sexta-feira, 16 de julho de 2010

ANTROPOLOGIA: HOMENS E CÃES ATRAVÉS DOS TEMPOS E DA HISTÓRIA POR J BAMBERG

QUEM?
Professor J. Bamberg. Caro amigo antropólogo colaborador deste blog.
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COMENTÁRIO
J. Bamberg é figura ímpar que essa vida me deu meio que sem querer, cabra que escreve com a alma brasileira na ponta da pena - digo - na ponta do teclado e do mouse, sempre que pode estar diante de sua tela internautica computadora digital. E é ali, diante da máquina fala-escreve orweliana, que ele se solta e escreve como ninguém. Aqui, nestes textos, temos uma aula sobre a história domundo e as relações homens/cães, e já que estes gentís animais tem sido foco de nossas elocubrações literárias nesses dias fugidios da pós-modernidade, com vocês o professor J. Bamberg, nosso mais novo colaborador nesse editorial, em bamberguês original.
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EDITORIAL
"Caríssimo Don Alejandro, El Escriba, Um ditado velho,lá dos 60/70, época da 'durêta' no couro de todos nós, diz:'...sofre mais que mulher de comunista e cachorro de índio!...'.Essa fala aponta numa direção curiosa,se,não, bizarra. O nosso 'índio', em geral,até recentemente não queria cachorro beirando seus terrais,nem...A vara 'comia' no couro dos canídeos,via de regra..."-...xê-têt-têêê-ì !!!.....", em ofensa irretratável a expurgá-los do campo de visão de qualquer tupynâmbo,em geral... O que o R.Linton aponta é um traço do 'indio',comanche,sioux,oglala e muitos mais, lá dos EEUU,havendo muitos outros que não os tolerava.Lá e cá, o ocorrido com o cavalo,o boi, e, com o cachorro,em especial, tem diferenças interessantes,pois. Aquí,e,claro,lá, o cachorro veio com o colonizador e em maioria de vêzes,em persiga do nosso 'primeiro-dono-da-terra', o 'negro-da-terra',leia-se,o'indio', que,porisso mesmo o odiava e sequer o caçava para comer...Ódio figadal,já descrito e muito bem, por Bartolomé de las Casas, em obra simple e belíssima!...Depois, com as saudabilíssimas misturanças dos povos de lá com os de cá,e com,principalmente,a meu rude ver,muito mais do que o colono,entradista,bandeirante ou lavrador,à exceção do vaqueiro ou negríndio, a presença do negro-escravizado-e-fugido, já aquilombado nas aldeias mais a dentro e protegido pelo 'indio' e,maioria das vêzes, por lá ficando, casando-se, tornando-se um cunhado,já um familiar,com direito a plantar roças e tanto o mais, o cachorro - trazido pelo colonizador como ferramenta,arma de guerra e depois,também,companheiro dêsses 'outros'-veio junto,para ficar e fazer parte do contexto. Lembremos: presença dos cães nas diversas culturas africanas é bem comum, seja no pastoreio,principalmente, também,na guarda,nas guerras e na caça ou enquanto 'companhia',havendo casos múltiplos de 'entêrros',sepultamentos, onde o cão está ao lado do seu dono/a,todos já mortos,óbvio, 'seguindo juntos a grande viagem'...Entre os egípcios,uma constante para quem os tivesse em zêlo.No nosso caso,não.E,a princípio,isso ocorre depois da apropriação cavalo e do boi,por exemplo.O cavalo enquanto 'ferramenta-de-guerra' e o boi,ainda arisco,perdido,na mata, no mato,aos primeiros tempos, um animal-mítico,maior do que o tapyr, a anta, e com chifres fortes e mortais, que solta urros como um Iyaguá-açú-caang-uçú...Um novo 'ente' na sua imagétika-mítica de curupiyras, caapóras e tanto mais...Êsse, estranho ser, que,só recentemente entra para a dieta da maioria dos Povos Indígenas- especialmente,daquí,Sul da América,no,hoje,Brasil."
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"Lá,ao lado norte da América, só depois da mortandade absurda dos buffalos,pelos colonizadores,cowboys,soldados e outros aventureiros até internacionais, alí,apenas pela simples caçada, e a consequente escassez de carnes e couros,necessários ao enfrentamento dos tempos invernais,por parte dos Povos Indígenas,lá instalados desde quase sempre e então invadidos e perseguidos,terras de cultivos tomadas e sei lá mais o que a lhes conduzir para as 'reservas',os mais verdadeiros campos de concentração a céu aberto e escola maldita para outras experiências semelhantes,já em tempos posteriores,o século,ocidentalmente dito,20 ... - enquanto ítem da alimentação diária, a concorrer ou substituir o peixe e a caça, as frutas e mel,insetos e outros mais.Há linhas etnológicas que pensam a presença dos cães junto aos humanos,até enquanto contributivo,significante, para a instalação dos grandes grupos, famílias e mais a definirem o que ,depois da simples socialização viesse a se transformar e evoluir para a Sociedade atual. O cão ,depois da domesticação,passa a ser ,quase, um 'ente da família', coisa que, de fato, vem a ocorrer na contemporaneidade. O companheiro da caça e da guerra evolúi para o'melhor amigo' que se transforma no 'seu filho' bem como num belo pitéu mercadológico, com gordíssimas fatias de participação no ambiente do grande-consumo.Comida,remédios,brinquedos,roupas e sei lá mais quantos outros tantíssimos ítens à disposição dos bichinhos e dos seus embevecidos donos/as-papais-mamães'.Bela matéria, a vossa, lá no Escriba, que não consigo 'acessar',para postar as minhas bestidades comentárias... Como fazê-lo,pois?!...Escrevo a'palavra-código',do quadradinho,me qualifico,ponho o password, e... Nada...Coisas dessa maquininha infernal!...Grande e confraterno abraço,para vossência e d.Cris,e a mais, em aguardo do amigo Escriba,para uma 'churrascada- sangrenta', de fazer cachorro babar, aquí em BsB, 'terra-que-muito-cachorro-manda-e-manda-muito'...Do seu mano mais rude, e ex-quadrúpede,quase bípede e atual,trípede,"JB
13 de julho de 2010 18:44

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Continua...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ANTROPOLOGIA: O INDUBTÁVEL VALOR DOS CÃES NAS CULTURAS HUMANAS

