QUEM? Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog. ******************************************************************** REFLEXÃO "O quanto antes nos dermos conta de nossa condição inexorável de viventes e morrentes, melhor será para que a nossa breve passagem por aqui possa ser aprazível e proveitosa do ponto de vista do sujeito que nasce e tem que morrer. Conclusão: a perspectiva da morte aviva a vida."
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quinta-feira, 31 de março de 2011
REFLEXÃO PRAGMÁTICA ACERCA DA MORTE
QUEM? Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor desse blog. ******************************************************************** REFLEXÃO "O quanto antes nos dermos conta de nossa condição inexorável de viventes e morrentes, melhor será para que a nossa breve passagem por aqui possa ser aprazível e proveitosa do ponto de vista do sujeito que nasce e tem que morrer. Conclusão: a perspectiva da morte aviva a vida."
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
O CRENTE E O ESPÍRITO LIVRE SEGUNDO FRIEDRICH NIETZSCHE
QUEM?Friedrich Nietzsche (1844/1900). Notável filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Nietzsche era inclemente com os imbecis. O tolos, ingênuos e cândidos (mesmo os volterianos) não tinham melhor sorte com ele. Na passagem extraída do livro Gaia Ciência vemos esse brilhante filósofo alemão niilista esbanjar seu talento e tino filosófico desalojando toda certeza crédula de falsos dogmas, transportando-as para um universo de ceticismo ateu desesperado, amparado sempre e apenas pela velha razão e experiência: grandes mestras e companheiras de jornada de todo filósofo, seja ele amador ou profissional.
*
CITAÇÃO
"Onde um homem chega à convicção fundamental de que é preciso que mandem nele, ele se torna 'crente'; inversamente, seria pensável um prazer e força da autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despede de toda crença, de todo desejo de certeza, exercitado, como ele está, em poder manter-se sobre leves cordas e possibilidades, e mesmo diante de abismos dançar ainda. Um tal espírito seria o espírito livre par execellence."(pág.223)
*
LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição
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FRIEDRCH NIETZSCHE: O PERFIL DE CLANDESTINIDADE DO DEUS CRISTÃO
QUEM?Friedrich Nietzsche (1844/1900). Notável filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Nietzsche tinha um língua extremamente afiada. Seu pensamento, não menos poderoso, exibia e ostentava em igual potência seu ceticismo e poder crítico descomunais, ainda mais quando o assunto era fé, crença e valores e outros espinhos.
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Aqui, nessa mordaz passagem de Assim Falou Zaratustra, esse rebelde incorrigível alemão simplesmente arrasa com as bases da doutrina cristã de uma vez por todas. Para ler e refletir.
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CITAÇÃO
"Ele era um Deus escondido, cheio de clandestinidade. Em verdade, ele só chegou a ter um filho por vias dissimuladas. À porta de sua crença está o adultério." (pág.264)
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LIVRO: Obras Incompletas // AUTOR: Friedrich Nietzsche // Coleção Os Pensadores // volume XXXII // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo: 1974 // 1a edição
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domingo, 18 de outubro de 2009
HERÁCLITO DE ÉFESO: DEUS EM TODAS AS COISAS, LUGARES E INSTANTES
QUEM?Heráclito de Éfeso (aprox. 540 a.C. - 470) foi um filósofo pré-socrático conhecido como "Obscuro" e também como o "pai da dialética". Sua alcunha advém, principalmente, da forma com que escreveu seu livro Sobre a Natureza que traz um estilo obscuro, próximo a sentenças oraculares.
