quinta-feira, 9 de julho de 2009

UMA GIGANTE DA PENA CHAMADA CLARICE LISPECTOR

QUEM?
Clarice Lispector, nascida Haia Lispector (1920/1977). Espetacular escritora brasileira natural da Ucrânia. Suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e intensa ruptura com o enredo factual, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. Seus escritos refletem sua alma sensível e questionadora, e seu estilo marcante influenciou toda uma geração de leitores e amantes da literatura.
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COMENTÁRIO
Ler Clarice Lispector foi uma porrada. Quando apanhei um livro seu num sebo de São Paulo e li pela primeira vez, foi de estarrecer. Não imaginava a potência de sua eminente prosa. Sofisticada e sensível, introspectiva de existencialista, seus livros revelam ampla capacidade de redação fluida, e uma magia típica dos grandes gênios. Filha da burguesia, esta escritora talentosíssima escreveu diversas obras interessantes, onde podemos notar toda a sua compreensão do Mundo, inclusive no qual estava irremediavelmente imersa, e é flagrante seu olhar autêntico e questionador imortalizado em seus belos escritos. Ler Clarice sempre é uma boa surpresa. Sim, porque esta nobre dama da nossa literatura era imprevisível em suas criações. Em suas histórias, além de competência criativa, podemos achar uma série de entidaees e fantasmas que assombram a alma humana. Na citação, vemos a autora falar consigo mesma e fazer referência a um inseto geralmente odiado, uma barata, coadjuvante da trama. Sensacional!
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CITAÇÃO
" - Segura a minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina, estou indo para um inferno de vida crua. Não me deixes ver porque estou perto de ver o núcleo da vida. - e, através da barata que mesmo agora revejo, através dessa amostra de calmo horror vivo, tenho medo de que nesse núcleo eu não saiba mais o que é esperança." (pág60)
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LIVRO: A Paixão Segundo G. H. // AUTORA: Clarice Lispector // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro // 1998

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A HISTÓRIA DE UM CAVALO SENSÍVEL ATRAVÉS DA PENA COMPETENTE DE LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.
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COMENTÁRIO
Kholstomér é um cavalo interessantíssimo mais humano que muito ser humano. Sensível, conta sua própria história de forma admirável, sob o bailar suave da pena competente deste mestre da literatura russa: Leão Tolstói. O conto em questão é de extrema delicadeza e acaba por nos mostrar de maneira inequívoca a alma dos animais e o quão inteligente e notáveis são estes seres. Infelizmente, estes são - de maneira geral - sacrificados, subjugados e mortos por nossas infindáveis crueldades humanas. Nós, seres ditos racionais, elevados e superiores. Uma lástima brutal. Envoltos em nossa razão pseudo avantajada, vamos explorando as demais espécies, como se só a nós fosse dado o direito de sobreviver em paz neste mundo. Maltratando e destruindo as demais criaturas vivas, interferimos numa delicada e singela harmonia natural, e deste modo, sem conhecimento e consciência, vamos cavando nossa própria sepultura ao extingui-los. Já é mais do que hora de acordarmos para estas barbaridades, e assim tratarmos com - no mínimo - mais respeito, estes inocentes e belos seres vivos - que, mesmo que não saibamos - são nossos irmãos naturais dentro desta infinidade de manifestações diferentes que a vida achou para se aparelhar nesta singular dimensão. Assim, sejamos mais justos e menos prepotentes com nossos companheiros animais. É imperativo. A própria razão o dita!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras "meu", "meu potro", palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe do estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consitia este vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não hove jeito de entender o que significava me chamarem de propriedadede um homem. As palavras "meu cavalo", referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras 'minha terra', 'meu ar', 'minha água'." (pág74)
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LIVRO: O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS // AUTOR: LEÃO TOLSTÓI // EDITORA: COSACNAIFY // SÃO PAULO // 2000/2005.

sábado, 4 de julho de 2009

CRÔNICA DE UM ESCRIBA PÓS-TUDO

ARTIGO
04/07/2009 dC, tempo admirável! Vão acelerados os dias de inverno. Dias curtos, frios e fugidios. Questões! Intermináveis questões! O que faz uma realidade se tornar notável a ponto de ser digna de ser escrita e descrita em linguagem literária? Ou ainda: em que manancial simbólico e sígnico o autor vai buscar e extrair seus elementos de composição literária, fundindo - como sabemos ser corriqueiro - realidade, fantasia, mitos, crenças e medos? Depois de responder a estas difíceis e impositivas questões, outra maior e mais singular surge: transpor para o léxico, para a língua falada e escrita, o sentimento obtido, a informação desejada; vista, vivida, experimentada. Ou seja, capturar o momento e ser capaz de transpô-lo, refletindo no escrito o acontecido, vivido ou criado. Isso tudo, é claro, sem deixar de fora atributo e virtude importantíssimo que é saber escrever com graça. Com estilo. E isto, definitivamente, não é fácil. Eleger as palavras certas, compor sentenças satisfatórias e, especialmente, que sejam capazes de transmitir uma gama infinita de nuances que uma realidade inexoravelmente traz em seu bojo, que dificilmente serão plenamente descritas em texto - transportando o leitor ou trazendo a história até ele - é tarefa árdua. E, superados todos estes obstáculos abstratos - mas não menos importantes por causa disto - o escritor ou escriba, mesmo que aspirante, virá a se deparar com toda uma realidade e conjuntura específica do negócio livreiro, de publicações, voltados para o mercado consumidor, é claro, que vai com a moda, que vai com os costumes, que vai com a cultura, que vai os interesses, ou seja; que vai com todo mundo. Lê-se muito no Brasil, mas lê-se mal. Nas livrarias abundam porcarias de toda espécie, que não valem a tinta com a qual foram impressas. Nossa cultura ama mesmo a televisão. Como um elemento agravante, vem a falta de capacidade da população comum de entender o que leu, ou seja, um estudo mostrou que 80% dos pesquisados que leram algo específico, não conseguiu falar absolutamente nada sobre o que leram. Tiveram a capacidade de ler, de entender e operar dentro do sistema representativo de códigos verbais escritos, mas não foram capazes de sintetizar o que leram. Não foram sequer capazes de escrever uma linha sobre. Não absorveram. Sem dúvida, no Brasil e quem sabe no mundo, os livros são para a elite privilegiada, geralmente de buxo cheio, e a filosofar pelos demais menos favorecidos. E, para ser publicado, ou publicável nobre leitor, há que se ter conteúdo e se enquadrar. O queres tu dizer aos outros? Aos demais? Já pensaste nisso? Porque queres fazê-lo? Já paraste para analisar? O que move a ti a ser um escritor? Seria mera vaidade vulgar? E mais, o que dirás tu, será o que quer ouvir o demais? Pelas massas leitoras?

Enigmas! Enigmas indecifráveis!