COMENTÁRIO
Os cães têm, dentre muitas outras, a qualidade simples e fundamental do perdão. Eles não nos guardam rancor nem ressentimento e sabem sem dúvida nos perdoar por todas as nossas desumanidades. Mesmo que alguns desses sujeitos mais sortudos sejam mimados, acariciados, tratados com dignidade e respeito, com admiração e verdadeiramente com amor por alguns donos menos desumanos; outros, por sua vez, são destratados como seres inferiores e podem de fato ser trancados, acorrentados, mal-tratados e até mesmo torturados e mortos por nós, animais ditos superiores; e, ainda assim, independentemente de tudo, guardam-nos afeição e matêm-se firmes ali, do nosso lado, faça chuva ou faça sol. São seres vibrantes, valentes, briosos, e podem ser companheiros de uma vida toda - digo deles - podendo viver mais de uma década ao lado de seu dono, fielmente, sem nunca fraquejar ou duvidar de sua devoção e admiração pelo ser que escolheu como companheiro de jornada. Alguns esotéricos afirmam, e eu concordo com eles: Os cães nos escolheram para companheiros no decorrer e desenrolar da história de ambas as espécies, e não o contrário.
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A propósito, esse cara da foto é o Jojoba, um cão interesantíssimo que descende de uma linhagen de cães nobres que viviam no Altiplano brasileiro em meio às árvores retorçidas e belíssimos córregos de águas puras e cristalinas. Jojoba, esse cara-de-pau oportunista e malandrão, é filho do Sansão, um cachorro especialíssimo que me acompanhou por mais de uma década - cuja memória me é saudosa até os dias atuais - e que, por sua vez, foi filhote de uma cadela Fila fantástica de um amigo chamada Odara. Ou seja, esses caras quadrúpedes me acompanham pela vida desde que me entendo por gente.
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Numa lista mais abrangente entrariam certamente outros cães e gatos notáveis com os quais tive a oportunidae e a honra de conviver na vida: Duque, Dalila, Linguiça, Zugui, Sansoquinha, Braveza, Loba, Kinco, Croquete, Dark, Mio e Pilsining (gato) cuja memória é evocada sempre e com profunda saudade em nossa família. Estes seres fazem parte de nossas vidas e têm mais a ver conosco do que imaginamos. Sistemicamente, eles se acoplaram a nós com enorme perfeição, o que veio a acarretar a eficiência de ambas as espécies. Definitivamente, estes seres merecem a nossa admiração.
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O antropólogo norte-americano Ralph Linton, em seu clássico O Homem: Uma introção à antropologia, faz menção à íntima relação social dos Comanche com seus cães. Estes fantásticos animais eram tratados praticamente como iguais, gozando de um status de partícipe da própria cultura desses ameríndios do Norte por puro mérito e competência.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Os Comanche possuem dois animais domésticos, o cavalo e o cachorro. Os cavalos tinham para a tribo uma importância econômica extrema, pois deles dependiam quase todas as técnicas de caça, bem como o padrão todo da sua vida nômade. Por outro lado, a única utilidade possível dos cachorros era dar alarma contra um ataque noturno; utilidade, porém, que nunca vinha mencionada nas histórias comanches. Os antigos cachorros dos Comanche eram animais pequenos, nunca empregados para seguir rastros, nem para transporte [tração], nem para alimentação. Eram mantidos apenas como animais de estimação e dependiam tanto de seus donos que muitas vezes eram carregados a cavalo, quando um bando mudava de acampamento. Não obstante, parece que os cavalos eram considerados mais ou menos como consideramos as máquinas. Não tinham nomes, a não ser os nomes puramente descritivos, baseados na cor; e parece que seus donos tinham por eles pouca afeição e interesse. Nenhuma história se contava a respeito de um determinado cavalo; e o máximo que qualquer Comanche diria, a respeito dos que tivesse possuído, seria que um certo cavalo era bom na pista e na caça. Ainda mais impressionante é que os cavalos não parecem ter ocupado nenhum lugar na vida cerimonial da tribo. talvez fossem oferecidos numa dança, ou dados em pagamento a um médico-feiticeiro. Mas, nessas ocasiões, apresentavam apenas um valor intrínseco. Nunca apareciam em visões ou sonhos significativos, a não ser como pormenores acidentais; e eram, entre os animais conhecidos pelos Comanches, dos poucos a que nunca se atribuiu poder sobrenatural.
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Os cachorros, ao contrário, tinham nomes individuais, bem como o que podemos chamar de 'personalidades sociais'. Todos no bando conheciam suas indiossincrasias individuais e tratavam os cachorros quase como a crianças. Um velho contava uma história de uma cachorra preta, que tinha sido como uma segunda mãe para ele em sua meninice. E todo homem falaria durante horas sobre os cahorros que tinha conhecido. O presente de um cachorro de estimação estava em plano emocional muito diferente do presente de um cavalo, indicando a existência de uma relação mais pessoal e íntima que profissional ou cerimonial. Considerava-se como especialmente precioso o cachorro de estimação dado por um amigo ou parente falecido. Essa atitude se refletia no costume de pedir um desses animais como parte da indenização a ser paga a um marido ultrajado pelo amante de sua mulher. Em tais situações, o marido procurava mais a vingança que o lucro; e a perda do cachorro penalizaria mais um homem do que a perda de vários cavalos. matar um cachorro, ainda que fosse estranho, é ainda considerado de mau agouro e suscetível de provocar a morte dos filhos do matador. Finalmente, os cachorros apareciam em sonhos como figuras centrais, embora pareça que não eram dotados de poder. De tudo se depreende que, embora o cavalo ultrapasse muito o cachorro, em importância econômica, o cachorro ultrapassa muito o cavalo na avaliação do interesse. Embora usando mais o cavalo, muito mais necessário para a sua sobrevivência, os Comanche atribuíam maior significado ao cachorro. Talvez se alegue que não é justo comparar o interesse por um animal de trabalho com o interessse por um animal de estimação, porque esse último é, na realidade, membro da sociedade e, portanto, considerado pelo grupo, por assim dizer, como que pertencendo ao lado humano. Imediatamente, porém, surgiria o problema: - por que os Comanche não fizeram dos cavalos seus animais de estimação, como tantas outras sociedades? A resposta é que não tinham interesses suficiente por eles. Podemos assim fechar um dos círculos em que os elementos culturais se dispõem onde quer que estudemos um continuum cultural tomado em um único ponto de sua extensão." (pág. 404-405)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira) // FOTO: Juliano Thuran
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AS MULTIPLICIDADES ORGANIZACIONAIS E SOCIAIS DA VIDA GREGÁRIA

QUEM?
Ralph Linton (1893/1953). Antropólogo norte-americano. Autor de Cultura e Personalidade e O Homem: Uma introdução à antropologia.
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COMENTÁRIO
Em meio à teoria antropológica profunda, Ralph Linton nos propõe noções de realidade bastante críticas e contundentes para as manifestações culturais que tal doutrina se inclina a estudar. Um pensador competente com uma prosa clara: eis a fórmula do sucesso - digo - do pleno deleite do leitor instruído.
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CITAÇÃO
"A cidade moderna [1936], com sua multiplicidade de organizações de toda espécie, dá a imagem de uma massa de indivíduos que perderam seus bandos e estão tentando, de maneira incerta e tateante, substituí-los por alguma outra coisa." (pág226)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira) // IMAGENS: Alexandre Quaresma
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terça-feira, 6 de julho de 2010

A MENOPAUSA SOBRENATURAL DA MULHER COMANCHE PELA PENA DE RALPH LINTON

QUEM?
Ralph Linton (1893/1953). Antropólogo norte-americano. Autor de Cultura e Personalidade e O Homem: Uma introdução à antropologia.
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COMENTÁRIO
A vida é constituída e configurada segundo uma série complexa de crenças e valores. Os Comanches acreditavam que as mulheres só deviam ter contato com o mundo do além depois de chegarem a uma certa idade. E assim o era. Por quê? Peculiaridade cultural da sociedade em questão.
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CITAÇÃO
"Assim, as mulheres Comanche ficavam liberadas, depois da menopausa, da proibição de lidar com o sobrenatural. Tinham permissão para manejar os objetos sagrados, adiquirir poder por meio de sonhos e entregar-se às práticas dos xamãs, coisas que eram proibidas às mulheres que ainda estavam em idade de procriar." (pág122)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira)

