terça-feira, 5 de maio de 2009

H1N1: ÊTA MUNDINHO BESTA ESTE NOSSO! BESTA E FRÁGIL.

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais, videomaker com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Êta mundinho besta este nosso! Besta e frágil. Estamos todos nós agora, neste instante, nos borrando de medo - uns mais que outros, é verdade - só por causa de um minúsculo inimigo invisível chamado vulgarmente de vírus da gripe do porco, convenientemente re-batizada de Influenza-A bem no meio da crise dos primeiros dias; tudo, é lógico, para não atrapalhar inconvenientemente a turma do agronegócio, que vende carne suína a dar com o pau, enquanto o número de casos da gripe no mundo vai subindo. Nós, como bons brasileiros que somos, não ficamos atrás neste bonde, e não dispensamos um bom porquinho nas diversas receitas tradicionais de nossa cultura; e assim, o Brasil figura no cenário mundial como notável produtor e consumidor deste, atualmente, combalido animal.
O Estado, as autoridades competentíssimas, sempre - como classe mais que preparada que é para exercer suas nobres funções - correm à mídia para tranquilizar a receosa população brasileira, dizendo que já estão prontas para enfrentar a tal gripe, sendo que ao contrário, e na verdade - e nós sabemos desta muito bem e da pior maneira possível, ou seja, na prática - que a saúde pública brasileira vive um período negro de descaso e miséria total, onde falta gaze, esparadrapos, remédios, equipamentos, médicos, enfermeiros e, por vezes, até mesmo hospitais. O que se dirá se chegasse aqui um vírus letal de verdade.
Mas, o que ninguém diz mesmo sobre o coitado do porquinho é que ele - além de ser servido no rolete, como disse sábia e espirituosamente o Ministro Rudolf Estephanes, pode ser apreciado também sem rolete, na brasa sob a forma de churrasco, ou então na feijoada, no forno à pururuca, frito como torresmo, embutido em forma de linguiça e companhia limitada - serve também, o porco, por sua impressionante similaridade genética conosco, os humanos, para fazer parte de nossos próprios aparatos biológicos através, por exemplo, de válvulas cardíacas. Sim, nós somos fisiologicamente muito parecidos com os nossos gripados e saborosos amigos suínos, que suas partes físicas podem nos servir, e têm nos servido de fato, como reserva viva de tecidos para implante em diversas partes do organismo humano.
Vamos e venhamos, esta maldita gripe suína, que nos ameaça e amedronta, nada mais é que um resultado de nossa atividade exploratória que se estende a todos os seres vivos, e até mesmo ao Planeta que nos sustenta em sua infinita generosidade. É público, notório, óbvio e ululante: capitalismo e ecologia não se dão. Alguns mais espertos que outros, agora, em tempos de aquecimento global e outras mazelas planetárias, dizem-se verdes e sustentáveis desde o dia de seus nascimentos, quando na verdade querem apenas camuflar suas verdadeiras intenções capitalistas com discursos sócio-ambientais, enquanto continuam a ganhar seus mesquinhos lucros astronômicos. É claro que se a humanidade realmente quisesse, e se desse ao trabalho de rever suas práticas insustentáveis e anti-éticas, poder-se-ia, reduzindo margens de faturamento por um lado e priorizando questões sociais por outro, buscar novas matrizes energéticas mais perenes e menos poluentes e geradoras de resíduos, mudar drasticamente o nefasto panorama que se delineia bem diante de nós, em um futuro bem pouco distante. Todavia, com efeito e, lamentavelmente, não há um mínimo de vontade de mudar nada que está aí posto e praticado. Geramos lixo ‘pra burro, andamos em carros individuais, extremamente caros e dispendiosos de se produzir e alimentar com combustíveis, combustíveis estes, é bom lembrar, não renováveis, limitados e, que se não bastasse tudo isso, ainda estão contribuindo com sua poluição para a dramática alteração climática que vivemos, ameaçando a sutil harmonia terrestre.
Neste ambiente hostil, em um mundo de gritantes contradições, globalizado e ganancioso, massificado e consumista, obeso e ao mesmo tempo faminto, veloz e midiático, burro, raso e vazio, surge imponenete, oriunda de nossa própria mesa quintais e galpões de fábrica, a temida e famigerada gripe do porco, que virou a gripe do porco-homem, ou homem-porco, como preferirmos, pois não faz a menor diferença, e que pode virar no futuro sabe-se lá o quê, pois o vírus é mutante, como todo vírus! Mesmo que esta pequena e poderosa praga não nos varra da face da Terra agora - o que não deixaria de ser uma boa coisa para as demais espécies vivas - trata-se, sem sombra de dúvida, de um claro aviso sistêmico de alerta, que nos diz respeito certamente, resultado direto e diametral de nossa promiscuidade cruel e desumana para com as outras espécies vivas e o próprio planeta que tão gentilmente nos abriga, nossos maus hábitos industriais e alimentares, nossa desmedida ganância antropocêntrica por poder e domínio, lucro e, por fim, e não menos significativo por isso, por nossa indubitável insustentabilidade nata, traço marcante e característico de nossa espécie. Enquanto fusionarmos nosso gozo existencial a hábitos fúteis e torpes de consumo exacerbado, pouca esperança haverá para nós e para o nosso ambiente.
Resumindo a novela da gripe homem-porco-homem: Êta mundinho besta este nosso! Besta e frágil.

MOBY DICK: A IMORTAL BALEIA DE MELVILLE

QUEM?
Herman Melville (1819-1891). Notório escritor norte-americano que, entre outras coisas, marinheiro que era, escreveu sobre as aventuras dos mares do mundo com grande talento. Autor da imortal Moby Dick, a lendária baleia branca, dentre outras belíssimas estórias do mar.
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COMENTÁRIO
Perseguir e predar outras espécies vivas sempre foi a 'nossa'. Quero dizer, nossa especialidade. Andamos por ai, através dos mares e dos vastos territórios do Planeta caçando, espicaçando e devorando os demais seres viventes, seja para nos alimentarmos ou para vendermos os seus corpos, como se só nós tivéssemos direito à vida, numa barbárie antropocêntrica, cruel e insustentável, que se arrasta pelos tempos desde que o mundo é mundo. Uma lástima. Nem mesmo animais gigantescos como as baleias cachalotes, que chegam a medir 18 metros de comprimento, e pesar mais que 45 toneladas, conseguiram se esquivar de nossa ferrenha e sanguinária perseguição. Estes enormes, magníficos e delicados seres marinhos, em suas inocências puras e imaculadas, não são capazes de competir com nossa extraordinária engenhosidade predatória, e vão sucumbindo copiosamente às centenas, pois seus corpos e, especialmente, sua gordura, são extremamente valorizados no mercado mundial.
Trata-se de algo assim, como direi eu, humilde Escriba, inacreditável. Em pleno século XXI, em pleno alvorecer de uma nova era digital de convergência tecnológica, em um mundo fascinado e atônito pela física quântica e pela nanotecnologia, de avanços científicos inimaginados, ainda hoje, continuamos matando legiões de baleias a arpoadas, a despeito de toda crise e colapso ambiental que nos assola, perpetuando insanamente, esta tragédia descomunal que é a intolerância para com as demais espécies vivas. Ademais, subsiste ainda, sólida e inabalável, a própria questão basilar e contraditória de não respeitarmos nem mesmo o ambiente que nos gera e sustenta.
Mesmo assim, com tudo isso, mesmo sendo Moby Dick uma estória de caça à baleia nos idos do século XIX - e assim podemos ver que a tradição predatória corta a história humana na Terra há mais de duzentos anos - o romance do mestre norte-americano da pena Herman Melville, é uma pérola da literatura universal de todos os tempos. Muito além da perseguição à poderosa baleia branca da estória, que se recusa a se subjugar perante o homem, existe uma procura pelo sentido da própria existência humana, dentro do fantástico ambiente que é estar-se numa casquinha de noz a singrar os sete mares do mundo. Vale lembrar ainda que Melville, antes de ser escritor, foi marinheiro, e vivenciou de perto a vida marítima, embarcado a bordo de naus, e toda esta angústia que é viver a perseguir estes gigantescos peixes, a caçá-los e exterminá-los.
A magnífica baleia cachalote de Melville é leitura selecionada e indispensável às pessoas que tem sensibilidade para perceber a vida em toda a sua pungência, e para os amantes inveterados dos romances de aventura. Na passagem em questão, vemos a tensão dos personagens no momento exato da caça à baleia.
Moby Dick: cinco peninhas de ouro Escriba.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Um som breve e sibilante se estendeu pelo espaço, erguendo-se do bote. Queequeg tinha disparado o arpão. Imediatamente um puxão inesperado, partindo da pôpa, fêz estremecer o nosso bote, ao passo que a parte dianteira parecia ter esbarrado num recife. A vela arriou e estalou; uma onda de vapor escaldante explodiu bem perto e qualquer coisa rolou trepidando debaixo do bote, como um terremoto. A tripulação aos trambolhões e envolta em brancos coágolos de espuma, parecia meio asfixiada. Temporal, baleia e arpão fundiram-se num instante, porém a baleia, apenas arranhada pelo arpão, escapou-se." (pág374)
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LIVRO: Moby Dick // AUTOR: Herman Melville // VOLUME: I // EDITORA: José Olympio // Rio de Janeiro // 1957