Da Redação.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O BELÍSSIMO JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND EM FRAGMENTOS ESCOLHIDOS

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Só lê Jean-Christophe, o romance do francês Romain Rolland, quem tem fôlego de alpinista e ama de fato as Letras. Ou então, é viciado em literatura e livros clássicos imortais. E, especialmente, quem dispõe de tempo, artigo de luxo nos dias corridos que vivemos hoje. Sim, porque a obra é bela, indubitavelmente, mas muito extensa. São, nada mais nada menos, que cinco volumes de quatrocentos e tantas páginas cada um. Em peso, deve dar uns cinco quilos ou mais de literatura fina e fluida, embotada de sentimentos humanistas e filosóficos interessantíssimos que, realmente, validam sua dilatada estatura e extensão, e com certeza encantará os leitores mais sensíveis que se aventurarem a lê-lo. Sem dúvida, vale a pena. No romance existem centenas de belas passagens, que dariam, com certeza, para encher todo um Blog com seu conteúdo de inegável relevância literata. Na impossibilidade de citar tudo que é notável na referida obra, seguem aqui algumas poucas citações, pequenas pérolas, das muitas que abundam na obra deste brilhante autor francês do tão recente século XX.
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CITAÇÕES
Sobre a riqueza:
"Todo rico é um ser anormal... Estás rindo? Zombas de mim? Ora essa! Sabe lá o rico o que é a vida? Fica ele acaso em comunhão com a rude realidade? Sente ele no rosto o sopro feroz da miséria, o cheiro do pão por ganhar, da terra a revolver? Pode lá compreender, pode ver sequer os seres e as coisas?..." (pág223/vol.IV)

Sobre a arte de escrever:
"Olivier não era bastante forte para lutar. Também ele mudara. Deixara o magistério, não tinha mais tarefa obrigatória. Escrevia somente, e o equilíbrio de sua vida se modificara. Até então, sofrera por não poder entregar-se inteiramente à arte. Agora, era todo da arte e sentia-se perdido no mundo das nuvens. A arte que não tem por contrapeso um ofício e por base uma forte vida prática, a arte que não sente na carne o aguilhão da tarefa cotidiana, a arte que não tem necessidade de ganhar o pão, perde o melhor de sua força e da sua realidade. É a flor do luxo. Não é mais (o que é nos maiores artistas) o fruto sagrado do esforço humano... Olivier conhecia o ócio: Para que? Nada mais o apressava: deixava a pena devanear, flanava, sem rumo." (pág253/vol.IV)

Sobre os gênios e o público:
"O público não suporta os gênios, senão em doses infinitesimais, raspado, limado, depilado, untado com os unguentos em moda..." (pág286/vol.IV)

Sobre o instinto e as tentações:
"Quando se cala a vontade, o instinto fala; na ausência da alma, o corpo segue o seu caminho." (pág293/vol.IV)

Sobre valores:
"- Sim, eu sei, isto lhe parece uma barbárie pré-histórica: matar! É preciso ouvir essa linda sociedade parisiense protestar contra os instintos brutais que levam o macho a matar a fêmea que o engana, e preconizar a indulgente razão! Que bons apóstolos! É uma beleza ver essa matilha de cães de má cruza indignar-se contra a volta à animalidade. Depois de terem ultrajado a vida, depois de a terem desvalorizado por completo, cercam-na de um culto religioso... O quê! Essa vida sem coração e sem honra, essa matéria, esse pulsar de sangue num pedaço de carne, eis o que lhes parece digno de respeito! Toda a consideração é pouca para essa carne de açougue; é um crime tocar nela. Matem a alma, se quiserem, mas o corpo é sagrado..." (pág333/vol.IV)

Sobre a amizade:
"É uma coisa tão rara dois seres que se compreendem, que se estimam, que sabem que estão seguros um do outro, não por uma simples crença de amor muitas vezes ilusória, mas pela experiência dos anos passados juntos, anos sombrios, medíocres, mesmo com - sobretudo com a recordação dos perigos que vencemos. À medida que se envelhece, tudo se torna melhor." (pág335/volIV)

Ainda sobre o gênio e seu meio:
"Agora que todos estavam bem convencidos de que tinham um gênio no meio deles, esforçavam-se, segundo o costume, por abafá-lo. Essa gente só tem uma ideia; ao ver uma flor: pô-la num vaso; ao ver um pássaro: engaiolá-lo; ao ver um homem livre: fazer dele um lacaio."

Sobre a juventude:
"Toda geração nova precisa de uma boa loucura. Mesmo nos mais egoístas dentre os moços há um excesso de vida, um capital de energia que não quer permanecer improdutivo; procuram gastá-lo numa ação, ou (mais prudentemente) numa teoria. Aviação ou Revolução. Esporte dos músculos das ideias. O moço precisa ter a ilusão de que participa de um grande movimento da humanidade, de que renova o mundo. Nessa idade, os sentidos vibram com todos os sopros do universo. Somos tão livres e tão leves!"
"E além disso é bom amar e odiar, e crer possível transformar a terra com sonhos e gritos! Os jovens são como cães de um alcatéia: fremem e ladram ao vento. Uma injustiça cometida no outro extremo do planeta os fazia delirar..." (pág13 e 14/volV)
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Brilhantemente, sobre a confecção e uso das ideias:
"Para que tantas explicações? Quando já se achou uma coisa, não há necessidade de dizer como foi achada, e sim apenas o que se achou. A análise dos pensamentos é um luxo burguês. O que é preciso às almas do povo é a síntese, ideias já feitas, bem ou malfeitas, e antes mal do que bem, mas que conduzam à ação, realidades prenhes de vida e carregadas de eletricidade." (pág54/volV)
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Sobre os instintos:
"Porque há uma alma secreta, potências cegas, demônios, que cada homem traz aprisionado em si. Todo o esforço humano, desde que o homem existe, consiste em opor a esse mar interior os diques da razão e das religiões. Mas, que se desencadeie uma tempestade (e as almas mais ricas são as mais sujeitas às tempestades), que os diques cedam, que os demônios tenham campo livre e possam ir de encontro a outras almas levantadas pelos mesmo demônios... Atiram-se umas sobre as outras e se enlaçam. Ódio? Amor? Furor de mútua destruição?... A paixão é alma de rapina." (pág150/volV)

Sobre as cidades pequenas:
"Por mais fechada que fosse a casa de Braun, por mais secreta que permanecesse a tragédia burguesa que nela se desenrolava, algo transpirava no exterior. Naquela cidade, ninguém podia gabar-se de esconder a própria vida. É estranho. Nas ruas ninguém nos olha; as portas das casas e as persianas estão fechadas. Há, entretanto, espelhos pendurados nos cantos das janelas; e ouve-se, ao passar, o ruído seco das persianas que se entreabrem e se fecham. Ninguém se preocupa conosco, parece que nos ignoram; mas nos apercebemos de que nenhuma das nossas palavras, nenhum dos dos nossos gestos foram perdidos; sabem o que fazemos, o que dissemos, o que vimos, o que comemos; sabem mesmo, julgar saber, o que pensamos. Uma vigilância oculta, universal, nos cerca a todos. Criados, fornecedores, parentes, amigos, indiferentes, transeuntes desconhecidos, todos colaboram por tácito consentimento nesta espionagem instintiva cujos elementos dispersos se centralizam, não se sabe como. Não se observam unicamente os astros, escrutam-se os corações." (pág155/volV)

Sobre a conduta do artista:
"Um artista deve captar o próprio gênio; não lhe permite dispersar-se ao léu. Canaliza tua força. Constrange-te a hábitos, a uma higiene de trabalho cotidiano, a horas fixas. São esses tão necessários ao artista quanto o hábito dos gestos e dos passos militares ao homem que deve bater-se. Venham momentos de crise - e eles sempre vêm - e essa armadura de ferro impede a alma de cair." (pág179/volV)

Sobre a robusta compleição física de Jean-Christophe, o personagem principal que dá nome à obra, e sua sensível alma combalida:
"Correram os dias. Christophe saiu dali esvaziado de vida. Continuava, entretanto, a manter-se de pé, saía, caminhava. Felizes daqueles a quem uma raça forte sustém nos eclipses da vida! As pernas do pai e do avô carregavam o corpo do filho prestes a esboroar-se; o impulso dos robustos antepassados conduzia a alma despedaçada, como é levado pelo cavalo o cavaleiro morto." (pág186/volV)