A ANTROPOLOGIA DE RALPH LINTON: O CANIBALISMO E A ACULTURAÇÃO

QUEM?
Ralph Linton (1893/1953). Antropólogo norte-americano. Autor de Cultura e Personalidade.
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COMENTÁRIO
Vão aqui duas pérolas, por assim dizer, escolhidas na excelente obra O Homem - Uma introdução a antropologia de Ralph Linton. A primeira é instigante e trata de hábitos culturais de humanos comendo outros humanos. A segunda trata da aculturação sofrida por povos vencedores em processos de conquista e colonização. Em ambas a narrativa é teórica, mas temos a nítida sensação de estarmos vendo um filme ou presenciando os acontecimentos em si, desdobrando-se socioculturalmente diante de nossos olhos - digo - na nossa imaginação. Realmente muito bom! Da Redação.
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CITAÇÕES
"O mesmo grupo honesto e bondoso em seu trato interno pode ser traiçoeiro e friamente cruel no seu trato com estranhos. Assim, os membros de uma tribo marquesana, extraordinariamente bondosos e respeitosos entre si, encaravam o fato de comer um membro de sua tribo de maneira muito aproximada á maneira pela qual encaramos o canibalismo. As suas histórias a respeito de indivíduos culpados desse crime refletem o mesmo horror das nossa lendas de papões e feitiçeiros antropófagos. Mais comiam sem nenhum escrúpolo os membros de outras tribos. É verdade que no comer guerreiros inimigos entravam elementos de serimonial e de vinçança, mas mulheres e crianças estranhas eram devoradas simplesmente porque sua carne era apreciada. Esses marquesanos caçavam os membros de outras tribos mais ou menos como caçavam porcos; e tratavam com inconsciente crueldade os seus prisioneiros. Quando havia maior número de prisioneiros que o necessário para um festim, suas pernas eram quebradas a fim de evitar que fugissem e de guardá-los para quando fossem necessários." (pág233)
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"Este processo exemplifica principalmente a aculturação. A fusão cultural de conquistadores e conquistados torna-se inevitável logo que os conquistadores perdem o contato uns com os outros. Sem um núcleo de indivíduos que estejam em associação constante, as culturas não podem manter-se intactas. O vencedores talvez façam um esforço consciente para manter sua antiga cultura em benefício de seu prestígio social e pode ser que consigam manter a maioria de suas formas exteriores. Não poderão, porém, manter seus elementos mais sutis e mais vitais. Uma das caracteristicas dos aristocratas, em todo o mundo, é que eles relutam de cuidar de seus próprios filhos, o que é bem compreensível para quem conheça o trabalho de tomar conta de duas ou três crianças ao mesmo tempo. Esta árdua tarefa é relegada aos escravos ou servos tirados do grupo de vencidos. Quer dizer que a criança fica exposta à cultura deste grupo durante o período de formação por excelência. Apreende a lígua dos vencidos antes de apreender sua própria língua e inconscientemente absorve a maior parte de suas atitudes, o que aliás constitui para ela uma vantagem, porque mais tarde terá de tratar principalmente com os dominados. Mas significa a destruição dos conquistadores como unidade social e cultural integrada." (pág.240)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira) IMAGEM: Ilhas Marquesas (Polinésia francesa)

domingo, 4 de julho de 2010

O INDIVÍDUO MEDIANO NA ANTROPOLOGIA ELEGANTE DE RALPH LINTON

QUEM?
Ralph Linton (1893/1953). Antropólogo norte-americano. Autor de Cultura e Personalidade.
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COMENTÁRIO
Ralph Linton escreve com clareza. Qualidade importantíssima num homem de letras. Em seu estilo marcado pela objetividade o autor trata de questões complexas com muita simplicidade e eficiência, enfim, entendemos plenamente o que ele quer nos dizer. Ou seja, há a tão almejada comunicação! Sem dúvida, premissa seminal de quem escreve. E, deveras, sua mensagem é contundente. Na citação escolhida, podemos vê-lo se referir à essa massa de pessoas que compõem a média geral e que quase nada influenciam na coleção de valores culturais da humanidade. Crítica direta e visceral, sem nenhuma espécie de rodeio ou pudor. Competentíssimo.
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Da Redação
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CITAÇÃO
"Em toda sociedade, o indivíduo mediano parace ser um portador bastante passivo da cultura, recebendo-a de seus predecessores e transmitindo-a a seus descendentes, sem modificações especiais." (pág.62)
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LIVRO: O Homem: Uma introdução à antropologia // AUTOR: Ralph Linton // EDITORA: Martins Fontes // SãoPaulo: 1987 (12a edição brasileira)
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domingo, 20 de junho de 2010

AS VISÕES DE FUTURO DE MICHIO KAKU

QUEM?
Michio Kaku (1947). Físico teórico norte-americano. É professor e co-criador da teoria de campos de corda, um ramo da teoria das cordas. Autor do livro Hiperespaço.
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COMENTÁRIO
Visões do Futuro é um livro onde o autor tenta fazer previsões sobre o que acontecerá nos próximos 20, 50 e 100 anos, com o advento das novas tecnologias, e com a interação destas com a sociedade. Como ele escreveu o referido livro em 1997, hoje em 2010, 13 anos depois, podemos conferir algumas de suas previsões na prática, constatando acertos e erros, peculiarmente, em igual medida, o que prova na prática que o campo das previsões, especialmente em se tratando de tecnociências, não é um campo fácil de se atuar. Na citação, vemos uma das muitas previsões interessantes que ele nos oferece em seu livro.
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CITAÇÃO
"No passado, os biólogos aprendiam sobre a vida analisando o interior de espécimes vivos (isto é, in vivo). No último século, eles aprenderam a estudar a vida no vidro (isto é, in vitro). No futuro, estudarão a vida através de computadores (isto é, in silico)." (pág.190)
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LIVRO: Visões de Futuro - Como a ciência revolucionará o século XXI // AUTOR: Michio Kaku // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro: 2001

sábado, 19 de junho de 2010

O SUCESSO SEGUNDO WINSTON CHURCHILL

QUEM?
Sir Winston Leonard Spencer-Churchill (1874/1965). Estadista, escritor e jornalista britânico. Foi o primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial.
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DEFINIÇÃO
"Sucesso nada mais é do que ir de fracasso em fracasso com inquebrantável entusiasmo." (pág.169)
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LIVRO: Visões de Futuro // AUTOR: Michio Kaku // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro: 1997

sexta-feira, 18 de junho de 2010

ZEN, FÍSICA QUÂNTICA E COMPLEXIDADE

COMENTÁRIO
Numa fábula zen, três monges contemplam a bandeira tremulando no alto do templo e surge o seguite diálogo que, numa objetividade incrível, dá conta de nos levar a refletir sobre o que é verdadeiramente a complexidade do real e suas infinitas possibilidades e configurações. Trata-se de uma mistura bombástica que, com efeito, traz a luz que nos permite compreender a forja da realidade: Zen, física quântica e complexidade.
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FÁBULA
O primeiro monge diz: "A bandeira está se movendo."
O segundo monge diz: "Não, é o vento que está se movendo."
Por fim, o terceiro monge diz: "É a mente que está se movendo."

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A MORTE ATRAVÉS DA PENA COMPETENTE DO SOCIÓLOGO FRANÊS EDGAR MORIN

QUEM?
Edgar Morin (1921). Antropólogo, sociólogo e filósofo francês.
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COMENTÁRIO
A morte é, sem dúvida e sem trocadilhos, mortificante. Evitando as meias palavras, traz consigo época de trevas e horror: desagregação, em todos os sentidos. Qualquer tentativa de comentário além disso adentraria, sem dúvida, um universo sombrio e nefasto, cujo entendimento e compreensão estão longe de nós: humanos. Deixemos então que fale sobre ela o mestre Edgar Morin.
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CITAÇÃO
“A morte é o buraco negro desvelado desde a pré-história pela consciência racional. Mas esse buraco negro engolirá as consequências racionais dessa consciência.” (pág.124)
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LIVRO: O Método 5 - a humanidade da humanidade - a identidade humana // AUTOR: Edgar Morin // EDITORA: Meridional/Sulina // Porto Alegre: 2007.