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COMENTÁRIO
Debruçar-se sobre si mesmo e por sobre a natureza do ser e das coisas é tarefa, sem dúvida, ímpar. Sim! Porque compreender dói. Cega a vista, machuca o olhar, mutila a razão e pode mesmo aniquilar o ser frágil e perplexo que, diante de tudo, sente-se esmagado por sua aparente insignificância. E, por falar nesse (tudo), Heráclito viveu atento a tudo com um olhar penetrante e crítico que, por fim, viria a mudar radicalmente a maneira de pensarmos e compreendermos nós mesmos além dos fenômenos da Natureza. Dialética é uma 'coisa' muito simples e rudimentar - hoje - que praticamos todo o tempo quando pensamos, tomamos tino de algo, julgamos e tomamos decisões. É-nos tão natural que o fazemos sem pensar. Todavia, alguém teve que refletir sobre isso primeiro, de forma inusitada e inauguradora. Este foi Heráclito!
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Na citação escolhida, vemos o Mestre filósofo grego pronunciar-se sobre o conflito presente em tudo.
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CITAÇÃO
"O conflito é pai de tudo, de tudo é rei; designou uns para deuses, outros para homens; de uns fez escravos, de outros, livres." (pág232)
*
LIVRO: Heráclito e seu (dis)curso // AUTOR: Donaldo Schüler // EDITORA: L&PM // Porto Alegre // 2000

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quinta-feira, 9 de julho de 2009
UMA GIGANTE DA PENA CHAMADA CLARICE LISPECTOR
QUEM?Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (1920/1977). Espetacular escritora brasileira natural da Ucrânia. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. Seus escritos refletem sua alma sensível e questionadora, e seu estilo marcante influenciou toda uma geração de leitores e amantes da literatura.
*
COMENTÁRIO
Ler Clarice Lispector foi uma porrada. Quando apanhei um livro seu num sebo de São Paulo e li pela primeira vez, foi de estarrecer. Não imaginava a potência de sua eminente prosa. Sofisticada e sensível, introspectiva de existencialista, seus livros revelam ampla capacidade de redação fluida, e uma magia típica dos grandes gênios. Filha da burguesia, esta escritora talentosíssima escreveu diversas obras interessantes, onde podemos notar toda a sua compreensão do Mundo, inclusive no qual estava irremediavelmente imersa, e é flagrante seu olhar autêntico e questionador imortalizado em seus belos escritos. Ler Clarice sempre é uma boa surpresa. Sim, porque esta nobre dama da nossa literatura era imprevisível em suas criações. Em suas histórias, além de competência criativa, podemos achar uma série de entidaees e fantasmas que assombram a alma humana. Na citação, vemos a autora falar consigo mesma e fazer referência a um inseto geralmente odiado, uma barata, coadjuvante da trama. Sensacional!
*
CITAÇÃO
" - Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida. - e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança." (pág60)
*
LIVRO: A Paixão Segundo G. H. // AUTORA: Clarice Lispector // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro // 1998
terça-feira, 9 de junho de 2009
A COLOMBA DE PROSPER MERIMÉE
QUEM?Prosper Mérimée (1803-1870). Notável dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês. Foi o primeiro a traduzir obras literárias russas para o francês. Sua prosa elegante se imortalizou com Carmen (1845). Esta foi sua primeira novela de sucesso.
*
COMENTÁRIO
Colomba (1840), conta a história de uma jovem moça corsa que obriga seu irmão a cometer um assassinato para se vingar. Seria só isso, se não se tratasse de um mestre da pena, como é o caso de Merimée. Este competentíssimo autor francês nos traz uma época distante, repleta de aventuras e exotismos culturais, onde entrevemos mundos longínquos, de tradições fortes e marcantes, sempre com seu estilo clássico e elegante.
Sem maiores delongas, duas citações de Colomba, romance de Merimée, onde podemos ver um pouco da cultura corsa, referente à Córsega, esta ilha a Oeste da Itália, que é a quarta ilha do Mar Mediterrâneo por extensão territorial depois da Sicília, Sardenha e Chipre, universalmente conhecida como o berço e terra natal de Napoleão Bonaparte.
