Mostrando postagens com marcador LITERATURA ITALIANA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LITERATURA ITALIANA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de março de 2011

ROMANCE BAUDOLINO DE UMBERTO ECO: A CONCEPÇÃO DE DEUS SEGUNDO A PERSONAGEM IPÁSIA


QUEM?

Umberto Eco (1932). Escritor e semioticista.
*
COMENTÁRIO

Deus enquanto concepção e significação simbólica suprema de fé e/ou descrença sempre foi um assunto controverso e escorregadio que se encontra longe de achar repouso enquanto conclusão definitiva, até porque, seu pleno compreendimento enquanto dinâmica complexa de interação sígnica passa - inevitavelmente - pela questão basilar da subjetividade singular de cada um. Ou seja, não há como esperar devoção, por exemplo, dos que não crêem na hipótese de sua existência. Daí, dessa contingência, é que surgem as intermináveis pinimbas e desentendimentos oriundos sempre dos que desejam impor sua fé aos demais que não comungam das mesmas convicções. E, desse nó Górdio, por assim dizer, se originam todos os desentendimentos que alimentam as maiores e mais dramáticas formas de intolerância, que, por sua vez, levam aos horrores das principais guerras da história e da civilização. Na citação retirada do romance Baudolino, vemos a personagem Ipásia descrever sua concepção de Deus.
*
CITAÇÃO

"[Ipásia] Disse: 'Deus é Único, e totalmente perfeito que não se parece com nenhuma das coisas que existem e com nenhuma das coisas que não existem; não o podes descrever usando a sua inteligência humana, como se fosse alguém que se deixa levar pela ira, se és mau, ou que se ocupa de ti por bondade, alguém que tenha boca, orelhas, rosto, asas, ou que seja espírito, pai ou filho, nem mesmo de si próprio. Do Único não podes dizer que existe ou que não existe, tudo abrange mas nada é; podes nomeá-lo apenas através da dessemelhança, porque é inútil chamá-lo Bondade, Beleza, Sabedoria, Amabilidade, Potência, Justiça, seria o mesmo que chamá-lo de Urso, Pantera, Serpente, Dragão ou Grifo, pois, não importa o que disseres, nunca poderás exprimi-lo. Deus não é corpo, figura, ou forma, não tem quantidade, qualidade, peso ou leveza, não vê, não ouve, não conhece desordem e perturbação, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, pensamento, palavra, número, ordem, grandeza, não é igualdade nem desigualdade, não é tempo nem eternidade, é uma vontade sem objetivo; procura entender, Baudolino, Deus é uma lâmpada sem chama, uma chama sem fogo, um fogo sem calor, uma luz escura, um rumor silencioso, um relâmpago sem rumo, uma escuridão luminosíssima, um raio da própria treva, um círculo que se espande contraido-se no próprio centro, uma multiplicidade solitária, é... é...'" (pág376) [...] "Vês que ainda podes tornar-te sábio, Baudolino? Disseste em certa medida. Apesar do erro, uma parte do Único permaneceu em cada um de nós, criaturas pensantes, e também em cada uma das outras criaturas, dos animais aos corpos mortos. Tudo o que nos circunda é habitado por deuses, as plantas, as sementes, as flores, as raízes, as fontes, cada um deles, embora sofrendo por ser uma péssima imitação do pensamento de Deus, não quereria mais do que reunir-se com ele. Devemos encontrar a harmonia entre os opostos, devemos ajudar aos deuses, devemos reavivar estas centelhas, estas lembranças do Único, que jazem ainda sepultadas em nossa alma e nas próprias coisas." (pág380)
*
LIVRO: Baudolino // AUTOR: Umberto Eco // EDITORA: Record, Rio de Janeiro, 2001

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

CRENTES E NÃO CRENTES POR UMBERTO ECO

QUEM?
Umberto Eco é escritor e professor titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha. Autor do clássico O Nome da Rosa.

*
COMENTÁRIO
Crer ou não crer? Eis uma, em meio a muitas questões importantes e notáveis quando resolvemos prestar atenção à vida. Filosofar é um perigo! Não dá para desligar o olhar filosófico na hora de dormir, por exemplo, ou na hora de remunerar seu servo pessoal, pois a própria doutrina exige um grau de entrega e consciência tal que, na prática, impediria uma ação exploradora, e você acabaria convidando seu serviçal para morar em seus domínios e comungar de suas provisões, seus víveres - o que não seria, diga-se, nada mal. Ver, perguntar porque, pode ser complicado. Prescrutar a própria existência e o Mundo ao redor é para quem quer se meter em encrenca, em confusão - digo - quer ser rebelde, confrontar as hipocrisias postas e perpetuadas; ou seja, não é brincadeira. Tentar entender Deus então, nem se fala! Dá trabalho, é empreita longa e complexa - diria - para toda uma vida e, quase sempre, não é possível enxergar verdadeiros avanços numa só existência, pois as conquistas neste profundo terreno, neste campo metafísico, são lentas e graduais, e assim talvez filosofar seja algo unicamente para os convictos verdadeiros. Sim! Para aqueles e aquelas que desejam - a despeito do êxito ou do fracasso - fazer alguma coisa prática e objetiva para influenciar positivamente o Mundo, e esta balbúrdia que é estar vivo nos precipícios vertiginosos deste terceiro e veloz Milênio. Falei?!?!
*
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"Não gostaria que se instaurasse uma oposição seca entre quem acredita em Deus transcendente e quem não crê em nenhum princípio supra-individual. Gostaria de recordar que era dedicado justamente à Ética, o grande livro de Spinoza que começa com uma definição de Deus como causa de si mesmo. Salvo que essa divindade spinozana, bem o sabemos, não é nem transcedente, nem pessoal: mesmo assim, também da visão de uma grande e única substância cósmica, na qual um dia seremos todos reabsorvidos, pode emergir uma visão da tolerância e da benevolência, exatamente porque é no equilíbrio e na harmonia da substância única que estamos todos interessados." (pág88)
*
LIVRO: Em que crêem os que não crêem? // AUTORES: Umberto Eco e Carlo Maria Martini // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2001