INFOPOESIA: SEXO DIGITAL NA ÉPOCA DAS REDES

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor deste blog.
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COMENTÁRIO
O sexo digital na época das redes pode necessitar de pouquíssimos comandos.
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INFOPOESIA
"Enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, esc esc esc, enter enter esc, enter esc, enter enter esc, enter esc, esc enter esc, enter esc esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc...
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Ou, come on, don't stop...
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Enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, esc esc esc, enter enter esc, enter esc, enter enter esc, enter esc, esc enter esc, enter esc esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc, enter esc...
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Down-loads concluídos com sucesso! Deseja salvar como?"

A FELICIDADE POR ESSE ESCRIBA

QUEM?
Alexandre Quaresma (1967). Escritor e editor deste blog.
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AFORISMO
"A felicidade é aquilo que acontece enquanto a gente se distrai."
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COMENTÁRIO
Daí, o dito popular: eu era feliz e não sabia!
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Da Redação.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

UMA RESISTÊNCIA VEEMENTE, SELVAGEM E APAIXONADA POR FRIEDRICH HÖLDERLIN

QUEM?
Friedrich Hölderin (1770/1843). Poeta lírico e romancista alemão.
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COMENTÁRIO
A resistência à barbárie é uma característica intrinsecamente humana assim como a própria barbárie. Daí a importância capital da resistência, especialmente, contra a barbárie humana que pode ser com efeito repelida e evitada, já que nasce de nossas próprias ações. A citação de Hölderin foi retirada do livro O Método 6 de Edgar Morin, intitulado Ética.
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CITAÇÃO
"Quanto mais somos atacados pelo vazio que, feito um abismo, ameaça, por todos os lados, engolir-nos, ou por essa coisa múltipla que é a sociedade dos homens com suas atividades e que, sem forma, sem alma e sem amor, persegue-nos e distrai-nos, mais a resistência da nossa parte deve ser apaixonada, veemente e selvagem." (pág.200)
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LIVRO: O Método 6 - Ética // AUTOR: Edgar Morin // EDITORA : Sulina // Porto Alegre: 2007

segunda-feira, 26 de abril de 2010

UM ENREDAMENTO ABSORVENTE E APRISIONADOR POR EDGAR MORIN

QUEM?
Edgar Morin (1921). Antropólogo, sociólogo e filósofo francês.
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COMENTÁRIO
O sociólogo francês Edgar Morin é de uma clareza fantástica. Na citação, vemo-lo rezumir muito bem o enredamento absorvente e aprisionador de nossa existência neste mundo determinante formatador, que nos molda à sua imagem e semelhança, consumindo-nos sem que nem mesmo notemos. Trata-se de um grande pensador com uma pena firme e uma prosa clara. Da Redação.
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CITAÇÃO
"De fato, sofremos limitações de nosso meio natural; somos prisioneiros de nosso patrimônio genético, que produziu e determinou nossa anatomia, nossa fisiologia, nosso cérebro, logo nossa mente/espírito; estamos fechados em nossa cultura, que inscreve em nós, desde o nosso nasciemnto, normas, tabus, mitos, ideias, crenças; estamos submetidos à nossa sociedade que nos impõe leis, regras e interditos; somos mesmo possuídos por nossas ideias, que se apropriam de nós enquanto acreditamos dispor delas. Assim, somos ecológica, genética, social, cultural e intelectualmente determinados. Como poderíamos dispor de liberdade?
(pág.268)
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LIVRO: O Método 5 - a humanidade da humanidade - a identidade humana // AUTOR: Edgar Morin // EDITORA: Meridional/Sulina // Porto Alegre: 2007.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O NOSSO FUTURO PÓS-HUMANO POR FRANCIS FUKUYAMA

QUEM?
Francis Fukuyama (1952). Filósofo e economista nipo-estadunidense.
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COMENTÁRIO
Até os célebres e notáveis estão sujeitos a equívocos, isso é certo. Um bom exemplo disso foi o anúncio de Francis Fukuyama do fim da história, cujo desmentido do próprio não tardou em contradizê-lo, o que por si, como evento epistemológico, dispensa maiores comentários. Independentemente de situações desconfortáveis como essa, é justo registrar também que esse equívoco flagrante não impidiu o mesmo autor de seguir adiante e escrever um outro livro muito interessante, que é: O Nosso Futuro Pós-Humano- Consequências da revolução da biotecnologia. Na citação, vemos a preocupação latente do autor quanto ao futuro da humanidade diante do fenômeno inusitado do pós-humano e suas infindáveis consequências. Da Redação.
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CITAÇÃO
“Poderíamos assim emergir do outro lado de uma grande linha divisória entre história humana e pós-humana sem nem mesmo perceber que o divisor de águas fora rompido porque teríamos sido cegos ao que era essa essência [humana].” (pág.111)
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LIVRO: Nosso Futuro Pós-Humano // AUTOR: Francis Fukuyama // EDITORA: Rocco // Rio de Janeiro: 2003

O FUTURO DA NATUREZA HUMANA DE JÜRGEN HABERMAS: O INDIZÍVEL E INIMAGINÁVEL MUITO BEM FUNDAMENTADO

QUEM?
Jürgen Habermas (1929). Filósofo e sociólogo alemão.
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COMENTÁRIO
O futuro da humanidade, inclusos aí sua essência e natureza, sempre foi tema cativante. E a tentação de se debruçar sobre ele é uma realidade consumada. Muitos o fizeram. Todavia, sendo esta uma temática mais do que espinhosa, poucos obtiveram êxito em suas incursões. Porém, finalmente traduzido e publicado em língua portuguesa, temos a oportunidade única, e sem dúvida importante, de ter acesso a uma das mais exponenciais obras epistemológicas do século XX que trata disso: O Futuro da Natureza Humana de Jürgen Habermas. Livro interessantíssimo que, ao contrário do que parece, é de uma clareza e objetividade fantásticas. A temática abordada é a do pós-humano. O contexto é a clonagem, a eugenia, os avanços tecnocientíficos da contemporaneidade, a cultura pós-moderna do homo-sapiens-demens-economicus e consumas, que, inauguradoramente converge para um fenômeno que em si, pode mudar dramaticamente a face da humanidade.
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CITAÇÃO
“Tememos, não sem razão, que surja uma densa corrente de ações entre as gerações, pela qual ninguém poderá ser responsabilizado, já que ela transpassa de forma unilateral e na direção vertical as redes de interação contemporâneas.”
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LIVRO: O Futuro da Natureza Humana // AUTOR: Jürgen Habermas // EDITORA: Martins Fontes // São Paulo: 2004

O VALOR DA VIDA POR HANS JONAS

QUEM?
Hans Jonas (1903/1993). Filósofo alemão.
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COMENTÁRIO
Uma das principais qualidades de um filósofo é propor sempre novas questões. Mantendo inabalável a certeza plácida de não encontrar as respostas procuradas, além, é claro, de deparar-se pelo caminho com novas perguntas e problematizações. Como nos ensina Edgar Morin, problematizar implica em novas problematizações, que implicam outras problematizações, numa espécie de anel recursivo interminável (EDGAR MORIN 2007:299). Na citação escolhida, extraída do livro O Princípio Responsabilidade - Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, vemos Jonas, este brilhante e respeitado pensador da contemporaneidade, exibir outras duas qualidades - diria eu - imprescindíveis a um filósofo e a uma boa reflexão: clareza e concisão. Da Redação.
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CITAÇÃO
"Todo o Ser vivente é seu próprio fim, e não tem necessidade de outra justificativa qualquer.” (pág.175)
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LIVRO: O Princípio Responsabilidade - Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica // AUTOR: Hans Jonas // EDITORA: PUC-Rio // Rio de Janeiro: 2006.