segunda-feira, 4 de maio de 2009

NANOTECNOLOGIA - O FUTURO É AGORA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais, videomaker com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Nanotecnologia: O Futuro é Agora. Nano é uma escala de tamanho referente a proporções muito pequenas. Um nanômetro equivale a um bilionésimo de metro. A nanoescala faz menção a essa diminuta magnitude. Logo, nanotecnologia (NT) é basicamente tudo que pode ser construído, forjado, manipulado e controlado nesta escala de tamanho.

Quando se considera um avanço cientifico e tecnológico, acredita-se erroneamente que este pertença a toda a humanidade, quando apenas uma minoria goza de seus reais benefícios. Fomos ao espaço, mas aqui na Terra populações ainda morrem de fome diante destas mesmas tecnologias. Avanços científicos nem sempre mitigam desigualdades sociais. Ao contrário, na maioria das vezes criam novas exclusões e acabam por ampliar as desigualdades já existentes. A população global não sabe quase nada sobre NT. E, quando sabe, é através de mensagens pré-fabricadas apresentadas pela mídia para criar um imaginário cor-de-rosa; tipo a cura para todos os males, o que não é uma verdade. O discurso sobre a NT é sempre 'nano-otimista', e todo o P&D (pesquisa e desenvolvimento) é financiado pela iniciativa privada e governos dos países ricos. As NT's ainda não são reguladas por nenhum órgão e vão se consolidando na sociedade à revelia dela própria, o que é muito perigoso. As NT's suscitam várias questões de cunho ético e de segurança. Não há pesquisas de impacto ambiental, nem para saúde humana. Fala-se de nano-robôs capazes de realizar tarefas inimagináveis. Porém, nem os próprios cientistas sabem o que pode acontecer em caso de acidentes. Os produtos com NT em suas fórmulas já estão sendo vendidos livremente, sem menção nos rótulos, transformando a população mundial em cobaias. Fala-se também de 'humanos melhorados' com as NT's, mas quem terá acesso a tais benefícios? E os 'não-melhorados'? E quem controlará as NT's? As mega-corporações transnacionais? Faz-se urgente o debate ético e público sobre as NT's. Ignorar nestes tempos velozes pode ser perigoso demais.

Nanotecnologia: o futuro é agora.

NANOTECNOLOGIA NA GRINGOLÂNDIA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais, videomaker com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Os avanços das nanotecnologias (NT's) na Gringolândia, ou seja, nos países mais ricos Mundo afora, anda de vento em popa, ou melhor, com dinheiro e caixa, fazendo progressos fantásticos e ao mesmo tempo assustadores. Sim, porque as NT's já são uma realidade e estão sendo desenvolvidas e aplicadas meio que na 'encolha', e à revelia da própria sociedade que não é informada de que já a está consumindo e, lamentavelmente, sempre sob a proteção de leis capitalistas de sigilo industrial. Isto é um tanto óbvio se não fosse assustador e preocupante. Declaro isto pois ouvi, de fonte segura, da boca de quem trabalha nas tais corporações transnacionais justamente nestes ambientes de desenvolvimento tecnológico de produtos contendo NT's, que ninguém sabe o que se está fazendo e avançando em P&D's de NT's sequer na sala ao lado. Ou seja, no outro laboratório, às vezes, da mesma empresa, existe um outro técnico especialista, um outro cientista trabalhando, que também não pode, sob pena de ser punido judicialmente, mencionar os seus projetos a absolutamente ninguém. Isto é uma regra geral, é claro que há exceções. Todavia, com efeito, isso tudo nos indica que, provavelmente, sabemos bem menos do que o que se dá de fato em termos concretos no que diz respeito aos níveis de avanços em nanotecnologia no momento presente.
Isso tudo, é claro, sem falar do grande engano que é considerarmos estes avanços como pertencentes a toda a humanidade. Na verdade, no mundo real, no universo das patentes, por exemplo, no mundo dos homens, as nanotecnologias significam negócios, nada mais. É um equívoco acreditarmos num mundo em que os grandes capitalistas desenvolvem dentro de si sentimentos e princípios humanistas, pois isto nunca irá acontecer. Prova disto é que muito em nanotecnologia - como não poderia deixar de ser, especialmente considerando os países envolvidos - já está sendo aplicado em armamentos e produtos bélicos. São muitas as suas possíveis utilizações em diversas áreas, não só na militar. A miniaturização, por exemplo, é a mais óbvia, mas os potenciais vão bem além disso, e tratam de manipulação da informação de uma maneira geral: a otimização e potencialização de propriedades, como as explosivas, por exemplo; mas tratam também de rastrear, controlar pessoas e materiais com nanochips; e, finalmente, de alterar gens, clonar e fabricar novos organismos vivos, organismos estes, órfãos da cadeia evolutiva natural, o que pode ser um enorme perigo de incomensuráveis impactos.
Poderíamos dizer, sem medo de engano, que as nanotecnologias servem para quase tudo. Com a diminuição para a escala nano, um bilionésimo de um metro, embalagens, por exemplo, podem continuar a levar informações ao fabricante, mesmo depois de serem adquiridas. É possível que estes produtos continuem a trabalhar mesmo em nossas casas, enviando sinais do momento da abertura do próprio produto, sua localização física no espaço, se foi consumido inteira ou parcialmente, ou seja, tais avanços e aplicações comerciais e estratégicas, no mínimo, levantam quetões amplíssimas de cunho ético, filosófico e social.
Há que se atentar para as nanotecnologias sob pena de sermos engolidos por elas.
Toda vez que uma nova tecnologia chega, infalivelmente, destrói ou reduz drasticamente suas predecessoras. Assim, o Brasil precisa estar atento às questões relativas às nanotecnologias. Estamos numa verdadeira encruzilhada histórica: por um lado, um imenso potencial de desenvolvimento e aplicações destas técnicas, para que possamos, além de sanar nossas mazelas sociais, competir de igual para igual com os outros países; e, por outro, imensos riscos, e a necessidade premente de mais pesquisas de impacto na saúde humana e no meio ambiente, além da carência monumental de regulação do setor. Como se costuma dizer no popular, deixar para as próprias corporações a responsabilidade de se auto-regular, é um ato tão insano quanto tentar amarrar cachorro com linguiça. Estes grupos pensam em números, e não em pessoas.
Vale lembrar também que outras tecnologias já surgiram na história da humanidade, e que as desigualdades gritantes continuaram e até pioraram depois delas. As tecnologias, em si, não alteram a realidade sozinhas. Não mudam nada por si mesmas. São apenas ferramentas em mãos humanas.
Em um mundo consumista, capitalista e massificado, as NT's chegam para aguçar a ganância de alguns, e a preocupação de outros que pesquisam, como eu, por exemplo. Deste modo, direto da Redação, segue aqui a dica deste humilde editor Escriba: Populações do Planeta, olho vivo com as NT's!

