quarta-feira, 4 de março de 2009

SENHORES E SERVOS DE TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - Eminente e brilhante escritor russo. Autor do clássico romance imortal Guerra e Paz. Fazendeiro, humanista, sensível, conhecedor da alma humana e dos animais, escreveu contos notáveis como O Diabo, História de um Cavalo e Padre Sérgio, este último tratando das tentações carnais de um padre diante de uma bela mulher. Reflexos de seu posicionamento vanguardista e já divergente da igreja católica ortodoxa de sua época.

COMENTÁRIO
Definitivamente, o Conde Leão Toilstói foi um sujeito notável. Sua literatura brilhante e humanista encantou gerações a fio. Seus conteúdos intensos e belos o imortalizaram como um dos grandes - se não o maior - expoente da cultura russa e de seu rústico, resistente e nobre povo. Senhores e Servos (ou Homens e Escravos) é uma jóia da literatura universal de todos os tempos, e conta a emocionante estória de um senhor, um servo e um cavalo, perdidos em meio à tempestade de neve. Drama contundente e gritante, que retrata um ambiente milenar da desigualdade humana, em um enredo instigante com final mais que surpreendente. Obra de primeira grandeza que agradará o leitor com inclinações filosóficas e humanistas. Brilhante, harmônico, emotivo, envolvente, humano, cativante, sensível; numa palavra: Mestre Leão Tolstói.
Da Redação.

CITAÇÃO
"E depois disso, Vassili Andréitch deixou de ver, deixou de ouvir e nada mais sentiu deste mundo. A tempestade continuava sempre, não parava nunca. A neve rolava em turbilhões enormes e cobria cada vez mais, tapando por completo, o corpo de Vassili Andréitch; o pobre baio, cujo corpo gelado tremia todo; já sepultara o trenó até quase o meio." (pag87)

LIVRO: Homens e Escravos // AUTOR: Leão Tolstói // EDITORA: Irmãos pongetti // Rio de Janeiro // 1943

DOIS NAUFRÁGIOS POR ALFHONSE DAUDET

QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
*
CITAÇÃO
"Veja só o senhor o pior da história... Três semanas antes do sinistro, uma pequena corveta que seguia para a Criméia, tal como Sémillante, havia naufragado nas mesmas circunstâncias, quase no mesmo lugar; apenas, daquela vez, tinhamos conseguido salvar a tripulação e vinte soldados em trânsito que se encontravam que se encontravam a bordo... Êsses pobres rapazes não se sentiam à vontade, bem imaginam! Nós os levamos para Bonifácil, onde passaram dois dias conosco... Depois de secos e refeitos, adeus! boa sorte! regressaram a Toulon, e alguns dias depois novamente embarcaram para a Criméia... Adivinhem em que navio?... No Sémillante... Tornamos a encontrar todos os vinte estendidos entre os mortos, no lugar onde achamos... Eu próprio ergui um bonito brigadeiro de bigodes bem tratados, um parisiense louro que eu hospedara em minha casa, e que nos fizera rir o tempo todo com seus casos... Ao deparar como ele, tive o coração dilacerado... Ah! Santa Madre!..." (pág37)
*
COMENTÁRIO
O mar por vezes tem fome... E é voraz em sua fúria inconsciente. Em seu afã, come gente. Devora almas. Muitas de uma vez, quando assim querem os seus humores altivos e instáveis. Algo como uma força incomensuravelmente avassaladora e prepotente que não faz predileções: devora e extingue o que estiver em seu caminho. Trata-se aqui do talento de um notório contista francês, mas representa por si, como fenômeno repetido, um exemplo ilustrativo das milhares de almas que já foram devoradas em sua ânsia através dos tempos imemoriais. Este nobre senhor Mar, profundo, belo e sereno, também sabe se revoltatar. E quando o faz, é, literalmente, um Deus nos acuda. Aqui perto, na praia onde estou mesmo, existe também um naufrágil, de um cargueiro japones que se perdeu de sua rota ao contornar a costa. A catástrofe se deu a mais de cinqüenta anos atrás, e na ocasião a praia ficou - como contam os mais velhos cidadãos que presenciaram o acontecido - 'qualhada de corpos' . E, os relatos se seguem: - Ouviu-se na naquela sinistra noite do Cabo Frio, no meio da tempestade, o mugido do imensso animal metálico pedindo socorro como num lamento; mas seu destino já estava selado pelo próprio mau tempo: seria devorado pela incrível borrasca. Arraial do Cabo era apenas uma aldeia na época, uma minúscula vila de pescadores, um arraial como o próprio nome evoca, e, assim, nada poderia ser feito. Cabo Frio... também... Não tinha recursos à época para socorrer ninguém. Naquela noite tempestuosa, quem teria? Chovia e ventava muito. Mais de cem vidas ceifadas, cujos corpos foram enterrados num semitério improvisado numa encosta de Monte Alto, cidade vizinha, numa colina diante daquele mesmo mar que os devorara. Do ocorrido, como testemunha perene da tragédia, em meio a enorme e esparramada paria de Maçambaba, ergue-se misteriosamente junto a suas areias, amplas e sem pedras, um enorme escolho de metal submerso, que ao sabor das ondas da arrebentação, encravado na areia, como um esqueleto, deixa à mostra sua imponente crista negra, recoberta por mariscos no meio daquela imenssidão.
Meros e pobres... Humanos... minúsculas criaturas neste enorme Planeta... pequenas e agitadas vidinhas cheias de si... Almas mortais singrando águas sem fim. Volta e meia, esta força, misteriosa e alheia a tudo, cobra seu tributo... muitas vezes em vidas.
Da redação Escriba.
*
LIVRO: Novelas // AUTOR: Alfhonse Daudet // Editora Melhoramentos // São Paulo

terça-feira, 3 de março de 2009

BENITO CERENO DE MELVILLE

QUEM?
Herman Melville (1819-1891). Notório escritor norte-americano que, entre outras coisas, marinheiro que era, escreveu sobre as aventuras dos mares do mundo com grande talento. Autor da imortal Moby Dick.

COMENTÁRIO
O romance Benito Cereno de Melville é uma estória emocionante de coreagem, descriminação racial e aventura em pleno mar. Obra relativamente menos conhecida do que Moby Dick, por exemplo, Benito Cereno não deixará nada a desejar ao leitor que gosta de uma boa estória de marítima, de naus e embarcações, e os homens, que em sua intrepidez, ousam desafiá-lo, a bordo destas naves flutuantes, pelos oceanos do Planeta. Se não bastassem esses elementos fortíssimos e marcantes, o brilhante marinheiro escritor Melville desvenda os mistérios das almas humanas de seus personagens, especialmente através de Benito Cereno, negro gigante e inocente, que se deixa fisgar pelo destino, numa silada inesperada. Abordando em sua trama questões morais importantes, dentro de uma estória memorável de coragem e virtude, escrita em plena época da Guerra da Seceção, este escritor norte-americano nos brinda com seu inegável talento. Leitura fácil e empolgante. Recomendação especial deste dedicado Escriba.

CITAÇÃO
"Com os mastros rangendo, o navio virou pesadamente para o vento; sua proa jogava lentamente, à vista dos barcos, com o esqueleto brilhando ao luar horizontal, e lançando uma gigantesca sombra listrada em cima da água. Um braço estendido do fantasma parecia acenar aos brancos que o vingassem."(pág101)

LIVRO: Benito Cereno // AUTOR: Herman Melville // EDITORA: Imago // Rio de Janeiro // 1993

A MALANOTTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.