A CONSCIÊNCIA HUMANA POR EDGAR MORIN

QUEM?
Edgar Morin (1921). Antropólogo, sociólogo e filósofo francês.
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COMENTÁRIO
Edgar Morin pensa e escreve muito bem. Seus textos contêm aspectos lúdicos e didáticos que fazem o leitor literalmente viajar na teoria como se estivesse lendo um romance. Suas postulações são impregnadas de sentimento e afetividade, e sua clareza chega a ser espantosa. Como recurso literário, utiliza-se de analogias e metáforas brilhantes. A citação escolhida que versa sobre a consciência humana - flor rara - foi compilada do seu livro O Método 5 - a humanidade da humanidade - a identidade humana. Para ler e refletir.
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CITAÇÃO
"Frágil e incerta como a chama de uma vela, pisca, oscila, pode desaparecer ou iluminar-se. O menor sopro pulsional pode apagá-la; corre o risco de ser alterada por um mínimo desarranjo químico da maquinaria cerebral. Trata-se de uma vigilante vacilante, acima das formidáveis e múltiplas atividades inconscientes do organismo, do cérebro, da sociedade, da história. Nascida na história, vivendo a sua história, submetida à história, um golpe de vento histórico e histérico pode apagá-la." (pág.114)
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LIVRO: O Método 5 - a humanidade da humanidade - a identidade humana // AUTOR: Edgar Morin // EDITORA: Meridional/Sulina // Porto Alegre: 2007.



domingo, 18 de outubro de 2009

HERÁCLITO DE ÉFESO: DEUS EM TODAS AS COISAS, LUGARES E INSTANTES

QUEM?
Heráclito de Éfeso (aprox. 540 a.C. - 470) foi um filósofo pré-socrático conhecido como "Obscuro" e também como o "pai da dialética". Sua alcunha advém, principalmente, da forma com que escreveu seu livro Sobre a Natureza que traz um estilo obscuro, próximo a sentenças oraculares.
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COMENTÁRIO
Debruçar-se sobre si mesmo e por sobre a natureza do ser e das coisas é tarefa, sem dúvida, ímpar. Sim! Porque compreender dói. Cega a vista, machuca o olhar, mutila a razão e pode mesmo aniquilar o ser frágil e perplexo que, diante de tudo, sente-se esmagado por sua aparente insignificância. E, por falar nesse (tudo), Heráclito viveu atento a tudo com um olhar penetrante e crítico que, por fim, viria a mudar radicalmente a maneira de pensarmos e compreendermos nós mesmos além dos fenômenos da Natureza. Dialética é uma 'coisa' muito simples e rudimentar - hoje - que praticamos todo o tempo quando pensamos, tomamos tino de algo, julgamos e tomamos decisões. É-nos tão natural que o fazemos sem pensar. Todavia, alguém teve que refletir sobre isso primeiro, de forma inusitada e inauguradora. Este foi Heráclito!
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Na citação escolhida, vemos o Mestre filósofo grego pronunciar-se sobre o conflito presente em tudo.
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CITAÇÃO
"O conflito é pai de tudo, de tudo é rei; designou uns para deuses, outros para homens; de uns fez escravos, de outros, livres." (pág232)
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LIVRO: Heráclito e seu (dis)curso // AUTOR: Donaldo Schüler // EDITORA: L&PM // Porto Alegre // 2000

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS DEUSES TÊM SEDE DE ANATOLE FRANCE: OS MUITOS LADOS DE UMA MESMA HISTÓRIA