domingo, 3 de maio de 2009

AS ALMAS MORTAS DE GÓGOL

QUEM?
Nicolau Gógol (1809-1852). Brilhante escritor ucraniano, autor de obras fantásticas como o conto O Capote e o romance o Almas Mortas.
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COMENTÁRIO
O Romance Almas Mortas de Nikolai Gógol é uma jóia. Trata-se de uma obra filosófica e bem humorada que, distraidamente, nos faz pensar no que significa a vida humana afinal, além de abordar com sabedorioa toda a questão existencialista, enquanto faz uma ferrenha crítica ao modo russo de dominação feudal, e a exploração de seres humanos por outros humanos. Enquanto isso, o leitor terá a oportunidade ímpar de conhecer esta cultura tão diversa da nossa, e que ainda assim, em toda a sua diferença, ainda se assemelha em réplica de modelo exploratório e em miséria e resitência de seu bravo povo. Livro interessante, leve, a despeito do título, indiscutivelmente, sombrio. Na estória, vemos um simpático personsagem percorrer fazendas e propriedades ruarais russas de seu tempo, início do século XIX, numa busca incessante e frenética por adquirir suas almas mortas; pessoas falecidas, ainda não resensiadas. Na passagem escolhida, vemos o talento do autor na descrição da qualiodade do sono desfrutada por seu personagem, além de indentificarmos hábitos alimentares russos pouco ortodóxos, que, facilmente, poderíamos comparar com os nossos, aqui do Brasil.
Brilhante!
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CITAÇÃO
"Depois da jornada daquele dia, sentia-se muito fatigado. Tendo pedido o mais leve dos jantares, constante de um simples leitão, despiu-se sem perda de tempo e, enrodilhando-se debaixo do corbetor, adormeceu logo, num sono forte e profundo, um sono maravilhoso como só é dado dormir áqueles felizardos que não conhecem nem as hemorróidas, nem as pulgas, nem os dotes intelectuais excessivos." (pág156)
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LIVRO: Almas Mortas // AUTOR: Nikolai Gógol // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1979

sábado, 2 de maio de 2009

A DESUMANIDADE DA VELHICE POR NIKOLAI GÓGOL


QUEM?
Nicolau Gógol (1809-1852). Brilhante escritor ucraniano, autor de obras fantásticas como o conto O Capote e o romance o Almas Mortas.
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COMENTÁRIO
Com seu estilo clássico e marcante, o talentoso Nikolai Gógol nos mostra em seus belos e cativantes escritos, peculiaridades da alma humana, como esta excepcional passagem de Almas Mortas, que aborda com refinada sabedoria filosófica, as mazelas e desventuras da velhice humana. Leitura de primeira linha!
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CITAÇÃO
"Tudo parece possível, qualquer coisa pode acontecer com um ser humano. O impetuoso jovem de hoje recuaria horrorizado se lhe mostrassem o próprio retrato, depois de velho. Tratai pois de levar convosco, para o caminho, ao sair dos doces anos da juventude para a áspera e embrutecedora maturidade, cuidai de levar convosco todos os impulsos humanos, não os deixeis pelo caminho, não podereis recolhê-los mais tarde! É terrível, aterradora a velhice que vos espera no futuro, ela nada faz retornar, não devolve nada! A sepultura é mais clemente do que ela, na sepultura se inscreverá: "Aqui jaz um homem!" Mas nada se poderá ler nas linhas insensíveis da desumana velhice." (pág150)
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LIVRO: Almas Mortas // AUTOR: Nikolai Gógol // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1979

segunda-feira, 20 de abril de 2009

UM PASSADO DE TREVAS POR VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÁRIO
Época importantíssima da história contemporânea ocidendal. Efervecente, revoltosa, mutante. Era um tempo de opressão monárquico que se sepultava, ao passo que uma nova época agônica se iniciava, necessária, ao que parece, mas inequivocamente sangrenta. Momento dramático de alternância do poder. Revolta e revolução.
93 é bárbaro! Livro emocionante e belo, que vale cada frase que contêm.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"A Tourgue era a resultante fatal do passado que se chamava Bastilha em Paris, Torre de Londres na Inglaterra, Spielberg na Alemanha, Escurial na Espanha, Kremlin em Moscou, castelo Santo-Angelo em Roma.
Na Tourgue estavam condensados mil e quinhentos anos, a Idade Média, a vassalagem, a gleba, o feudalismo; na guilhotina um ano, 93; e aqueles doze meses faziam contrapeso àqueles quinze séculos." (pág265)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data