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

EM QUE CRÊEM OS QUE NÃO CRÊEM? POR ECO, MARTINI E COMPANHIA LIMITADA

QUEM?
Dom Carlos Maria Martini (1927). É cardeal italiano, arcebispo emérito de Milão e escritor.
*
COMENTÁRIO
A fala mansa de Martini - antagonizando premeditadamente com o Eco provocador, além de outros entendidos participantes - deu origem a uma obra muito agradável do ponto de vista ético e existencialista do significa sermos humanos, que é o livro Em que crêem os que não crêem?, pois trata de coisas que com certeza atormentam todos nós, independentemente de nossa crença religiosa. Estes conhecedores discutem copiosa e animadamente a existência ou não de um Deus único e pessoal, e o dúbio discernimento do fator que nos definiria irrefutavelmente como seres humanos. Entre muitos outros assuntos igualmente polêmicos, tudo isso se dá - vejamos nós - num universo de calma e reflexão plena, em um ambiente democrático e filosófico, e, felizmente, salvaguardando as integridades físicas, morais e intelectuais de seus protagonistas; ou seja, um avanço e tanto - digo - para a humanidade. Não há como esquecer as tragédias do passado praticados pela igreja católica em nome Dele, o Criador; mas, reconheçamos, os tempos são outros e com eles mudaram também as conjunturas. Hoje, falam de igual para igual expoentes totalmente antagônicos e diversos, num clima cordato de sensibilidade e tolerância para com o diferente, o que seria simplesmente inimaginável em outras épocas não muito distantes da nossa.
Na citação escolhida, vemos Eco em um bom momento do livro, quando trata inflamado da questão do reconhecimento do outro - segundo ele, e eu concordo - como premissa fundamental à nossa sobrevivência.
Em que crêem os que não crêem? Para ler e pensar.
*
CITAÇÃO
"Nós (assim como não conseguimos viver sem comer ou sem dormir) não conseguimos compreender quem somos sem o olhar e sem a resposta do outro. Mesmo quem mata, estupra, rouba, espanca o faz em momentos excepcionais, e pelo resto da vida lá estará a mendigar aprovação, amor, respeito, elogios de seus semelhantes. E mesmo àqueles a quem humilha ele pede o reconhecimento do medo e da submissão. Na falta desse reconhecimento, o recém-nascido abandonado na floresta não se humaniza (ou, como Tarzan, busca o outro a qualquer custo no rosto de uma macaca), e poderíamos morrer ou enlouquecer se vivêssemos em uma comunidade na qual, sistematicamente, todos tivessem decidido não nos olhar jamais ou comportar-se como se não existíssimos." (pág83)
*
LIVRO: Em que crêem os que não crêem? // AUTORES: Umberto Eco e Carlo Maria Martini // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2001

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

UM EMBATE DE TITÃS: EM QUE CRÊEM OS QUE NÃO CRÊEM? POR UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI

QUEM?
Umberto Eco é escritor e professor titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha. Autor do clássico O Nome da Rosa.
*
COMENTÁRIO
Há que se crer em algo para se seguir adiante. Sim! Pois sem fé nada há. As crenças variam mas ninguém pode preteri-las sem crer em absolutamente nada, pois o próprio fato de se refletir sobre o assunto já implica numa crença implícita e inseparável na própria experiência e observação intelectual. Todos crêem em algo, mesmo que este algo seja justamente acreditar piamente que não acredita em absolutamente nada. Todavia é o caráter de debate livre e sem traumas que encanta neste belo livro coletânea de artigos; onde vemos jovialmente que a tolerância e a aceitação do outro e do diferente passa a ser um campo fértil no qual se move intencionalmente a razão humana em busca de sua ética e de seus valores. Ao nos debruçarmos por sobre temas mais que espinhosos, guiados por Eco e Martini, deparamo-nos com questões complexas - como: a existência ou não de um Deus único e pessoal; o direito das mulheres à prática do aborto; a proibição do exercício do sacerdócio para as mesmas; e a dual fé cristã amparada nos opostos exclusores, rasos e diabolizantes bem e mal - e percebemos um pouco da amplidão vertiginosa que é tentar sondar os mistérios que nos cerca a vida, e que sem dúvida adornam nossa existência. Enfim, trata-se de um livro muito interessante. Para ler e refletir. Na citação escolhida - dentro do democrático e participativo debate promovido pela revista italiana Liberal, que deu orígem ao livro e que inclui Eco, Martini e outros teóricos -, vemos um trecho do texto de Eugenio Scalfari que é jornalista e que também participou da referida obra.
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"Qual é, portanto, o fundamento da moral no qual todos, crentes ou não-crentes, podemos nos reconhecer? Pessoalmente sustento que ele reside na pertinência biológica dos homens a uma espécie. Sustento que na pessoa se defrontam e convivem dois instintos essenciais: o da sobrevivência do indivíduo [ontogênico] e o da sobrevivêncioa da espécie [filogênico]. O primeiro dá lugar ao egoísmo [narcisismo], necessário e positivo desde que não supere um limite além do qual se torna devastador para a comunidade [o Outro]; o segundo produz o sentimento de moralidade, isto é, a necessidade de responder pelo sofrimento do outro e pelo bem comum. Cada indivíduo elabora estes dois instintos profundos e biológicos com a própria inteligência e a própria mente. As normas da moral mudam e devem mudar, pois muda a realidade à qual são aplicadas. " (pág116)
*
LIVRO: Em que crêem os que não crêem? // AUTORES: Umberto Eco e Carlo Maria Martini // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2001
*