Belissimamente, sobre esta força maior que tudo gera, rege e transcende:
"Estava sereno. Agora compreendia. Compreendia a vaidade de seu orgulho, a vaidade do orgulho humano, sob o punho temível da Força que move os mundos. Ninguém é senhor de si, com segurança. É preciso vigilar. Porque, se adormecemos, a Força precipita-se sobre nós e nos arrasta... para que abismos? Ou a torrente se retira e nos deixa em seu leito seco. Não basta mesmo querer lutar. É preciso humilhar-se ante o Deus desconhecido, que flat ubi vult, que sopra quando quer, onde quer, o amor, a morte, ou a vida. A vontade do homem nada pode sem a sua. Um segundo lhe basta para aniquilar anos de labor e de esforços. E, se lhe apraz, pode fazer surgir da lama o eterno. Ninguém, tanto como o artista criador, se sente a sua mercê: porque se é verdadeiramente grande, nada mais diz além daquilo que o espírito lhe dita. E Christophe compreendeu a sabedoria do velho Haydn, pondo-se de joelhos, cada manhã, antes de tomar a pena... Vigila et Ora. Rogai a Deus, a fim de que esteja convosco. Ficai em comunhão amorosa e pia com o espírito da vida." (pág198/volV)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: IV // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

sexta-feira, 12 de junho de 2009

OS ESCRIBAS E A COMUNICAÇÃO DE VALORES

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais. É videomaker, com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e Escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agora, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
"- Toda comunicação é comunicação de valor."
Assim diz com propriedade minha amada mestra preceptora e filósofa. E, se pensarmos bem, ela tem toda razão. Sim, porque toda comunicação é, em última análise, transmissão de valor, sejam eles éticos, estéticos, políticos, sociais, biológicos, didáticos etc. Quando, por exemplo, falamos, estamos, como já dizia sabiamente mestre Lacan, falecendo o resto. Iluminamos algo específico, para lançar à sombra todo o resto. E todo valor, geralmente nasce da importância do mesmo, quase sempre relacionado à permanência e, ao nos comunicarmos, transmitimos, infalivelmente, este valor. Ler uma notícia num jornal e comentar com alguém minha opinião sobre os fatos que li na matéria, é então um exercício de transmissão de valor na comunicação. E é assim que tudo que conhecemos se constrói. Muitos, como eu, associam essa transmição de valores à transmissão de energia. Sim, energia telúrica, desta vulgarmente encontrada nos seres vivos e em todas as coisas.
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As formigas se comunicam através de enzimas e feromônios e o formigueiro, assim, é onisciente. Naqueles pequenos encontros onde estes simpáticos animais tocam mutuamente suas anteninhas, num breve contato - fenômeno denominado pelos biólogos como trofolaxe -, seguem, em velocidade estonteante, em ambas as direções - como num cabo de fibra ótica invisível - toneladas de informação que, com certeza, são energia e valor também, e que vão manter informado e em segurança toda a comunidade do formigueiro. É comum que nós, com nossos corpos e tamanhos enormes, diante destas minúsculas criaturas, sem querer, matemos ou esmaguemos alguns destes pequenos e inocentes seres. Ao primeiro contato de um outro membro vivo da colônia, este fica perplexo, como qualquer outro ser vivo diante da morte - e passa a informar às demais, que vão informar às demais, infinitamente, até que todos estejam informados do 'perigo' detectado ali.
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Com a trágica e lamentável queda do avião da Air France no Atlântico, no fatídico Vôo 447, pudemos observar um fenômeno que é uma réplica perfeita deste sistema de comunicação das formigas. Usamos métodos similares para um resultado idêntico. Em pouco tempo a comunidade mundial, midiática e interconectada, estava ciente do famigerado acidente. Neste contexto, vemos que a questão da comunicação e do valor passa necessariamente pela questão da diferença. Um avião que cai no meio da noite no mar é uma diferença tremenda, especialmente em relação ao que estamos acostumados a considerar quando o assunto são viagens aéreas, ou seja, o acidente diz respeito ao mundo, à humanidade, a este enorme formigueiro humano que somos nós. É na diferença que se constrói o valor. O valor, para a coletividade da tragédia supracitada, é conseguirmos achar o motivo da queda, o que a provocou, e impedir que outras semelhantes venham a ocorrer. Uma diferença que faz toda a diferença. Poucos andam de avião, é verdade, mas trata-se aqui da eterna e interminável marcha humana em busca do conhecimento, de novos saberes, da edificação de valores, da construção da vida em sociedade - da permanência. Anda-se de avião - quem pode, e quer - mas anda-se também de carroça, por exemplo, que é um meio de transporte antiquíssimo, que também demandou tempo, tecnologia e, indubitavelmente, transmissão e comunicação de valores para se consolidar. É interessante notarmos o quão recente é tudo isso. Hoje temos televisão, internet, telefones móveis e sem fio, GPS's; mas, até bem pouco tempo, esta informação era transmitida a grandes distâncias unicamente por via oral e, em seguida, pela tradição escrita, que foi ulterior e subsequente àquela.
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Os Escribas foram uma casta de homens de letra cuja profissão consistia passar para papiro, ou para outro suporte qualquer disponível, idéias, informações, conceitos, doutrinas, histórias, orações, enfim, tudo que devia e necessitasse ser registrado, e também copiar à exaustão tais textos, para que a informação pudesse permanecer 'gravada' e pudesse 'circular', afixada, conformada, num outro suporte que não a fala, mas, que ainda assim, pudesse manter a fidedignidade de seu teor e conteúdo. Tarefa trabalhosa e nobre. Sim os escribas serviram aos nobres e aos que estavam no poder, ou próximos a ele - mas o que é então nossa civilização, se não isso? A escrita tinha muito a ver com o controle, com o poder, com a dominação - mas o que não é isso no contexto do Contrato Social e no desenvolvimento da vida humana na Terra? Assim, amados por uns, odiados por outros, os Escribas literalmente escreveram a história da humanidade com suas penas incansáveis e, se sabemos hoje de acontecimentos longínquos, de outras épocas distantes e perdidas na linha do tempo, num passado obscuro e intocável, foi graças a estes infatigáveis trabalhadores do verbo escrito.
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Hoje, com a aparente - digo aparente, porque toda conjectura é questionável, falível e refutável - democratização da comunicação através de meios modernos e baratos de comunicação, como a internet, surgem os novos escribas digitais. Pessoas que, como eu, aproveitam-se das benesses e facilidades da era digital para tratar de escrever idéias, contar causos, conceber valores, gerar informações e transmiti-las livremente pelos quatro cantos do Planeta, criando diferenças e gerando novos valores, usando e abusando da comunicação. E pensar que a rede internacional de computadores foi um efeito colateral positivo da Segunda Grande Guerra Mundial?! E que graças a ela podemos trocar informações e valores numa velocidade tão admirável, e que isto acabou saindo das mãos dos caras que criaram o troço, e vindo parar na mão da coletividade, abrindo uma nova perspectiva cultural para a civilização, ampliando monumentalmente nossa capacidade de percepção da realidade à nossa volta, além de trazer, como num passe de mágica, outras muito distantes de nós geograficamente, de maneira inauguradora.
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Êta mundinho besta este nosso! Incrível, besta e frágil.
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Da redação.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