quinta-feira, 16 de abril de 2009

O FALECIDO MATTIA PASCAL DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus, e do romance O Falecido Mattia Pascal . Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
O belo romance O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello é, sem sombra de dúvida, uma obra brilhante e honesta. Honesta sim, porque o autor em questão, talentoso que era, não se utilizava de alguns artifícios muito comuns praticados pelos vulgos escrivinhadores mundo afora, quando estes querem conferir emoção e dignidade a algo que, na verdade, é raso e vazio. Pessoas belas, ricas, predestinadas, que agem em prol de uma causa nobre... castelos, princesas, violência e até mesmo sexo... Nada disso há em Mattia Pascal! E não se sente falta! Tudo, na inteligentíssima trama, acontece como o é na vida real, meio que aleatoriamente. O personagem principal e caolho, feio, pobre e passa por bons bocados, quando alguém morre em seu lugar, e tudo em sua vida vira de pernas para o ar. As mulheres? Normais, são belas, mas de uma beleza mais íntima e sublime, da simplicidade das almas ternas, menos afeitas à estética, e mais à humanidade, enfim, trata-se de uma sensacional estória, construída à partir de uma nota de jornal, ou seja, inspirada em fatos reais, no mínimo curiosos. Há, é verdade, uma ida básica a um cassino, e um ganho inesperado que faz o personagem principal preterir às coisas materiais, mas, até isso, é perdoável, já que a árdua batalha travada nesta novela, tem como terreno e palco o campo das idéias, e não o das matérias, tão frágeis e corruptíveis. Com efeito, é muito interessante, a profunda reflexão filosófica, que este inteligentíssimo autor siciliano nos propõe, ele, que é formado na matéria pela Universidade de Bonn, na Alemanha, e que sabe como ninguém, levantar questões importantes e pertinentes, que dizem respeito ao fato de estarmos vivos, e todas as implicações oriundas desta condição. Dentro deste mundo obscuro, encoberto pelo manto negro das aparências, que tudo encobre e oculta, trava-se uma batalha no interior da alma do próprio Mattia Pascal que, dado como morto, se vê diante de acontecimentos, que são capazes de modificar drásticamente o seu, como direi, acoplamento estrutural, no âmago da sociedade e do tempo em que vive. Algo fabuloso, como se pudessemos nos despregar da enorme e monumental teia social que nos envolve, deixando-nos livres, sem passado, sem parentes, como que para recomeçar uma outra vida, em uma nova identidade, todavia, é justamente aí, que seu problemas começam, pois, viver, é infalivelmente, estarmos emaranhados em nossas famílias, conhecidos e em nossa estória pessoal e, muitas vezes, esta falta de laços, acaba sendo um problema maior ainda que o inicial. No caso dele, dívidas, parentes, e situação familiar indesejáveis. Assim, com bom gosto e afabilidade, com um humor inteligente e crítico, sem recorrer à guerra, nem ao fogo amigo das paixões incendiárias, e nem tão pouco lançar mão de tintas como o sangue humano, a bela e honesta estória de Mattia Pascal se desenrola com muita desenvoltura, preterindo sempre às coisas menores e inferiores, e privilegiando sempre o espírito, a sensibilidade e a alma humana. Estória interessantíssima, com final surpreendente, que nos obriga docemente a pensar e repensar o que significa finalmente viver. Recomendação especial deste velho Escriba Digital. O que não é a modernidade!
Na citação, especificamente, vemos uma passagem de extrema tensão, que se dá entre a esposa e os seus dois maridos: o atual, e o falecido.
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CITAÇÃO
"Ao oferecer-me a xícara, olhou para mim, tendo nos lábios um leve, triste sorriso, quase distante, e disse:
- Você, como de costume, sem açúcar, nãoé?
O que foi que ela leu, nesser instante, nos meus olhos? Baixou imediatamente os dela.
Na lívida luz da alvorada, senti um inesperado nó de pranto apertar-me a garganta e olhei para Pomino com ódio. Mas o café fumegava debaixo do meu nariz, inebriando-me com seu aroma, e comecei a sorvê-o lentamente."
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LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

A MULHER LOBA DE HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÁRIO
A arte de escrever com maestria requer do sujeito bem mais do que se imagina. Especialmente, se considerarmos as grandes obras, escritas através dos tempos, pelos gênios da pena e da prosa. Ao se descrever cenas e situações, há que se ter espírito, para poder-se captar a beleza da vida, manifesta em toda sua pungência, e mais, ater-se a não cometer excessos, como fantasiar de mais, ou de menos, não se deter em demasia em certos acontecimentos ou trechos da trama, além de não fazer grandes digressões; ao mesmo tempo que, é necessária, e até mesmo, indispensável, a utilização destes mesmos elementos, tão imprescindíveis nas grandes estórias, mas sempre, e nunca de outro modo, guiado por uma misteriosa e mágica voz interior, que indica o caminho certo, e guia o escritor na imparcialidade necessária, na imensidão que é brincar de Deus, em querer ser um escritor bem sucedido. Sim, porque criar uma estória, personagens, acontecimentos, trançá-los e mesclá-los ao bel prazer, amalgamando os seres e as coisas, conforme e segundo seu próprio desejo, não seria brincar de ser - nem que por alguns momentos apenas - o Criador da vida e do próprio universo? Uma espécie de Deus? Da estória em si, pelo menos? E, ainda, além de tudo, querer ser reconhecido socialmente por tal feito, devido a beleza e graça da obra executada. Não seria querer um pouco demais?
Pois é, escrever tem seus mil e um mistérios. Seria algo como incorporar no trabalho escrito, uma mistura perfeita e sutil de dotes, virtudes e qualidades, como: cultura, criatividade, domínio da técnica, arte, bagagem de vida, talento, habilidade, sensibilidade e uma série de outros ingredientes preciosos que, infelizmente, até agora, são desconhecidos de nós, pobres mortais que almejamos quiméricamente alcançar com nossas penas o mundo das letras imortais.
Por hora, basta, para confirmar minha hipótese teórica, recorrermos a esta luminosa e visceral passagem de Victor Hugo em Noventa e Três, onde uma pobre mãe, que já sofrera tudo que se possa imaginar - como ser fuzilada, por exemplo, e, por milagre, sobreviver - que vê à distância, perplexa, os três filhos, na eminência de serem consumidos pelas chamas de um enorme incêndio e, com efeito, acaba proferindo seu gutural e assustador uivo de pavor, rompendo o espaço sideral da trágica noite francesa daqueles dias conflituosos e memoráveis. Ao lermos o trecho em questão e, principalmente, pela forma descritiva precisa e emocionada deste notável autor francês, podemos quase que sentir, na própria carne, sua dor surda de mãe ferida na alma, ao ver ameaçada sua prole. Em uma palavra: Brilhante!
93 é leitura fina e obrigatória para quem gosta de boa prosa, e deseja saber porque o Mundo é assim como é.
Da redação Escriba.
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CITAÇÃO
"A mãe reconheceu os filhos.
Soltou um grito horrível.
Esse grito da angústia inexprimível só é dado às mães. Nada mais feroz nem mais comovente. Quando é soltado por uma mãe julga ouvir-se uma lôba, quando é dado por uma lôba julga ouvir-se uma mãe.
O grito de Micaela Fléchard foi um bramido. Hécula latiu, disse Homero." (pág197)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A MORTE PELA PENA VAGA-LUME DO SICILIANO LUIGI PIRANDELLO


QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
A morte sempre foi, e sempre será, um fascínio para o homem impotente, diante de sua absoluta inexorabilidade. Uma boa morte, ou seja, uma boa pitada de tal ingrediente numa estória escrita, é algo que aviva, por assim dizer, a trama narrada, conferindo-lhe brilho e beleza, por uma questão, eu diria, de mera comparação. Este contraste de existir, e ter que depois, nescessária e infalivelmente, extinguir-se, é um tema instigante e profícuo, fértil para boas redações. Muitos já se debruçaram sobre o tema, escrevendo sobre ela, a morte, e muitos outros ainda hão de fazê-lo, pois trata-se, sem dúvida, de matéria fascinante que, com certeza, interessa a todos nós que ainda estamos por aqui, como direi, vivos.
Na citação escolhida, mestre Pirandello, em O Falecido Mattia Pascal, novela aprazível e competente - através da voz de um de seus personagens - interessantíssimos, diga-se de passagem - questiona este dilema que é viver, e ter que, inevitavelmente, morrer. Um drama existencial lúdico, atualíssimo, bem humorado, numa trama genialmente bem elaborada que, com toda a certeza, trará ao leitor, uma série de reflexões interessantes, enquanto este se deleitará com a bela e romanesca estória deste clássico autor italiano. Bravíssimo!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Mas eu agora pergunto, Senhor Meis: e se toda essa escuridão, esse enorme mistério, a cujo respeito debalde especularam, inicialmente, os filósofos e a ciência, agora, se bem que renunciando a investigá-lo, não exclui; se esse mistério não passasse, no fundo, de um engano como outro qualquer, um engano da nossa mente, uma fantasia que não se colore? Se nós, finalmente, nos convencêssemos de que este mistério todo não existe fora de nós, mas somente em nós e, ali, de forma necessária graças ao famoso privilégio do sentimento que temos da vida, isto é, a lanterninha de que te falei até aqui? Se a morte, em suma, que nos mete tanto medo, não existisse? Se fosse tão-só não a extinção da vida, mas o sopro que apaga em nós a lanterninha, ou seja, o infeliz sentimento que dela temos? É um sentimento penoso, assustador, porque limitado, definido por esse círculo de sombra fictícia que se acha para lá do pequeno âmbito da escassa luz, que nós, pobres vaga-lumes perdidos, projetando em torno a nós e em que a nossa vida fica como que aprisionada, como se fosse excluída, por algum tempo, da vida universal, eterna, na qual parece-nos que, algum dia, deveremos reentrar, Mas a verdade é que nela já estamos e nela sempre permaneceremos, mas, aí, sem mais esse sentimento de exílio que nos atromenta. O limite é ilusório, é relativo ao nosso pouco lume, o da nossa individualidade: na realidade da natureza não existe. Nós (não sei se isso pode dar-lhe prazer), nós sempre vivemos e sempre viveremos no universo; também agora, em nossa fórmula atual, participamos de todas as manifestações do universo; só que não o sabemos, não o vemos, porque, infelizmente, a maldita lanterninha bruxuleante nos faz ver somente o pouco até onde seu lume alcança. E se, ao menos, nos permitissimos vê-lo tal como é na realidde! Não, senhor: apresenta-o a nossos olhos com a cor que ela lhe dá e nos faz certas coisas, que devemos realmente lamentar, com a breca! mas das quais, noutra forma de existência, não teríamos, talvez, boca bastante para rir às gargalhadas. Gargalhadas, Senhor Meis, por todas as vãs, estúpidas atribulações que ela nos proporcionou, por todas as sombras, por todos os estranhos e ambiciosos fantasmas que fez surgir diante e em torno de nós, pelo medo que nos inspirou!" (pag206)
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LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