CITAÇÃO
"Voltou dali a pouco com a Malanotte, que era uma velha bruxa, famosa por tirar maus-olhados: negra como piche, com uns olhos de loba e uma boca enorme, de onde saía uma rouca voz masculina.
Ela mandou trazer um prato fundo cheio d'água e uma ampolinha de azeite. Oredenou que fechassem a porta e que o enfermo fosse posto sentado na cama. Depois acendeu uma vela, apoiou o prato na cabeça do velho e deixou cair bem devagar uma gota de azeite, ali na água, bem no meio. À volta, as vizinhas olhavam, segurando a respiração. Com os olhos fixos naquela gota de azeite boiando, a Malanotte pôs-se a resmungar umas rezas incompreensíveis, e a gota começou pouco a pouco a expandir-se e dilatar-se.
Estão vendo? Estão vendo?
No prato, na luz incerta da vela, tremia um disco reluzente, como uma lua. As vizinhas se ergueram nas pontas dos pés, pálidas; algumas batiam no peito com os punhos, pelo estupor." (pag146)

COMENTÁRIO
Ler o siciliano Luigi Pirandello é um conforto. O homem escrevia com graça, com leveza e, especialmente, com talento. Algo fundamental para quem se mete a escrever. Mestre notório do verbo, era dramaturgo e renovou o teatro de sua época, além de escrever obras memoráveis como os contos O Velho Deus e A Pensão Vitalícia. Neste último, de onde foi retirada a citação acima, o personagem principal da estória - um velinho simples e simpático - vive às voltas com uma morte que nunca chega, o que acaba por gerar uma série de embaraços, dilemas, onde acontece de tudo, até o surgimento de uma tradicional curandeira italiana. Mágico, lúdico, classico, reflexo de sua cultura, de seu tempo e de seu País; eis Luigi Pirandello, este agrigento da Sicília que escrevia com um estilo único e peculiar sobre a cultura de seu povo. Estória boa, enredo excelente, narrativa precisa e elegante, ágil; enfim, prosa de primeiríssima linha. É só conferir e se deleitar. Fantástico!

LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

A ESTÉTICA ELEGANTE DE PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Notório dramaturgo, poeta, escritor e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
COMENTÁRIO
Certos escritores figuram na galeria dos maiores escritores de todos os tempos. Tais homens não podem ser medidos por parâmetros exatos. O número de publicações, por exemplo, não quer dizer muita coisa. Temos autores de uma só obra, como Montaigne, que só escreveu os seus famosos Ensaios, e nem precisaria mais, haja vista a preciosidade do referido livro; ao passo que outros como Camus, por exemplo, escreveu um número médio e comedido de livros, cujo conteúdo impactante e imortal continua a nos assombrar, como o próprio conceito de absurdo que o autor gostava tanto de abordar. Outros ainda, tiveram produção profícua e escreveram um bocado e com alma como o russo Dostoiévski, autor de pérolas como Lembrança da Casa dos Mortos, escrito inspirado em sua temporada recluso numa prisão da Sibéria. Mas, o que importa de fato, é que estes homens predestinados e talentosíssimos, souberam transpor com habilidade e arte aquilo que seus olhos lúdicos e humanistas viram em suas próprias vidas diárias; perplexos. Bom para nós. Luigi Pirandello, com toda certeza e merecimento, é destes escritores que iluminam os tempos com suas obras e seu talento inegável. Esta citação foi extraída do inteligente conto Quando eu era Louco do incrível livro Novelas para um Ano - O Velho Deus. Satisfação garantida para o leitor atento que ama os livros e as letras imortais.
CITAÇÃO
"Eu penetrava até na vida das plantas e, pouco a pouco, eu me elevava da pedrinha, do fio de grama, acolhendo e sentindo em mim a vida de todas as coisas, até pareceer que eu me transformava quase no mundo inteiro, que as árvores fossem os meus membros, a terra fosse meu corpo, os rios as minhas veias, e o ar a minha alma; e eu andava um pouco assim, extático e comprenetrado nessa visão. Quando ela desaparecia, eu ficava ofegante, como se realmente no frágil peito eu tivesse acolhido a vida do mundo."(pag71)
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis & Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

O ABISMO MARÍTIMO DE CONRAD

QUEM?
Józef Teodor Nałęcz Korzeniowski, conhecido como Joseph Conrad (1857/1924). Marinheiro e eminente escritor britânico, cuja obra foi centrata e inspirada no mar.

COMENTÁRIO
Conrad faz parte desta finíssima casta de homens nobres que viveram seus dias e noites sob o capricho das ondas, ao sabor dos ventos em pleno mar aberto. Assim como Herman Melville, Victor Hugo, e muitos outros, seus escritos tratam da insignificância humana diante da imenssidão marítima, seu inexorável e envolvente poder, e também dos bravos homens que ousam desafiá-lo a bordo de uma minúscula casquinha de noz. Singraram heróicamente os mares do mundo, para depois transporem com suas hábeis penas suas histórias fantásticas de aventuras épicas inimagináveis. Nesta citação escolhida a dedo do romance A Linha de Sombra, Conrad, com maestria, trás ao leitor em terra firme, um pouco da experiência marítima viva do que é estar em meio ao oceano, sujeito às suas intempéries e seus humores sempre difusos variantes. No caso aqui, o capitão e seus marinheiros, encontram-se retidos numa terrível e indesejável calmaria que ameaça a segurança e a integridade do barco da tripulação.
Literatura fina em clima de aventura, história boa, auto-biográfica, ou seja, baseada em fatos reais, embalada numa trama complexa e instigante, escrita em estilo enxuto e elegante, ou seja, numa só palavra: Sensacional. Direto da redação com um abraço deste humilde Escriba.

CITAÇÃO
"Depois do pôr-do-sol eu saí de novo ao tombadilho para encontrar somente o vácuo inerte. A crosta fina e isenta de características marcantes da costa não se podia distinguir. A escuridão levantara-se em volta do navio como uma misteriosa emanação das águas mudas e solitárias. Eu me debrucei no balaústre e voltei meus ouvidos para as sombras da noite. Nem um ruído. Meu comando bem poderia ser um planeta voando vertiginosamente dentro de sua rota fixa, num espaço de infinito silêncio. Eu me agarrei ao balaústre como se meu senso de equilíbrio tivesse me abandonado para sempre. Que absurdo. Gritei nervosamente." (pag90)

LIVRO: A Linha de Sombra // AUTOR: Joseph Conrad // EDITORA: Globo // Rio de Janeiro // 2003

segunda-feira, 2 de março de 2009

O VENTO SIROCO DE LUIGI PIRANDELLO

QUEM?
Luigi Pirandello (1867/1936). Importante dramaturgo, poeta e romancista siciliano. Prêmio Nobel de 1934.
CITAÇÃO
"Ainda lembro como fiquei impressionado, naquela noite, com o repentino espetáculo da natureza quase toda em fuga, na urrante vemência do vento. As nuvens fugiam fendidas pelo céu, em fúria desesperada, numa fileira infinita, e parecia que arrastavam consigo a lua pálida pelo pavor; as árvores se contorciam gemendo, rangendo, sofrendo espasmos sem descanso, como se quisessem arrancar suas raízes e fugir também para lá, para lá, aonde o vento levava as nuvens, a uma tempestuosa reunião." (pag74)
COMENTÁRIO
O Siroco (em italiano scirocco e em árabe ghibli) é um vento quente, muito seco, que sopra do deserto do Saara em direção ao litoral Norte da África, comumente na região da Líbia. Este fenômeno causa gigantescas tempestades de areia no deserto e manifesta-se quando baixas pressões reinam sobre o mar Mediterâneo. Freqüentemente o ciroco, sem umidade devido ao efeito Föhn, cruza o Mediterrâneo atingindo com violência o sul da Itália - terra de Mestre Pirandello - e, em certas ocasiões, chega até à Cosata Azul e à Riviera.
O estilo de elegante de Luigi Pirandello é impecável ao transportar o leitor suavemente para onde ele quer: para dentro de sua estória; e o faz com maestria, evocando muitas vezes sua cultura e sua origem. Este agrigento da Sicília era um monstro com a pena na mão. Escrevia inspirado e com talento, duas qualidades que um bom escritor tem que ter; e ele tinha. Esta citação escolhida é belíssima e fala por si, dispensando maiores comentário. Luigi Pirandello: é para ler e se deleitar.
Literatura Escriba classificação cinco peninhas de ouro!
LIVRO: Novelas para um Ano - O Velho Deus // AUTOR: Luigi Pirandello // Berlendis& Vertecchia Editores // Rio de Janeiro // 2001

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O EXISTENCIALISMO DE KIERKEGAARD

QUEM?
Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855). Teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX, conhecido como "pai do existencialismo".