QUEM?
Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844/1924) Talentoso escritor francês. Autor de Os Deuses Têm Sede. Outras obras são: Thais, 0 Lírio Vermelho, O poço de Santa Clara, A rebelião dos anjos entre outras.
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COMENTÁRIO
Não é de hoje que, vira e mexe, uma meia dúzia de três ou quatro malucos vêm, tomam o poder, e fazem dele um verdadeiro cavalo de batalhas, gerando calamidades das mais diversas espécies, e derramando o sangue de pessoas, muitas vezes, inocentes. Mesmos que estes malucos estejam lutando por mais liberdade, igualdade e fraternidade para a coletividade. O poder corrompe as intenções. Aleija a boa vontade e despedaça as ilusões. Sublima o indivíduo, destrói o ser. Turva o saber e cega a razão. Interesses, inveja, despeito, fundamentalismo, hipocrisia, tentação, cobiça, prevaricação, imprudência, corrupção, inveja, dinheiro, comodismo são apenas alguns dos sedutores atalhos que podem fazer o homem bom se desvirtuar. Difícil é estar imune trafegando nas proximidades do poder, onde a promiscuidade é regra e não a exceção, onde o virtuoso facilmente destoa do grupo que deveria integrar, presa de seu fisiologismo e de seus vícios mais sórdidos. Política: maldita profissão inferior que não requer referência de nenhuma espécie para restringir o ingresso da turba em suas fileiras. Afora, é claro, o sufrágio das urnas; ou seja, a voz do Povo que, diga-se, só a tem de fato de quatro em quatro anos, e olhe lá! Acontece, caro Leitor, que a voz do Povo é burra, pois o Povo é, em sua maioria esmagadora, analfabeto, quase sempre manipulável e volúvel - volátil mesmo, diria eu - e capaz das maiores atrocidades quando reunido em massa e irritado em seus brios mais íntimos de sua cidadania. Pois - como já escreveu sabiamente meu prezado amigo Roberto Raup da belíssima e histórica Rio Pardo/RS - quando aglomerados, passamos a reagir instintivamente às situações do ambiente que nos contém numa espécie de Síndrome de Manada, onde retornamo-nos animais brutos e de novo irracionais, a ponto de esmagar tudo em nosso caminho, incluído nossos semelhantes. Foi assim nas Cruzadas, na Santíssima Inquisição, no nazismo, na Ditadura Militar brasileira, na África do Sul, no Vietnã, no Mundo inteiro e, como não poderia deixar de ser, também na Revolução Francesa. As tais liberdade, igualdade e fraternidade foram conquistadas - 'em parte', na ampla aplicabilidade e compreensão do termo aqui empregado - com suor, lágrimas e sangue, muito sangue! Quando a realeza privilegiada da França do Século XVIII caiu, não perdeu apenas o direito às suas posses terrenas e materiais, suas riquezas e luxos, mas também às próprias cabeças que ficavam, até então, firmes com empáfia em cima de seus pescoços, antes de serem guilhotinadas pelos representantes do povo na Convenção e no Tribunal Revolucionário. Não é brincadeira não! Montanhas de cabeças decepadas, oriundas de julgamentos sumários e viciados; um banho de sangue; paranóia, medo, perseguição, filhos denunciando pais com objetivos sórdidos e pecuniários, vizinhos traindo vizinhos, irmãos, pais, padres, soldados, companheiros; perseguidos, presos e mortos; enfim, uma lástima. E, vale notar, isso tudo se dava ao mesmo tempo em que nasciam os primeiros raios da luz que, radiante, iluminaria as mentes humanas mais elevadas, no sentido da aplicação prática dos lemas altruístas já mencionados aqui que, posteriormente, viriam a servir de estrutura sólida e base, para espelhar a constituição moral do Velho Mundo e das demais nações do mundo ocidental, na hora de forjar suas Cartas Magnas, Constituições e seus tratados democráticos de civismo. Lições importantes, apreendidas através dos tempos a ferro e a fogo! Verdades que nos ensinam muito até hoje, mesmo que salvaguardadas nos tempos idos de outrora, lacradas com o selo do passado.
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Para vivermos em grupo, tivemos que criar uma série de dispositivos complexos e complicados de poder e de controle, sem os quais a vida social se torna impossível e inviável. Olhar para trás, através das lentes - mesmo que distorcidas - da história - pois sempre há a ótica parcial do punho que detém a pena que registra os fatos - e isto nos permite uma constatação plena da nossa incapacidade e insuficiência tácita em compreender a nós mesmos, especialmente, quando nos juntamos, nos revoltamos e resolvemos juntos e à força mudar o Mundo. Força estranha e poderosa que assusta e subjuga qualquer oposição, que soergue o panteão da sabedoria, mas que, de igual modo, assinala no anais da história nossa fragilidade indelével diante das seduções do poder, jogando na lama imunda da infâmia e da indignidade toda uma espécie. Ser humano, sem dúvida, é ação e reação; revolução e ilusão; contradição; ser humano é conflito.
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Nas citações escolhidas a dedo dentro da interessantíssima obra que é Os Deuses Tem Sede de Anatole France vemos patente a marca certeira do gênio que sabe, com poucas palavras, passar toda uma miríade de nuances e sensações que, o tolo escrevinhador comum, gastaria páginas e páginas para descrever, sem sucesso e sem a menor graça. Os Deuses Tem Sede é um livro muito bem escrito que serve - entre muitas outras coisas - para nos reconhecermos a nós mesmos como falíveis e humanos, principalmente, quando expostos às feridas pútridas da política e do poder, pústulas repugnantes e contagiosas estas que, pululam na sociedade contemporânea, mas que, todavia, vez por outra, desempenham papéis fundamentais nas conquista de avanços inestimáveis para a humanidade, mesmo que a um altíssimo preço.
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Um abraço livre, igual e fraterno para os meus poucos e fiéis Leitores.
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Da Redação.
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CITAÇÕES
Sobre a autêntica filantropia num diálogo entre o personagem humanista e ex-financeiro Brotteaux, e um padre que este acolheu na rua condenado á prisão e provavelmente à morte, sob pena de ser ele mesmo Brotteaux, incriminado:
"Deu o colchão ao seu hóspede e guardou a palha para si, mas o religioso reclamou-a por humildade, com tal convicção que teve de o satisfazer. Depois de terminar as arrumações, Brotteaux soprou na vela, por economia e por prudência.
- Senhor - Disse-lhe o religioso - reconheço o que faz por mim; mas, tem pouco interesse para o senhor que eu o considere bom. Possa Deus recompensá-lo! Isso sim, teria interesse para o senhor. Mas Deus só leva em conta o que é feito para Sua glória e o que provém de uma virtude puramente natural. É por isso que lhe suplico, senhor, que faça por Ele o que foi levado a fazer por mim.
- Meu pai - respondeu Brotteaux - não tenha a menor preocupação e não pense dever-me algum reconhecimento. O que faço neste momento, e de que exagera o mérito, não o faço por amor ao senhor: porque, afinal, embora o senhor seja amável, conheço-o há pouco tempo para o amar. Também não o faço por amor à humanidade: pois não sou como Don Juan paracrer, como ele, que a humanidade tem direitos; e estepreconceito num espírito tão livre como o seu, aflige-me. Faço-o por aquele egoísmo que inspira ao homem todos os atos de generosidade e dedicação, fazendo-o reconhecer-se em todos so miseráveis, dispondo-o a lamentar o bseu próprio infortúnio no infortúnio alheio e levando-o a auxiliar um mortal semelhante a ele pela natureza e pelo destino, até acreditar que socorre a si mesmo socorrendo-o. Faço-o também por passatempo: porque a vida é agora tão insípida que é preciso arranjar distração a todo custo, e a benfeitoria é um divertimento bastante enfadonho a que nos damos na falta de outreos mais saborosos; faço-o, enfim, por espírito de sistema e para lhe mostrar do que é capaz um ateu." (pág159)
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Mais adiante, no mesmo debate filosófico entre os dois - o padre e Brotteaux - numa citação de Epicuro feita pelo segundo sobre o poder de Deus:
"Epicuro disse: Ou Deus quer impedir o mal e não pode, ou pode e não quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, é perverso; se não pode nem quer, é impotente e perverso; se pode e quer, por que não o faz, meu pai?" (pág181)
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Sobre uma passagem dramática quando Evaristo Gamelin, jurado do tribunal revolucionário, um dos personagens principais da história com amplos poderes, e sua amante, Elodie, numa cena, literalmente, de amor e ódio, se digladiam e se amam:
"-Estás vingada - disse. - Jacques Maubel já não existe. A carruagem que o conduzia à morte passou de baixo da tua janela, rodeadea de archotes.
Ela compreendeu:
- Miserável! Foste tu que o mataste, e não era o meu amante. Não o conhecia... nunca o vi... Que homem era esse? Era um jovem, amável... inocente. Mataste-o, miserável! Miserável!
Caiu desvanecida. Mas, nas sombras desta morte, sentia-se ao mesmo tempo inundada de horror e de voluptuosidade. Reanimou-se; as suas pesadas pálpebras descobriam o branco dos olhos, a garganta arquejava, as mãos procuravam o seu amante. Apertou-o nos braços, enterrou-lhe as unhas na carne e deu-lhe, com os seus lábios atormentados, o mais mudo, o mais surdo, o mais longo, o maisn doloroso e o mais delicioso dos beijos.
Ela amava-o de todo o coração e, quanto mais ele lhe aparecia terrível, cruel, atroz, quanto o mais o via coberto do sangue das suas vítimas, mais tinha fome e sede dele." (pág206)
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LIVRO: Os Deuses Têm Sede // AUTOR: Anatole France // EDITORA: Otto Pierre Editores // Lisboa // Sem data
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