A MISSÃO DA ARTE E A INTIMIDADE DA FORMA POR HONORÉ DE BALZAC


QUEM?
Honoré de Balzac (1799-1850). Brilhante romancista francês que é considerado um dos maiores nomes do realismo na literatura. Autor de A Comédia Humana, que reúne oitenta e oito obras que retratam a burguesia francesa de sua época . Curiosidade: as histórias da Comédia se interconectam, e os mesmos personagens aparecem em diversas estórias; interessantíssimo.
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COMENTÁRIO
O nobre Senhor Balzac tinha extrema habilidade, especialmente, quando o assunto era escrever. Fazia-o com talento e graça, penetrando fundo na alma de seus cativantes personagens, levando-nos para seu mundo de prosa elegante e requintada, onde a trama se desenrola, assim como a vida real é: imprvisível. Na citação escolhida, vemos um mestre das artes plásticas dissrtando sobre o que é a missão da arte. Sublime!
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CITAÇÃO
"A missão da arte não conciste em copiar a natureza, mas sim de exprimi-la! Tu não és um vil copista, mas sim um poeta! exclamou o ancião, interrompendo Porbus, com um gesto despótico. De outra forma, um escultor reduziria todos os seus trabalhos a moldar uma mulher! Pois bem! Tenta vasar num molde a mão de tua amada e colocá-la diante de ti; verás um cadaver horrível, sem semelhança alguma e serás obrigado a ir à procura do cinzel do homem que, sem ta copiar exatamente, nela figurará o movimento e a vida. Temos que apanhar o espírito, a alma, a fisionomia das coisas e do seres. Os efeitos! Os efeitos! Mas, eles são os acidentes da vida, naõ a própria vida. A mão, visto que tomei este exemplo, a mão não se ajusta unicamente ao corpo, ela exprime e continua um pensamento que é preciso agarrar e traduzir. Nenhum pintor, nenhum poeta, nenhum escultor, deve separar o efeito da causa, os quais se incluem envencivelmente um no outro. Nisso, está a verdadeira luta. Muitos pintores triunfam instintivamente, sem conhecer esse tema da arte. Desenham uma mulher, mas ninguém vê. Não é dessa maneira que se consegue forçar o arcano da natureza. A mão que desenhais reproduz, sem que nisso vocês pensem, o modelo que copiaste em casa de teu mestre. Não deceis bastante na intimidade da forma e não tendes bastante amor, nem perseverança nos seus rodeios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa atingir assim; é preciso esperar as suas horas, espiá-la, apertá-la, enlaçá-la estreitamente para obrigá-la a entregar-se." (pag95)
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LIVRO: Honoré de Balzac // TÍTULO: A Obra-Prima Desconhecida // AUTOR: Honoré de Balzac // EDITORA: Clube do Livro // São Paulo // 1951

terça-feira, 14 de abril de 2009

A DEMOCRACIA POR LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Seus contos falam da Sicília, da província, e refletem a alma bela de seu povo e de sua região. Autor do belíssimo livro, Novelas para um Ano - O Velho Deus. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1934.
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COMENTÁRIO
A epopéia de O Falecido Mattia Pascal de Luigi Pirandello é algo assim sui generis. Trata-se do personagem principal da trama em busca de sua própria identidade, depois de uma fatalidade que ocorre em um momento mais que apropriado, para ele, projetando-o para um mundo de busca dos significados da vida e da existência. Enquanto somos embalados pela cativante e inteligente narrativa, vamos nos dando conta da reflexão profunda que este brilhante autor siciliano nos propõe. Na citação selecionada, vemos um dos personagens coadjuvantes refletindo sobre a democracia em contraste com a monarquia. Inesperado, autêntico, brilhante, este é Luigi Pirandello. Uma maravilha!
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CITAÇÃO
"Mas a verdadeira causa de todos os nossos males, desta nossa tristeza, você sabe qual é? A democracia, meu caro, a democracia, ou seja, o governo da maioria. Porque, quando o poder está nas mãos de um só, este sabe que é um só e que deve contentar muitos; mas quando muitos governam, pensam somente em se contentarem a si mesmos e temos, então, a tirania mais estapafúrdia e mais odiosa: a tirania mascarada de liberdade." (pag162)
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LIVRO: O Falecido Mattia Pascal - Seis Personagens a Procura de um Autor // AUTOR: Luigi Pirandello // EDITORA: Abril Cultural // São Paulo // 1981

sábado, 11 de abril de 2009

OS ANTIGOS ESCRIBAS

om tempo se passou desde que os escribas com seu ofício representaram o mais alto grau do saber humano, sua perpetuação e difusão. Imaginemos um sujeito deste copiando minuciosamente uma obra extensa como uma bíblia por exemplo. Trabalho hercúleo e nobre. Estes homens incansáveis, com suas penas em punho, imortalizaram pensamentos, ideias, conceitos, dogmas, tradições e culturas inteiras em seu labor detalhista e edificante, levando à posteridade suas tradições através de registros históricos. Um nobre, quando queria uma cópia de alguma obra escrita específica, recorria infalivelmente a esta casta de seres dedicados à escrita. Trabalho árduo. Escrevia-se em papiros, em pedra, em couro, sempre no intuito de levar adiante as coisas mais notáveis e célebres do gênero humano.
escriba ou escrivão era a pessoa na Antiguidade que dominava a escrita e a usava, quase sempre, a mando do regente para redigir as normas do povo de uma determinada região ou religião, além de tomar notas de tudo que fosse importante e precisasse ser guardado enquanto dado e informação. Função de alta especificidade e grande dedicação, o trabalho de escriba era importantíssimo para estas organizações de cultura e poder, onde acabavam por trabalhar próximos aos homens e mulheres influentes da história através dos tempos, interagindo diretamente com leis, mandamentos morais e espirituais, tratados de guerra e paz, missivas, clemências, condolências, inventários, partilhas, juramentos, doações, contendas, rezas, matrimônios, acontecimentos célebres, enfim, tudo que requeresse alguma mensagem escrita documental. Os escribas também podiam exercer as funções de contadores, secretários, copistas, arquivistas e até mesmo escritores.
maginemos ter que ficar horas e horas, dias, meses e até anos, redigindo escritos, copiando textos, preparando documentos históricos ou sagrados, iluminados, quem sabe, pelas parcas lamparinas na aurora do saber humano era, sem sombra de dúvida, algo assim, no mínimo fabuloso. Ainda mais se considerarmos a era digital em que vivemos hoje com a velocidade e a volatilidade da informação enquanto impulso eletrônico, viajando pelo Planeta a altíssima velocidade, nas bandas largas da vida contemporânea. Como o tempo passou, e como os nossos hábitos mudaram! Vivemos hoje numa teia eletrônica que interconecta tudo e todos, ou quase isso, onde infelizmente a grande quantidade de informação disponível não quer dizer necessariamente qualidade.