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A MORTE ATRAVÉS DAS LETRAS SICILIANAS DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro Novelas para um Ano - O Velho Deus e do romance O Falecido Mattia Pascal. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
A morte fascina e sempre fascinará escritores de todas as gerações. Sim, porque sua eminência inexorável impõe temor mesmo nos menos apegados à vida. Além de que sua irreversibilidade e sua infalibilidade, há milênios comprovadas, provocam no sujeito que reflete sobre ela uma mística fascinação que, sem sombra de dúvida, estimula e dá asas à imaginação. Segundo Sigmund Freud, que se debruçou sobre o assunto como poucos, não podemos sequer conceber o mundo sem considerar a nossa própria existência; ou seja, não conseguimos nem pensar direito nela - na morte - devido ao nosso desmedido e inveterado antropocentrismo umbiguístico. Por estas e por muitas outras razões, a morte exerce atração magnética sobre a alma humana que, diante dela, sempre extremece. Na impossibilidade de compreendê-la plenamente - por razôes óbvias, pois estamos vivos - tratamos logo de dar-lhe cara e contornos quase sempre segundo nosso pobre e mortal imaginário, e fatalmente segundo nossa própria imagem e semelhança.
*
Para muitos a morte é poder re-integrar à força plena e natural que um dia nos gerou. Eu concordo e acho também que, além disso, deve ser como um descanso longo, profundo e reconfortante, depois de uma vida atribulada e cheia de incertezas e apurrinhações. Aliás, dizem os entendidos que por lá não existe mais dor, nem paixão, nem remorso, nem nenhuma destas lamentáveis penas que nós comumente arrastamos de lá para cá e daqui para lá nesta vidinha besta e mortal. Todavia, como não há escolhas com relação à esta Nobre Dama que um dia virá nos buscar, tratemos antes de tudo de sermos felizes gozando os dias como se estes nos fossem caríssimos, e também os últimos antes de tão fatídico e mórbido encontro; e, por que não, escrevamos com sabedoria sobre ela! Missão imputável apenas às mentes mais privilegiadas capazes de abstrair suas próprias insignificâncias diante do infinito cósmico do universo.
*
Na citaçãos escolhidas, vemos o admirável escritor e dramaturgo Luigi Pirandello numa belíssima reflexão sobre um defunto, passagem esta oriunda do conto Os pensionistas da memória, texto filosófico e meio fantástico, onde este autor nos leva a dar voltas com a idéia irrefutável da morte, e o embaraço que é para os vivos lidar com um cadáver; muito bom!
*
Da Redação.
*
CITAÇÕES
"Que sorte, a vossa! Acompanhar os mortos ao cemitério e depois voltar para casa, eventualmente com uma grande tristeza na alma e um grande vazio no coração, se o morto vos era querido; e se não, com a satisfação de ter cumprido um dever penoso e querendo dissipar, ao tornar às ocupações e ao corre-corre da vida, a consternação e o abatimento que a idéia e o espetáculo da morte sempre incutem. Todos, de qualquer forma, com uma sensação de alívio, pois mesmo para os parentes mais íntimos, o defunto - sejamos honestos - com aquela gélida e imóvel rigidez impassivelmente oposta a todos os cuidados que lhe prestamos, a todo pranto vertido ao seu redor, é um tremendo estorvo, de que a própria dor - por mais que dê sinais e ainda tente desesperadamente fazer-se pesar - gostaria, no fundo, de se liberar." (pág167)
*
"Vamos, vamos! Sabeis, na verdade, por que chorais? Vós chorais por outra razão, meus caros, por uma razão de que não suspeitais nem de longe. Chorais porque o defunto, ele, não pode mais vos dar uma realidade. Dão-vos medo os seus olhos fechados, pois não podem mais ver-vos; aquelas suas mãos duras e gélidas, que não podem mais tocar-vos. Não encontrais paz por causa daquela sua absoluta insensibilidade. Portanto, exatamente poque ele, o defunto, não vos sente mais. O que significa que para vossa ilusão caiu, junto com ele, um apoio, um conforto: a reciprocidade da ilusão." (pág172)
*
LIVRO: Dona Mimma - Novelas para um ano // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Berlendis & Vertecchia Editores // São Paulo // 2002