COMENTÁRIO
A singularidade humana... Era sobre isso que Kierkegaard pensava e escrevia. Seus pensamentos deram origem ao existencialismo, e a uma série de escritos filosóficos preciosos. Escrevia com vigor e intensidade marcantes, e suas obras refletiam as angústias de sua própria vida, além do contexto histórico e religioso da época. Este filósofo dinamarquês, que morreu com apenas quarenta e dois anos, influenciou toda uma geração de pensadores, que valorizaram o indivíduo como ponto de partida para a reflexão, inspirados nele. Leitura de primeira linha.

CITAÇÃO
"Quando estiver familiarizado com tal balbúcio, associar-lhe-ei o erotismo, e ela será o que pretendo, o que desejo. Terei então acabado o meu serviço, a minha tarefa, poderei recolher todas as minhas velas, estarei sentado a seu lado, e é servindo-nos das suas velas que avançaremos". (pag98)

LIVRO: Diário de um Sedutor // AUTOR: Sören Kierkegaard // EDITORA: Martin Claret // 2004

O SAMURAI TSUNETOMO


QUEM?
Yamamoto Tsunetomo (山本常朝), (1659 -1719). Samurai da saga de Domain, na província de Hizen, no Japão. Durante trinta anos Yamamoto devotou sua vida a servir seu clã e seu Senhor, o Lord Nabeshima Mitsushige. Escreveu o clássico Hagakure, relíquia impagável da cultura japonesa e, especialmente, da cultura samurai.

CITAÇÃO
"Coisas como se sentir superior aos outros, desejar o mal e brigar com as pessoas são produto de um coração que não tem compaixão. Se a pessoa levar em conta a compaixão em tudo que faz, não existe a possibilidade de entrar em conflito com os outros". (pag110)

COMENTÁRIO
Yamamoto Tseunotemo foi literalmente o ùltimo Samurai e, nos deu a honra, de conhecer o buchido, o caminho da espada, com seu belíssimo Hagakure - O Livro do Samurai. O cara era a própria encarnação de sua nobre cultura - uma cultura em declínio, diga-se de passagem - e de seu tempo, repleto de códigos de honra e virtude. Eis a palavra: virtude. Estes bravos e hábeis guerreiros não exitavam um só segundo antes de sacrificar suas vidas em nome de seus princípios. Contraste absoluto com o que vivemos nos dias de hoje.
LIVRO:Hagakure // AUTOR: Yamamoto Tsunetomo // EDITORA: Conrad Livros // 2004

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O TAO DE LAO TSÉ


QUEM?
Lao Zi (老子 Lǎozi, também escrito e pronunciado Laozi, Lao Tzu, Lao Tsé, Lao Tzi, Lao Tseu ou Lao Tze, foi um famoso filósofo e alquimista chinês. Escreveu o imortal Tao te King, livro do caminho perfeito, ou livro do sentido e da vida. Mestre no caminho da iluminação nas tradições zen budistas.

CITAÇÃO
"A suprema perfeição parece imperfeita
Mas seu uso jamais resulta em dano
A suprema abundância parece austeridade
Mas seu uso resulta inesgotável
A suprema retidão parece tortuosa
A suprema habilidade parece canhestra
A suprema eloqüência parace tartamudear
O movimento vence o frio
A quietude vence o calor
A pureza e a calma são as regras do universo
(pag109)

COMENTÁRIO
Ler um autor como Lao Tsé é embarcar em uma viagem no tempo com destino ao ano de 531 antes de Cristo, quando o mestre se retirava para os confins da China e, ao cruzar uma fronteira, o guarda desta pediu-lhe que deixace algo por escrito. Foi então, com sua pena firme, e sua mente iluminada, que ele escreveu seus fabulosos cinco mil edeogramas ou cinco mil palavras: O Tao te King, livro do caminho perfeito, ou livro do sentido e da vida. Uma jóia da literatura e da tradição zen chinesa antiga. Indicação especial deste Escriba.

LIVRO: Tao te King // AUTOR: Lao Tsé // EDITORA: Hemus // São Paulo // 5a edição

A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS POR ROSSEAU

QUEM?
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Célebre filósofo suíço, escritor e teórico político. Foi Uma das figuras marcantes do iluminismo francês, e é considerado um precursor do romamantismo.

COMENTÁRIO
Eis aqui um um nobre integrante da extinta estirpe de brilhantes escritores filósofos. Sem nenhum exagero, Rosseau foi uma figura importante e controversa, devido a suas idéias humanistas e sua ferrenha crítica aos imbecís e ignóbios poderosos da vez. Pagou caro por isso, e foi criticado e perseguido por seus inimigos, na maioria das vezes, por coisas banais, bobagens - por inveja talvez, de seus sábios escritos - e sempre por gente menos culta e esclarecida do que ele. Afinal, estamos falando de Jean-Jacqueus, um dos maiores iluministas da história da humanidade. Grande, por sua genialidade, inteligência, e por sua habilidade com a pena em punho. Leitura obrigatória para quem gosta desta época, e de suas brilhantes luzes resplandecentes, que nos iluminam até hoje, desde lá. Revolta elegante e sábia, eloquente e mordaz, transcrita em prosa fina, e escrita à moda antiga; numa só palavra: Rosseau. Da redação.

CITAÇÃO
"Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade e das leis, que criaram novos entraves para o fraco e novas forças para o rico, destruíram em definitivo a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, de uma hábil usurpação fizeram um direito irrevogável e, para o lucro de alguns ambiciosos, sujeitaram daí para frente todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria". (pag222)

LIVRO: Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desiguldade entre os Homens // AUTOR: J.J. Rosseau // EDITORA: Livraria Martins Fontes // São Paulo // 2005