AS MEMORÁVEIS VEREDAS DE GUIMARÃES

QUEM?
João Guimarães Rosa (1908/1967). Mais conhecido como Guimarães Rosa. Um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata. Seus contos e romances ambientam-se quase todos no chamado Sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas espetaculares inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, somado a sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Autor do épico, imortal e memorável Grande Sertão Veredas.
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COMENTÁRIO
Guimarães Rosa escrevia com alma cabloca, curtida de solidões e ares de interior, de imensidão. Falava sobre uma terra de dificuldades, de homens e mulheres briosas, de cangaceiros, de cavalgadas, rachada de secas e encharcada de águas límpidas, de veredas majestosas, repletas de sol, de lua e vento, vento agreste, que trás a notícia, que acaricia a pele ressequida, e que entranaha no coração da pessoa que ali vive um 'não sei o que', que vai fazendo a alma engiar. Redobrar-se sobre si. Escrevia com o espírito repleto de signos e símbolos, amalgamados e impregnados através dos tempos imemoriais, manifesto no falar e nos costumes da gente simples deste imenso país chamado Brasil. Ele descrevia, através de sua prosa fina e inauguradora, um Brasil desconhecido dentro do próprio Brasil, rico, belo, valente, emocionante e surpreendente, em sua complexidade de riquezas inaudaitas, de paragens belíssimas, de gente brava, um verdaeiro mundo dentro do mundo, um infinito de campos e espaços abertos naturais; sim: O Grande Sertão de Guimarães Rosa.
Na citação, vemos o mestre tupiniquim da pena usar e abusar em grande estilo de seus elementos básicos de criação literária: brasilidade, etmologia e cultura do sertão.
Livro para ler, e re-ler de dez em dez anos, sem ter medo de se decepcionar.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Sús, esbarrou o cavalo tão de repente, que o corpo dêle se encurtou pela metade. Sô Candelário. Êsse era alto, trigueiro azul, quase preto, com bigode amarelecido. Homem forçoso, homem fúria. Mandou que mandava. Em hora de fogo, pulava à frente de todos, bramava o burro. Tomou a chefia geral, debaixo dele o Hermógenes parecia um diabo coitado. Sô Candelário era o para enfrentar Zér Bebelo. Salvante que seria para tudo. Se apeou, ficou um demorado tempo de costas para a gente." (pág183)
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LIVRO: Grande Sertão Veredas // AUTOR: Guimarães Rosa // EDITORA: José Olympio // Rio de Janeiro // 1972

terça-feira, 9 de junho de 2009

A COLOMBA DE PROSPER MERIMÉE

QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870). Notável dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês. Foi o primeiro a traduzir obras literárias russas para o francês. Sua prosa elegante se imortalizou com Carmen (1845). Esta foi sua primeira novela de sucesso.
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COMENTÁRIO
Colomba (1840), conta a história de uma jovem moça corsa que obriga seu irmão a cometer um assassinato para se vingar. Seria só isso, se não se tratasse de um mestre da pena, como é o caso de Merimée. Este competentíssimo autor francês nos traz uma época distante, repleta de aventuras e exotismos culturais, onde entrevemos mundos longínquos, de tradições fortes e marcantes, sempre com seu estilo clássico e elegante.
Sem maiores delongas, duas citações de Colomba, romance de Merimée, onde podemos ver um pouco da cultura corsa, referente à Córsega, esta ilha a Oeste da Itália, que é a quarta ilha do Mar Mediterrâneo por extensão territorial depois da Sicília, Sardenha e Chipre, universalmente conhecida como o berço e terra natal de Napoleão Bonaparte.
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CITAÇÃO
"Afinal, chegou a hora de partir. Orso apertou, ainda uma vez, a mão de miss Lídia. Colomba abraçou-a, depois ofereceu os lábios ao coronel, que então se maravilhou com a delicadeza corsa. Da janela do slão, miss Lídia viu os dois montarem a cavalo. Brilhavam os olhos de Colomba, numa alegria maligna. Esta grande e forte mulher, fanática pelas suas idéias de honra bárbara, o orgulho estampado na fisionomia, os lábios curvados num sorriso sardônico, fez lembrar a miss Lídia os temores de Orso; e a jovem inglesa julgou ver um mau gênio conduzindo-o a um abismo." (pág61)

"A cerca de um quilômetro do povoado, depois de muitos rodeios, Colomba estacou de repente, numa curva brusca do caminho erguia-se, aí, uma pequena pirâmide de ramos - uns verdes, outros secos - todos formando uma pilia de quase três pés de altura, da qual apontava a extremidade superior de uma cruz de madeira pintada de preto. Em várias regiões da Córsega, principalmente nas montanhas, um velho costume, que talvez se prenda às supertições do paganismo, obriga os passantes a atirar uma pedra ou um galho de árvore sobre a sepultura daqueles que morreram de morte violenta. Durante muitos anos, enquanto a recordação da tragédia permanecer na memória dos homens, tais oferendas se acumulam dia a dia. Chamam a isto o montão, o mucchio de alguém." (pág80)
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LIVRO: Colomba // AUTOR: Prosper Merimée // EDITORA: Martins // São Paulo // 1945

terça-feira, 2 de junho de 2009

TRIBUTO A JOSÉ OLYMPIO

QUEM?
José Olympio Pereira Filho (1902/1990). Grande editor e livreiro brasileiro. Empresário ousado e visionário de extrema sensibilidade, foi o fundador da editora que leva seu nome, a Livraria e Editora José Olympio no Rio de Janeiro em 1931.
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CAUSO
José Olympio era o cara. Importantíssimo para nossa cultura e história literária. Homem de Letras que entendia do assunto e conhecia a matéria, ou seja, como se diz no popular: era do ramo. Foi, sem sombra de dúvida, o responsável por nossa atual cultura livresca e pelo que somos enquanto leitores. Sensível e competente, fomentou, como empreendedor do mercado editorial e livreiro que era, publicações, indiscutivelmente, de alto nível. Tinha o tino do negócio, gostava da coisa escrita. Com sua sensibilidade editou autores importantes da nossa língua, que vieram a se tornar célebres e clássicos. Vale notar que suas publicações eram sempre bem cuidadas, na maioria das vezes de capa dura, com iluminuras, capitulares, ilustrações e tudo o mais que um livro de verdade deve ter, além de serem traduzidas - quando se tratavam de obras estrangeiras - por grandes mestres da literatura brasileira de seu tempo.
Este humilde Escriba que vos escreve agora, como rato inveterado de sebos que é, sabe o que significou o trabalho inestimável deste brasileiro importantíssimo e notável que mudou, diga-se de passagem, para muito melhor nossa cultura. Esta figura ímpar chamava-se José Olympio. O homem sabia do letrado e, assim, publicou tudo que achava bom - ou "o que prestava", como se dizia à época de meu avô Francisco de Miranda, contemporâneo e amigo pessoal do José em questão. Aliás, tenho uma história curiosíssima que não posso, e nem poderia, deixar de dividir com os meus nobres Leitores. Este senhor, meu avô, o Velho Chico, homônimo do rio, promotor de justiça e amante inveterado das Letras, protagonizou um evento, no mínimo, extraordinário.
Ao saber que meu avô iria ao Rio de Janeiro tratar de negócios, Jorge Amado, nosso genial e imortal romancista, também amigo pessoal dele, pediu-lhe que levasse uma encomenda para entregar somente nas mãos de José Olympio. Era um calhamaço de papéis redigidos à máquina. Meu avô, que media quase um e noventa de altura e era muito desligado, ao chegar ao centro do Rio, mais precisamente à Avenida Rio Branco, saltou do táxi e, por distração, esqueceu no banco de trás a referida encomenda. Por sorte, o trânsito estava pesado, já à época, e ele pode, de terno e pasta 007 nas mãos, correr e alcançar o tal táxi, e recuperar o referido material. Graças a este golpe de azar, seguido de um de sorte, se é que estas coisas existem de fato, sua missão foi concluída com sucesso e êxito. Entregou nas mãos de José Olympio, conforme o pedido do autor, os papéis que levava em sua viagem. Que bom que foi assim, pois tratava-se, nada mais, nada menos, do que os originais de Capitães de Areia. É bom lembrar que não havia xérox naquele tempo, nem muito menos computador. Que loucura, não?! Quem me contou esta aventura verídica foi minha querida e amada avó, Dona Zilah Macedo de Miranda, viúva do distraído e saudoso Dr. Francisco Rodrigues de Miranda, o velho Chico.
Que sorte a nossa, hein?!