*
CITAÇÃO
"Afinal, chegou a hora de partir. Orso apertou, ainda uma vez, a mão de miss Lídia. Colomba abraçou-a, depois ofereceu os lábios ao coronel, que então se maravilhou com a delicadeza corsa. Da janela do slão, miss Lídia viu os dois montarem a cavalo. Brilhavam os olhos de Colomba, numa alegria maligna. Esta grande e forte mulher, fanática pelas suas idéias de honra bárbara, o orgulho estampado na fisionomia, os lábios curvados num sorriso sardônico, fez lembrar a miss Lídia os temores de Orso; e a jovem inglesa julgou ver um mau gênio conduzindo-o a um abismo." (pág61)
"A cerca de um quilômetro do povoado, depois de muitos rodeios, Colomba estacou de repente, numa curva brusca do caminho erguia-se, aí, uma pequena pirâmide de ramos - uns verdes, outros secos - todos formando uma pilia de quase três pés de altura, da qual apontava a extremidade superior de uma cruz de madeira pintada de preto. Em várias regiões da Córsega, principalmente nas montanhas, um velho costume, que talvez se prenda às supertições do paganismo, obriga os passantes a atirar uma pedra ou um galho de árvore sobre a sepultura daqueles que morreram de morte violenta. Durante muitos anos, enquanto a recordação da tragédia permanecer na memória dos homens, tais oferendas se acumulam dia a dia. Chamam a isto o montão, o mucchio de alguém." (pág80)
*
LIVRO: Colomba // AUTOR: Prosper Merimée // EDITORA: Martins // São Paulo // 1945
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terça-feira, 26 de maio de 2009
O DICIONÁRIO KAZAR DE MILORAD PÁVITCH
QUEM?
Milorad Pávitch (1929). Em sérvio: Милорад Павић. Poeta, romancista e tradutor sévio, estudioso da História da Literatura. Autor do interessante livro O Dicionário Kazar.
*
COMENTÁRIO
O livro em questão de Milorad Pavitch, O Dicionário Kazar, é uma obra muito interessante. Nela o competente autor sérvio nos leva para um mundo místico de fantasia e mistérios, símbolos e signos, de lendas e estórias antiquíssimas, neste belo romance que trata do debate entre as três principais doutrinas religiosas do Planeta: O catolicismo, o islamismo, e o judaismo. Em forma de dicionário, e escrito com sabedoria e prosa intrigante, vemos através de sua pena hábil, um povo muito interessante, os Kazares, que promovem o embate filosófico entre os líderes das supracitadas religiões, no que ele, o autor, chama de A Polêmica Kazar. Prosa elegante e instigante, carregada de fatos e lendas, algúrios e simbolismos, lugares remotos e situações enigmáticas notáveis. Leitura antropológica e mística que, com certeza, alargará os horizontes do leitor atento que gosta de textos exóticos e inteligentes.
Milorad Pávitch (1929). Em sérvio: Милорад Павић. Poeta, romancista e tradutor sévio, estudioso da História da Literatura. Autor do interessante livro O Dicionário Kazar.
*
COMENTÁRIO
O livro em questão de Milorad Pavitch, O Dicionário Kazar, é uma obra muito interessante. Nela o competente autor sérvio nos leva para um mundo místico de fantasia e mistérios, símbolos e signos, de lendas e estórias antiquíssimas, neste belo romance que trata do debate entre as três principais doutrinas religiosas do Planeta: O catolicismo, o islamismo, e o judaismo. Em forma de dicionário, e escrito com sabedoria e prosa intrigante, vemos através de sua pena hábil, um povo muito interessante, os Kazares, que promovem o embate filosófico entre os líderes das supracitadas religiões, no que ele, o autor, chama de A Polêmica Kazar. Prosa elegante e instigante, carregada de fatos e lendas, algúrios e simbolismos, lugares remotos e situações enigmáticas notáveis. Leitura antropológica e mística que, com certeza, alargará os horizontes do leitor atento que gosta de textos exóticos e inteligentes.
