhos e ambiciosos fantasmas que fez surgir diante e em torno de nós, pelo medo que nos inspirou!" (pag206)
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LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

domingo, 8 de março de 2009

O ADMIRÁVEL MUNDO DE ALDOUS HUXLEY

QUEM?
Aldous Leonard Huxley (1894/1963). Talentoso escritor inglês.

CITAÇÃO
"A enorme sala do andar térreo dava para o norte. Apesar do verão que reinava para além das vidraças, apesar do calor tropical da própria sala, era fria e crua a luz tênue que entrava pelas janelas, procurando, faminta, algum manequim coberto de roupagem, algum vulto acadêmico pálido e arrepiado, mas só encontrando o vidro, o níquel e a porcelana de brilho glacial de um laboratório. À algidez hibernal respondia a algidez hibernal. As blusas dos trabalhadores eram brancas, suas mãos estavam revestidas de luvas de borracha pálida, de tonalidade cadavérica. A luz era gelada, morta, espectral. Somente dos cilindros amarelos dos microscópios lhe vinha um pouco de substância rica e viva, que se esparramava como manteiga ao longo dos tubos reluzentes." (pag09)
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COMENTÁRIO
Aldous Huxley, como grande visionário que era, já imaginava o que viria por aí em termos de ciência e tecnologia. No seu genial livro Admirável Mundo Novo, este brilhante romancista nos trás o seu incrível Mundo idealizado, maquínico, controlado, estéril, cinza, robotizado; fazendo-nos lembrar de um futuro não muito distante - ao mesmo tempo muito parecido com nosso presente - onde vemos perplexos e abismados este Mundo de engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, viagens espaciais, clonagem de ovelhas, transgênicos, vaca-louca e outras modernidades angustiantes e temerárias. É o ser humano agônico e insustentável brincando de Deus. Estilizado e inteligente, futurista e assustador; este é o Admirável Mundo de Aldous Huxley. O Mundo que vivemos... O Mundo que estamos construindo... O Mundo que nos espera...
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LIVRO: Admirável Mundo Novo // AUTOR: Audous Huxley // EDITORA: Globo // São Paulo // 2006