BECCARIA E OS MIRANDA CONTRA A TORTURA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.
CAUSO
Meu avô, o Dr. Francisco Rodrigues de Miranda, era promotor da Justiça Militar. Nunca deu um parecer favorável aos poderosos fardados da vez, sem antes ler minuciosamente o processo e, especialmente, achar razões na lei vigente para tanto. Por éstas e outras, foi caçado pela famigerada ditadura militar. Uma vergonha! Logo um homem seríssimo como o meu avô... Humano e justo. Antes disso, saiu muitas vezes no meio da noite para ir à delegacias soltar presos injustamente que estavam sendo torturados. Naquele tempo, usavam-se técnicas sutís como choque no escroto, saquinho preto na cabeça e borduada, luz na cara, pau-de-arára e outras gentilezas típicas deste tipo de gente insana e desmiolada. Foi bem naquela época em que as pessoas costumavam desaparecer, muitos para nunca mais voltar. Com a anistia, ele, meu avô, voltou à ativa, mas já estava velho demais para a luta do magistério diário e das leis dos homens. Tinha, dentre outras coisas, problemas no coração. Seu irmão, o Dr. Theodolo Rodrigues de Miranda, juiz Militar, ficou famoso por ter dado corajosamente a primeira canetada da anistia, mandando soltar neste ato histórico - um dia antes de publicarem no Diário Oficial - o Arraes e mais uma turma que estava atrás das grades sabe-se lá por que. Aquela tragédia que foi o golpe militar. Forão estas pessoas, estes homens, os Miranda e muitas outros, que mesmo em meio ao caos, conseguiram lutar por justiça, liberdade e respeito aos direitos humanos universais, mantendo assim um mínimo de dignidade para nação brasileira assustada, consternada e assolada pela tirania.
Nesta citação escolhida especialmente, o brilhante jurista, filósofo e humanista italiano Cesare Baccaria, fala com precisão cirúrgica sobre as ignomínias cruéis, e, principalmente, ineficientes da tortura.
CITAÇÃO
"Faz-se o interrogatório de um réu para conhecer a verdade: porém, se esta verdade dificilmente se descobre no ar, no gesto, na fisionomia de um homem tranqüilo, muito menos se descobrirá num homem em quem as convulsões da dor alteram o sinais do rosto da maior parte dos homens, e, às vezes, a seu prazer, revelam a verdade. Toda ação violenta confunde a faz desaparecer as mínimas diferenças dos objetos, pelas quais, às vezes, se destingue o verdadeiro do falso". (pag48)
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A SABEDORIA SECULAR DE CESARE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Quem pode suspeitar em outro um delator, vê um inimigo nele. Então, os homens se acostumam a mascarar os próprios sentimentos, com o uso de ocultá-los a outros, chegam finalmente a escondê-lo de si mesmo". (pag39)

COMENTÁRIO
Quem é inocente? Quem é culpado? A quem compete julgar? Sob que parâmetros?
Era sobre isso que o italiano Cesare Beccaria se debruçava. Humanista inteiro, foi capaz de penetrar na alma e nos costumes de seu povo (Europa), e compor uma obra importante como o é Dos Delitos e das Penas, especialmente, em uma época complicada, marcada por tiranos, fogueioras, guilhotinas, decaptações, banhos de sangue e outras bárbaries cotidianas que, recaiam sobre a pele dos culpados ou não. Muitas vezes, antes de Beccaria, dos não. Inocentes... Muitos inocentes morreram sob a fúria da paixão, da ganância, e dos desejos sórdidos dos homens menores, sem nenhum direito à defesa. Justiça tirana e bárbara. Deuses de todas as cores, raças e idades foram evocados em nome da guerra, da peleja, das contendas e do massácre; do genocídeo por interesse, lucro e poder. Muitas mortes desnescessárias... Mortes injustas... Sumárias.
Beccaria, este douto senhor letrado, revolucionou o direito penal universal. Sua sabedoria secular compõe o alicerce do direito penal contemporâneo. Um grande autor imortal. Simplesmente: Um espetáculo! Da redação.
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

OS MARES LATINOS DE DAUDET


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897). Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.

COMENTÁRIO
Afhonse Daudet escrevia com leveza. Tratava das coisas com singularidade. No campanário das letras imortais agrupadas e impressas em páginas, soavam os elegantes sinos das idéias e criações deste autor francês que adorava o ócio, fosse ele criativo ou não. Nesta citação escolhida, ao falar de seu personagem no magnífico conto Turco da Comuna, ele nos dá uma descrição interessantíssima da composição do verbo e das línguas faladas nos confins do Mundo.
Bárbaro!

CITAÇÃO
"Triste e paciente, como um cão enfermo, o turco olhava em torno de si com um grande olhar doce. Quando lhe falavam, sorria e mostrava os dentes. Era tudo que podia fazer; pois nossa língua lhe era desconhecida, e ele mal falava o Sabir, esse patoá argelino, composto de provençal, de italiano, de árabe, feito de palavras amalgamadas, reunidas como montões de conchas, ao longo dos mares latinos." (pág165)

LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

DAUDET PARA THALES


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
COMENTÁRIO
Escrever pode ser um martírio. Não para Alfhonse Daudet. Mesmo quando escrevia sobre escrever, era preciso e claro; escrevia com alma. A citação escolhida retrata o drama de quem escreve, a paixão pelas letras, e mostra que o caminho do escritor muitas vezes acontece na prática do escrever e, especialmente, do publicar. Um abraço do Escriba!
CITAÇÃO
"Mesmo em plena vida, há, com efeito, para o escritor uma felicidade da qual ele nunca se cansa. Abrir o primeiro exemplar de sua obra, vê-la fixada, como que em relêvo, e não mais nessa grande ebolição do cérebro onde ela está sempre um pouco confusa." (pág188)
LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

A PARIS DE DAUDET


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
COMENTÁRIO
Escrever, em última análise, é juntar letras, formar sentenças, compor um raciocínio, transmitir uma idéia ou conceito, criticar algo etc. Simples? Sim, mas ainda assim, lê-se muita porcaria por aí. Especialmente na era da televisão digital, das mídias eletrônicas, da internet; com suas inesgotáveis superficialidades banais. Lê-se frases, anúncios, notícias, placas; quando muito. Muitos nem ler sabem. É o retrato do Brasil desigual. Neste contexto, veloz e pouco profundo, ler Alfhonse Daudet, é um descanço para a mente intelectual que vive os dias pelos caminhos do Mundo e suas infinitas contingências. O homem era sensível e escrevia como um animal selvagem e pleno bote, pronto para capturar a realidade à sua volta, e transpô-la fluidamente para o papél com sua ágil e talentosa pena de escritor. Isso tudo, sem perder a candura e a simplicidade.
Nesta citação, vemos Daudet atingido literalmente pelo mundo que o cerca da Paris de sua época, já agitada demais aos olhos deste. É a pura genialidade deste autor francês, selecionada e transcrita tim-tim por tim-tim por este humilde editor Escriba. Puro deleite! Da redação.
CITAÇÃO
"É que nessa grande Paris, onde a multidão se sente inobservada e livre, não se pode dar um passo, sem se tocar rudemente em alguma aflição avassaladora, que vos salpica e vos deixa a marca ao passar. Não falo somente dos infortúnios que se conhecem, pelos quais nos interessamos, desses desgostos de amigo, que são um pouco os nossos e cujo encontro súbito vos aperta o coração como um remorso; nem mesmo desses desgostos de indiferentes, que não se ouvem senão por alto e que não obstante vos comovem. Falo dessas dores completamente estranhas, entrevistas de passagem, num minuto, na atividade da pressa e na confusão da rua.
São farrapos de diálogos sacudidos ao movimento das viaturas, preocupações surdas e cegas que falam sozinhas e muito alto, espáduas lassas, gestos loucos, olhos de febre, rostos intumecidos pelas lágrimas, lutos recentes mal enxutos nos véus negros. Depois pormenores furtivos, tão ligeiros! Uma gola de jaqueta amarrotada, puída pelo uso, que procura a sombra, um realejo sem voz girando em vão, sob um pórtico, uma fita de veludo no pescoço de um corcunda, cruelmente amarrada bem direito entre os ombros disformes... Todas essas visões de desgraças desconhecidas passam depressa e vós as esqueceis caminhando, mas sentiste o leve roçar de sua tristeza, vossas vestes ficavam empregnadas de desgosto que elas arrasatam após si, e, no fim do dia, sentis agitar-se tudo o que em vós ficou de terno e doloroso, porque, sem que vos apercebais, agarrastes na esquina de uma rua, na soleira de uma porta, esse fio invisível que liga todos os infortúnios e os agita, na mesma sacudidela." (pág178)
LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A JUSTA REVOLUÇÃO PENAL DE BECCARIA

QUEM?
Cesare Bonesana, marquês de Beccaria, vulgo Cesare Beccaria (1738-1794) - jurista, filósofo, economista e escritor italiano.