Na citação, vemos um demônio, Nikon Sevast, com uma história bem interessante e bem humorada. É só conferir e se deleitar.
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"SEVAST, NIKON (Século XVII) - Conta-se que, em certa época, o diabo viveu sob este nome, na garganta de Óvtchar, nas margens do Mórava, nos Bálcãs. Era particularmente gentil e chamava a todos por seu próprio nome: Sevast. Trabalhava como protocalígrafo no mosteiro São Nicolau. No lugar em que se sentava, deixava a marca de dois rostos e tinha um nariz no lugar da cauda. Afirmava que numa vida anterior tinha sido um demônio do inferno judeu, servindo Belial e Gueburá e enterrando cadáveres nos sótãos das sinagogas. Num outono em que os pássaros soltavam titica envenenada, queimando folhas e infectando as ervas, contratou um capanga para que o matasse. Era sua única maneira de passar do inferno judeu para o inferno cristão, e de poder servir Satã em sua nova vida.
Segundo outras narrativas, ele nem morreu. Deixou um cão lamber um pouco de seu sangue, entrou na tumba de um turco, pegou-o pelas orelhas e, tendo-o esfoladso, vestiu sua pele. Por causa disto, seus olhos de cabra miravam através de belos olhos turcos. " (pág85)
*
LIVRO: O Dicionário Kazar // AUTOR: Milorad Pávitch // EDITORA: Marco Zero // Sem Data // PRIMEIRA EDIÇÃO: 1691
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"SEVAST, NIKON (Século XVII) - Conta-se que, em certa época, o diabo viveu sob este nome, na garganta de Óvtchar, nas margens do Mórava, nos Bálcãs. Era particularmente gentil e chamava a todos por seu próprio nome: Sevast. Trabalhava como protocalígrafo no mosteiro São Nicolau. No lugar em que se sentava, deixava a marca de dois rostos e tinha um nariz no lugar da cauda. Afirmava que numa vida anterior tinha sido um demônio do inferno judeu, servindo Belial e Gueburá e enterrando cadáveres nos sótãos das sinagogas. Num outono em que os pássaros soltavam titica envenenada, queimando folhas e infectando as ervas, contratou um capanga para que o matasse. Era sua única maneira de passar do inferno judeu para o inferno cristão, e de poder servir Satã em sua nova vida.
Segundo outras narrativas, ele nem morreu. Deixou um cão lamber um pouco de seu sangue, entrou na tumba de um turco, pegou-o pelas orelhas e, tendo-o esfoladso, vestiu sua pele. Por causa disto, seus olhos de cabra miravam através de belos olhos turcos. " (pág85)
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LIVRO: O Dicionário Kazar // AUTOR: Milorad Pávitch // EDITORA: Marco Zero // Sem Data // PRIMEIRA EDIÇÃO: 1691
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quarta-feira, 13 de maio de 2009
QUEM NÃO LEU A METAMORFOSE DE KAFKA...
QUEM?Franz Kafka ou, na língua tcheca, František Kafka. (1883/1924). Trata-se, nada mais, nada menos, de um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Nasceu numa família de classe média judia em Praga, Austria, Hungria. Suas obras escritas - a maioria incompleta e publicadas postumamente - destacam-se entre as mais influentes da Literatura Ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose, publicada no ano de 1915, e os romances O Processo, 1925, e O Castelo, 1926, retratam indivíduos preocupados envoltos em um mundo impessoal e burocratizado.
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COMENTÁRIO
Quem não leu a metamorfose de Franz Kafka...
Tem que ler.
Especialmente se for, como eu sou, amante das boas letras. Sim, porque trata-se de um clássico da literatura universal, termo muito usado em vão, todavia, totalmente aplicável a este talentoso autor. Signo recorrente, de um estilo e formato de redação interessantíssimo, a realidade fantástica de A Metamorfose, vai além do que é natural se esperar de um bom texto, para lançar-nos sem piedade, num mundo mágico de fantasia e arte indescritíveis. O realístico e fantástico homem-barata-homem de Kafka é leitura obrigatória, para quem é do ramo da Literatura, e sabe o que é bom em termos de obras imortais.