OS DEUSES TÊM SEDE DE ANATOLE FRANCE: A REVOLTA E O AUTO-JULGAMENTO DE UM POVO E DE UM TEMPO

QUEM?
Jacques Anatole François Thibault, mais conhecido como Anatole France (1844/1924) Talentoso escritor francês. Autor de Os Deuses Têm Sede. Outras obras são: Thais, 0 Lírio Vermelho, O poço de Santa Clara, A rebelião dos anjos entre outras.
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COMENTÁRIO
A França, desde sempre, tem sido o berço e a Pátria das luzes e das grandes reflexões e conquistas sociais que hora gozamos, e os franceses sempre foram ferrenhos empreendedores dos direitos universais do ser humano, mesmo que por caminhos tortuosos e sangrentos. Neste intrincado contexto histórico de conflito, eis que surge a Convenção e, com ela, a famigerada guilhotina, símbolo de uma época importante, sem dúvida, mas eregida por sobre os escombros da antiga, herdando seus vícios e defeitos; afinal, precisavam construir um 'novo mundo' onde pudessem ser mais livres, menos desiguais e mais fraternos. Anatole France em Os Deuses Tem Sede fala sobre isso, e ambienta sua estória justamente aí, no âmago da revolta, no coração da revolução, no centro de um 'mundo novo' que estava por se criar. Tarefa árdua! Mundo este que, em sua fúria demandou milhares de almas obstinadas que lutaram por mais dignidade nas fronteiras sociais, históricas, morais, culturais e religiosas, transformando este mundo num lugar mais justo, ou seja, a realidade que nos cerca agora, hoje, mais digna e democrática, até porque, como dizia Winston Churchill, ex-presidente norte-americano, "...a democracia é o pior regime político que existe, depois de todos os outros! ".
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O título da própria obra é tão interessante e sugestivo que nem é preciso dizer de que os deuses tinham sede. Nesta época ímpar de outrora, onde nasciam valores que perdurariam até hoje no mundo ocidental, vemos este inteligente autor francês retratar através de sua pena leve e sua prosa elegante - num sentido até de modo clássico de escrever romances, que não podia deixar de contar com amores brutos e arrebatadores, artistas e intelectuais revoltos e entrechocantes, cenário histórico de importância nótavel, enfim - um mundo admirável e fabuloso, agônico e pungente; perfeito para uma grande história. Trata-se de uma obra magnífica, sem dúvida, para quem admira e curte a velha linguagem mais floreada e gentil, mais rebuscada e mais sóbria aos mesmo tempo; por fim, um livro feito à moda antiga. Para quem gosta, como este humilde Escriba que aqui escreve - digo - digita e clica, é uma verdadeira maravilha.
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Na citação escolhida, vemos o autor esbanjar de seu tom crítico e filosófico ao dar voz a um de seus personagens, o velho Brotteaux, homem ateu que, segundo o que o próprio autor deixa claro em seu texto, - "usava este seu ateísmo como uma abundante fonte de delícias" - no caso aqui, nesta citação, usa como argumento dentro de uma discussão ideológica complicada que trava lá pelas tantas do livro em plena rua da Paris pós - digo - plena-revolução. Isso na fila do pão, pois além da revolta das massas, a França era também, violentamente, assoitada pela fome e pela escassez total de víveres. Muitos, de fato, passaram fome. Uma grande estória Anatole France. Vale a pena!
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CITAÇÃO
"Vejo, cidadão Gamelin, que, revolucionário por tudo quanto há na Terra, é, quanto ao Céu, conservador e mesmo reacionário. Robespierre e Marat são-no tanto como o senhor. E acho singular que os franceses, que já sofrem de rei mortal, se obstinem em guardar um imortal muito mais tirânico e feroz. Pois o que é a Bastilha, e mesmo a câmara-ardente, junto do Inferno? A humanidade copia os seus deuses dos seus tiranos, e o senhor, que rejeita o original, guarda a cópia!" (pág75)
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LIVRO: Os Deuses Têm Sede // AUTOR: Anatole France // EDITORA: Otto Pierre Editores // Lisboa // Sem data
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O ESTILO ELEGANTE E DESENVOLTO DO FRANCÊS XAVIER DE MAISTRE

QUEM?
Xavier de Maistre (1763/1792). Escritor francês, mais conhecido pelo seu famoso livro Viagem à roda do meu quarto, e sua continuação Expedição noturna à roda do meu quarto.
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COMENTÁRIO
Rápido como quem rouba, sem mais tró-ló-ló, vão aqui três citações magníficas deste grande escritor francês que é Xavier de Maistre, onde poderemos perceber claramente a marca indelével da pena elegante e desenvolta do artista, em fragmentos literários primorosos de seu clássico: Viagem à roda do meu quarto.
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CITAÇÕES
Sobre a amizade:
"Quem pode, de resto, gabar-se de viver sempre com as pessoas que estima? Semelhantes aos enxames de mosquitos que se vêem redemoinhar nos ares durante as noites de verão, os homens se encontram por acaso e por bem pouco tempo. E muito felizes são se, no seu movimento rápido, tão destros como os mosquitos, não quebram as cabeças de encontro uns aos outros!" (pág86)
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Sobre a fragilidade humana e a infinita vastidão cósmica:
"Espectador efêmero de um espetáculo eterno, o homem levanta um instante os olhos para o céu e fecha-os para sempre; mas, durante esse instante rápido que lhe é concedido, de todos os pontos do céu e desde os confins do universo, um raio consolador parte de cada mundo, e vem ferir-lhe os olhares para lhe anunciar que existe uma relação entre a imensidão e ele, e que ele está associado à eternidade." (pág102)
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Sobre um grande amor perdido:
"Ah! Aquele zéfiro, aquele olhar, aquele sorriso, está tão longe de mim como as aventuras de Ariadne; no fundo do meu coração não existe já senão saudades e vãs lembranças; triste mistura sobre a qual a minha vida sobrenada ainda, como um navio despedaçado pelo temporal flutua algum tempo sobre o mar agitado!..." (pág121)
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LIVRO: Viagem à roda do meu quarto // AUTOR: Xavier de Maistre // EDITORA: Estação Liberdade // São Paulo // 19898 // ILUSTRAÇÃO (rodapé): Gustave Doré

A PROSA CULTA, ELEGANTE, ESPIRITUOSA E BEM TEMPERADA DE BRILLAT SAVARIN


QUEM?
Jean Anthelme Brillat-Savarin (1755-1826). Advogado, político e escritor francês que ganhou fama como grastrônomo e epicurista. Autor do esplêndido e inesquecível livro A Fisiologia do Gosto.
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COMENTÁRIO
O chef sabe! Cozinhar é como fazer amor: o que pensamos na hora influencia diretamente na receita e no resultado que se quer alcançar com o processo em si. Sim! Porque para tanto, para cozinhar bem, há que se ter espírito, alma - não dá para ir fazendo a 'coisa' de qualquer jeito - a despeito, é claro, de sermos nós a sorver o 'caldo' que, de má vontade, prepararmos para nós mesmos. Sem falar do arrependimento que dá quando literalmente 'erramos a mão' e acabamos comendo uma porcaria qualquer. Para gozar satisfatoriamente dos prazeres da mesa e até da cama, exige-se calma, paciência, amor e dedicação do sujeito que se lança intrépido a tais desfrutes. Requer-se ainda entrega plena e integridade plena - digo - faz-se nescessário estar-se inteiro no lance, de corpo e alma; pois aí, meu caro e prezado Leitor(a), tudo rola legal, tranquilo e em harmonia. Do jeito que é bom! Sabe como é, não?! Do jeito que 'deve' ser.
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Neste sentido, de cozinha bem trabalhada e iguarias bem preparadas e degustadas, Brillat Savarin era um gênio, um mestre - dir-se-ia - inigualável, especialmente, se considerarmos a época em que viveu: 1755/1826, há quase três Séculos, na província francesa. Sua obra prima A Fisiologia do Gosto é um livro, simplesmente, impagável. Escrito belamente sob a forma de ensaios, com a prosa fina, elegante e bem temperada que este nobre autor francês soube imprimir em seu estilo, deparamo-nos com um volume - como direi - indispensável aos bons amantes da cozinha, da filosofia e da gastronomia requintada Mundo afora. Atualmente, tal título encontra-se esgotado, por um motivo que, confesso, desconheço - pois é notório o grande número de escrivinhamentos menores que são indiscriminadamente impressos, vendidos e lidos nos dias atuais - em contraposição à esmagadora qualidade filosófica, literária e gastronômica de Mestre Savarin. De todo o modo, vale tentar encontrá-lo nos sebos ou na Estante Virtual. E atenção! Se por acaso você achar um exemplar de A Fisiologia do Gosto, compre-o imediatamente, pois alguém sem cultura ou destraído se desfez desta jóia sem preço, sem saber direito o que estava fazendo. Leitura bem humorada e ilustrativa, que irá ajudar a compreender um pouco mais sobre o inspiradíssimo mundo da gastronomia.
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A citação escolhida vem da Meditação XX, com o título Da influência da dieta sobre o repouso, o sono e os sonhos, número 94, parágrafo primeiro.
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"O homem mal alimetado não suporta por muito tempo a fadiga de um trabalho prolongado. Seu corpo fica coberto de suor, em breve as forças o abandonam e, para ele, o repouso não é outra coisa que a impossibilidade de trabalhar. Se se trata de um trabalho do espírito, as ideias nascem sem vigor e precisão; a reflexão se recusa a agir e o cérebro se cansa nesses vãos esforços, e dorme-se no campo de batalha." (pág203)
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LIVRO: "A FISIOLOGIA DO GOSTO" // AUTOR: BRILLAT SAVARIN // EDITORA: SALAMANDRA RIO DE JANEIRO, 1989 // PRIMEIRA EDIÇÃO: 1848
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