CITAÇÃO
"Não é somente de interesse comum que não se cometam crimes, mas que sejam mais raros na proporção do mal que fazem à sociedade. Assim, os obstáculos que separam os homens dos crimes, devem ser mais fortes quando os crimes se mostram mais prejudiciais para o bem público e na proporção dos estímulos que, para eles, impelem os homens. Deve existir, por isso, uma proporção entre os crimes e as penas. Se o prazer e a dor são as molas dos seres sensíveis, se entre os motivos que levam os homens até as mais sublimes realizações, foram destinados a recompensa e a pena pelo invisível Legislador, resultará de sua errônea distribuição aquela contradição, menos observada, embora mais comum, que as penas castigam os crimes que elas fizeram nascer. Se uma mesma pena se destina a dois crimes que ofendem desigualmente a sociedade, os homens não encontrarão um obstáculo mais sério para a prática do crime mais grave, se a esse procedimento, tiverem unido uma vantagem maior. Quem ver imposta a pena de morte, por exemplo, a quem mate um faisão e a um assassino de um homem ou a um falsificador de documento importante, não fará qualquer distinção entre estes crimes; destruir-se-ão, deste modo, os sentimentos morais, obra de muitos séculos e de muito sangue, morosos e difíceis de serem produzidos no espírito humano, para cujo aparecimento se acreditou necessário o auxílio dos mais sublimes motivos, e um tanto revestido de aparatosas formalidades graves." (pág. 87)

COMENTÁRIO
Cesare Beccaria foi um cara importantíssimo. Deste tipo de pessoa que tinha que ter nascido para poder fazer o que fez em vida, levando a cabo uma missão tão importante que mudou a face do Mundo na sua época. Era um brilhante jurista humanista. Sua genial e compacta obra Dos Delitos e das Penas, escrito em forma de Ensaio, sensibilizou o coração dos homens poderosos da vez que, através dela, foram capazes de perceber a brutalidade bárbara da aplicação das leis e dos costumes penais, revisando-os conceitualmente. Dentre outras vitórias épicas, Beccaria foi capaz de influenciar os espíritos esclarecidos de seus mais ilustres contemporâneos, extinguindo, por exemplo, práticas cruéis e abomináveis como a aplicação da pena de morte para delitos menores, torturas etc. Assim, seus escritos mereceram quase que imediata acolhida em muitos países, como França, Alemanha e Áustria, e na própria Itália, terra natal do autor, impactando beneficamente os direitos humanos. Indubitavelmente, Beccaria foi um revolucionário. Com este pequeno livro de importante conteúdo humanista, o autor mostra a sutileza que existe em julgar situações singulares, e guia o jurista, para que este cometa o menor número possível de injustiças em sua busca pela aplicação das leis. Simplesmente sensacional! Boa leitura até para quem não se interessa muito por Direito. Imperdível.
*
LIVRO: Dos Delitos e das Penas // AUTOR: Cesare Beccaria // EDITORA: CD // 2002/2004

sábado, 31 de janeiro de 2009

AS TENTAÇÕES DE PADRE SÉRGIO POR TOLSTÓI


QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910), ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - eminente escritor russo.

CITAÇÃO
"Páchenka, por favor, receba as palavras que lhe direi agora como uma confissão, como palavras ditas a Deus na hora da morte. Páchenka, não sou um homem santo, não sou nem mesmo um homem simples e comum: sou um pecador torpe, abjeto, um pervertido, um pecador orgulhoso, e se não sou o que há de pior na raça humana, estou entre os piores." (pag95)

COMENTÁRIO
Leão Tolstói era um gênio. Um mago da literatura universal de todos os tempos. Sua prosa clássica natural da Mãe Rússia cruza o globo de ponta à ponta e já foi traduzida em quase todas as linguas e idiomas do planeta. O obstinado personagem Padre Sérgio, desta citação, retrata um homem religioso em crise existencial, sob o jugo da tentação que pode provocar a presença de uma bela mulher. Tema quente e picante, trazido à luz para a imortalidade pela pena do Mestre Leão, que era, além de fazendeiro, escritor e humanista, homem dado à filosofia e à reflexão - numa crítica forte contra a fé católica ortodoxa - para o puro deleite do leitor. Categoria Escriba: cinco peninhas de ouro para Tolstói.

LIVRO: Padre Sérgio // Autor: Leão Tolstói // Editora: Cosacnaify // São Paulo // 2006

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

OS COMPROMISSOS DE DON MIGUEL RUIZ

QUEM?
Don Miguel Ángel Ruiz (1952) escritor, professor, nagual e shaman mexicano, expoente da cultura Tolteca.

CITAÇÃO
"Se você der o melhor de si na procura de liberdade pessoal, na busca do amor-próprio, vai descobrir que é apenas uma questão de tempo até conseguir o que deseja. Não se trata de sonhar acordado ou passar horas em meditação. Você precisa levanter-se e ser humano. Precisa honrar o homem ou a mulher que é. Respeite, aproveite e ame seu corpo; alimente-o, limpe-o e cure-o. Exercite-o e faça o que ele se sente bem em fazer. Esse é o 'puja' de seu corpo, isso é a comunhão entre você e Deus." (pag74)

COMENTÁRIO
Os Toltecas e sua cultura são fascinantes. Curandeiros, bruxos, shamans, gente sábia e poderosa.
Quem não leu Carlos Castaneda? Pois é, só aqui não falamos de romance. Os Quatro Compromissos de Don Miguel Ruiz trás à luz toda uma riqueza de ensinamentos destes povos pré-mexicanos que acreditam na força dos espíritos divinos e da natureza em toda sua pungência e seus infinitos sinais.

LIVRO: Os Quatro Compromissos // AUTOR: Don Miguel Ruiz // EDITORA: Best Sller // 1997

OS CRUÉIS CONTOS DE L'ISLE-ADAM

QUEM?
Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, comte de Villiers de l'Isle-Adam (1838-1889). Talentoso e competente escritor simbolista francês.
COMENTÁRIO
Escrever lançando mão do simbolismo existente em tudo - como faria um Shaman - eis o que fazia brilhantemente Villiers de l'Isle-Adam. Em seus Contos Cruéis, no espetacular conto Lembranças Ocultas, ele esbanja seu talento usando e abusando deste interessante tipo de linguagem literária: os sígnos. Ferramenta esta, interessantíssima, que confere a seus escritos um 'que' quase que interpretativo, para o leitor completar suas estórias com a sua própria imaginação. Leitura fina Escriba, categoria cinco peninhas.
CITAÇÃO
"O silêncio é rompido apenas pelo deslizar dos crótalos que ondulam pelos fustes derrubados das colunas e enroscam-se, sibilando, sob os musgos ruivos. Às vezes, em crepúsculos tempestuosos, o grito longínquo do homíono, alternando tristemente com o barulho do trovão, inquieta a solidão. Sob as ruínas, prolongam-se galerias subterrâneas cujos acessos estão perdidos. Ali, há muitos séculos, dormem os primeiros reis dessas estranhas regiões, dessas nações mais tarde sem donos, dos quais nem mesmo o nome existe mais." (pag62)
LIVRO: Contos Crúeis // AUTOR: Villiers de l'Isle-Adam // EDITORA: Iluminuras // São Paulo // 1987

OS VENTOS DE DAUDET

QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.