Aqui, vemos Gregor, o personagem principal, numa passagem brilhante onde os vizinhos divisam a escalafobética criatura numa situação fantástica de surrealismo e criatividade indubitável, letristicamente falando, é claro!
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"O pai considerou mais necessário acalmar os inquilinos do que expulsar Gregor, embora eles não estivessem agitados, e pareciam estar mais entretidos com Gregor do que com o violino. Correu até eles com os braços abertos tentando empurrá-los para o quarto e, ao mesmo tempo, tapar-lhes a visão de Gregor com o corpo." (pág94)
*
LIVRO: A Metamorfose // AUTOR: Franz Kafka //EDITORA: Nova Cultura // São Paulo // 2002
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terça-feira, 5 de maio de 2009
MOBY DICK: A IMORTAL BALEIA DE MELVILLE
QUEM?Herman Melville (1819-1891). Notório escritor norte-americano que, entre outras coisas, marinheiro que era, escreveu sobre as aventuras dos mares do mundo com grande talento. Autor da imortal Moby Dick, a lendária baleia branca, dentre outras belíssimas estórias do mar.
*
COMENTÁRIO
Perseguir e predar outras espécies vivas sempre foi a 'nossa'. Quero dizer, nossa especialidade. Andamos por ai, através dos mares e dos vastos territórios do Planeta caçando, espicaçando e devorando os demais seres viventes, seja para nos alimentarmos ou para vendermos os seus corpos, como se só nós tivéssemos direito à vida, numa barbárie antropocêntrica, cruel e insustentável, que se arrasta pelos tempos desde que o mundo é mundo. Uma lástima. Nem mesmo animais gigantescos como as baleias cachalotes, que chegam a medir 18 metros de comprimento, e pesar mais que 45 toneladas, conseguiram se esquivar de nossa ferrenha e sanguinária perseguição. Estes enormes, magníficos e delicados seres marinhos, em suas inocências puras e imaculadas, não são capazes de competir com nossa extraordinária engenhosidade predatória, e vão sucumbindo copiosamente às centenas, pois seus corpos e, especialmente, sua gordura, são extremamente valorizados no mercado mundial.
Trata-se de algo assim, como direi eu, humilde Escriba, inacreditável. Em pleno século XXI, em pleno alvorecer de uma nova era digital de convergência tecnológica, em um mundo fascinado e atônito pela física quântica e pela nanotecnologia, de avanços científicos inimaginados, ainda hoje, continuamos matando legiões de baleias a arpoadas, a despeito de toda crise e colapso ambiental que nos assola, perpetuando insanamente, esta tragédia descomunal que é a intolerância para com as demais espécies vivas. Ademais, subsiste ainda, sólida e inabalável, a própria questão basilar e contraditória de não respeitarmos nem mesmo o ambiente que nos gera e sustenta.
Mesmo assim, com tudo isso, mesmo sendo Moby Dick uma estória de caça à baleia nos idos do século XIX - e assim podemos ver que a tradição predatória corta a história humana na Terra há mais de duzentos anos - o romance do mestre norte-americano da pena Herman Melville, é uma pérola da literatura universal de todos os tempos. Muito além da perseguição à poderosa baleia branca da estória, que se recusa a se subjugar perante o homem, existe uma procura pelo sentido da própria existência humana, dentro do fantástico ambiente que é estar-se numa casquinha de noz a singrar os sete mares do mundo. Vale lembrar ainda que Melville, antes de ser escritor, foi marinheiro, e vivenciou de perto a vida marítima, embarcado a bordo de naus, e toda esta angústia que é viver a perseguir estes gigantescos peixes, a caçá-los e exterminá-los.