laro! Tratava-se de um novo tempo para a humanidade. Uma época dourada de evolução e mudança drástica de tradições importantíssimas. Eram as primeiras fagulhas, os primeiros clarões repentinos de conhecimento e luzes, que surgiam e se insinuavam. Os primeiros raios, com certeza, do que viria a ser a tradição escrita, e as infinitas e luminosas possibilidades deste meio de comunicação admirável e encantador, como condensador e difusor de ciência e saber através do tempo. Algo singular e épico, notável e interessante, e que se arrasta até hoje, em nossos dias atuais, onde tribos amazônicas mantêm intactos seus sistemas de transmissão do saber, com suas vivas culturas orais. Algo delicado, belo e frágil. E pior, preocupante extremamente corruptível , especialmente, do ponto de vista do capitalismo, por exemplo. Interessantíssimo, é notarmos como foram importantes para nós estes escribas, nós, que estamos em plena migração de plataformas midiáticas, onde as letras, aparentemente sucumbem, diante da velocidade da era digital. E a carruagem da vida segue seu curso.


uando os escribas surgiram, e os homens, os primeiros mais iluminados num mundo com certeza bárbaro, rude e abrutalhado, puderam de uma maneira fabulosa inauguradora, reunir e conservar e, mais do que isso, organizar e transmitir estes primeiros lampejos civilização humana de forma escrita, descrita, imortalizada em documentos reproduzíveis, o que possibilitava uma utilização deste 'saber', deste 'conhecimento' de forma mais ampla, ainda assim, com alguma fidedignidade, ao poder sintetizar as informações necessárias num objeto simples que podia ser transportado, por exemplo, através do tempo e espaço e lido num outro ponto continente, contendo e condensando os interesses de quem o emitiu, informando textualmente a quem o recebe e lê. Uma evolução tremenda. Primeiro e, inequivocamente, a prática e estabelecimento de um código comum numa determinada cultura; e em segundo, a capacidade fantástica desta civilização transferir para a escrita, tal coleção de ideias e intenções, na enorme constelação de símbolos e signos que criamos e sustentamos como ferramentas auxiliares na compressão do Mundo que nos cerca.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

UM LEÃO DA LITERATURA RUSSA: O DIABO DE TOLSTÓI ERA UMA MULHER

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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CITAÇÃO
"Aconteceu exatamente o que ele esperava. Como se não tivesse nenhuma intenção a não ser a de conversar à toa, Mária Pávlovna contou que naquele ano só nasceriam meninos e que isso era sinal de guerra.. As jovens mães, tanto a dos Vássin como a dos Ptchélnikov, tinham tido meninos. Mária Pávlovna pretendia parecer natural, mas ficou acanhada quando viu que o sangue subir às faces do filho e o modo nervoso como ele tirou, agitou e repôs o pincenê e acendeu apressadamente um cigarro. E ela se calou. Ele também permaneceu calado, incapaz de pensar em algo que rompesse aquele silêncio. Estava claro para ambos que um tinha compreendido muito bem o outro." (pag121)
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COMENTÁRIO
Escrever é entregar-se à criação. Penetrar no âmago da vida e, com um olhar rápido e sagaz, reter aquilo tudo que se vislumbra enquanto aprendizado neste adentrar, e transpor, para o plano material, aquele saber, aquela compreensão percebida, descrevendo e escrevendo a experiência. Seria mais ou menos isto, se fosse simples, mas não o é, pois além da criação, existe o homem que penetra neste âmago e tenta descrevê-lo, e este homem, em questão, era um gênio, uma grande e memorável figura. Um humanista, amante da natureza e dos animais, filósofo nato e praticante, com uma pena ágil e competente, escreveu muito bem sobre sua pátria e seu povo. Seus escritos são carregados de sentimentos de nobreza e simplicidade, que vão se mesclando com uma narrativa cativante, a compor um cenário interessantíssimo, onde história, filosofia, humanismo, sensibilidade e cultura russa, se fundem, revelando um belíssimo mosaico da Mãe Rússia e seu nobre, obstinado e resistente povo. Livro para ler, re-ler, re-ler... Dizem os especialistas, que a cada dez anos, podemos re-ler os grandes livros que admiramos de verdade, especialmente, quando falamos dos clássicos imortais. Este é o caso de Leão Tolstói.
Nesta citação, vemos um diálogo, onde é possível assimilarmos o clima desta belíssima estória que é O Diabo. O diabo, de Tolstói, é uma bela mulher.
Da redação Escriba.
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LIVRO: O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS // AUTOR: LEÃO TOLSTÓI // EDITORA: COSACNAIFY // SÃO PAULO // 2000/2005.

O MACACO NU DE DESMOND MORRIS

QUEM?
Dr. Desmond Morris (1928). Zoólogo, etólogo e escritor inglês. Autor do imperdível O Macaco Nu, entre inúmeras outras obras interessantes. Seus estudos concentram-se no comportamento animal e humano, explicados de um ponto de vista zoológico.
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COMENTÁRIO
Ler Desmond Morris em seu clássico memorável O Macaco Nu é entender o que significa ser humano, e estar intimamente amalgamado nesta admirável trama viva que habita o Planeta Terra, e o próprio universo, e que se apresenta tão brilhante nas inumeráveis formas que a vida e a natureza encontram para se manifestar. Ao ler este interessantíssimo autor, entrevemos de forma clara, o quão somos semelhantes aos outros seres vivos e, especialmente o quão somos parecidos com os nossos amigos símeos. Um grande livro, brilhante, escrito de forma simples e bem humorada, que ajudará o leitor a compreender melhor porque somos como somos. Leitura inteligente e antenada com as questões humanas e animais que, em última análise, são a mesmíssima coisa.
Do Escriptorium.
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CITAÇÃO
"Voltando à nossa própria espécie, é preciso notar que, apesar de termos adquirido um brilho verbal muito desenvolvido, continuamos a utilizar os mesmo sons básicos instintivos emitidos pelos outros primatas - grunhidos, gemidos e guinchos. As nossas expressões sonoras inatas mantêm-se, conservando mesmo papéis importantes. Não só providenciam as bases vocais com que construímos o nosso arranha-céu verbal, mas continuam a manter direitos próprios, como dispositivos de comunicação típicos da espécie. Ao contrário do que se sucede com as expressões verbais, os sons básicos surgem sem treino preliminar e têm o mesmo significado, seja em que cultura for. O grito, a lamúria, a gargalhada, o guincho, o gemido e o chorar rítmico transmitem as mesmas mensagens, seja a quem for e seja onde for. Tal como os sons emitidos pelos outros animais, eles se relacionam com estados emocionais básicos e dão-nos a impressão imediata das motivações de quem os emitiu. Nós retivemos igualmente as nossas expressões instintivas, o sorriso, o riso, o franzir de sombrancelhas, o olhar fixo, a cara de pânico e a face zangada. Essas expressões também são comuns a todas as sociedades, apesar da aquisição cultural de muitos maneirismos." (pág120)
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LIVRO: O Macaco Nu // AUTOR: Desmond Morris // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2004 // Primeira Edição 1967