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O FALECIDO MATTIA PASCAL DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus, e do romance O Falecido Mattia Pascal . Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
O belo romance O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello é, sem sombra de dúvida, uma obra brilhante e honesta. Honesta sim, porque o autor em questão, talentoso que era, não se utilizava de alguns artifícios muito comuns praticados pelos vulgos escrivinhadores mundo afora, quando estes querem conferir emoção e dignidade a algo que, na verdade, é raso e vazio. Pessoas belas, ricas, predestinadas, que agem em prol de uma causa nobre... castelos, princesas, violência e até mesmo sexo... Nada disso há em Mattia Pascal! E não se sente falta! Tudo, na inteligentíssima trama, acontece como o é na vida real, meio que aleatoriamente. O personagem principal e caolho, feio, pobre e passa por bons bocados, quando alguém morre em seu lugar, e tudo em sua vida vira de pernas para o ar. As mulheres? Normais, são belas, mas de uma beleza mais íntima e sublime, da simplicidade das almas ternas, menos afeitas à estética, e mais à humanidade, enfim, trata-se de uma sensacional estória, construída à partir de uma nota de jornal, ou seja, inspirada em fatos reais, no mínimo curiosos. Há, é verdade, uma ida básica a um cassino, e um ganho inesperado que faz o personagem principal preterir às coisas materiais, mas, até isso, é perdoável, já que a árdua batalha travada nesta novela, tem como terreno e palco o campo das idéias, e não o das matérias, tão frágeis e corruptíveis. Com efeito, é muito interessante, a profunda reflexão filosófica, que este inteligentíssimo autor siciliano nos propõe, ele, que é formado na matéria pela Universidade de Bonn, na Alemanha, e que sabe como ninguém, levantar questões importantes e pertinentes, que dizem respeito ao fato de estarmos vivos, e todas as implicações oriundas desta condição. Dentro deste mundo obscuro, encoberto pelo manto negro das aparências, que tudo encobre e oculta, trava-se uma batalha no interior da alma do próprio Mattia Pascal que, dado como morto, se vê diante de acontecimentos, que são capazes de modificar drásticamente o seu, como direi, acoplamento estrutural, no âmago da sociedade e do tempo em que vive. Algo fabuloso, como se pudessemos nos despregar da enorme e monumental teia social que nos envolve, deixando-nos livres, sem passado, sem parentes, como que para recomeçar uma outra vida, em uma nova identidade, todavia, é justamente aí, que seu problemas começam, pois, viver, é infalivelmente, estarmos emaranhados em nossas famílias, conhecidos e em nossa estória pessoal e, muitas vezes, esta falta de laços, acaba sendo um problema maior ainda que o inicial. No caso dele, dívidas, parentes, e situação familiar indesejáveis. Assim, com bom gosto e afabilidade, com um humor inteligente e crítico, sem recorrer à guerra, nem ao fogo amigo das paixões incendiárias, e nem tão pouco lançar mão de tintas como o sangue humano, a bela e honesta estória de Mattia Pascal se desenrola com muita desenvoltura, preterindo sempre às coisas menores e inferiores, e privilegiando sempre o espírito, a sensibilidade e a alma humana. Estória interessantíssima, com final surpreendente, que nos obriga docemente a pensar e repensar o que significa finalmente viver. Recomendação especial deste velho Escriba Digital. O que não é a modernidade!
Na citação, especificamente, vemos uma passagem de extrema tensão, que se dá entre a esposa e os seus dois maridos: o atual, e o falecido.
*
CITAÇÃO
"Ao oferecer-me a xícara, olhou para mim, tendo nos lábios um leve, triste sorriso, quase distante, e disse:
- Você, como de costume, sem açúcar, nãoé?
O que foi que ela leu, nesser instante, nos meus olhos? Baixou imediatamente os dela.
Na lívida luz da alvorada, senti um inesperado nó de pranto apertar-me a garganta e olhei para Pomino com ódio. Mas o café fumegava debaixo do meu nariz, inebriando-me com seu aroma, e comecei a sorvê-o lentamente."
*
LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A MORTE PELA PENA VAGA-LUME DO SICILIANO LUIGI PIRANDELLO


QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
A morte sempre foi, e sempre será, um fascínio para o homem impotente, diante de sua absoluta inexorabilidade. Uma boa morte, ou seja, uma boa pitada de tal ingrediente numa estória escrita, é algo que aviva, por assim dizer, a trama narrada, conferindo-lhe brilho e beleza, por uma questão, eu diria, de mera comparação. Este contraste de existir, e ter que depois, nescessária e infalivelmente, extinguir-se, é um tema instigante e profícuo, fértil para boas redações. Muitos já se debruçaram sobre o tema, escrevendo sobre ela, a morte, e muitos outros ainda hão de fazê-lo, pois trata-se, sem dúvida, de matéria fascinante que, com certeza, interessa a todos nós que ainda estamos por aqui, como direi, vivos.
Na citação escolhida, mestre Pirandello, em O Falecido Mattia Pascal, novela aprazível e competente - através da voz de um de seus personagens - interessantíssimos, diga-se de passagem - questiona este dilema que é viver, e ter que, inevitavelmente, morrer. Um drama existencial lúdico, atualíssimo, bem humorado, numa trama genialmente bem elaborada que, com toda a certeza, trará ao leitor, uma série de reflexões interessantes, enquanto este se deleitará com a bela e romanesca estória deste clássico autor italiano. Bravíssimo!
Da Redação.
*
CITAÇÃO
"Mas eu agora pergunto, Senhor Meis: e se toda essa escuridão, esse enorme mistério, a cujo respeito debalde especularam, inicialmente, os filósofos e a ciência, agora, se bem que renunciando a investigá-lo, não exclui; se esse mistério não passasse, no fundo, de um engano como outro qualquer, um engano da nossa mente, uma fantasia que não se colore? Se nós, finalmente, nos convencêssemos de que este mistério todo não existe fora de nós, mas somente em nós e, ali, de forma necessária graças ao famoso privilégio do sentimento que temos da vida, isto é, a lanterninha de que te falei até aqui? Se a morte, em suma, que nos mete tanto medo, não existisse? Se fosse tão-só não a extinção da vida, mas o sopro que apaga em nós a lanterninha, ou seja, o infeliz sentimento que dela temos? É um sentimento penoso, assustador, porque limitado, definido por esse círculo de sombra fictícia que se acha para lá do pequeno âmbito da escassa luz, que nós, pobres vaga-lumes perdidos, projetando em torno a nós e em que a nossa vida fica como que aprisionada, como se fosse excluída, por algum tempo, da vida universal, eterna, na qual parece-nos que, algum dia, deveremos reentrar, Mas a verdade é que nela já estamos e nela sempre permaneceremos, mas, aí, sem mais esse sentimento de exílio que nos atromenta. O limite é ilusório, é relativo ao nosso pouco lume, o da nossa individualidade: na realidade da natureza não existe. Nós (não sei se isso pode dar-lhe prazer), nós sempre vivemos e sempre viveremos no universo; também agora, em nossa fórmula atual, participamos de todas as manifestações do universo; só que não o sabemos, não o vemos, porque, infelizmente, a maldita lanterninha bruxuleante nos faz ver somente o pouco até onde seu lume alcança. E se, ao menos, nos permitissimos vê-lo tal como é na realidde! Não, senhor: apresenta-o a nossos olhos com a cor que ela lhe dá e nos faz certas coisas, que devemos realmente lamentar, com a breca! mas das quais, noutra forma de existência, não teríamos, talvez, boca bastante para rir às gargalhadas. Gargalhadas, Senhor Meis, por todas as vãs, estúpidas atribulações que ela nos proporcionou, por todas as sombras, por todos os estranhos e ambiciosos fantasmas que fez surgir diante e em torno de nós, pelo medo que nos inspirou!" (pag206)
*
LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