A magnífica baleia cachalote de Melville é leitura selecionada e indispensável às pessoas que tem sensibilidade para perceber a vida em toda a sua pungência, e para os amantes inveterados dos romances de aventura. Na passagem em questão, vemos a tensão dos personagens no momento exato da caça à baleia.
Moby Dick: cinco peninhas de ouro Escriba.
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"Um som breve e sibilante se estendeu pelo espaço, erguendo-se do bote. Queequeg tinha disparado o arpão. Imediatamente um puxão inesperado, partindo da pôpa, fêz estremecer o nosso bote, ao passo que a parte dianteira parecia ter esbarrado num recife. A vela arriou e estalou; uma onda de vapor escaldante explodiu bem perto e qualquer coisa rolou trepidando debaixo do bote, como um terremoto. A tripulação aos trambolhões e envolta em brancos coágolos de espuma, parecia meio asfixiada. Temporal, baleia e arpão fundiram-se num instante, porém a baleia, apenas arranhada pelo arpão, escapou-se." (pág374)
*
LIVRO: Moby Dick // AUTOR: Herman Melville // VOLUME: I // EDITORA: José Olympio // Rio de Janeiro // 1957
quarta-feira, 15 de abril de 2009
A MORTE PELA PENA VAGA-LUME DO SICILIANO LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
A morte sempre foi, e sempre será, um fascínio para o homem impotente, diante de sua absoluta inexorabilidade. Uma boa morte, ou seja, uma boa pitada de tal ingrediente numa estória escrita, é algo que aviva, por assim dizer, a trama narrada, conferindo-lhe brilho e beleza, por uma questão, eu diria, de mera comparação. Este contraste de existir, e ter que depois, nescessária e infalivelmente, extinguir-se, é um tema instigante e profícuo, fértil para boas redações. Muitos já se debruçaram sobre o tema, escrevendo sobre ela, a morte, e muitos outros ainda hão de fazê-lo, pois trata-se, sem dúvida, de matéria fascinante que, com certeza, interessa a todos nós que ainda estamos por aqui, como direi, vivos.
Na citação escolhida, mestre Pirandello, em O Falecido Mattia Pascal, novela aprazível e competente - através da voz de um de seus personagens - interessantíssimos, diga-se de passagem - questiona este dilema que é viver, e ter que, inevitavelmente, morrer. Um drama existencial lúdico, atualíssimo, bem humorado, numa trama genialmente bem elaborada que, com toda a certeza, trará ao leitor, uma série de reflexões interessantes, enquanto este se deleitará com a bela e romanesca estória deste clássico autor italiano. Bravíssimo!
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"Mas eu agora pergunto, Senhor Meis: e se toda essa escuridão, esse enorme mistério, a cujo respeito debalde especularam, inicialmente, os filósofos e a ciência, agora, se bem que renunciando a investigá-lo, não exclui; se esse mistério não passasse, no fundo, de um engano como outro qualquer, um engano da nossa mente, uma fantasia que não se colore? Se nós, finalmente, nos convencêssemos de que este mistério todo não existe fora de nós, mas somente em nós e, ali, de forma necessária graças ao famoso privilégio do sentimento que temos da vida, isto é, a lanterninha de que te falei até aqui? Se a morte, em suma, que nos mete tanto medo, não existisse? Se fosse tão-só não a extinção da vida, mas o sopro que apaga em nós a lanterninha, ou seja, o infeliz sentimento que dela temos? É um sentimento penoso, assustador, porque limitado, definido por esse círculo de sombra fictícia que se acha para lá do pequeno âmbito da escassa luz, que nós, pobres vaga-lumes perdidos, projetando em torno a nós e em que a nossa vida fica como que aprisionada, como se fosse excluída, por algum tempo, da vida universal, eterna, na qual parece-nos que, algum dia, deveremos reentrar, Mas