COMENTÁRIO
A prosa de Alfhonse Daudet soa como o vento Transmontano trazendo em seu furor ares frios e renovados para a província a seu bel prazer. Seus escritos são carregados visceralmente de um sentimento de aprazibilidade muito confortável e reconfortante, que transporta o leitor para o ambiente e para o clima que ele quer: a singularidade. A vida campestre do interior de França. Seus heróis, ou melhor, seus personagens, são quase sempre faroleiros, moedores, músicos, camponeses, cocheiros, agricultores, padres, enfim, pessoas simples inseridas em seus cotidianos singelos e delicados; carregando na linguagem clássica e elegantede, sempre com um olhar humano e poético mas, acima de tudo, com habilidade e talento notáveis. O trecho escolhido é do belo Conto de Daudet, Elixir do Reverendo Padre Gaucher, e conta a divertida aventura de um padre sedento às voltas com a receita de um maravilhoso licor. Simplesmente espetacular!

CITAÇÃO
"Durante o dia, tudo ia bem. O Padre permanecia assaz calmo: preparava os fornos, os alambiques, escolhia cuidadosamente suas ervas, todas ervas de Provença, finas, cinzentas, de bordos dentados, queimadas de pewrfumes e de sol... Mas à tarde, quando as plantas estavam em infusão e o elixir fervia nos grandes tachos de cobre vermelho, o martírio do pobre homem começava. (pág91)

LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O CÉREBRO DE OURO DE DAUDET


QUEM?
Alfhonse Daudet (1840-1897) Escritor e romancista francês conhecido por seu estilo elegante que unia realismo e poesia.
COMENTÁRIO
Daudet escrevia com classe. Não no sentido restrito de seleção elitista, mas em um sentido de harmonização plena do verbo. Suavidade, ócio, vento, paz, solidão... Este é o mundo de Alfhonse Daudet. Seus belíssimos escritos nos remetem a lugares longínqüos, onde o tempo passa mais lenta e suavemente: o interior da França na época dos moinhos de vento; e seus personagens perdidos em meio à imensidão da província. A citação escolhida, foge um pouco ao estilo do próprio autor, pois trata-se de um elegante Conto construído a partir da ótica do realismo fantástico: "A Lenda do Homem do Cérebro de Ouro". Através desta genial alegoria emblemática e escatológica, ele insinua sua crítica à exploração das boas criações da mente humana por ganância, lançando luz nos aspectos intrínsecos desta condição, e tudo que ela pode gerar - quem sabe falando até de si mesmo - sempre, com grande habilidade e graça, com um final mais que surpreendente. Literatura fina, prosa elegante, estilo delicado e singelo; numa só palavra: Alfhonse Daudet.
CITAÇÃO
"Aos dezoito anos, somente, foi que seus pais lhe revelaram o dom misterioso herdado do destino; e, como eles o tinham criado e nutrido até ali, pediram-lhe um pouco de seu ouro. O rapaz não hesitou; imediatamente - como? por que meios? a lenda não diz, - arrancou do crânio um pedaço de ouro maciço do tamanho de uma noz e lançou-o altivamente aos joelhos da mãe... Depois, orgulhoso das riquezas que carregava na cabeça, tomado de ambições, embriagado pelo poderio, deixou a casa paterna e se foi pelo mundo, gastando o seu tesouro."(pág78)
LIVRO: Histórias de Alfhonse Daudet // EDITORA: Cultrix // São Paulo // MCMLXIV

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

OS MAGNÍFICOS ENSAIOS DE MONTAIGNE


QUEM?
Michel de Montaigne (1533-1592) Brilhantíssimo escritor e filósofo francês, que imortalizou o estilo literário Ensaio.
COMENTÁRIO
Ler de um só folego os Ensaios de Montaigne é obra hercúlea. Sim, porque são 504 páginas, coluna dupla, letra corpo 8, de conteúdo denso e escrito em linguagem da época: fina e rebuscada. Ainda assim, faz o leitor persistente indubitavelmente perceber, o rico universo de prosa livre e elegante do formato Ensaio - imortalizado pelo autor - além de gozar de um banho de cultura geral através de sua nobilíssima e incontestável sapiência, bem como saber detalhes interessantíssimos deste admirável tempo de outrora. Vale notar que Montaigne viveu exatamente naquelas décadas notáveis das grandes descobertas ultramarinas das quais nós, sul-americanos somos resultado, com suas intermináveis e sem número de barbáries brutais. Fora isso, através dos bem escritíssimos Ensaios, é possível conhecer a vida dos grandes personagens importantes da história antiga, escritores célebres e também, as intrigas da corte européia e, especialmente, refletir com ele sobre as questões filosóficas espinhosas e imortais, que o Mestre Michel de Montaigne destrincha como ninguém. Nesta citação, vemos a narrativa de uma trágica passagem da presença bárbara européia no Novo Mundo. Humano, nobre, crítico, sensível, filosófico, bem humorado, inteligente, talentosíssimo; numa palavra: Montaigne.
CITAÇÃO
"Para voltar a nossos coches, direi que desconheciam no Novo Mundo. Em lugar de carros, havia homens que carregavam os viajantes nos ombros. No dia em que o aprisonaram, o rei do Peru fazia-se assim transportar, sobre um assento de ouro, durante o combate. Queriam-no vivo os espanhóis, mas à proporção que matavam os carregadores, outros surgiam para substituir os mortos e o soberano só foi detido afinal quando um cavaleiro o derrubou por terra."
LIVRO: Coleção: OS PENSADORES // Volume: Michel de Montaigne // Livro: ENSAIOS I // Editora: Abril Cultural // São Paulo: 1972, 1a. edição

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A PROSA ELEGANTE DE FLAUBERT


QUEM?
Gustave Flaubert, (1821-1880) Brilhante e renomado escritor francês.

COMENTÁRIO
Flaubert era daqueles escritores terríveis, no bom sentido, é lógico. Gênio da literatura universal, escreveu trabalhos lendários como Madame Bovary e a Educação Sentimental, e detinha um estilo único e marcante muito admirado através dos tempos por quem gosta de boa literatura. A citação escolhida advém do livro Três Contos.

CITAÇÃO
"O ar estava pesado, as estrêlas brilhavam, a enorme carroça de feno oscilava diante deles; e os quatro cavalos arrastavam as patas, levantavam poeira. Depois, sem precisar de ordens, dobraram à direita. Ele a abraçou mais uma vez. Ela desapareceu no escuro." (pag18)

LIVRO: TRÊS CONTOS // AUTOR: GUSTAVE FLAUBERT // EDITORA: COSACNAIFY // 2004

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O GENTIL ESCRITURÁRIO DE MELVILLE

QUEM?
Herman Melville (1819-1891) Notório escritor norte-americano que, entre outras coisas, marinheiro que era, escreveu sobre as aventuras dos mares do mundo com grande talento.

COMENTÁRIO
Bartleby, O Escriturário é um personagem destes inesquecíveis. Faz lembrar alguns
japoneses menos privilegiados que dormem em gavetas por não terem condições financeiras de voltarem diariamente para casa. Com sua simplicidade e delicadeza marcantes, na belíssima construção dramática de Melville - criador da imortal baleia Moby Dick, e suas aventuras - vive-se o dilema de um patrão que se vê às voltas com um escriturário excêntrico, sistemático e miserável, que irá levá-lo às raias da loucura. Uma obra prima da literatura universal de todos os tempos. Humano, engraçado, triste, cômico, trágico, mágico, genial: Melville! Com os comprimentos do Editor Escriba.

CITAÇÃO
"Depois de examinar detidamente o local, conjecturei que já devia haver algum tempo que Bartleby comia, se vestia e dormia no meu escritório, e tudo isto sem prato, espelho ou cama. O assento estofado de um velho e desconjuntado sofá a um canto mostrava ainda a vaga marca do corpo raquítico que ali estivera deitado. Sob a sua escrivaninha encontrei um cobertor enrolado; sobre a grelha vazia da lareira, uma lata de graxa e uma escova; numa cadeira, uma bacia de alumínio, sabão e uma toalha esfarrapada; num jornal, algumas migalhas de bolinhos de gengibre e um pedaço de queijo. Sim, pensei, é evidente que Bartleby fez daqui a sua casa, o seu quarto de celibatário. Senti imediatamente o drama: que miserável desamparo, que solidão ali se revelavam!"