sábado, 30 de maio de 2009

FRAGMENTOS PRECIOSOS DE JEAN-CHISTOPHE PELA PENA HÁBIL ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Fazer e compilar citações de Jean-Christophe de Romain Rolland pode ser tarefa para lá de espinhosa, pois a obra é repleta de espírito e pensamentos elevados, transformando a resenha e compilação de partes isoladas num verdadeiro dilema. Quase tudo ali é bom. Lá pelas tantas, no terceiro volume de cinco, o autor exagera na descrição de aspectos da cultura da época, mas, até isso, lhe é desculpável, pois seus escritos nos servem também como preciso e inestimável relato histórico, sob pena, é claro, de ser por vezes cansativo, desafiando a persistência do bom e nobre Leitor. Fora isto, trata-se de uma grande obra, belíssima, de extrema sensibilidade, que encanta amantes da literatura nos quatro cantos do Planeta. Grande, bela e memorável. Assim é Jean-Christophe de Romain Rolland. Na impossibilidade de citar tudo, vão aqui algumas citações, pequenas pérolas, das muitas que abundam na obra deste brilhante autor francês do tão recente século XX.
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CITAÇÕES
Sobre os alemães:
"Agora que a vitória lhes sorria, não havia desprezo suficiente para as utopias 'à francesa': paz universal, fraternidade, progresso pacífico, direitos do homem, igualdade natural; diziam que o povo mais forte tinha contra os outros um direito absoluto, e que aos outros, na condição de mais fracos, não assistia direito contra ele." (pág251/vol.II)

Sobre um obeso cantor:
" Olhava Pottpestschimidt e perguntava a si mesmo: - Será que ele sente isto, realmente? Não via, porém, nos seus olhos outra chama a não ser a da vaidade satisfeita. Uma força inconciente movia aquela massa pesada. Aquela força cega e passiva era assim como um exército em combate, e ela obedecia, jubilosa, porque necessitava agir e entregue a si mesma não saberia como fazê-lo." (pág228/vol.II)

Sobre a juventude do personagem:
"É muito bonito negar o mundo. Mas o mundo não se deixa negar tão facilmente pelas fanfarronadas de um rapaz. Christophe era sincero; mas iludia-se, não se conhecia bem. Não era um monge, não tinha temperamento para renunciar ao mundo; e, sobretudo, não estava em idade de renúncia." (pág154/vol.II)

Sobre a crítica musical:
"Era porém, tão difícil aos melhores conceber a música como uma linguagem natural da alma, que, quando não faziam dela uma sucursal da pintura, alojavam-na nos subúrbios da ciência e reduziam-na a problemas de construção harmônica. Pessoas assim tão sábias deviam forçosamente dar lições aos músicos do passado. Encontravam erros em Beethoven, aplicavam a férula em Wagner. Quanto a Berlioz e a Gluck, divertiam-se à custa deles. Naquela hora da moda, nada existia para eles a não ser João-Sebastião Bach e Claude Debussy." (pág50/volIII)

Sobre música:
" Sob a graça displicente e o dilentantismo aparente dessas pequenas peças para piano, dessas canções, dessa música francesa de câmara, sobre a qual a arte alemã não se dignava a lançar olhos, e da qual o próprio Christophe negligenciara a poética virtuosidade, ele começava a entrever a febre de renovação, a inquietude - ignorsada do outro lado do Reno - com a qual os francese procuravam, nos terrenos incultos de sua arte, os germes que podiam fecundar o futuro." (pág33/volIV)

Sobre República e Democracia:
"Pela primeira vez, entreviu o sentido da Liberdade belicosa que eles adoravam - o gládio ameaçador da Razão. Não para eles não era uma simples retórica, uma ideologia vaga, como pensara. Num povo para ao qual as necessidades da razão eram as primeiras de todas, a luta pela razão dominava as demais. Que importava que essa luta parecesse absurda aos povos que se diazia práticos? (pág36/volIV)

Sobre o mercado livreiro de Paris: "É relativamente fácil fazer aceitar uma obra em Paris: a dificuldade está em fazê-la publicar. É preciso esperar, esperar durante meses, e se preciso for, toda a vida, caso não se tenha aprendido a arte de cortejar as pessoas, ou de importuná-las, de comparecer de quando em quando à hora do despertar desses pequenos monarcas, de lembra-lhes que existimos e que estamos dispostos a incomodá-los tanto quanto seja preciso." (pág78/volIV)

Sobre o Mundo: "Cada um vê o mundo à sua imagem. Aquêles cujo coração é desprovido de vida, vêem o universo dessecado, e não imaginam os frêmitos da espera, da esperança e do sofrimento que enchem as almas jovens; ou, se os imaginam, julgam-nos friamente, com a pesada ironia de um corpo empanturrado." (pág79/volIV)

Sobre a amizade: "Pertencia àquela elite que, para achar a beleza, tem necessidade de buscá-la nos tempos que se foram, ou nos que ainda não chegaram. Como se o vinho da vida não fôsse tão inebriante hoje como outrora! Mas, as almas fatigadas repugnam o contato direto da vida; não podem suportá-la senão através de um véu de miragens, tecido pela distância do passado e pelas palavras mortas dos que outrora existiram. A amizade de Christophe, a pouco e pouco, arrancava Olivier àqueles Limbos da arte. O sol infiltrava-se nos escaninhos de sua alma." (pág118/volIV)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: II e III // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

O GRADE SERTÃO DE GUIMARÃES ROSA

QUEM?
João Guimarães Rosa (1908/1967). Mais conhecido como Guimarães Rosa. Um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata.
Seus contos e romances ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas espetaculares inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais. Tudo isso, somado a sua erudição, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Autor do épico, imortal e memorável Grande Sertão Veredas.

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CITAÇÃO
"Ah, o bom costume do jagunço. Assim que é a vida assoprada, vivida por cima. Um jagunceando, nem vê, nem repara na pobreza de todos, cisco. O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor á honetidade. São árvores que pegam poeira." (pág57)
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COMENTÁRIO
Guimarães Rosa era o cara. Em um tempo, não muito diferente do nosso, onde todo mundo estava com os olhos voltados para o litoral, este nobre e talentoso escritor brasileiro se ocupava em se lançar sertões adentro, em busca de uma memória e de uma identidade do povo brasileiro do interior das Terras sem fim desta Pátria. Ler o Grande Sertão de Guimarães Rosa foi um divisor de águas em minha vida de leitor. Sem sombra de dúvida, foi nele, o primeiro autor brasileiro, onde reconheci e pude ver a pura genialidade, tão marcante dos imortais da pena. O homem era um monstro da escrita. E sabia sobre o que escrever. Buscava instintivamente suas raízes. Sua temática, seus ambientes, seus romances e tramas, seus personagens e cenários nos remetem vigorosamente a um Brasil tão autêntico e belo, que chega a parecer um outro país dentro do próprio Brasil, por sua complexidade e imensa riqueza cultural. O fato é que o homem viajou pelas veredas, pelas trilhas, a cavalo, junto com os homens que realmente viviam aquele mundo tão instigante e pungente dos sertões, viu e viveu com eles suas estórias épicas, e soube, como ninguém, transpor com sua pena ágil e competente, peculiaridades, gírias típicas, modos e trejeitos de uma determinada cultura em especial muito interessante, a do Sertanejo.
Livro sem chance para erro, para ler, re-ler, re-re-ler, e , com toda a certeza, esta obra divina, do ponto de vista literário e cultural, fará o leitor atento descobrir porque somos assim como somos: brasileiros.
Recomendação especial deste velho Escriba.
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LIVRO:Grande Sertão Veredas // AUTOR: Guimarães Rosa // EDITORA: José Olympio // Rio de Janeiro // 1972