a verdade é que nela já estamos e nela sempre permaneceremos, mas, aí, sem mais esse sentimento de exílio que nos atromenta. O limite é ilusório, é relativo ao nosso pouco lume, o da nossa individualidade: na realidade da natureza não existe. Nós (não sei se isso pode dar-lhe prazer), nós sempre vivemos e sempre viveremos no universo; também agora, em nossa fórmula atual, participamos de todas as manifestações do universo; só que não o sabemos, não o vemos, porque, infelizmente, a maldita lanterninha bruxuleante nos faz ver somente o pouco até onde seu lume alcança. E se, ao menos, nos permitissimos vê-lo tal como é na realidde! Não, senhor: apresenta-o a nossos olhos com a cor que ela lhe dá e nos faz certas coisas, que devemos realmente lamentar, com a breca! mas das quais, noutra forma de existência, não teríamos, talvez, boca bastante para rir às gargalhadas. Gargalhadas, Senhor Meis, por todas as vãs, estúpidas atribulações que ela nos proporcionou, por todas as sombras, por todos os estranhos e ambiciosos fantasmas que fez surgir diante e em torno de nós, pelo medo que nos inspirou!" (pag206)
*
LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981
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segunda-feira, 16 de março de 2009
A LUZ DA OUTRA CASA POR LUIGI PIRANDELLO
QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
Quem nunca se sentiu meio esquisito, indisposto, com a alma inquieta, como se fosse mesmo um estranho dentro de sua própria vida? Um sentimento de despertencimento profundo e isso, com tudo estando aparentemente bem? Pois é, este sentimento absorvente de vazio pode chegar de repente e nos pregar uma peça, desamparando-nos psiquicamente, desorganizando-nos. Do nada, tudo à nossa volta se apresenta assim meio que sem sentido, em aparente desordem, pelo menos aos nossos olhos, e aí: vai-se a bendita tranquilidade e paz de espírito que tanto prezamos. Por vezes, tal força pode transcender em poder o sujeito que sofre a sua ação, a sua influência, sobrepujando-o, devorando sua existência vorazmente, sem que ele mesmo sequer perceba sua manifestação. O contrário oposto também pode acontecer: estarmos em meio a uma vida sem nenhum sentido cognocível, vagando pelos dias e, do nada, tudo se reverte drasticamente em paz, harmonia e pertencimento - pleno e profundo. Geralmente, os gatilhos de tais situações, que disparam o dispositivo interno desta mudança radical de estado de espírito, apresentam-se a nós sob a forma de um acontecimento ou pessoa marcante, que vem, se impõe e nos transforma. É disso que Pirandello trata com maestria em seu belíssimo conto A Luz da Outra Casa. O personagem principal da estória é uma figura solitária, que teve uma infância difícil, que perdeu a mãe em situação trágica pelas mãos do pai bêbado, e que passa os dias da vida assim, como se esta não lhe pertencesse de fato, até que um acontecimento mágico e inusitado muda o seu destino de maneira dramática e radical.
Leitura sensível, finíssima, que reflete os mais profundos meandros da alma humana em sua inexorável amplidão, e que nos faz pensar sobre o que nos move a vida, e o que confere a esta sentido ou não. Numa só palavra: sensacional!
*
CITAÇÃO
"Daquele dia em diante, todas as tardes, ao sair da repartição, em lugar de dar seus habituais passeios solitários, voltava para casa; esperava todas as noites que a escuridão do seu quartinho se aclarasse suavemente com a luz da outra casa, e ali ficava, por detrás dos vidros, como um mendigo, saboreando com infinita angústia a doce e feliz intimidade, o conforto familiar de que os outros gozavam, e de que ele, em criança também gozara em alguma rara noite de paz quando a mãe... a sua mãe... como aquela...