LIVRO: Bartleby, O Escriturário // AUTOR: Herman Melville // EDITORA: ROCCO // 1986

O CAPOTE DE GOGOL


QUEM?
Nicolau Gogol (1809-1852), brilhante escritor ucraniano.
*
COMENTÁRIO
Na Rússia de Gogol, vemos um povo de alma bela, forte e nobre, submetido às mais duras provações possíveis de se imaginar, onde muitas vezes o orgulho patriótico se mistura e se funde à submissão subserviente exacerbada e sem limites - algo parecido com a realeza britânica, com sua necessidade compulsiva por um herdeiro homem para o trono, um falo a que se cultuar - hábito antiquíssimo que remonta a própria história do homem na Terra - muito praticado em diversas culturas, originado da necessidade básica que afligiu os povos do Mundo em diferentes épocas - que é poder unir todo um povo, toda uma nação, sob uma única égide, um único soberano, especialmente, em territórios muito vastos e desunidos, em reinos muito extensos, como era o caso da Rússia do século XIX. A citação escolhida foi compilada do magnífico e imortal Conto de Nicolau Gogol "O Capote", e gira em torno da miserável situação social do povo russo à época, retratando com sabedoria e brilhantismo a burocracia vigente nas hierarquias governamentais, e o pseudo poder gozado pelos chefetes da vez, em contraste com a dura realidade das coisas simples e importantes da vida cotidiana, no caso aqui: um cidadão comum em meio a tantos outros, o frio extremo da mãe Rússia e um casaco, ou melhor, um capote, como se diz por lá em terras asiáticas. Literatura de altíssimo nível com recomendação especial deste humilde Editor. É só conferir e se deleitar!
*
CITAÇÃO
"O espírito de imitação infectou fortemente nossa santa Rússia, cada um quer bancar o chefe e imitar alguém maior: certo conselheiro titular chamado a dirigir uma repartição sem importância apressou-se, dizem, a arrumar, com ajuda de uma divisória, uma espécie de quarto, pomposamente chamado de 'gabinete do diretor'; porteiros de colarinho vermelho e galões em todas as costuras abriam a quem chegasse a porta de seu antro, onde mal cabia uma modestíssima mesa. Nosso personagem importante afetava um ar nobre e maneiras altivas. Seu sistema, dos mais simples, baseava-se unicamente na severidade. - Severidade, mais severidade, sempre severidade! , repetia ele sem cessar fulminando seu interlocutor com um olhar significativo ainda que supérfluo; os dez ou doze empregados que tinha sob suas ordens estavam cheios de respeito e de temor salutar: assim que eles o viam chegar, abandonavam suas ocupações e esperavam, estáticos em posição de sentido, que ele se dignasse atravessar o escritório. Se ele dirigisse a palavra a um inferior seu, era sempre num tom áspero, e para o mais das vezes uma das três perguntas seguintes: - Onde adquiriu essa arrogância? Sabe com quem está falando? Sabe diante de quem você está?

Era, no entanto, um homem bom, muito prestativo, e ainda havia pouco de um trato agradável com seus amigos; mas o título de Excelência lhe havia virado a cabeça. Assim que obteve este título, seu espírito se perdeu, e ele perdeu todo controle sobre si mesmo. Com seus iguais, conduzia-se ainda como um homem bem educado, nada burro sob muitos aspectos; mas, se porventura se misturassem à sua companhia pessoas inferiores, ainda que apenas de um grau abaixo da categoria que ele ocupava na hierarquia, ele se tornava de imediato insuportável, esquecia toda polidez e não dizia palavra. Isso não o empedia de se dar conta de que poderia ter passado o tempo de uma maneira muito mais agradável." (pag33)
*
LIVRO: CONTOS RUSSOS ETERNOS // AUTOR: NICOLAU GOGOL // EDITORA BOM TEXTO // RIO DE JANEIRO // 2004.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

MÉRIMÉE NÃO ERA UM IMBECIL


QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês.
COMENTÁRIO
Prosper Mérimée nasceu bem: filho de artistas abastados, viveu e recebeu a nobre cultura européia no seio de sua própria família, encarando com naturalidade o refinamento das artes e das altas rodas da nobreza, ou seja, tinha tudo para ser uma besta quadrada, como dizia meu avô: um imbecil. Mas não o era, pelo contrário, escrevia com competência e arte, e soube descrever com precisão e bom gosto, os meandros deste mundo rico e privilegiado, com todas as suas indubtáveis hipocrisias inerentes mas, igualmente, carregado de espirito e bom gosto inegáveis. A citação escolhida aqui advem do inspirado conto "Il Viccolo di Madama Lucrezia", e remonta uma cituação notável pela qual todos nós já passamos alguma vez, onde um grupo de pessoas afins se juntam ao acaso do destino para contarem estórias sobrenaturais, e o torpor interessante que tais situações instigam. Literatura fina.
CITAÇÃO
"Iniciado o capítulo dos histórias sobrenaturais, não há nada que interrompa. Cada um de nós tinha um caso para conter. Também participei do cocerto daquelas narrativas terrificantes; de maneira que, quando nos separamos, estávamos todos passavelmente emocionados e cheios de respeito para com os poderes do diabo."

LIVRO: "HISTÓRIAS IMPARCIAIS" // AUTOR: PROSPER MÉRIMÉE // EDITORA CULTRIX // RIO DE JANEIRO // MCMLIX

domingo, 18 de janeiro de 2009

A CIGANA CARMEM DE MÉRIMÉE


QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês.
COMETÁRIO
No interessante Conto Carmem, o viajante Mérimée realiza um esquadrinhamento da cultura nômade espanhola e europeia, fazendo um um raio X detalhado dos hábitos dos ciganos, seus costumes e suas longíncuas origens. Um dramática História de amor, morte e paixão arrebatadora.
CITAÇÃO
"Não obstante a miséria em que vivem, e a espécie de aversão que inspiram, os ciganos gozam de certa consideração entre pessoas pouco esclarecidas, e disso muito se envaidecem. Sentem que pertecem a uma raça superior pela inteligência, e desprezam cordialmente o povo que os acolhe." (pag124)