HUGO IMORTAL

QUEM?
Victor-Marie Hugo (1802-1885). Talentoso escritor e poeta francês. Autor de Os Trabalhadores do Mar e Noventa e Três, entre muitas outras obras notáveis. Esta última, belíssima aliás, trata da Revolução Francesa, romanceada, e vista por este talentoso e hábil
mestre da pena.
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COMENTÁRIO
Certos autores parecem conspirar com o próprio universo que os cercam quando estão criando suas obras geniais e imortalizando seus escritos. Gozam de uma tal hamonia criativa e, com tanta leveza, vão nos embalando através de suas cativantes narrativas, construindo com o verbo escrito todo um universo através da arte e da inspiração. São pessoas sensíveis e, de certo modo, até predestinados que, com suas penas, construíram verdadeiras jóias da literatura universal de todos os tempos.
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CITAÇÃO
"Tal era essa Convenção desmedida; campo estrincheirado do gênero humano atacado por todas as trevas ao mesmo tempo, fogos nocturnos dum exército de idéias cercadas, imenso bivaque de espíritos na vertente de um abismo. Nada na história é comparável a este grupo, ao mesmo tempo senado e populaça, coclave e galerias, areópago e praça pública, tribunal e acusado. A Convenção foi sempre levada pelo vento; mas esse vento saía da boca do povo e era o sôpro de Deus. E hoje, passados oitenta anos, de cada vez que diante do pensamento dum homem, quem quer que seja, historiador ou filósofo, a Convenção aparece, esse homem pára e medita. É impossível não ficar atento a essa imensa passagem de sombras." (pág204)
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LIVRO: Noventa e Três // AUTOR: Victor Hugo // VOLUME: I // EDITORA: Lello e Irmão Editores // Porto // Portugal // Sem data

sexta-feira, 29 de maio de 2009

UM HOMEM DA BAVIERA POR ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Para escrever uma obra como Jean-Christophe, Romain Rolland teve que demonstrar talento e prosa fluida. Manter cativa a atenção do leitor que se aventura a ler seus 5 volumes não é fácil, afinal, cada um tem em média 400 páginas. De fato, não é possível ser medíocre em dimensões tão dilatadas. E ele não foi. Escrevia bem, em linguagem e narrativa vigorosa, constante, sem grandes malabarismos ou virtuosismos na trama, mas de uma sensibilidade e delicadeza notáveis. Na citação escolhida, vemos o autor descrever com grande habilidade um tipo de homem alemão específico, de uma região muito peculiar, a Baviera. É o gênio, com a pena em punho, descrevendo um de seus personagens secundários.
Sensacional!
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CITAÇÃO
"Era fabulosamente gordo, e grande em todas as proporções: a cabeça quadrada, os cabelos vermelhos, cortados rento o rosto barbeado, com sinais de bexiga, os olhos grandes, um nariz grande, os lábios grossos, um duplo queixo, o pescoço curto, as costas de uma largura monstruosa, o ventre rotundo como uma pipa, os braços afastados do corpo, os pés e as mãos enormes, um gigantesco montão de carne, deformado pelo abuso da comezaina e da cerveja, um dessses tonéis com rosto humano, que podem ser vistos às vezes a rola nas ruas das cidades da Baviera, os quais guardam o segredo dessa raça de homens, obtida por um sistema de ceva análogo ao das aves domnésticas postas em caixa para engorde." (pág227)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: II // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

terça-feira, 26 de maio de 2009

UMA NECESSÁRIA TROCA DE PARADIGMAS(Ou, simplesmente, a morte dos veículos de transporte e locomoção individuais!)

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Ambientalista, escritor contista e romancista brasileiro, pesquisador independente de nanotecnologia e impactos sociais. É videomaker, com mais de 25 anos de experiência pregressa, nascido em São Paulo, atual editor chefe e escriba titular deste Blog. Autor dos livros A Testemunha, conto ecológico de suspense, e Nanocaos e a Responsabilidade Global, ensaio de divulgação científica sobre nanotecnologia, ambos publicados por esta Editora virtual. Diretor dos documentários de divulgação científica Nanotecnologia O Futuro é Agóra, Para Entender as Nanotecnologias, Nanotecnologias e o Mundo do Trabalho, Reflexões Sobre o Desenvolvimento das Nanotecnologias e Nanotecnologias Sociais.
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ARTIGO
Quero tratar aqui de um assunto complexo e, para tanto, peço licença ao nobre e paciente leitor para usar de toda franqueza que me for possível, além de, sem mais delongas, adentrar lúcida e objetivamente o tema em questão. Para isso, partirei de uma máxima simples, maturada e desenvolvida por mim, em minhas repetidas e gratas visitas à magnífica cidade de São Paulo, minha terra natal, e seus intermináveis congestionamentos.
A cultura dos automóveis individuais movidos a combustíveis não renováveis e poluentes está com seus dias contados.
Sim, e isso se dará por diversos motivos importantes e convergentes. E, é justamente por isso, que tentarei ser breve neste artigo, abordando apenas alguns dos tópicos mais notáveis e gritantes relativos a este contexto de desenvolvimento social e cultural, deixando de fora as outras infinitas possibilidades de recortes e abordagens.

A primeira, e talvez, mais importante observação a ser feita aqui é de natureza matemática, proveniente das ciências exatas mas, passando, sem nenhuma sombra de dúvida, pela área de humanas, pelo bom senso e pela ponderação, virtudes que nunca se mostraram desfavoráveis ao salutar e profícuo julgamento. Todos os dias novos veículos são produzidos, enquanto que as ruas e estradas, vistas de uma maneira prática e quantitativa, continuam do mesmo tamanho. Parece filosofia rasa de botequim, mas não é nada disso. Trata-se, de fato, de uma dura realidade, imponente, dramática e inevitável, que precisamos a todo custo assimilar, nos debruçando sobre a matéria e, se preciso for, lançando mão de toda nossa criatividade – traço marcante de nossa espécie - e dela podermos tirar bons proveitos e boas lições e, acima de tudo, práticas que sejam mais viáveis, como alternativa ao frágil modelo que aí esta.
Minha segunda humilde ponderação, é que não faz mais sentido algum andarmos pelas ruas e estradas do Brasil e do Mundo, à bordo de veículos de transporte e locomoção individuais caríssimos, poluentes e – diga-se de passagem, abastecidos a partir de fontes não renováveis – para, além de tudo, nos engarrafarmos nestas vias que inevitavelmente temos que percorrer, para que a vida cotidiana possa seguir seu curso naturalmente e, especialmente, que a vida em sociedade possa funcionar.

Esta reflexão, nos remete, quase que diretamente, a uma outra. As populações do Planeta vêm crescendo vertiginosamente em termos numéricos e, impactos que não eram sentidos outrora, ou que eram considerados improváveis e incertos até tempos recentes, agora nos assustam de verdade e se multiplicam, nos obrigando a repensar nossos hábitos e até mesmo nossa cultura de uma maneira mais drástica e radical.
Deste modo, e como calamidades e problemas parecem atrair mais problemas e fenômenos de similar espécie, ou seja, de um certo modo, problemas 'chamam' ou 'atraem' mais problemas, é impossível deixarmos de lançar um olhar cauteloso e prescrutativo, sobre nossos hábitos e nossa cultura.

Vivemos em um mundo capitalista. E, dentro deste mundo agônico, midiático e consumista, operam as famigeradas leis de mercado, as quais me furtarei de comentar aqui, para o bem da narrativa e da reflexão que proponho. Neste ambiente e contexto, e isso vale para todos – países ricos ou não, emergentes, decadentes, dentro de organizações como a familiar, municipal, estadual, federal, enfim planetária – ou seja, o que todos querem é desenvolvimento, fartura e prosperidade. E é exatamente aqui surge o conflito.