terça-feira, 14 de abril de 2009

A DEMOCRACIA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
A epopéia de O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello é algo assim sui generis. Trata-se do personagem principal da trama em busca de sua própria identidade, depois de uma fatalidade que ocorre em um momento mais que apropriado, para ele, projetando-o para um mundo de busca dos significados da vida e da existência. Enquanto somos embalados pela cativante e inteligente narrativa, vamos nos dando conta da reflexão profunda que este brilhante autor siciliano nos propõe. Na citação selecionada, vemos um dos personagens coadjuvantes refletindo sobre a democracia em contraste com a monarquia. Inesperado, autêntico, brilhante, este é Luigi Pirandello. Uma maravilha!
*
CITAÇÃO
"Mas a verdadeira causa de todos os nossos males, desta nossa tristeza, você sabe qual é? A democracia, meu caro, a democracia, ou seja, o governo da maioria. Porque, quando o poder está nas mãos de um só, este sabe que é um só e que deve contentar muitos; mas quando muitos governam, pensam somente em se contentarem a si mesmos e temos, então, a tirania mais estapafúrdia e mais odiosa: a tirania mascarada de liberdade." (pag162)
*
LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

segunda-feira, 23 de março de 2009

A LOUCURA CONCEITUAL DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
CITAÇÃO
"Eu passo por louco por que quero viver ali, naquilo que para os senhores foi um momento, um lampejo, um fresco e breve fiapo de sonho vivo e luminoso, fora de todos os caminhos habituais, de todos os costumes, livre de todas as velhas aparências, respirando sempre novos e abertos horizontes, entre coisas sempre novas e vivas." (pág199)
*
COMENTÀRIO
Mestre Pirandello fala com eloquência pela boca de seus personagens. Aqui, nesta citação, trata-se de um mendigo enfermo que, vira e mexe, acorda no hospital, e que ainda assim, mesmo combalido e fustigado pela vida, e pela idade, continua a exalar um ar pleno e orgulhoso de sua liberdade, diante até dos que o tratam a saúde. Tocante e lúdico, existencialista e anárquico, o belíssimo conto A Mão do Doente Pobre é uma jóia dentre muitas outras jóias, que são, sem exagero alegórico, os escritos deste hábil proseador Siciliano. Simplesmente Magnífico!
*
LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

segunda-feira, 16 de março de 2009

A LUZ DA OUTRA CASA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
*
COMENTÁRIO
Quem nunca se sentiu meio esquisito, indisposto, com a alma inquieta, como se fosse mesmo um estranho dentro de sua própria vida? Um sentimento de despertencimento profundo e isso, com tudo estando aparentemente bem? Pois é, este sentimento absorvente de vazio pode chegar de repente e nos pregar uma peça, desamparando-nos psiquicamente, desorganizando-nos. Do nada, tudo à nossa volta se apresenta assim meio que sem sentido, em aparente desordem, pelo menos aos nossos olhos, e aí: vai-se a bendita tranquilidade e paz de espírito que tanto prezamos. Por vezes, tal força pode transcender em poder o sujeito que sofre a sua ação, a sua influência, sobrepujando-o, devorando sua existência vorazmente, sem que ele mesmo sequer perceba sua manifestação. O contrário oposto também pode acontecer: estarmos em meio a uma vida sem nenhum sentido cognocível, vagando pelos dias e, do nada, tudo se reverte drasticamente em paz, harmonia e pertencimento - pleno e profundo. Geralmente, os gatilhos de tais situações, que disparam o dispositivo interno desta mudança radical de estado de espírito, apresentam-se a nós sob a forma de um acontecimento ou pessoa marcante, que vem, se impõe e nos transforma. É disso que Pirandello trata com maestria em seu belíssimo conto A Luz da Outra Casa. O personagem principal da estória é uma figura solitária, que teve uma infância difícil, que perdeu a mãe em situação trágica pelas mãos do pai bêbado, e que passa os dias da vida assim, como se esta não lhe pertencesse de fato, até que um acontecimento mágico e inusitado muda o seu destino de maneira dramática e radical.
Leitura sensível, finíssima, que reflete os mais profundos meandros da alma humana em sua inexorável amplidão, e que nos faz pensar sobre o que nos move a vida, e o que confere a esta sentido ou não. Numa só palavra: sensacional!
*
CITAÇÃO
"Daquele dia em diante, todas as tardes, ao sair da repartição, em lugar de dar seus habituais passeios solitários, voltava para casa; esperava todas as noites que a escuridão do seu quartinho se aclarasse suavemente com a luz da outra casa, e ali ficava, por detrás dos vidros, como um mendigo, saboreando com infinita angústia a doce e feliz intimidade, o conforto familiar de que os outros gozavam, e de que ele, em criança também gozara em alguma rara noite de paz quando a mãe... a sua mãe... como aquela...
E chorava." (pág116)
*
LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Luz da Outra Casa // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