segunda-feira, 6 de abril de 2009

CIMOURDAIN E GAUVAIN EM 93 DE HUGO: UM EMBATE DE TITÃS

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÁRIO
Este livro, 93, interessa diretamente a todos aqueles que gostam de história, política, cultura, direito, mas também, de uma maneira ampla, fará o leitor penetrar no âmago dos direitos humanos universais, coisa que, sem sombra de dúvida, diz respeito a todos nós, sem excessão.
Rápido como quem rouba, algumas breves citações do diálogo final entre os personagens Cimourdain e Gauvain na magnífica obra Noventa e Três de Victor Hugo. Obra esta que nos faz conhecer melhor o mundo em que vivemos, pois retrata um momento histórico importante e também a alma humana, repleta de infinitas contradições e sonhos.
Na masmorra, o embate entre Gauvain e seu mestre Cimourdain sobre a construção de um novo mundo, antes do primeiro seguir para a morte na guilhotina. Um drama histórico eletrizante interessantíssimo. Prosa finíssima, com a marca registrada do gênio.
Na foto, Victor Hugo com os netos.
Da Redação.
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CITAÇÃO

"Dizia Gauvain:
- Grandes acontecimentos se estão delineando. O que a revolução faz neste momento é misterioso. Por trás da obra visível a obra invisível. Uma oculta a outra. A obra visível é feroz, a invisível é sublime. Neste momento distingo tudo nitidamente. É extraordinário e belo. Não houve remédio senão aproveitarem-se os materiais do passado. Daí este extraordinário 93. Por baixo de um andaime de crueldade, edifica-se um templo de civilização." (pág256)

"- Quero falar da imensa concessão reciproca que cada um deve a todos, e todos a cada um, e que constitui toda a vida social.
- Fora do direito estricto nada há.
- Há tudo.
- Eu só vejo a justiça.
- Eu olho mais para cima.
- Que há então acima da justiça?
- Há a equidade.
De tempos em tempos paravam como se passassem clarões.
Cimourdain continuou:
- Desafio-te a que entres nas aplicações.
- Pois bem. O senhor quere o serviço militar obrigatório. Contra quem? Contra outros homens. Eu não quero serviço militar. Quero a paz. Quero os miseráveis socorridos, eu quero a miséria suprimida. Quere o imposto proporcional. Eu não quero imposto nenhum. Quero a despesa comum reduzida à sua expressão mais simples e paga pelas sobras sociais.
- Que entende tu por isto?" (pág257)

"Gauvain continuou:
- E a mulher? Que destino lhe querem dar?
Cimuordain respondeu:
- O que ela tem. Ser a serva do homem.
- Sim, com uma condição.
- Qual vem a ser?
- Que o homem seja servo da mulher.
- Pois pensa nisto? - exclamou Cimourdain; O homem é senhor. Só admito uma realeza, a do lar. O homem em sua casa é o rei.
- Sim. Com uma condição.
- Qual vem a ser?
- É que a mulher seja nele a rainha.
- Isto que queres para o homem e para a mulher...
- A igualdade.
- A igualdade! Pode lá ser? Se os dois entes são diversos.
- Disse igualdade. Não disse identidade.
Houve outra pausa, como uma espécie de trégua entre aqueles espíritos que trocavam entre si relâmpagos. Cimourdain rompeu o silêncio.
- E a que dás tu a criança?
- Primeiro ao pai que a gera, depois à mãe que a concebe, depois ao mestre que a educa, depois à cidade que a viriliza, depois à pátria que é a mãe suprema, depois à humanidade que é a grande avó.
- Não falas de Deus.
- Cada um destes degraus, pai, mãe, mestre, cidade, pátria, humanidade é um dos degraus da escada que sobe até Deus." (pág259)

"- Ó mestre, eis a diferença entre as nossas duas utopias. O senhor quere a caserna obrigatória, eu quero a escola. Fantasia o homem soldado, eu fantasio o home cidadão. Deseja-o terrível, eu quero-o pensativo. Funda uma república de gládios, eu fundo...
Interrompeu-se:
- Fundaria uma república de espíritos." (pág261)

"Carregar fardos eternos não é a lei do homem. Não, não, não, basta de párias, basta de escravos, basta de forçados, basta de condenados! Quero que um dos atributos do homem seja um símbolo de civilização e um modelo de progresso; quero a liberdade perante o espírito, a igualdade perante o coração, a fraternidade perante a alma. Não, basta de jugo! O homem não foi feito, não para arrastar cadeias, mas para abrir asas. Não quero o homem réptil. Quero a transfiguração da larva em lepidóptero; quero que o verme se transforme numa flor animada e vôe." (pág263)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

domingo, 5 de abril de 2009

A MESA ATEMPORAL DE BRILLAT SAVARIN

QUEM?
Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826). Advogado, político e escritor francês que ganhou fama como grastrônomo e epicurista. Autor do esplêndido e inesquecível livro A Fisiologia do Gosto.
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COMENTÁRIO
Para quem não sabe, Mon Senior Brillat Savarin é o papa-mor da gastronomia francesa. Bon vivant, que era por inclinação convicata, escreveu sabiamente sobre comer e beber, e sobre os hábitos à mesa, descrevendo detalhadamente toda a epopeia dos almoços, jantares e banquetes gastronômicos da ponposa e refinada França de sua época. Elegante, e escrito em forma de ensaio, esta belíssima obra, A Fisiologia do Gosto, imortal por sua riqueza e complexidade de abrangência, é um retrato fiel de um tempo fabuloso, onde surgiram os primeiros refinamentos gastronômicos que comumente conhecemos hoje em dia. Bem humorado, o autor desserta sobre bebidas, doces, pratos refinados e especiais, pates, geleias, frutas, passeios, sono, e sobre todo o mais que acrediota pertinete, e o faz com grande competência. Para os amantes da boa mesa e do bom vinho, mestre Brillat é fundamental. Esteve esgotado nas livrarias, mas vale a pena procurar nos sebos, ou ficar antenado para uma possível e bem-vinda nova edição.
A citação escolhida fala por si, e dá uma ideia precisa ao leitor, do que ele poderá encontrar nesta verdadeira jóia que é, A Fisiologia do Gosto, de Brillat Savarin. Simplesmente espetacular!
Com os comprimentos e a recomendação especial deste Escriba.
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CITAÇÃO
"Chegamos, então, a tal ponto de progresso alimentar que, se a necessidade dos negócios não nos tirasse da mesa ou se a necessidade do sono não viesse se interpor, a duração das refeições seria praticamente indefinida e não teríamos nenhum ponto de referência certo para determinar o tempo que poderia transcorrer entre o primeiro como de Madeira e o último copo de ponche." (pág165)
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ONDE E QUANTO?
Nos Sebos: $$
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LIVRO: "A FISIOLOGIA DO GOSTO" // AUTOR: BRILLAT SAVARIN // EDITORA: SALAMANDRA RIO DE JANEIRO, 1989. // PRIMEIRA EDIÇÃO: 1848