Somos jovens enquanto nação, com uma história pregressa relativamente recente, especialmente, se considerarmos o resto do Globo, as culturas milenares orientais e o Velho Mundo. Daí, esta coisa que nós brasileiros infelizmente temos, de sermos deculturados, de repetirmos modelos, e de pouco valorizarmos nossa cultura, história e tradição, em detrimento de, modelos alheios a nós, gerando, conseqüentemente, os mesmos estragos e impactos que estes modelos já causaram em suas culturas de origem. Sim, pois nossas metas nacionais de desenvolvimento, nossos objetivos estratégicos de produção de riqueza e consumo de bens, é totalmente equivocada, e já deram prova de sua indubitável ineficiência.

Grosso modo, repetimos o que já deu errado. Daí a nossa importância estratégica de subdesenvolvidos, como reserva manancial para mais exploração capitalista.
É duro admitir: Somos movidos a consumo, e vivemos em função desta orientação cultural, e isto nos foi ensinado repetitivamente à exaustão através dos diversos meios de comunicação, mais especialmente através da televisão que não exclui ninguém em sua onipresença, e agora, nos dias atuais, pela internet. E a mensagem que nos é transmitida geralmente, é que nossa vida só adquire significado, enquanto somos peças integrantes da máquina capitalista de produção e consumo e, especialmente, pelo que possuimos e compramos. E, de fato, se usarmos da razão, doamos nossa vida a este cruel e massacrante sistema e, meio que sem querer, acabamos acreditando nisto como única alternativa, e nos absorvemos enquanto perpetuamos nossa própria escravidão dentro de uma ardilosa armadilha. Uma não, várias.
*
Prezadíssimo leitor(a), gostaria de propor agora outra interessante reflexão sobre a matéria. Se olharmos bem, com olhos atentos e críticos, veremos que, dentro do jogo capitalista que participamos e sustentamos com nossas forças individuais de trabalho, nunca ganhamos o suficiente para nós mesmos, ou quem sabe, quimericamente, para nos libertarmos do jugo que nos é imposto por esta política que aí está. Não ganhamos o dinheiro de fato, vejamos bem, apenas o transportamos, de um lado para o outro. Labutamos o mês todo para, no dia do pagamento, corrermos para devolver para Eles, os capitalistas, todos os nossos míseros trocados, sob as mais diversas formas de consumo supérfluos e, dentro deste contexto de extrema externalização do prazer e da realização pessoal, surge, como o ápice e símbolo de ostentação e reconhecimento, o automóvel. Ainda mais em tempos de pick-ups e off-roads, associados a vidas maçantes e rotinas entediantes e sem sentido.

Para concluir esta breve argumentação crítica sobre nossos paradigmas e práticas culturais de locomoção, não poderíamos deixar de notar e comentar o absurdo que é as montadoras de automóveis, estas poderosas corporações multimilionárias transnacionais, ameaçarem os governos com suas lamentações, que nada mais são do que quedas de faturamento, em meio a crise que aí está, assustando as populações, amedrontando as nações mundo a fora com suas incompetências e falências – sendo que, na verdade, trata-se apenas de queda dos lucros. Absurdo maior ainda é, o que se pratica agora, que é os governos saírem a socorrer estes grupos já tão poderosos e privilegiados. Conduta praticada nos Estados Unidos da América, na Europa e, repetido, lamentavelmente por nós brasileiros, aqui em terras tupiniquins e terceiromundistas. Seria indesejável e inoportuno perguntar, por exemplo, porque o Governo Federal, em sua presteza bombeirística patriótica, ao invés de socorrer as riquíssimas montadoras, não socorre os pequenos e médios empresários que passam por dificuldades neste momento turbulento de incertezas, mandando ao diabo estes cretinos. Ou, quem sabe, investir pesado no setor de preservação ambiental e ecológico que, indubtavelmente, necessita de normatização, legislação, fiscalização, plano de manjo ecológico e sustentável, além, é claro, de punição exemplar para os malfeitores que insistirem em infringir as leis vigentes, devastando a natureza, já tão combalida? Não é possível que os interesses de um pequeno grupo ganancioso vá se sobrepor e prevalecer sobre a integridade e o bem estar da maioria da coletividade.

Vivemos o alvorecer de uma nova era, de um novo tempo de mudanças, onde antigos e nefastos modelos, precisam ser substituídos, o quanto antes, por alternativas menos danosas à natureza. A própria palavra Sustentabilidade, tão em voga ultimamente, e tão utilizada indiscriminadamente por estes mesmos grupos capitalistas, no intuito de agregar valor de marketing às suas imagens, que significa, antes de mais nada, gerar desenvolvimento, progresso e riqueza, sem comprometer as futuras gerações, não tem, de modo algum, sido observada e respeitada.

E, para finalizar, aparentemente, a única maneira possível de se corrigir toda esta loucura, seja proibir os automóveis particulares nas grandes cidades e estradas, ou sobretaxá-los de tal maneira, que seja inviável sair-se de carro sozinho por ai. Paralelamente a isso, é claro, e até com os recursos provenientes desta nova política educativa ambiental de arrecadação, fomentar-se novas matrizes energéticas e, especialmente, construir-se uma malha de transportes coletivos eficientes, baratos, seguros, confortáveis e menos poluentes.
Não se trata aqui de uma opinião particular, mas de bom senso e medidas que devem ser empreendidas o quanto antes, sob pena de fomentarmos um colapso em nível Global.
Não é possível que pessoas fúteis e vazias andem por aí em caminhonetes diesel, cujos motores, poderiam, por exemplo, estar levando toda uma classe de alunos carentes à escola, ou cumprindo uma outra missão igualmente digna.
Falo de medidas extremas e radicais. Basta agora, sabermos quem terá a coragem necessária para implementá-las.
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O tempo urge.
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Da Redação.

O DICIONÁRIO KAZAR DE MILORAD PÁVITCH

QUEM?
Milorad Pávitch (1929). Em sérvio: Милорад Павић. Poeta, romancista e tradutor sévio, estudioso da História da Literatura. Autor do interessante livro O Dicionário Kazar.
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COMENTÁRIO
O livro em questão de Milorad Pavitch, O Dicionário Kazar, é uma obra muito interessante. Nela o competente autor sérvio nos leva para um mundo místico de fantasia e mistérios, símbolos e signos, de lendas e estórias antiquíssimas, neste belo romance que trata do debate entre as três principais doutrinas religiosas do Planeta: O catolicismo, o islamismo, e o judaismo. Em forma de dicionário, e escrito com sabedoria e prosa intrigante, vemos através de sua pena hábil, um povo muito interessante, os Kazares, que promovem o embate filosófico entre os líderes das supracitadas religiões, no que ele, o autor, chama de A Polêmica Kazar. Prosa elegante e instigante, carregada de fatos e lendas, algúrios e simbolismos, lugares remotos e situações enigmáticas notáveis. Leitura antropológica e mística que, com certeza, alargará os horizontes do leitor atento que gosta de textos exóticos e inteligentes.