domingo, 8 de março de 2009

O MEDO DO SONO DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel no ano de 1934.

CITAÇÃO
"Quando moço, Càrzara foi um pouco impetuoso, tanto que ainda usava as calças boca de sino; do tempo dos valentões; e talvez ainda gostaria de pentear-se com costeletas, mas os cabelos lhe haviam caido precocemente; gostaria também de falar com a ênfase de tempos atrás, mas sua voz agora tinha tão imprevistas e ridículas mudanças de tom, que dom Savério preferia ficar quieto e só falava quando não podia evitar; fazia-o sempre apressadamente e ruborizando-se." (pag58)
COMENTÁRIO
Luigi Pirandello era feliz ao escrever, pois escrevia bem, com desenvoltura, era profícuo e tinha estilo próprio, o que são virtudes impreteríveis para um escritor que quer ter êxito. Suas descrições não remontam só situações, remontam épocas, culturas, regiões; tempos pregressos de uma Sicília tradicional e provinciana. Leitura fina para o leitor que gosta se deleitar à sombra dos imortais da literatura. A citação é oriunda do interessante conto O Medo do Sono, onde uma mulher desmedidamente sonolenta, vai criando os acontecimentos e fatos da estória de modo divertido e surpreendente.
LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Morta e a Viva // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

sábado, 7 de março de 2009

DUAS ESPOSAS DE NINO MO POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel no ano de 1934.

CITAÇÃO
"O barco de pesca, ao qual o capitão Nino Mo dera o nome de "Filippa" em memória de sua primeira mulher, entrava no ancouradouro de Porto Empedocle no resplandecer de um magnífico por do Sol do Mediterrâneo, quando as águas, na sua infinita extensão, tremeluzem e palpitam num delírio colorido de luzes. cintilam os vidros das casas multicolores, brilham as margas do planalto onde se encosta a aldeia, esplende como ouro o enxôfre amontoado na extensa praia; único contraste é a sombra do antigo castelo à beira-mar, quadrado e fosco, no alto do dique."

COMENTÁRIO
Ao retornnar da pesca, o velho marinheiro Nino Mo, sábio e tranqüiulo, se depara com uma situação, no mínimo, inesperada: sua molher - que ecreditava estar morta - reaparece, para sua perplexidade total, criando uma bela de uma confusão, que acaba por envolver também os pacatos concidadãos da aldeia onde reside. Conto interessantíssimo, de questionamento filosófico e social claro, do que é lícito e do que não é, com final surpeendente; tudo elegantíssimo, à moda de Luigi Pirandello. (pag07)

LIVRO: Obras Escolhidas // AUTOR: Luigi Pirandello // CONTO: A Morta e a Viva // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo // 1960

terça-feira, 3 de março de 2009

A MALANOTTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.

CITAÇÃO
"Voltou dali a pouco com a Malanotte, que era uma velha bruxa, famosa por tirar maus-olhados: negra como piche, com uns olhos de loba e uma boca enorme, de onde saía uma rouca voz masculina.
Ela mandou trazer um prato fundo cheio d'água e uma ampolinha de azeite. Oredenou que fechassem a porta e que o enfermo fosse posto sentado na cama. Depois acendeu uma vela, apoiou o prato na cabeça do velho e deixou cair bem devagar uma gota de azeite, ali na água, bem no meio. À volta, as vizinhas olhavam, segurando a respiração. Com os olhos fixos naquela gota de azeite boiando, a Malanotte pôs-se a resmungar umas rezas incompreensíveis, e a gota começou pouco a pouco a expandir-se e dilatar-se.
Estão vendo? Estão vendo?
No prato, na luz incerta da vela, tremia um disco reluzente, como uma lua. As vizinhas se ergueram nas pontas dos pés, pálidas; algumas batiam no peito com os punhos, pelo estupor." (pag146)

COMENTÁRIO
Ler o siciliano Luigi Pirandello é um conforto. O homem escrevia com graça, com leveza e, especialmente, com talento. Algo fundamental para quem se mete a escrever. Mestre notório do verbo, era dramaturgo e renovou o teatro de sua época, além de escrever obras memoráveis como os contos O Velho Deus e A Pensão Vitalícia. Neste último, de onde foi retirada a citação acima, o personagem principal da estória - um velinho simples e simpático - vive às voltas com uma morte que nunca chega, o que acaba por gerar uma série de embaraços, dilemas, onde acontece de tudo, até o surgimento de uma tradicional curandeira italiana. Mágico, lúdico, classico, reflexo de sua cultura, de seu tempo e de seu País; eis Luigi Pirandello, este agrigento da Sicília que escrevia com um estilo único e peculiar sobre a cultura de seu povo. Estória boa, enredo excelente, narrativa precisa e elegante, ágil; enfim, prosa de primeiríssima linha. É só conferir e se deleitar. Fantástico!

LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

A ESTÉTICA ELEGANTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
COMENTÁRIO
Certos escritores figuram na galeria dos maiores escritores de todos os tempos. Tais homens não podem ser medidos por parâmetros exatos. O número de publicações, por exemplo, não quer dizer muita coisa. Temos autores de uma só obra, como Montaigne, que só escreveu os seus famosos Ensaios, e nem precisaria mais, haja vista a preciosidade do referido livro; ao passo que outros como Camus, por exemplo, escreveu um número médio e comedido de livros, cujo conteúdo impactante e imortal continua a nos assombrar, como o próprio conceito de absurdo que o autor gostava tanto de abordar. Outros ainda, tiveram produção profícua e escreveram um bocado e com alma como o russo Dostoiévski, autor de pérolas como Lembrança da Casa dos Mortos, escrito inspirado em sua temporada recluso numa prisão da Sibéria. Mas, o que importa de fato, é que estes homens predestinados e talentosíssimos, souberam transpor com habilidade e arte aquilo que seus olhos lúdicos e humanistas viram em suas próprias vidas diárias; perplexos. Bom para nós. Luigi Pirandello, com toda certeza e merecimento, é destes escritores que iluminam os tempos com suas obras e seu talento inegável. Esta citação foi extraída do inteligente conto Quando eu era Louco do incrível livro Novelas para um Ano - O Velho Deus. Satisfação garantida para o leitor atento que ama os livros e as letras imortais.
CITAÇÃO
"Eu penetrava até na vida das plantas e, pouco a pouco, eu me elevava da pedrinha, do fio de grama, acolhendo e sentindo em mim a vida de todas as coisas, até pareceer que eu me transformava quase no mundo inteiro, que as árvores fossem os meus membros, a terra fosse meu corpo, os rios as minhas veias, e o ar a minha alma; e eu andava um pouco assim, extático e comprenetrado nessa visão. Quando ela desaparecia, eu ficava ofegante, como se realmente no frágil peito eu tivesse acolhido a vida do mundo."(pag71)
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

segunda-feira, 2 de março de 2009

O VENTO SIROCO DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Importante dramaturgo, poeta e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
CITAÇÃO
"Ainda lembro como fiquei impressionado, naquela noite, com o repentino espetáculo da natureza quase toda em fuga, na urrante vemência do vento. As nuvens fugiam fendidas pelo céu, em fúria desesperada, numa fileira infinita, e parecia que arrastavam consigo a lua pálida pelo pavor; as árvores se contorciam gemendo, rangendo, sofrendo espasmos sem descanso, como se quisessem arrancar suas raízes e fugir também para lá, para lá, aonde o vento levava as nuvens, a uma tempestuosa reunião." (pag74)
COMENTÁRIO
O Siroco (em italiano scirocco e em árabe ghibli) é um vento quente, muito seco, que sopra do deserto do Saara em direção ao litoral Norte da África, comumente na região da Líbia. Este fenômeno causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterâneo. Freqüentemente o ciroco, sem umidade devido ao efeito Föhn, cruza o Mediterrâneo atingindo com violência o sul da Itália - terra de Mestre Pirandello - e, em certas ocasiões, chega até à Cosata Azul e à Riviera.
O estilo de elegante de Luigi Pirandello é impecável ao transportar o leitor suavemente para onde ele quer: para dentro de sua estória; e o faz com maestria, evocando muitas vezes sua cultura e sua origem. Este agrigento da Sicília era um monstro com a pena na mão. Escrevia inspirado e com talento, duas qualidades que um bom escritor tem que ter; e ele tinha. Esta citação escolhida é belíssima e fala por si, dispensando maiores comentário. Luigi Pirandello: é para ler e se deleitar.
Literatura Escriba classificação cinco peninhas de ouro!
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis& Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