LIVRO: "HISTÓRIAS IMPARCIAIS" // AUTOR: PROSPER MÉRIMÉE // EDITORA CULTRIX // RIO DE JANEIRO // MCMLIX

sábado, 17 de janeiro de 2009

A HISTÓRIA DE UM CAVALO POR LEÃO TOLSTÓI

QUEM?
Leão Tolstói (1828-1910) ou, simplesmente, Лев Николаевич Толстой - eminente escritor russo.
COMENTÁRIO
Alguns críticos, talvez por não terem o que dizer de concreto sobre a literatura da mãe Rússia e seus inumeráveis talentos, arriscam dizer sobre algum escritor aqui e ali, independentemente de sua nacionalidade, fazendo menção a uma certa maneira de explorar as misérias do dia-a-dia, dizendo que estes são 'russos demais'. Puro despeito, pois seus verdadeiros expoentes, como é o caso de Tolstói , Gorki, Tchékhov, Dostoiéviski entre muitos outros, são escritores fantásticos, que souberam escrever muito bem sobre as mazelas e qualidades de sua Pátria e de seu povo. A citação escolhida aqui, vem de um conto interessantíssimo, onde o Mestre conta toda a história do ponto de vista subjetivo do personagem principal: Kholstomér; um cavalo muito simpático. Muito triste e emocionante, ainda assim, uma belíssima história que valoriza de forma brilhante a vida animal de uma maneira geral e que, com certeza, comoverá o leitor, assim como comoveu este dedicado Editor. Da Redação.
CITAÇÃO
"Quando dei a volta da vitória, a multidão me seguiu. E umas cinco pessoas ofereceram milhares de rublos ao príncipe. Ele apenas riu, mostrando os dentes brancos.
- Não, disse ele - ele não é um cavalo, é um amigo, e eu não o vendo nem por uma montanha de ouro. Até a vista, senhores - e acomodou-se no assento. - Para Stojinka. - Era o apartamento de sua amante. E nós voamos para lá. Foi nosso último dia feliz. Chegamos á casa dela. Ele dizia que ela era dele. Mas ela se apaixonou por outro e o deixou. Ele soube disso lá, no apartamento. Eram cinco horas e ele foi atrás dela sem me desatrelar. Coisa que nunca tinha acontecido: açoitaram-me com o chicote e me fizeram galopar. Pela primeira vez perdi o passo, fiquei com vergonha e quis acertar, mas, de repente, ouvi o príncepi gritar feito possesso: "Anda!". Fustigou-me com o chicote, senti a pontada e saí a galope batendoas patas no jogo dianteiro do coche. Nós a alcançamos vinte e cinco verstas adiante. Eu o levei até lá, mas passei a noite toda tremendo, nem comer eu consegui. De manhã deram-me água. Bebi, mas para o resto da vida deixei de ser o cavalo que era. Fiquei doente, atormentaram-me e me mutilaram - curaram-me, como dizem os homens. Meus cascos se soltaram, meu peito sumiu, a fraqueza e o abatimento tomaram conta de mim. Venderam-me a um negociante de cavalos."
LIVRO: O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS // AUTOR: LEÃO TOLSTÓI // EDITORA: COSACNAIFY // SÃO PAULO // 2000/2005.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

VOLTAIRE CÍNICO E INTELIGENTE

QUEM?
François-Marie Arouet (1694-1778), pseudônimo Voltaire, escritor ensaísta e filósofo francês.

COMENTÁRIO
Comentar e resenhar o Dicionário Filosófico de Voltaire é tarefa árdua pois tudo, ou quase tudo, ali escrito em forma de Ensaio, é muito bom, e assim, seria preciso citar a obra toda. E foi mais ou menos isto que acabei fazendo, pois este admiravel livro é recheado de pérolas do pensamento e por jóias da filosofia que merecem ser lidas e revisitadas. A citação escolhida aqui faz referência a esta força misteriosa presente em todas as coisa e lugares, que uns chamam de Natureza e outros chamam de Deus.

CITAÇÃO
"Admiramo-nos do pensamento; mas o sentimento é igualmente maravilhoso. Um poder divino lampeja na sensação do último dos insetos como no cérebro de Newton." (pag287)

Livro: DICIONÁRIO FILOSÓFICO // Autor: VOLTAIRE (1694-1778) // Editora: ATENA, SÃO PAULO, 1959
Imagem: Encontrada em... http://www.nndb.com/people/556/000024484

A PESTE DE CAMUS

QUEM?
Albert Camus (1913-1960), escritor e filósofo argelino-francês.

CITAÇÃO
"Desde que entrara para as brigadas sanitárias, Paneloux não abandonara os hospitais e os lugares onde se encontrava a peste. Tinha-se colocado, entre os salvadores, na posição que lhe parecia ser a sua. Quer dizer, no primeiro posto. Não lhe tinham faltado os espetáculos da morte. E embora, em princípio, estivesse protegido pelo soro, a preocupação com a sua própria morte não lhe era estranha. Aparentemente, mantivera sempre a calma. No entanto, a partir do dia em que vira longamente uma criança morrer, pareceu modificar-se." (pag193)

COMENTÁRIO
Em plena guerra, Mestre Camus escreve "A Peste". Era o artista tentando sobreviver e tirar alguma sabedoria e proveito desta empreita, indubitavelmente maléfica. Genial! Leitura obrigatória para quem ama literatura e filosofia.

LIVRO: "A PESTE" // AUTOR: ALBERT CAMUS // EDITORA RECORD // RJ/SP // 2004 // 15a. EDIÇÃO
Imagem: Encontrada em... http://www.consciencia.org/bancodeimagens/displayimage-lastcom-0-534.html

TAMANGO DE MÉRIMÉE


QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês.

COMENTÁRIO
Cena: Uma rebelião num barco negreiro no famigerado tempo das grandes navegações, e suas intermináveis atrocidades. Ação: Carnificina e vingança inter-racial. Drama: Uma nave desgovernada. Contexto: À bordo, homens desesperados e ignorantes das leis náuticas da navegação, perdidos em alto mar. Tudo isto, toda esta mistura de elementos instigantes, forma o ambiente perfeito para uma bela trama, com desfecho mais surpreendente ainda. Literatura clássica de altíssima qualidade, de um grande Mestre do Conto; é só ler e conferir! Da Redação Escriba.

CITAÇÃO
"Quando o cadáver do último branco, retalhado e cortado em pedaços, foi atirado ao mar, os negros, saciados de vingança, ergueram os olhos para as velas do navio que, enfunadas por um vento fresco, pareciam continuar a obedecer aos seus opressores e conduzir os vencedores, malgrado a vitória obtida, à terra da escravidão." (pags44-45)

"Tamango examinou demoradamente a bússola, mexendo os lábios, como se lesse os caracteres nela traçados; depois, levou a mão à testa e assumiu a atitude refletida de quem faz um cálculo mental. Os negros rodeavam-no, boca escarnada, olhos desmesuradamente abertos, acompanhando com ansiedade seus mínimos gestos. Finalmente, com a mistura de temor e de confiança que resulta da ignorância, imprimiu um movimento à roda do leme. A manobra inaudita fez o belo brigue Esperança saltar sobre as ondas como um fogoso corcel que se empina sob a espora de um cavaleiro imprudente. Dir-se-ia que, indignado, queria mergulhar, levando consigo o piloto ignorante."

LIVRO: "HISTÓRIAS IMPARCIAIS" // AUTOR: PROSPER MÉRIMÉE // EDITORA CULTRIX // RIO DE JANEIRO // MCMLIX
Imagem: Encontrada em... http://en.wikipedia.org/wiki/Prosper_M%C3%A9rim%C3%A9e

PROSPER MÉRIMÉE


QUEM?
Prosper Mérimée (1803-1870), dramaturgo, contista, historiador e arqueologista francês.
CITAÇÃO
"Então, priminho, queres este relógio? Fortunato, que olhava o relógio com o canto dos olhos, assemelhava-se a um gato a quem acenassem com um frango inteiro. Sentindo que escarnecem dele, não ousa erguer a pata e, de quando em quando, desvia os olhos para não sucumbir à tentação; mas lambe os beiços, continuamente, e parece dizer ao seu dono: - Que brincadeira cruel!" (pag23)
COMENTÁRIO
No belíssimo conto "Mateo Falcone", que abre o livro coletânea Histórias Imparciais, temos esta passagem de extrema tensão, onde um garoto pobre de apenas dez anos tenta resistir à tentação de aceitar o subordo oferecido - um relógio - para em troca revelar um possível acoitamento de um foragido da polícia que ali o interrogava. Mestre Mérimée usa de seu estilo elegante e, através de alegorias interessantes, faz-nos entender plenamente o que queria comunicar, e o faz com clareza e bem humorado êxito.
LIVRO: "HISTÓRIAS IMPARCIAIS" // AUTOR: PROSPER MÉRIMÉE // EDITORA CULTRIX // RIO DE JANEIRO // MCMLIX