Na citação, vemos um demônio, Nikon Sevast, com uma história bem interessante e bem humorada. É só conferir e se deleitar.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"SEVAST, NIKON (Século XVII) - Conta-se que, em certa época, o diabo viveu sob este nome, na garganta de Óvtchar, nas margens do Mórava, nos Bálcãs. Era particularmente gentil e chamava a todos por seu próprio nome: Sevast. Trabalhava como protocalígrafo no mosteiro São Nicolau. No lugar em que se sentava, deixava a marca de dois rostos e tinha um nariz no lugar da cauda. Afirmava que numa vida anterior tinha sido um demônio do inferno judeu, servindo Belial e Gueburá e enterrando cadáveres nos sótãos das sinagogas. Num outono em que os pássaros soltavam titica envenenada, queimando folhas e infectando as ervas, contratou um capanga para que o matasse. Era sua única maneira de passar do inferno judeu para o inferno cristão, e de poder servir Satã em sua nova vida.
Segundo outras narrativas, ele nem morreu. Deixou um cão lamber um pouco de seu sangue, entrou na tumba de um turco, pegou-o pelas orelhas e, tendo-o esfoladso, vestiu sua pele. Por causa disto, seus olhos de cabra miravam através de belos olhos turcos. " (pág85)
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LIVRO: O Dicionário Kazar // AUTOR: Milorad Pávitch // EDITORA: Marco Zero // Sem Data // PRIMEIRA EDIÇÃO: 1691

quarta-feira, 13 de maio de 2009

DOIS MOMENTOS DE MUDANÇA E RENOVAÇÃO NO JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Rápido, como quem furta, duas citações da juventude de Jean-Christophe onde vemos o autor esbanjar sua refinada técnica literária na descrição precisa dos conturbados dias que o personagem vive em busca da maturidade e de sua própria personalidade. Obra indubitavelmente bela, bem construída, narrada com expantoso vigor cativante, a despeito de sua extensa compleição física: 414 páginas, apenas do primeiro volume de um total de 5.
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CITAÇÃO
"Christophe mudava de pele. Christophe mudava de alma. E vendo cair a alma gasta e murcha da infância, não suspeitava que se lhe estava formando uma nova, mais moça e mais poderosa. Da mesma forma por que se muda de corpo no decurso da vida, também se muda de alma; e a metamorfose não se opera sempre lentamente no correr dos dias; existem horas de crise em que tudo se renova num abrir e fechar de olhos. A antiga pele cai. Nessas horas de angústia, o ser julga tudo acabado. E tudo vai começar. Morre uma vida. Uma outra acaba de nascer." (pág293)
*
"A mudança era por demais brusca; depois de haver por toda a parte encontrado o vácuo, quando apenas se preocupava com a própria existência e a sentia dissolver-se qual uma chuva, eis que surge por toda parte o Ser sem fim e sem limites, agora que aspirava a fundir-se no universo. Tinha a impressção de que saia de um túmulo. A vida corria transbordante; nadava nela com volúpia e, arrastado por ela, julgava-se plenamente livre. Não sabia que era menos do que nunca, que nenhum ser é livre, que a própria lei que rege o universo não é livre, e que somente a morte - talvez - liberte." (pág298)
*
LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

QUEM NÃO LEU A METAMORFOSE DE KAFKA...

QUEM?
Franz Kafka ou, na língua tcheca, František Kafka. (1883/1924). Trata-se, nada mais, nada menos, de um dos maiores escritores de ficção da língua alemã do século XX. Nasceu numa família de classe média judia em Praga, Austria, Hungria. Suas obras escritas - a maioria incompleta e publicadas postumamente - destacam-se entre as mais influentes da Literatura Ocidental. Seu estilo literário presente em obras como a novela A Metamorfose, publicada no ano de 1915, e os romances O Processo, 1925, e O Castelo, 1926, retratam indivíduos preocupados envoltos em um mundo impessoal e burocratizado.
*
COMENTÁRIO
Quem não leu a metamorfose de Franz Kafka...
Tem que ler.
Especialmente se for, como eu sou, amante das boas letras. Sim, porque trata-se de um clássico da literatura universal, termo muito usado em vão, todavia, totalmente aplicável a este talentoso autor. Signo recorrente, de um estilo e formato de redação interessantíssimo, a realidade fantástica de A Metamorfose, vai além do que é natural se esperar de um bom texto, para lançar-nos sem piedade, num mundo mágico de fantasia e arte indescritíveis. O realístico e fantástico homem-barata-homem de Kafka é leitura obrigatória, para quem é do ramo da Literatura, e sabe o que é bom em termos de obras imortais.
Aqui, vemos Gregor, o personagem principal, numa passagem brilhante onde os vizinhos divisam a escalafobética criatura numa situação fantástica de surrealismo e criatividade indubitável, letristicamente falando, é claro!
Da Redação.
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CITAÇÃO
"O pai considerou mais necessário acalmar os inquilinos do que expulsar Gregor, embora eles não estivessem agitados, e pareciam estar mais entretidos com Gregor do que com o violino. Correu até eles com os braços abertos tentando empurrá-los para o quarto e, ao mesmo tempo, tapar-lhes a visão de Gregor com o corpo." (pág94)
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LIVRO: A Metamorfose // AUTOR: Franz Kafka //EDITORA: Nova Cultura // São Paulo // 2002

terça-feira, 12 de maio de 2009

UMA QUALIDADE PRECIOSA PARA VIDA POR ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Escrever, sem dúvida, é um dom. E Romain Rolland tinha este dom. Escrevia com grande habilidade, num texto leve, direto e flúido, e dava seu recado com grande êxito além, é claro, de ser um artista do verbo escrito, ou seja, um mestre da pena. Vejamos esta belíssima passagem de Jean-Christophe, onde o autor, com muita precisão, descreve um padrão interessante na formação do caráter dos homens de sua época. Além disso, sem dúvida, um momento notável da literatura universal de todos os tempos.
Da Redação.
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CITAÇÃO
"Possuía a qualidade mais preciosa da vida: uma curiosidade juvenil, que os anos não alteravam, e que renascia todas as manhãs. Não tinha talento bastante para utilizar êsse dom, mas quanta gente de talento o teria invejado! A maioria dos homens morre dos vinte aos trinta anos; decorrido êsse período, nada mais são do que um reflexo de si mesmos; passam o resto da vida a macaquearem a si mesmos; e repetirem de modo cada vez mais mecânico e caricatural, o que disseram, fizeram, pensaram, amaram, no tempo em que eram." (pág266)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

domingo, 10 de maio de 2009

JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND

QUEM?
Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreenção sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revista Europe. Romain Rolland fez uma importante observação sobre o livro O Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsci escreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.
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COMENTÁRIO
Eis aqui um grande humanista Ás da pena: Romain Rolland. Hábil que era, não poupava talento e espírito na descrição de seus personagens no belo romance Jean-Christophe sempre, é claro, sendo direto, categórico, espirituoso e bem sucedido na arte do verbo escrito, fluído, vemos o autor acabar com um destes personagens, um sujeito sem caráter da estória, fazendo menção a sua insignificância de maneira surpreendente, reduzindo-o a algo inerte e inanimado que, movido pela gravidade, arrasta consigo tudo e todos a seu redor, em sua inevitável queda. É a marca do gênio impressa em sua obra. Trata-se de um parágrafo de uma importância e beleza notáveis, simples, todavia amplo, abrangente, complexo além de, diga-se de passagem e, acima de tudo, ser adaptável às frágeis almas humanas, e suas múltiplas facetas e susceptibilidades. Numa palavra: sensacional!
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CITAÇÃO
"Não era um mau homem, mas, sim, um homem bom pela metade, o que talvez seja pior; fraco, sem energia, sem força moral, embora julgando-se bom pai, bom filho, bom marido, bom homem, e sendo-o talvez, se para isso bastasse uma bondade fácil, que se enternece facilmente, e essa afeição animal que faz querer aos seus como a uma parte de si mesmo. Nem mesmo se podia dizer que era egoísta: não possuioa bastante personalidade para sê-lo. Não era nada. Coisa terrível na vida, essas pessoas que não são nada! Como um peso inerte, que se solta no ar, elas tendem a cair e é preciso absolutamente que caiam; e, na queda, arrasatam tudo o que está com elas." (pág36)
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LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: I // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941