CRENTES E NÃO CRENTES POR UMBERTO ECO

QUEM?
Umberto Eco é escritor e professor titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha. Autor do clássico O Nome da Rosa.

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COMENTÁRIO
Crer ou não crer? Eis uma, em meio a muitas questões importantes e notáveis quando resolvemos prestar atenção à vida. Filosofar é um perigo! Não dá para desligar o olhar filosófico na hora de dormir, por exemplo, ou na hora de remunerar seu servo pessoal, pois a própria doutrina exige um grau de entrega e consciência tal que, na prática, impediria uma ação exploradora, e você acabaria convidando seu serviçal para morar em seus domínios e comungar de suas provisões, seus víveres - o que não seria, diga-se, nada mal. Ver, perguntar porque, pode ser complicado. Prescrutar a própria existência e o Mundo ao redor é para quem quer se meter em encrenca, em confusão - digo - quer ser rebelde, confrontar as hipocrisias postas e perpetuadas; ou seja, não é brincadeira. Tentar entender Deus então, nem se fala! Dá trabalho, é empreita longa e complexa - diria - para toda uma vida e, quase sempre, não é possível enxergar verdadeiros avanços numa só existência, pois as conquistas neste profundo terreno, neste campo metafísico, são lentas e graduais, e assim talvez filosofar seja algo unicamente para os convictos verdadeiros. Sim! Para aqueles e aquelas que desejam - a despeito do êxito ou do fracasso - fazer alguma coisa prática e objetiva para influenciar positivamente o Mundo, e esta balbúrdia que é estar vivo nos precipícios vertiginosos deste terceiro e veloz Milênio. Falei?!?!
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Da Redação.
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CITAÇÃO
"Não gostaria que se instaurasse uma oposição seca entre quem acredita em Deus transcendente e quem não crê em nenhum princípio supra-individual. Gostaria de recordar que era dedicado justamente à Ética, o grande livro de Spinoza que começa com uma definição de Deus como causa de si mesmo. Salvo que essa divindade spinozana, bem o sabemos, não é nem transcedente, nem pessoal: mesmo assim, também da visão de uma grande e única substância cósmica, na qual um dia seremos todos reabsorvidos, pode emergir uma visão da tolerância e da benevolência, exatamente porque é no equilíbrio e na harmonia da substância única que estamos todos interessados." (pág88)
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LIVRO: Em que crêem os que não crêem? // AUTORES: Umberto Eco e Carlo Maria Martini // EDITORA: Record // Rio de Janeiro // 2001

NAUFRÁGIOS DE AKIRA YOSHIMURA: UMA VIDA DE MISÉRIAS NO JAPÃO MEDIEVAL

QUEM?
Akira Yoshimura (1927/2006). Notável escritor japonês. Foi presidente da União Japonesa de Escritores. Autor do interessantíssimo livro Naufrágios.
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COMENTÁRIO
É admirável observarmos a coragem humana em lançar-se destemidamente ao mar à revelia das possibilidades. Nós, tão frágeis, e eles, os Oceanos, tão vastos e profundos, repletos de mistérios. Mesmo quando o fazemos em embarcações náuticas robustas, somos nada diante do mar infinito, e seu humores instáveis. Quando as forças da Natureza resolvem se revoltar e consternar, não há nada que se possa fazer de fato a bordo destas verdadeiras casquinhas de noz, exceto buscar abrigo e refúgio próximo à costa, se for possível, é claro, e, se não, resta apenas e tão somente tentar manter-se firme, e rezar para que a embarcação e as vidas nela contidas sejam poupadas por esta força avassaladora que é o mar revolto em forma de tormenta.
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Neste sentido, de aventura e coragem, de confrontação de forças diversas e desproporcionais a nós, os naufrágios são, sem sombra de dúvida, acontecimentos dramáticos em si, capazes de cativar nossa atenção e imaginação, justamente por suas características de drama e colapso, de tragédia e até mesmo de história, atraindo escritores e historiadores a pesquisá-los, o que traz à tona uma série de histórias fascinantes e fantásticas. Histórias que, muitas vezes, podem trazer piratas e conflitos bélicos, perda de vidas e bens, além da própria fatalidade em si que é o naufrágio de uma embarcação, que traz a inequívoca sensação de impotência, fracasso, perda e morte diante do imponderável.
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Se não bastasse tudo isso, Akira Yoshimura, neste cativante romance que é Naufrágios, adiciona à trama uma condição de miséria quase que absoluta, ambientando sua narrativa nos recôntidos de uma pequena aldeia isolada do Mundo, situada em um cabo (acidente geográfico) do Japão Medieval, e nos oferece ainda, como protagonista, um simpático menino de nove anos de idade: Isaku. Por lá, o evento de um naufrágio pode ter significados surpreendentes dos quais, neste momento, privarei o Leitor que pretende ler a obra - como direi - por motivos de não estragar a surpresa. Naufrágios de Akira Yoshimura: dica Escriba oriunda da fina literatura japonesa. Livro para ler em terra firme, é claro, e deixar a cabeça viajar em alto mar em tempos idos do passado. Sensacional!
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A seguir, citações da obra que, certamente, permitirão transparecer o delicado e profundo estilo deste notável autor japonês que faleceu em 2006.
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Da Redação.
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CITAÇÕES
Sobre a morte:
"Em uma aldeia que lutava contra a fome, um inválido era considerado morto. As pessoas lamentariam durante algum tempo, mas como acreditavam em reencarnação, aceitariam rapidamente a perda. A vida era dada às pessoas pelos deuses e, com a morte, o espírito partia para um lugar distante nos mares mas depois de algum tempo retornava à aldeia, para abrigar-se no útero de uma mulher e reencarnar numa criança. A morte era apenas um período de sono profundo antes do retorno do espírito; lamentações excessivas perturbavam o repouso da pessoa morta. As lápides dos túmulos ficavam de frente para o mar para guiar os espíritos na direção certa, quando chegasse o momento de regressar." (pág8)
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Sobre a chegada de um O-fune-sama (naufrágio):
"Isaku colocou a mão no peito. A chegada de O-fune-sama devia-se à intervenção divina, e Isaku queria oferecer uma oração de gratidão, do fundo do coração. O som das ondas quebrando ao pé do promotório parecia reverberar até o centro da terra. Antes que se desse conta, ele já estava dormindo." (pág92)
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LIVRO: Naufrágios // AUTOR: Akira Yoshimura // EDITORA: Best Seller // São Paulo // 2003