sábado, 4 de abril de 2009

O DRAMA DO CORONEL CHABERT DE BALZAC

QUEM?
Honoré de Balzac (1799-1850). Brilhante romancista francês que é considerado um dos maiores nomes do realismo na literatura. Autor de A Comédia Humana, que reúne oitenta e oito obras que retratam a burguesia francesa de sua época . Curiosidade: as histórias da Comédia se interconectam, e os mesmos personagens aparecem em diversas estórias; interessantíssimo.
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COMENTÁRIO
Escrever bem, definitivamente, não é para qualquer um. Sim, porque para tal, é necessário possuir vários atributos e virtudes que vão, inevitavelmete, transparecer nos escritos. A redação é reflexo direto do olhar sensível do escritor para o mundo, para vida e, especialmente, de sua bagagem vivida, ou seja, do que viu e sentiu. É da experiência que surgem as grandes obras literárias. Ao deitar a pena e gravar em papel as palavras e sentenças, fluem ali, nada mais nada menos, do que a alma do autor e suas impressões e reflexões sobra a vida e a existência. Para escrever bem, além de alma, há também que se ter talento. E, vejamos: isso, definitivamente não é fácil. Diria até, por que não, que é necessário igualmente um pouquinho de sorte, ou melhor, estar alinhado na constelação com o planeta certo, na hora exata, num país propício... estas coisas. Trata-se destas misteriosas forças ocultas e insondáveis que regem e tramam a vida. Enfim, o que afirmo aqui, e temo não incorrer em erro, é que escrever bem é uma coisa rara e singular. Uma estrela cadente, uma luz fugidia na noite, em projeção no abismo vazio, na imensidão celeste. Algo muito além da vontade e da vaidade humana.
Balzac, sem sombra de dúvida, escrevia bem. Muito bem!
A citação escolhida vem de um livrinho de sebo, reencadernado belissimamente bem em capa dura, com aquelas fabulosas texturas antigas, que no meu lote de compra custou umas dez pratas, da novela entitulada O Coronel Chabert. Na voz do personagem, a estória traz o drama de um oficial graduado do exército francês, dado como morto numa célebre batalha e, de fato, para o horror do próprio, após ser abatido com um golpe de espada do crânio, este infeliz combatente acorda dentro de uma vala comum em meio a profusão de cadáveres, depois de um lamentável ataque de catalepsia. O sujeito em questão, desfigurado pela força brutal da guerra, tenta voltar à sua vida, e é quando se origina o início de seu verdadeiro drama. Um livro interessantíssimo com a marca genial do mestre Balzac.
Da redação Escriba.
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CITAÇÃO
"Os sofrimentos morais ao pé do qual empalidecem as dores físicas, excitam menos compaixão, porque não se vêem. Recordo-me de ter chorado num hotel de Strasburgo onde, noutros tempos, eu tinha dado uma festa e onde agora nada consegui, nem mesmo um pedaço de pão." (pag34)
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LIVRO: Honoré de Balzac // TÍTULO: O Coronel Chabert // AUTOR: Honoré de Balzac // EDITORA: Clube do Livro // São Paulo // 1951

quarta-feira, 1 de abril de 2009

OS ESCRIVINHADORES PRECURSORES DA REVOLUÇÃO FRANCESA PELA PENA COMPETENTE DE VICTOR HUGO

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÁRIO
Vemos aqui, nestas belas e instrutivas passagens citadas, Lantenac, um personagem que, na história Noventa e Três de Hugo, representa e personifica a Monarquia decadente lamentando-se tardiamente pelo passado recente, suas figuras célebres, e pela revolução eminente e irreversível. Quanto à referência ao rei da Prússia, trata-se de Frederico, o homem que, à época, deu asilo político a Voltaire.
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CITAÇÕES
"- Bonito século. Parou um bocado, e continuou: - E quando a gente pensa que nada disto teria acontecido se hovessem enforcado Voltaire e mandado Rousseau para as galés! Ah! Que flagelo não são os homens de espírito!" (pag235)

"Tudo veio dos escrivinhadores e versejadores. A enciclopédia! Diderot! d'Alembert! Ah! Que malditos patifes! Um homem bem nascido como o rei da Prússia cair numa daquelas. Eu teria suprimido todos estes rabiscadores de papél. Ah! Nós sabiamos fazer justiça. Podem ver aqui na parede os vestígios da roda de esquartejar. Não brincávamos com estas cousas. Não, basta de escrivinhadores! " (pag236)
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ONDE E QUANTO?
Nas Livrarias: $$$$$
Nos Sebos: $
Na Internet: $$$
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

A FELICIDADE CONJUGAL DE LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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CITAÇÃO
"A minha vida pareceu-ma tão infeliz, o futuro tão sem esperanças, o passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia as suas palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber este desprezo e uma comiseração ofensiva. " (pag157)
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COMENTÁRIO
A Felicidade Conjugal é uma obra belíssima que não foge à regra, ou seja, possui altíssima qualidade literária, especialmente, em se tratando de Leão Tolstói. Uma novela clássica, escrita com extrema habilidade, delineando um panorama profundo da vida conjugal e do matrimônio. Muito bom livro, para ler e refletir.
Da Redação.
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ONDE E QUANTO?
Nas Livrarias:$$$$$
Nos Sebos: $
Na Internet: $$$
Nas Bancas: $
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LIVRO: Clássicos de Bolso/Toltói // Título: Sonata a Kreutzer/A Felicidade Conjugal // EDITORA: Ediouro // Rio de Janeiro // Sem data

O MENDIGO TELLMARCH DE VICTOR HUGO: UM SENSÍVEL EM MEIO AO CAOS

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, só que romanceada, e vista por este mestre imortal da pena.
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COMENTÁRIO
O que a Revolução Francesa tem a ver conosco?
A resposta é simples: tudo. Sim, porque foi ali, naquele conturbado ano de 1793, banhado de sangue de culpados ou não, que a história da humanidade deu uma enorme e brusca guinada. Movimento radical dos homens e das coisas, arremessando a cultura ocidental para um novo patamar de igualdade e direitos nunca dantes visto, e tudo naquele ano 93, um verdadeiro colosso diante do último século precedente.
E eis que, em meio ao torpor da guerra, da revolta, do conflito e da aflição das massas humanas em choque entre si, da barbárie e do degladio bruto de Vendeanos e Realistas, da França contra a França, surge Tellmarch, um ser sensível e humano, dentro do caos intempestivo dos ânimos e da furia de titãns.
Bravíssimo!
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CITAÇÕES
"Não se falava de boa vontade de Lantenac e não se falava de boa vontade de Tellmarch. Os aldeões tem um gênero de suspeita especial. Não gostavam de Telmarch. Telmarch-o-Mendigo era um homem inquietante. Que tinha ele sempre que contemplar no céu? Que fazia e em que pensava nas suas longas horas de imobilidade? Pelo menos, era extravagante. Naquela terra em plena conflagração, em plena combustão, em que todos os homens só tratavam duma cousa, a devastação, e dum trabalho, a carnificina, onde só se pensava em queimar uma casa, esganar uma família, massacrar um posto da guarda, roubar uma aldeia, e que se empregava o tempo unicamente em arranjar emboscadas, atrair a ciladas, e em se matarem uns aos outros, aquele solitário, absorto na natureza, como se submerso na paz imensa das cousas, colhendo ervas e plantas, apenas ocupado com as flores, com as aves e com as estrêlas, era evidentemente perigoso. Visivelmente não estava em uso de razão; não se emboscava por trás de uma moita, não dava tiros em ninguém. Daí um certo receio que lhe tinham." (pag61)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: II // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data