BECCARIA E OS MIRANDA CONTRA A TORTURA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.
CAUSO
Meu avô, o Dr. Francisco Rodrigues de Miranda, era promotor da Justiça Militar. Nunca deu um parecer favorável aos poderosos fardados da vez, sem antes ler minuciosamente o processo e, especialmente, achar razões na lei vigente para tanto. Por éstas e outras, foi caçado pela famigerada ditadura militar. Uma vergonha! Logo um homem seríssimo como o meu avô... Humano e justo. Antes disso, saiu muitas vezes no meio da noite para ir à delegacias soltar presos injustamente que estavam sendo torturados. Naquele tempo, usavam-se técnicas sutís como choque no escroto, saquinho preto na cabeça e borduada, luz na cara, pau-de-arára e outras gentilezas típicas deste tipo de gente insana e desmiolada. Foi bem naquela época em que as pessoas costumavam desaparecer, muitos para nunca mais voltar. Com a anistia, ele, meu avô, voltou à ativa, mas já estava velho demais para a luta do magistério diário e das leis dos homens. Tinha, dentre outras coisas, problemas no coração. Seu irmão, o Dr. Theodolo Rodrigues de Miranda, juiz Militar, ficou famoso por ter dado corajosamente a primeira canetada da anistia, mandando soltar neste ato histórico - um dia antes de publicarem no Diário Oficial - o Arraes e mais uma turma que estava atrás das grades sabe-se lá por que. Aquela tragédia que foi o golpe militar. Forão estas pessoas, estes homens, os Miranda e muitas outros, que mesmo em meio ao caos, conseguiram lutar por justiça, liberdade e respeito aos direitos humanos universais, mantendo assim um mínimo de dignidade para nação brasileira assustada, consternada e assolada pela tirania.
Nesta citação escolhida especialmente, o brilhante jurista, filósofo e humanista italiano Cesare Baccaria, fala com precisão cirúrgica sobre as ignomínias cruéis, e, principalmente, ineficientes da tortura.
CITAÇÃO
"Faz-se o interrogatório de um réu para conhecer a verdade: porém, se esta verdade dificilmente se descobre no ar, no gesto, na fisionomia de um homem tranqüilo, muito menos se descobrirá num homem em quem as convulsões da dor alteram o sinais do rosto da maior parte dos homens, e, às vezes, a seu prazer, revelam a verdade. Toda ação violenta confunde a faz desaparecer as mínimas diferenças dos objetos, pelas quais, às vezes, se destingue o verdadeiro do falso". (pag48)
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A SABEDORIA SECULAR DE CESARE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Quem pode suspeitar em outro um delator, vê um inimigo nele. Então, os homens se acostumam a mascarar os próprios sentimentos, com o uso de ocultá-los a outros, chegam finalmente a escondê-lo de si mesmo". (pag39)

COMENTÁRIO
Quem é inocente? Quem é culpado? A quem compete julgar? Sob que parâmetros?
Era sobre isso que o italiano Cesare Beccaria se debruçava. Humanista inteiro, foi capaz de penetrar na alma e nos costumes de seu povo (Europa), e compor uma obra importante como o é Dos Delitos e das Penas, especialmente, em uma época complicada, marcada por tiranos, fogueioras, guilhotinas, decaptações, banhos de sangue e outras bárbaries cotidianas que, recaiam sobre a pele dos culpados ou não. Muitas vezes, antes de Beccaria, dos não. Inocentes... Muitos inocentes morreram sob a fúria da paixão, da ganância, e dos desejos sórdidos dos homens menores, sem nenhum direito à defesa. Justiça tirana e bárbara. Deuses de todas as cores, raças e idades foram evocados em nome da guerra, da peleja, das contendas e do massácre; do genocídeo por interesse, lucro e poder. Muitas mortes desnescessárias... Mortes injustas... Sumárias.
Beccaria, este douto senhor letrado, revolucionou o direito penal universal. Sua sabedoria secular compõe o alicerce do direito penal contemporâneo. Um grande autor imortal. Simplesmente: Um espetáculo! Da redação.
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A JUSTA REVOLUÇÃO PENAL DE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Não é somente de interesse comum que não se cometam crimes, mas que sejam mais raros na proporção do mal que fazem à sociedade. Assim, os obstáculos que separam os homens dos crimes, devem ser mais fortes quando os crimes se mostram mais prejudiciais para o bem público e na proporção dos estímulos que, para eles, impelem os homens. Deve existir, por isso, uma proporção entre os crimes e as penas. Se o prazer e a dor são as molas dos seres sensíveis, se entre os motivos que levam os homens até as mais sublimes realizações, foram destinados a recompensa e a pena pelo invisível Legislador, resultará de sua errônea distribuição aquela contradição, menos observada, embora mais comum, que as penas castigam os crimes que elas fizeram nascer. Se uma mesma pena se destina a dois crimes que ofendem desigualmente a sociedade, os homens não encontrarão um obstáculo mais sério para a prática do crime mais grave, se a esse procedimento, tiverem unido uma vantagem maior. Quem ver imposta a pena de morte, por exemplo, a quem mate um faisão e a um assassino de um homem ou a um falsificador de documento importante, não fará qualquer distinção entre estes crimes; destruir-se-ão, deste modo, os sentimentos morais, obra de muitos séculos e de muito sangue, morosos e difíceis de serem produzidos no espírito humano, para cujo aparecimento se acreditou necessário o auxílio dos mais sublimes motivos, e um tanto revestido de aparatosas formalidades graves." (pág. 87)

COMENTÁRIO
Cesare Beccaria foi um cara importantíssimo. Deste tipo de pessoa que tinha que ter nascido para poder fazer o que fez em vida, levando a cabo uma missão tão importante que mudou a face do Mundo na sua época. Era um brilhante jurista humanista. Sua genial e compacta obra Dos Delitos e das Penas, escrito em forma de Ensaio, sensibilizou o coração dos homens poderosos da vez que, através dela, foram capazes de perceber a brutalidade bárbara da aplicação das leis e dos costumes penais, revisando-os conceitualmente. Dentre outras vitórias épicas, Beccaria foi capaz de influenciar os espíritos esclarecidos de seus mais ilustres contemporâneos, extinguindo, por exemplo, práticas cruéis e abomináveis como a aplicação da pena de morte para delitos menores, torturas etc. Assim, seus escritos mereceram quase que imediata acolhida em muitos países, como França, Alemanha e Áustria, e na própria Itália, terra natal do autor, impactando beneficamente os direitos humanos. Indubitavelmente, Beccaria foi um revolucionário. Com este pequeno livro de importante conteúdo humanista, o autor mostra a sutileza que existe em julgar situações singulares, e guia o jurista, para que este cometa o menor número possível de injustiças em sua busca pela aplicação das leis. Simplesmente sensacional! Boa leitura até para quem não se interessa muito por Direito. Imperdível.
*
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004