E chorava." (pág116)
*
LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
Quem nunca se sentiu meio esquisito, indisposto, com a alma inquieta, como se fosse mesmo um estranho dentro de sua própria vida? Um sentimento de despertencimento profundo e isso, com tudo estando aparentemente bem? Pois é, este sentimento absorvente de vazio pode chegar de repente e nos pregar uma peça, desamparando-nos psiquicamente, desorganizando-nos. Do nada, tudo à nossa volta se apresenta assim meio que sem sentido, em aparente desordem, pelo menos aos nossos olhos, e aí: vai-se a bendita tranquilidade e paz de espírito que tanto prezamos. Por vezes, tal força pode transcender em poder o sujeito que sofre a sua ação, a sua influência, sobrepujando-o, devorando sua existência vorazmente, sem que ele mesmo sequer perceba sua manifestação. O contrário oposto também pode acontecer: estarmos em meio a uma vida sem nenhum sentido cognocível, vagando pelos dias e, do nada, tudo se reverte drasticamente em paz, harmonia e pertencimento - pleno e profundo. Geralmente, os gatilhos de tais situações, que disparam o dispositivo interno desta mudança radical de estado de espírito, apresentam-se a nós sob a forma de um acontecimento ou pessoa marcante, que vem, se impõe e nos transforma. É disso que Pirandello trata com maestria em seu belíssimo conto A Luz da Outra Casa. O personagem principal da estória é uma figura solitária, que teve uma infância difícil, que perdeu a mãe em situação trágica pelas mãos do pai bêbado, e que passa os dias da vida assim, como se esta não lhe pertencesse de fato, até que um acontecimento mágico e inusitado muda o seu destino de maneira dramática e radical.
Leitura sensível, finíssima, que reflete os mais profundos meandros da alma humana em sua inexorável amplidão, e que nos faz pensar sobre o que nos move a vida, e o que confere a esta sentido ou não. Numa só palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Daquele dia em diante, todas as tardes, ao sair da repartição, em lugar de dar seus habituais passeios solitários, voltava para casa; esperava todas as noites que a escuridão do seu quartinho se aclarasse suavemente com a luz da outra casa, e ali ficava, por detrás dos vidros, como um mendigo, saboreando com infinita angústia a doce e feliz intimidade, o conforto familiar de que os outros gozavam, e de que ele, em criança também gozara em alguma rara noite de paz quando a mãe... a sua mãe... como aquela...
E chorava." (pág116)
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LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
OS CRUÉIS CONTOS DE L'ISLE-ADAM
QUEM?
Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, comte de Villiers de l'Isle-Adam (1838-1889). Talentoso e competente escritor simbolista francês.
COMENTÁRIO
Escrever lançando mão do simbolismo existente em tudo - como faria um Shaman - eis o que fazia brilhantemente Villiers de l'Isle-Adam. Em seus Contos Cruéis, no espetacular conto Lembranças Ocultas, ele esbanja seu talento usando e abusando deste interessante tipo de linguagem literária: os sígnos. Ferramenta esta, interessantíssima, que confere a seus escritos um 'que' quase que interpretativo, para o leitor completar suas estórias com a sua própria imaginação. Leitura fina Escriba, categoria cinco peninhas.
CITAÇÃO
"O silêncio é rompido apenas pelo deslizar dos crótalos que ondulam pelos fustes derrubados das colunas e enroscam-se, sibilando, sob os musgos ruivos. Às vezes, em crepúsculos tempestuosos, o grito longínquo do homíono, alternando tristemente com o barulho do trovão, inquieta a solidão. Sob as ruínas, prolongam-se galerias subterrâneas cujos acessos estão perdidos. Ali, há muitos séculos, dormem os primeiros reis dessas estranhas regiões, dessas nações mais tarde sem donos, dos quais nem mesmo o nome existe mais." (pag62)
LIVRO: Contos Crúeis // AUTOR: Villiers de l'Isle-Adam // EDITORA: Iluminuras // São Paulo // 1987
